Antes da Estante

Essaouira – Casablanca II: a vingança do Saara

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 14, 2010

Todos suam, chacoalham, respiram poeira do deserto, mas ninguém reclama. Afinal, de que adiantaria? Dificilmente o motorista seria capaz de materializar uma autorizada de ares condicionados ali, no meio do nada. Então seguimos em silêncio, pensando em cachoeiras, sorvetes, caipirinhas, cervejas geladas.

Por duas horas vamos assim, sobrevivendo naquela atmosfera viciada e inóspita, até que o ônibus finalmente faz uma primeira parada. No instante em que os freios lançam sua flatulência mecânica na pequena rodoviária de uma cidadela ressecada qualquer, todos os passageiros se levantam, sedentos por encher os pulmões com algum ar renovado, mesmo que ele venha a uma escaldante temperatura de 40º.

Sem demora, o motorista golpeia o botão do painel para abrir as duas portas, uma dianteira, e outra posicionada no centro do veículo. Todos ouvem o som característico do ar comprimido correndo pelos ductos secretos do ônibus, mas, para surpresa geral, as portas permanecem fechadas. Outro golpe, outra bufada, e nada das portas abrirem. Outro e outro e outro. Pfscht, pfscht, pfscht. Nada. As portas seguem hermeticamente fechadas.

A temperatura interna, que com o ônibus em movimento já estava próxima do insuportável, sobe infernalmente rápido. Olhares de desespero contido se cruzam por sobre as poltronas aveludadas. Pfscht, pfscht. Nada.

Espio o martelinho de metal sobre uma janela bem ao meu lado:

“Em caso de emergência, use o martelo para quebrar o vidro”, diz o aviso.

“Não seria aquele um caso de emergência?”, penso comigo mesmo. Mas controlo meus impulsos de sobrevivência e aguardo. O desodorante da mulher ao meu lado não foi capaz de fazer frente às camadas e mais camadas de tecido que a cobrem dos pés a cabeça. Faz parte. Imagino que minha situação não deve ser muito diferente. Pfscht, pfscht, pfscht. Pfscht, pfscht. Nada.

Foram cerca de 20 minutos, contados no relógio, mas que soaram como uma eternidade. Por fim, diante de ineficácia dos automatismos e ares comprimidos, três sujeitos tratam de arrombar a porta dianteira pelo lado de fora. Mais do que depressa, os passageiros descem todos, enquanto dois marroquinos mantém a porta aberta com o auxilio arquimediano de uma barra metálica.

Piso no chão emporcalhado de concreto da rodoviária. Respiro fundo o ar que, apenas na primeira tragada, me parece incrivelmente fresco e perfumado. Ergo os olhos e, diante de mim,  numa banca improvisada em frente ao local onde param os ônibus, um sujeito usa um enorme facão para partir ao meio a carcaça avermelhada de um carneiro.

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Essaouira – Casablanca: voltando pra casa

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 3, 2010

O americano se senta, triste, separado da mulher. As portas se fecham num suspiro de ar comprimido e a viagem tem início. O Marrocos, como é do conhecimento do arguto leitor, é um país desértico. Temperaturas de 45º não são nada de incomum por lá. Além disso, as estradas geralmente cortam longas e monótonas planícies, onde a passagem de veículos levanta espessas nuvens de areia.

Por isso, nosso ônibus, assim como a maioria, tem as janelas lacradas e o interior climatizado, artificialmente refrigerado por aparelhos que, imagino eu, devem ser bastante potentes para vencer tanto calor. Pensando nisso, assim, só por desencargo de consciência, aproximo as costas da mão da gradinha redonda, de plástico, por onde deveria sair o fluxo de ar gelado.

Estranhamente, o ar sai bastante quente, como se viesse direto do deserto, como se a refrigeração estivesse desligada ou com defeito. Mas, não, besteira. Claro que não. Claro que não deixariam um ônibus, com todos os assentos ocupados, fazer uma viagem de oito horas pelo deserto sem ar-condicionado. Concluo que deve ser uma questão de tempo até o gás começar a fazer efeito produzindo a mágica da refrigeração.

Mas os minutos passam, os quilômetros se acumulam e o suor começa a porejar nas cerca de 40 têmporas que sacolejam ao meu redor. Então, quando cruzamos o primeiro caminhão, uma nuvem de areia suficiente pra aterrar o Flamengo entra pela estreita abertura de ventilação no teto do ônibus. A súbita constatação de que o respiro foi propositadamente deixado aberto não me parece bom agouro.

Olho ao redor, e percebo que vários outros passageiros se inquietam e repetem meu gesto de conferir a vazão do ar-refrigerado. Mulheres muçulmanas, metidas em vestidos de tecido sintético, com a cabeça enrolada em camadas de pano colorido, parecem prestes a desmanchar nas próprias células derretidas. Um leve desespero percorre os passageiros. É isso. Não há dúvida. A verdade aterradora está clara. O ar-condicionado não funciona. Já não funcionava quando deixamos Essaouira e é pouco provável que se cure milagrosamente antes de Casablanca.

As janelas não abrem. Estamos presos naquela estufa móvel, recheada com um ar quente, abafado, saturado de respirações e de poeira do deserto. Lá fora, conforme as horas da manhã avançam, o sol vai se tornando apino e a temperatura sobe.

Continua…

Overbooking marroquino

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2010

Um americano esbaforido e cheio de urgência entra no ônibus que, em cerca de oito horas de viagem, nos levará de Essaouira a Casablanca. Com o rosto ruborizado de calor e pressa, ele para ao lado de dois marroquinos já devidamente acomodados e bufa, aspergindo uma nuvem de suor e saliva pelo ambiente. Depois, por alguns longos instantes, ocupa-se em confrontar as informações de seu bilhete de embarque com as exibidas na pequena plaqueta sobre os dois assentos ocupados.

Em inglês, pede licença aos passageiros sentados e explica que aqueles lugares lhe pertencem. Os marroquinos olham pra ele, não sorriem, e dão de ombros. O americano insiste. Em troca, ganha algumas incompreensíveis palavras em árabe ou berbere. Desolado, o sujeito desce na rodoviária suja e caótica, que mais parece o pátio de um ferro-velho só para ônibus.

Volta algum tempo depois, ainda com as passagens na mão. Agora, por sorte, topa com o fiscal da companhia de transporte, que zanza de um lado pro outro no corredor. Feliz e aliviado, mas ainda cheio de urgência, o passageiro vai até o funcionário, aponta para o bilhete de embarque e explica que os lugares marcados ali, os lugares que lhe pertencem, encontram-se ocupados.

O fiscal toma o papel da mão do americano, examina por alguns instantes, depois saca uma caneta esferográfica do bolso, risca o número do assento e devolve ao homem. Problema resolvido, sente-se onde conseguir.

Marcas do Islã

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 25, 2010

No Marrocos, a religião está literalmente estampada no rosto das pessoas. Demorei algum tempo pra perceber, mas aos poucos fui reparando na marca que surge na testa de alguns homens. Primeiro achei que ara um sinal de nascença de um indivíduo em particular, mas aos poucos fui percebendo que ela estava presente em vários marroquinos.

Em geral aparece nos homens mais velhos, que usam barba, vestem-se com túnicas de tecido claro e chapéus que cobrem apenas o alto da cabeça. É uma espécie de mancha escura, rugosa, que se forma bem no meio da testa como um terceiro olho. Demorei um pouco para relacionar as manchas com a religião, mas, no fim, creio que esta seja a única explicação: as marcas são, na verdade, calos provocados pelas orações diárias, feitas com a testa apoiadas sobre um pequeno tapete voltado para Meca.

Ocorrem cinco vezes ao dia, as preces. Começam sempre com uma ladainha em voz masculina, que parte da torre de alguma mesquita e depois vai ecoando, repetida por Imãs espalhados pela medina. É assim. Cinco vezes ao dia Alá se faz presente em incompreensíveis versos árabes. Não importa se quem escuta é muçulmano ou não. A religião está lá, firme, cristalizada, atemporal.

Escada Marroquina

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2010

Vale do rio Ourika, sul de Marraquexe: homem cobra 3 dirham de quem precisa usar sua escada pra vencer obstáculos da trilha

Vale do Ourika – Marraquexe

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2010

Uma tarde surreal no vale do Ourika

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 17, 2010

O vale do Ourika fica a cerca de 45 minutos de Marraquexe. Percorremos este trajeto a bordo de um enorme Mercedes Benz bege, com motor diesel, bancos de couro, painel coberto com  pele de urso falsa, penduricalhos dourados no retrovisor, e uma estereofônica barulheira na suspensão, que denuncia seus mais de 60 anos de idade.

Há vários desses antigos Mercedes em Marraquexe. Foram todos importados da Alemanha, onde já haviam vivido uma primeira encarnação como carros de praça. Agora, são os gran­-taxi, em oposição aos carros menores, de lataria vermelha desbotada pelo sol, que cumprem a função de petit-taxi. A diferença, claro, é o preço. Rodar de Mercedes sai ligeiramente mais caro.

O passeio para o vale do Ourika nos foi vendido por uma agente de viagem, que reservou nossos hotéis em Marrocos. Disse que ali o clima era mais ameno, que veríamos lindíssimas cachoeiras, e que desfrutaríamos de um típico almoço berbere às margens do rio. A moça, uma alemã com um rosto esguio e equino, viaja conosco. Divide o banco do passageiro com um marroquino, com quem troca olhares ligeiramente apaixonados.

O vale, logo descobriríamos, trata-se de mais um engodo turístico. Desembarcamos do taxi num pequeno vilarejo onde há um verdadeiro pátio de estacionamento desses velhos Mercedes. Depois vamos seguindo o marroquino pela trilha que está incrivelmente lotada, qual uma 25 de março off-road. Os encantos naturais do lugar, apesar de existirem, não justificam gastar 30 euros por cabeça, e um dia todo de viagem.

Curiosamente, a parte mais interessante do passeio é a experiência antropológica de conviver com aquela verdadeira multidão de marroquinos que aproveita o rio para se refrescar do calor marroquino. Para se chegar à primeira cachoeira, é necessário caminhar cerca de 40 minutos, numa fila indiana completamente surreal, com mulheres cobertas até a cabeça por panos coloridos, equilibrando-se sobre tamanquinhos de salto pouco adequados à caminhada íngreme, com direito a pedras soltas de tamanhos variados e pinguelas improvisadas sobre pequenos precipícios.

A primeira cachoeira deságua num laguinho que desaparece sob uma multidão de banhistas. Os homens entram na água de calção e sem camisa. As mulheres mergulham completamente vestidas, com a cabeça coberta. Pergunto se há alguma explicação para aquela intensa aglomeração humana em um dia como outro qualquer. Nossa guia atribui a lotação às férias escolares, apesar de haver pouquíssimas crianças por ali. O alto índice de desemprego no Marrocos é outro provável motivo. Sem nada para fazer na cidade, os marroquinos sem trabalho aproveitam pra se esbaldar nas águas cristalinas do Ourika.

O almoço berbere até que vale a pena. Comemos dois tajines, um de carne de carneiro, outro de boi. Tajine é a refeição mais comum do Marrocos, em geral composta de carnes e legumes mistos, lentamente cozidos na brasa. A palavra também designa o recipiente de barro com uma tampa em formato cônico, onde os ingredientes são cozidos e servidos. Foi bem berbere nossa refeição, feita numa mesa baixa, sob uma pereira, seguida por alguns copos escaldantes de chá de hortelã.

Depois, na volta para o taxi, enfrentamos novamente aquela estranha fila indiana. Atravessamos o rio onde dois ou três camelos se refrescam após um dia levando criancinhas felizes no lombo, e quando estamos quase chegando, dou de frente com a figura mais estranha do dia.

É um marroquino que caminha rumo à cachoeira. Veste um impecável terno cinza, desses que têm uma porcentagem de seda no tecido, o que o faz brilhar de leve sob o sol; usa sapatos de couro preto bem engraxado; uma camisa branca com listras azuis; e, pra arrematar a elegância, uma abotoadura Prada falsa. Fala ao celular enquanto avança, tentando abrir caminho na multidão como se estivesse atrasado para um encontro de negócios, que certamente se daria num escritório com vista panorâmica para o rio Hudson. Uma mulher de burca escorrega à minha frente e eu volto a prestar atenção ao caminho irregular de areia e pedras escorregadias.

Marroquina se banha nas águas do rio Ourika

E a higiene ficou pra trás

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2010

Vinte cinco dias de viagem. As roupas estão todas duras e encardidas por conta das lavagens com sabonete nas pias de hotéis afora. Mais e mais, os padrões higiênicos vão se tornando flexíveis.

Mateus pendura uma camiseta atrás da porta do banheiro, esperando que a proximidade com a água, de alguma forma, trate de limpá-la. Em Fez, para assombro das hóspedes francesas, pulou de calça na piscina do hotel, achando que uma boa nadada substituiria a máquina de lavar.

Eu dobro bem algumas roupas usadas, mas que não estão sujas demais, e guardo na mochila, pra vestir após alguns dias, fingindo que estão realmente limpas.

Helô se gaba de ainda ter roupas limpas, o que soa levemente irônico, já que sempre que, em nosso caminho, aparece uma escada, uma calçada irregular, ou qualquer obstáculo, sobra para mim ou para o Mateus a tarefa de conduzir Mrs. Dasy, a mala de rodinhas da baroneza.

Tanques de tingimento do curtume de fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 13, 2010

Na parte branca o couro é curtido, com excremento de pombo; na vermelha, é tingido com pigmentos naturais. Visitantes recebem raminhos de hortelã para segurar embaixo do nariz, o que ajuda a mascarar o cheiro insuportavelmente fétido.

Turismo sem compras em Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2010

O guia que nos conduz pelas velhas e estreitas ruelas de fez é um homem baixo e levemente calvo, usa roupas brancas de algodão e umas pantufas amarelas, modelo Aladim. Tem um bigodinho fino que, junto com a barriga proeminente, o obriga a forçar um pouco os ombros pra trás, lhe conferindo um ar bonachão e malandro, qual um político do interior.

Momo fala um inglês pausado, engessado pelo sotaque árabe, mas fluente. Caminha rápido e o tempo todo faz pausas para comprar velharias das mais variadas. Antiguidades. Diz que é apaixonado por antiguidades. Um dia pretende montar seu próprio museu.

Explica que a cidade de Fez é feia por fora, as fachadas são simples, cor de terra. É por dentro que está a beleza da cidade, na decoração interna de palacetes, mesquitas e escolas. Segundo ele, isso é uma prova de que o povo fassi preocupa-se mais com a beleza interior do que com a aparência externa. Orgulhosos, Momo explica também que por muito tempo a cidade foi o centro cultural e político do Marrocos, ­e que ali foi criada a primeira universidade do mundo.

Antes de sairmos para o passeio, Cecília e James, o casal que havíamos conhecido no trem, tinham sido claros dizendo que não queriam, de forma alguma, fazer compras. Estavam traumatizados depois dos passeios em Marraquexe, onde em cada pausa tentavam lhes vender algo. James comprara um tapete que não queria, por um preço que não gostaria de pagar.

Momo, concorda, claro, o cliente é que manda. Dito isso, após algum tempo de caminhada, lá estamos nós, sentados numa loja de tapetes, tomando chá de hortelã, enquanto dois ou três vendedores nos mostram as peças feitas à mão. Não é para comprar, explica Momo, mas para conhecer a loja e o ritual de venda.

O interior do prédio é realmente fantástico, as paredes completamente cobertas de confusos e elaborados arabescos. A qualidade dos tapetes, descobrimos, é medida pela quantidade de nós. Uma peça de nível intermediário custa a bagatela de U$ 4 mil, e leva um ano para ser feita por um mesmo artesão. Diante das somas estratosféricas, passamos incólume pela primeira provação consumista.

Seguimos para o curtume, tido como o maior do Marrocos. Antes de entrar, um homem nos presenteia com raminhos de hortelã, para segurarmos sob o nariz. É a única forma de suportar o cheiro terrivelmente ácido e putrefato que exala de todo o lugar. Subimos quatro lances de escada até o alto de um prédio, onde uma infinidade de bolsas, cintos, sapatos e outros artigos variados de couro ficam expostos.

Dali é possível avistar os tanques redondos, onde o couro é curtido. Uma parte deles é branca como gesso, devido ao excremento de pombo, usado como uma espécie de amoníaco natural, para limpar o couro. Nos demais tanques, avermelhados, a pele de animais diversos é tingida.

Dessa vez já não somos capazes de passar incólumes. Alguém tem de comprar uma charmosa sapatilha de couro branco, bordada de vermelho. E seguimos assim. Paramos para conhecer uma cooperativa de óleo de argan, uma típica loja de túnicas marroquinas, e, na hora do almoço, um tradicional restaurante Fassi.

No fim, o simpático e levemente malandro Momo garantiu sua comissão. E nós, acabamos com alguns dirhams a menos, e alguns quilos a mais na bagagem. De qualquer forma, o passeio pela labiríntica medina de Fez foi bastante instrutivo.

Quando estamos chegando de volta ao hotel, reparo que há uma grande quantidade de gatos nas ruas de Fez. Mas não vi nenhum cachorro. Penso que pode haver influência coreana na culinária marroquina.

Loja de tapetes em Fez

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Um padeiro e nada mais

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 10, 2010

Este velho padeiro, que alimenta o fogo na foto abaixo, não está fantasiado. Ele não se veste com esta túnica branca para ganhar alguns trocados turísticos em um parque temático. Também não é uma relíquia histórica, nem representa o último exemplar de uma espécie extinta.

O forno que ele alimenta tampouco é um monumento histórico; não é raridade, nem se ergue como um tributo às antigas e tradicionais técnicas de panificação. Não. O que se vê na foto é um padeiro de Fez, alimentando seu forno numa cena corriqueira do cotidiano atual.

Depois de assados, os pães, redondos e massudos, serão acondicionados em caixas de papelão sem grandes preocupações fitossanitárias, e distribuído em vendas, pensões e restaurantes do entorno.

O romantismo da cena, o mistério da penumbra, a beleza das labaredas refletindo na túnica branca do velho padeiro, tudo isso está apenas nos olhos de quem vê. E é justamente isso que torna a imagem realmente interessante.

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Os adocicados germes marroquinos

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 9, 2010

Ainda levemente estupefato e zonzo diante do exotismo da media de Fez, paro diante de uma pequena vitrina de vidro, erguida diante de uma biboca do tamanho de uma porta de garagem. Lá dentro, iluminadas por uma lâmpada amarelada, há duas ou três montanhas de docinhos árabes, pequenas porções de massa folhada envoltas em copiosa calda dourada de caramelo.

Paro e olho por algum tempo. E, mais tarde descobriria, parar e olhar no Marrocos significa: “eu quero comprar”. Notando meu interesse, portanto, o velho detrás da vitrina me estendeu um docinho para que eu experimentasse. Desconfiei um pouco do dedão e polegar do sujeito, mas acabei provando o folhado recheado com amêndoas moídas ­– uma delícia ­– o que me levou a aceitar a oferta do sujeito, pedindo uma porção d 5 dirham, cerca de R$ 1.

O velho fez uma careta de felicidade e creio que este sentimento tenha lhe provocado uma ligeira reação alérgica, que culminou em um sonoro e espalhafatoso espirro. Com aqueles mesmos dedos que haviam me oferecido o doce, o homem tratou de limpar devidamente o muco nasal excedente e, sem qualquer cerimônia, voltou ao trabalho de servir o cliente (eu no caso).

Eis que, ao indicador e polegar, juntaram-se os outros dedos e se afundaram na montanha de docinhos caramelizados. Uma, duas mãozadas, e o velho me esticou um pequeno saco de papel recheado com as guloseimas. Paguei com uma nota de cinco e o troco veio em moedas, trazidas, claro, pelos caramelizados dedos protagonistas. Com alguma dificuldade desgrudei os 15 dirham da palma da mão, meti no bolso e agradeci pela mercadoria.

Como se carregasse os dejetos tóxicos de Angra 2, levei o saquinho, intocado, até o quarto do hotel. O primeiro impulso foi jogar tudo fora, mas os docinhos eram realmente saborosos e, por via das dúvidas, achei por bem deixá-los descansar até o dia seguinte no criado-mudo.

No fim, a quarentena se mostrou uma decisão acertada. Porque logo perceberia que se fosse me apegar a questões higiênicas, acabaria por morrer de fome. É assim no Marrocos: o sujeito que faz panquecas leva o lixo pra fora, o troco e o pão passam pelos mesmos dedos, e os copos são lavados numa mesma bacia, com um único e rápido mergulho na água levemente turva.

Na segunda noite, faminto à espera do jantar, tratei de devorar uns quatro ou cinco daqueles docinhos. Tinham um leve sabor de unha suja, o que talvez os tornasse ainda mais saborosos.

O primeiro mergulho na medina de Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 6, 2010

Nosso hotel em Fez fica bem ao lado da medina. Pra quem não sabe, medina, é o nome que se dá às cidades medievais muçulmanas. A de Fez é a mais fantástica delas. Além de ser a mais bem preservada, é também a maior área urbana livre de carros do mundo. Há cerca de 14 mil ruas, vielas e becos estreitos, que se retorcem ao redor das construções antigas, mergulham em túneis escuros e fazem com que seja impossível andar por ali sem o auxílio de um guia local.

Dizem que mapas são igualmente inúteis, ainda que uma bússola possa ajudar num momento de desespero. De qualquer forma, não são poucas as histórias de gente que entrou lá sozinho e teve de pagar algum guri marroquino pra mostrar a saída.

Mesmo assim, pouco depois das 21h, resolvemos dar uma espiada no interior da medina. Andamos uma centena de metros e passamos por um arco cor de areia, uma das portas da cidade velha.

Desculpem pela sentença aclichezada, mas entrar naquele lugar é como viajar no tempo. Eu já experimentara essa sensação antes, como contei aqui. Na verdade, o Marrocos como um todo parece estar posicionado sobre uma fenda temporal. A modernidade, com a intensidade que conhecemos, ainda não chegou por ali. Dentro da medina, contudo, essa sensação é mais radical.

Naquele trecho em que entramos, as ruelas estreitas, com calçamento de pedras lisas são cobertas por uma treliça de madeira que, durante o dia, protege os pedestres do sol. Durante a noite, serve de suporte para lâmpadas amareladas que se somam às do comércio pra conferir uma iluminação difusa e onírica ao ambiente.

Já é noite fechada, mas o movimento segue intenso na medina. Pedestres zanzam de um lado para o outro, apressados. Homens e mulheres voltam pra casa, ou fazem compras nas várias barracas espalhadas por ali; mulheres vestidas com panos coloridos até a cabeça, ou, mais raramente, completamente cobertas de preto, com longas burcas que escondem até o olho e as transformam em sombras fantasmagóricas.

Nas casas que ladeiam as ruelas ou em bancas sobre o calçamento está o comércio. Lojas que vendem de um tudo: frutas e vegetais frescos; itens de primeira necessidade como água, biscoitos e pão; doces típicos, amontoados em pequenas montanhas caramelizadas; ervas e especiarias coloridas; amêndoas, nozes, tâmaras e pistache; e suco de laranja espremido na hora.

Após alguns metros de caminhada um rapaz mais jovem do que eu se aproxima andando devagar, cola boca no meu ouvido e sussurra: “haxixe?”, antes de continuar andando. Nós também seguimos adiante. À minha frente, um galo zanza pelo chão sem se atentar ao fato de que, atrás dele, numa dessas churrasqueiras giratórias com porta de vidro, vários parentes seus são lenta e sadicamente assados.

Um pouco à frente, frangos passeiam pelo chão de uma pequena loja, também sem notar o perigo do cutelo que, nas mãos de um sujeito de macacão encardido, se ocupa em decapitar um alongado e pálido pescoço galináceo.

Ao que tudo indica, estamos na área dos açougues, que termina apoteoticamente, numa banca a exibir, espalhadas sobre um balcão tosco de tábuas, cinco ou seis cabeças cruas de carneiro, com pele, pelo e olhos ternos e pacatos que parecem ainda espiar os passantes.

Alguém está gritando atrás de nós. Abrimos passagem e nos voltamos para conferir o que está acontecendo. É o tempo certo de vermos um garoto de uns doze ou treze anos, todo vestido de prateado, abrir caminho entre a multidão colorida e passar trotando com seu cavalo branco.

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Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 5, 2010

Pátio interno de um Riad, casarões típicos transformados em pensões

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Sobre trens e malandragem

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2010

Deixamos Casablanca há cerca de três horas, e em mais uma devemos chegar à cidade de Fez. Durante todo esse tempo viajamos meditativos, numa cabine com mais três pessoas. Em determinado momento, uma moça loira que sentava à minha direita se levanta e vai até o corredor onde, por alguns instantes, fica em pé, admirando o pôr-do-sol. Pouco tempo depois um homem se junta a ela e puxa assunto. Por conta da divisória de vidro e do barulho do trem, não consigo ouvir o que dizem.

Mesmo assim, sigo observando. O homem, um marroquino alto e corpulento, veste uma blusa branca levemente encardida; fala gesticulando com as mãos, e é todo sorrisos pra cima da moça. Usando uma camisa clara de linho, jeans e uns óculos Ray Ban ela parece não se incomodar com a conversa do estranho, e até se diverte sorrindo com dentes perfeitamente alinhados. Para mim não resta dúvida de que aquele sujeito é um aproveitador, um malandro em busca de presas fáceis, um representante do lado negro da força.

Em pouco tempo, contudo, a loira se desvencilha do homem e desembarca. O sujeito, por sua vez, entra na nossa cabine e senta-se no lugar dela. Estica um pouco as pernas, se espreguiça e recosta novamente. Alguns instantes se passam até que ele inclina-se um pouco pra frente, apóia os cotovelos nos joelhos, estampa um meio sorriso simpático no rosto e passa a observar os demais viajantes.

– Estão viajando juntos? – pergunta em inglês.

O homem loiro de óculos escuros que senta diante de mim responde laconicamente que não e volta ao silêncio. O outro recosta novamente e permanece pensativo por algum tempo.

­– São americanos? – pergunta ao homem voltando a inclinar-se para frente. O outro responde que é, americano filho de cubanos, viaja com a namorada espanhola, que também vive nos EUA. O estranho sorri satisfeito. Depois se volta para nós e já não precisa dizer mais nada. Somos tacitamente obrigados a nos apresentar. Impressionante como a palavra “Brasil” é capaz de produzir sorrisos e descontrair ambientes.

O marroquino passa a alternar frases em espanhol e inglês. Fala também francês e italiano, além do árabe em variantes diversas. Pergunta se estamos indo pra Fez e diante da afirmativa, nos bombardeia com uma série de informações extremamente úteis. Diz que trabalha na secretaria de turismo de Rabat, cidade onde acabamos de passar.

Entre as várias recomendações e dados detalhados sobre preços de taxis, hotéis e restaurantes, enfatiza que não devemos, em hipótese alguma, aceitar guias que não sejam credenciados. Os oferecidos pelos hotéis, diz, também não são muito indicados, pois estão preocupados apenas com comissões e fazem roteiros voltados às compras.

Dany, apelido que usa para facilitar a vida dos turistas, é um cara simpático, envolvente e em pouco tempo estamos todos conversando alegremente. O casal, James e Cecília, também são gente muito boa e já estão viajando pelo Marrocos há alguns dias. Quando todos parecem ter se tornando grandes amigos, Dany pergunta onde ficaremos hospedados. Há um breve silêncio, desconversamos, dizemos não lembrar bem o nome dos hotéis.

– É no sul ou no norte? – ele pergunta, sempre sorridente.

Óbvio que ninguém sabe a localização geográfica de hotel nenhum. Mas ele insiste, chuta alguns nomes, e não há jeito de escapar. Logo ele já sabe o nome e o endereço de nossos hotéis. Diz conhecê-los e faz comentários pontuais sobre cada um deles. Depois volta a se recostar, aparentemente feliz por ajudar aquele grupo de estrangeiros.

Alguns instantes se passam e ele volta à questão dos guias. Explica pormenores, diz que seria interessante pegarmos guias durante dois dias. Em um conheceríamos a cidade, em outro iríamos para o deserto, no entorno. Dá detalhes de quanto devemos pagar. Depois tem um estalo. Claro, deveríamos nos juntar todos e pegar um guia só. Sairia mais barato.

E mais, Dany conhece o homem que é simplesmente o melhor guia de Fez e que, evidentemente, tem todas as credencias da secretaria de turismo. Pode ligar pra ele nesse instante, caso tenhamos interesse. Então passa a enumerar as qualidades do guia, os lugares fantásticos que iremos conhecer e a economia que faremos se passearmos juntos. Eu, de minha parte, já estou vencido. Entregaria meu cartão de crédito na mão do desconhecido com total confiança.

Por sorte, James está no Marrocos há algum tempo. Diz que a proposta parece interessante, mas que gostaríamos de conversar um pouco sobre o assunto. Dany concorda, claro, sem problemas, e recosta na poltrona. Demonstrando firmeza louvável, James diz uma frase que até então eu nunca tinha visto ninguém usar fora das telas: “gostaríamos de conversar a sós”.  Pela primeira vez, o marroquino se mostra levemente contrariado, mas concorda em deixar a cabine.

E basta ele sair para que o encanto se quebre. É evidente que não podemos confiar nesse sujeito, que provavelmente vai nos arrumar o pior guia do mundo e talvez bater nossas carteiras assim que entrarmos nos becos escuros da medina de Fez. Chegamos a essa conclusão rapidamente, mas trocamos endereços de email entre nós. Quando Dany volta, pedimos que eles nos deixe um número de telefone, que ligaremos se houver interesse. Ele segue ligeiramente contrariado, mas concorda.

Ironicamente a suposta tentativa de golpe nos ajudou a conhecer um casal muito simpático e bacana, e no dia seguinte saímos para passear juntos. Sem que perguntássemos, o guia contratado no hotel dos dois avisou que era preciso tomar muito cuidado com pessoas que abordam turistas nos trens. Eles vivem viajando de cidade em cidade, e sempre se dizem funcionários de órgãos públicos. Depois vendem um passeio pro deserto onde os turistas têm seus bolsos devidamente esvaziados.

Dany se encaixa perfeitamente nessa descrição, mas por alguns instantes ele me pareceu tão gente boa que até hoje tenho dificuldade em acreditar que era tudo teatro.

Nostalgia em Casablanca

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 2, 2010

Sou acometido de nostalgia cada vez que entro num trem de alta velocidade, com ar-condicionado, vidros fumês e modernas poltronas de veludo e plástico. Sinto saudades de um tempo que não vivi. De quando os homens usavam chapéu e bengala, as mulheres na plataforma limpavam as lágrimas com lenços brancos e tudo era envolto por uma cinematográfica névoa de vapor.

Curioso esse nosso desejo de vivermos um tempo que já passou. Principalmente porque realizá-lo é uma tarefa praticamente impossível, já que ele é sempre retroativo. Aposto que nossos avôs não achavam graça nenhuma em respirar vapor escaldante, tendo de permanecer embalados em claustrofóbicas camadas de tecido. E o desodorante de nossas avós? Teriam eficiência para garantir uma longa espera no calor das plataformas sem ar-condicionado de então?

Concluo, portanto, que o tempo atual sempre carece de romantismo. E um dia, quem sabe, teremos saudades do charme cosmopolita do Aeroporto de Cumbica, das mal-coreografadas instruções de segurança transmitidas por enfadadas aeromoças, da voz aveludada que transmite os recados da Infraero.

A fim de suprir essa carência por um charme que nunca foi vivido, temos sempre os passeios de 15 minutos na maria-fumaça restaurada, o que, evidentemente, soa artificial, e de forma alguma supre nossa inexplicável nostalgia. Desculpem Mathew J. Fox e H.G. Wells. Não há como voltar no tempo (aliás, se houvesse, estaríamos nos acotovelando com viajantes temporais, não?).

Mas, quando se espera um trem na estação de Casablanca, chega-se perto.

O saguão tem o pé-direito altíssimo, iluminado por janelas e clarabóias hexagonais, decorado com barras de azulejo colorido. Há mosaicos de azulejo também no piso e nas paredes. Do teto, no centro do saguão, dois grandes candelabros de aço pairam ameaçadores sobre a cabeça dos viajantes.

Na plataforma, os relógios aderem em massa a essa amálgama de passado e futuro. Pendem do teto com suas faces redondas monotonamente paralisadas em algum horário do passado.

Os trens, de cara quadrada e corpo arredondado, em nada lembram os focinhos modernistas de seus descendentes de alta velocidade. São velhos e sujos, com a pintura cinza e laranja enferrujada, e uns bancos de couro vermelho que parecem ter sempre estado por lá.

Por fim, pra fazer valer esse cenário de charme e decadência, temos os personagens. Mulheres cobertas com panos coloridos que deixam à mostra apenas as mãos, decoradas com tatuagens de henna; homens barbudos vestindo túnicas até os pés; e bilheteiros uniformizados, que circulam com cigarros semi-apagados pendendo sob os bigodes.

É noite em Barcelona

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 30, 2010

Barcelona – Levo algum tempo pra conseguir abrir os olhos por conta do sol que castiga minhas pupilas. Olho para um pôster à minha frente, de onde Kurt Cobain me encara com seu olhar suicida. Levanto a cabeça e topo com outro cartaz, colado na parede atrás de mim. Johnny Depp, encarnando Hunther Thompson em “Medo e Delírio em Las Vegas”, deforma-se numa viagem de LSD.

Com algum esforço me sento no colchão onde passei a noite. O mundo ao meu redor oscila qual um navio pirata à deriva. Ignoro a leve dor de cabeça e me apego à realidade. No chão ao meu lado há uma garrafa de uísque vazia, da qual não bebi; um pote de shampoo, que não usei; e um par de meias sujas, que não me pertencem. Estico o pescoço e olho em volta. No sófá, há um sujeito desconhecido dormindo só de cuecas.

Penso que uma retrospectiva da noite anterior se faz necessária.

Tudo começou no fim da tarde, quando nos separamos: Helô vai passar a noite na casa de Eliot, um amigo de longa data que há anos mudou do Brasil para um povoado próximo à Barcelona. Mateus e eu ficamos na cidade. Dormiremos na casa de Dani, uma amiga jornalista, que nos encontra num café, diante da Casa de Pedra (foto), construída por Gaudí.

Acertada a conta no café, nos despedimos de Helô e vamos até um “Pac” pra comprar uma dúzia de cervejas catalãs. “Pac” é o apelido das lojas de conveniência locais, quase sempre comandadas por paquistaneses, incansáveis trabalhadores que não se apegam a tradições do velho mundo, como a siesta, por exemplo. Depois caminhamos até o apartamento de Dani.

“Aqui é a Liga das Nações”, explica ela antes de abrir a pesada porta de madeira de um apartamento amplo, com pé direito incrivelmente alto, anarquicamente decorado com pôsteres na parede e móveis de segunda-mão. O imóvel tem sete quartos, ocupados por nove jovens de nacionalidades diversas. Lembro do filme “Os Sonhadores”, do Bertolucci.

Sentamos num amplo terraço que se estende além da sala, coisa rara nas exíguas cidades européias. Abrimos três cervejas, e aos poucos os habitantes dessa estranha república vão aparecendo.

Sempre que tento falar espanhol, sinto que estou trapaceando, então prefiro me comunicar em Inglês. Em geral recebo respostas em espanhol, mas durante a noite, também pipocam frases em catalão, belga, italiano e não sei dizer o que mais.

Na segunda rodada de cervejas, Co aparece com uma tela, tintas e pincéis. Apóia o quadro no chão, coloca uma fotografia de um busto nu de mulher sobre a coxa, e começa a pintar enquanto me fala de sua terra natal, a Bélgica. Tenho vontade de conhecer Bruges.

A conversa segue animada, e quando nos damos conta já passa da meia-noite. Ainda não me acostumei ao fato de que o pôr-do-sol nessa época não acontece antes das 22h, e sempre acabo perdendo a conta do tempo. Saímos para comer, antes que os restaurantes fechem. Vamos: Co, Dani, Mateus, Robi (uma guria italiana doidinha de tudo) e eu.

Sentamos numa mesa pequena na calçada. Pedimos uma porção variada de tapas, mas antes que a comida chegue, o garçom me trás um pequeno balde de cerveja. Um litro de cevada catalã, servido num copo plástico que requer duas mãos para ser erguido. Bebemos, comemos e conversamos, embolando cada vez mais os idiomas. Robi está particularmente feliz, porque é a noite de seu aniversário. Brindamos a Robi, que, para mim, já se transformou em Robin. Quando o restaurante está fechando, pagamos a conta e saímos caminhando.

Barcelona é uma cidade receptiva, que se abre como um imenso bulevar, ladeado por prédios charmosamente baixos e antigos. Caminhar de madrugada por um beco escuro não traz qualquer sensação de insegurança, por aqui.

Depois de uma meia hora, chegamos ao Harlem, um bar de jazz, escuro e escondido numa ruela estreita. Passa das três da manhã quando entramos, e a música ao vivo já acabou. Mesmo assim, sentamos. Há apenas duas outras mesas ocupadas e Robin faz questão de juntar todas. O casal que estava numa delas, declina do convite, mas os outros, conhecidos de Dani, acatam a sugestão.

Robin, qual uma verdadeira super-heroína, traz bebidas para todos. Tomo uma vodka, pra rebater o cansaço. Puxo conversa com uma garota ao meu lado. Pergunto de onde ela é.

– Daqui – reponde.

– Espanha? – pergunto eu.

– No, Cataluña! – responde orgulhosa.

Robin me traz outra vodka. Depois um uísque. Conversamos mais, e já não me sinto trapaceando quando falo espanhol. Parece muito cedo ainda, mas o garçom traz a conta. Só tenho 50 euros e sou o primeiro a colocar a nota sobre a mesa. Os outros me pagam o que acham que devem. Enfio tudo na carteira, sem me preocupar em contar. O garçom pede que levantemos pra ele poder virar as cadeiras. Vamos para o balcão, mas o barman diz que temos de sair. Pedimos copos descartáveis, ele diz que não tem, então saímos com nossas bebidas nos copos de vidro.

Caminhamos. Passa das cindo da manhã, mas há muita gente nas ruas. Robin reclama do calor e tira a blusa. Caminha só de sutiã. Dani não acha má ideia e faz o mesmo. Nada como caminhar de madrugada no verão de Barcelona, com meu copo de uísque em mãos, escoltado por duas belas garotas seminuas. Tento imaginar a mesma cena em São Paulo.

Voltamos para a varanda, abrimos outra rodada de cerveja. Robin acende um baseado que exala vapores de gás do medo. Passa das seis da manhã. Espanhol, inglês, catalão e português tornam-se igualmente incompreensíveis para mim. Hora de dormir.

***

Mais tarde no dia seguinte, curada a ressaca, Mateus e eu nos despedimos de todos para ir ao encontro de Helô. A cidade em que ela está fica a cerca de uma hora de trem de Barcelona. Antes de sair, acho por bem conferir quanto de dinheiro sobrou na minha carteira. Conto as notas amarfanhadas e a soma dá exatamente 50 euros. O que prova que, também no mundo da boemia, é dando que se recebe.

Quando tudo está perdido…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 27, 2010

É sempre assim: quando as opções parecem ter se esgotado, quando um banco de praça ou a embaixada brasileira parecem ser a única saída, alguém aparece pra ajudar. Foi assim com Camélia e o ônibus quebrado em Roma, foi assim com a brasileira e a greve de ônibus em Ventimiglia, e foi assim com o posto de gasolina em Nice. Mas, comecemos do começo.

O começo é mais um aluguel de carro. Um Spark, modelo novo da Chevrolet que ainda não chegou ao Brasil, uma espécie de Celta com aspirações a Smart. Mas, enfim, alugamos o carrinho, passamos todo o dia percorrendo as bucólicas cidadelas medievais ao redor de Nice, até que resolvemos voltar.

E, como geralmente ocorre nas locadoras, temos de devolver o carro com o tanque cheio. Sem problemas. É só parar ao lado de um taxista, descobrir o posto mais próximo e pronto, certo? Errado. As tarefas mais simples adquirem complexidade inacreditável quando se está em um país desconhecido.

Ninguém parece precisar abastecer o carro nessa cidade e gastamos uma hora até encontrarmos o primeiro posto de gasolina em Nice. Mas, como passa um pouco das 21h de um domingo, o posto está fechado. Mesmo assim pego uma das bombas, enfio no tanque do carro e aperto o gatilho. Evidentemente que não sai nenhuma gota de gasolina. Olhamos em volta. Um leve desespero paira sobre nós.

Helô vai até a loja de conveniência, que, claro, está fechada. Cola bem o rosto no vidro e vê que há alguém lá dentro. Bate na porta. A mulher, uma negra com dentes reluzentes, se aproxima e faz um gesto com as mãos dizendo o óbvio: que a loja está fechada. Helô continua a bater na porta. A mulher segue fazendo gestos em negativa. Helô passa a esmurrar a porta. Lethea finalmente se cansa e abre a porta. Explicamos a situação a ela e pedimos, imploramos, que nos venda gasolina, mas ela diz que não tem como ligar as bombas. Perguntamos por outro posto, e ela leva as mãos à cabeça.

Trazemos o mapa da cidade. Ela olha, diz que não é boa com mapas, mas diante de nossa desolação, toma uma atitude um tanto surpreendente. Propõe-se a nos levar até o posto. Por alguns instantes tentamos dissuadi-la da ideia, dizer que não é necessário, mas logo aceitamos, mesmo por que não há outra saída à vista.

Lethea, que a essa altura já sabermos ser do Senegal, entra no carro e explica o caminho. Não é tarefa fácil seguir suas indicações, que vêm em francês, idioma que não entendo, acompanhadas de gestos, que não enxergo, já que ela vai no banco de trás. Mas depois de uns vinte minutos rodando pelo harmonioso, charmoso e garboso arruamento de Nice, finalmente encontramos um posto aberto.

Depois, como compensação, nos oferecemos para levar Lethea até sua casa, mas ela diz que tomará o trem de superfície no mesmo ponto que a gente. Deixamos o carro no estacionamento, e nos dividimos. Eu vou deixar a chave no “quick-drop” da agência, Mateus e Helô vão com Lethea pegar o trem.

Mas conforme eles caminham, Lethea começa levá-los para uma direção diferente da parada do trem. Mateus e Helô estão em Nice há três dias, e conhecem a cidade o bastante para saber que estão indo no caminho contrário. Lethea fala ao celular pela segunda vez e é o bastante para os dois começarem a desconfiar.

Helô se põe nervosa, não sabe bem como agir. Então, como quem não quer nada, pergunta a Lethea se a parada do trem não é em outra direção. Claro que sim, diz Lethea, só estava levando os dois para conhecerem alguns pontos turísticos da cidade.

Quer moleza, senta no pudim

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 25, 2010

Nice – Deixamos Florença no meio da manhã, rumo a Nice, no Sul da França. Vamos de trem até uma pequena cidade próxima à fronteira, Ventimiglia, onde faríamos uma baldeação. Chegamos lá por volta das 17h, quando somos brindados com a soberba notícia de que, por conta de uma greve, não haverá mais trens. A estação está fechada. Simples assim.

Pra piorar, não somos os únicos. Deve haver uns 500 turistas na mesma situação, e a cidade não chega nem perto de ter infra-estrutura pra abrigar toda essa gente.

Em alguns minutos os hotéis no entorno da estação estão lotados. Taxis cobram no mínimo 100 euros (pouco de mais de R$ 200) por uma corrida até Nice, que fica a algumas dezenas de quilômetros.

Sem grandes aflições, saio em busca de alguém que me explique como chegar ao balneário de Nice. Entro num primeiro hotel e pergunto se a recepcionista fala inglês. “Français”, é a resposta. Agradeço e vou para o próximo, onde sou consideravelmente melhor recebido. Troco algumas palavras em inglês rudimentar, até que a atendente me pergunta de onde eu sou afinal. Quando respondo, ela sugere que, para facilitar as coisas, falemos português. É de Bragança Paulista, a guria.

Prestativa, ela se dispõe a me levar até o ponto onde passa o ônibus que nos levará até a fronteira. Antes, vai comigo a uma banca de jornal, e me ajuda a comprar os bilhetes. Depois vamos ao encontro de Helô e Mateus, que esperam na estação com as malas.

Chego todo empolgado e apresento nossa salvadora. Conversamos alegremente em português. Enquanto isso, parado ao nosso lado, há um garoto magro e branquelo, espiando tudo com o canto dos olhões grandes. Quando percebe que a curiosidade do moleque é ligeiramente maior do que a usual, Helô volta-se para o lado e pergunta para onde ele está indo, em português mesmo.

– Pra Nice ­­– ele responde se colocando tímido.

– Está com seus pais?

– Estão lá na estação, tentando descobrir de onde sai o ônibus.

– Então vai lá, diz pra eles que a gente sabe.

Era só a deixa que o garoto estava esperando pra sair correndo no meio dos turistas. Um pouco depois, todo orgulhoso por ter achado a solução e salvado o dia da família, Ian volta correndo seguido pelos pais carregados de malas. Durante as horas que se seguiram, viajamos juntos.

Tomamos um ônibus até Menton, onde atravessamos a fronteira a pé, cada um com sua mochila nas costas ou arrastando as malas de rodinhas feito um exército de retirantes. Já na França, tomamos outro ônibus que vai serpenteando pelas encostas da Côte D’Azur, um caminho que me lembra muito a Ilha Bela. Passamos por Monte Carlo, Mônaco e outros lugarejos endinheirados, onde tudo parece ter sido herdado de alguém.

Cinco horas depois de termos desembarcado em Vintemiglia finalmente largamos as malas na recepção do nosso hotel. As boas novas continuam. Estamos num quarto sem ar-condicionado (sendo que a temperatura beira os 40º) e sem café da manhã. Bufamos exaustos, mas falta energia pra discutir. Apenas aceitamos a situação. Subimos de elevador e quando entramos na pequena estufa onde teremos de passar a noite, topamos com uma imensa e jocosa cama de casal.

Volto à recepção. Digo ao velho senhor atendente que reservamos um quarto com três camas de solteiro, não com uma cama de casal e uma sobressalente. O homem pede desculpas, mas diz que o hotel está lotado e não há o que fazer. Tento me pôr nervoso, mas novamente não tenho energia. Subo, entro no quarto, dou uma conferida na cama. Mais uma surpresa. Há apenas um lençol forrando o colchão e um grosso edredom.

Por Napoleão, quem dorme com edredom num forno como aquele!

Desço novamente e posto-me diante do senhor da recepção. Espero ele acabar de falar ao telefone. Depois peço que ele me arrume três lençóis. Ele entra por uma porta, volta algum tempo depois, e diz que não há lençóis. Sente muito, mas não pode fazer nada. Baixo a cabeça em sinal de completa derrota. O recepcionista dá dois ou três tapinhas nas minhas costas a título de consolo. Ao menos é simpático. Não resolve nada, mas é simpático.

Depois de instalados, carregamos o que restou de nós mesmos até o restaurante mais próximo. Então vem a recompensa. Não há alegria maior do que algo dar certo depois de tudo ter dado errado. Acabamos num bistrozinho charmoso, com mesas ao ar livre, espalhadas por um simpático bulevar.

O dono e garçom, um sujeito baixo, careca e hiperativo, fala uma porção de línguas e em pouco tempo nos traz um vinho branco que desce como veludo gelado. Pedimos o prato do dia: cordeiro, batatas e legumes. Tudo fresco, temperado com sotaque francês.

Infelizmente não tenho nenhuma metade francesa na minha ascendência. Mas se tivesse, ela certamente estaria rindo da metade italiana. (ver dois post antes)

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Três vivas para a pizza paulistana!

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 22, 2010

Florença – Em honra a meus ancestrais, quando o assunto era pizza, sempre fiz questão de me apegar às tradições. Até me arrisquei, às vezes com certo prazer, a experimentar bordas recheadas de cheddar, coberturas de frango com catupiry, calabresa com ovo, e tomate seco com rúcula. Também abusei, confesso, de pizzas entregues na calada da noite por motoboys que não traziam nem uma lembrança de sotaque mooquense.

Mas, diante de tão terríveis distorções, minha porção italiana sempre fazia questão de tomar uma posição clara: pizza, só em três ou quatro endereços de São Paulo, servidas em não mais do que dez sabores. A massa tem de ser grossa, mas não em demasia, com borda crocante por fora, macia e aerada por dentro. Deve haver porções generosas de molho de tomate, colocado cru sobre a massa, o que lhe confere uma aparência rosada após o forno, sempre à lenha. A cobertura, não deve ser exagerada, de forma que porções de molho sejam visíveis a olho nu.

O restante, pode até ter gosto bom, mas não é pizza. Panqueca assada, talvez.

Uma das primeira coisas que fiz quando cheguei à Itália, portanto, foi ir atrás de uma pizza que satisfizesse minha metade italiana. Que decepção! Sem dúvida uma das maiores da minha vida.

Na verdade, tudo levava a crer que seria assim, pois desde que chegamos só comemos mal na Itália (com exceção de lanches rápidos, frutas e do restaurante onde Gina trabalha, que não serve comida italiana). Lasanha com massa mole coberta de molho branco com gosto de farinha crua, nhoque massudo, bisteca fiorentina sem gosto e muito mal-passada, molho de salmão rançoso carregado no creme de leite e assim por diante.

Importante ressaltar, contudo, que em todas essas ocasiões, eu e minha porção italiana tentamos nos convencer de que a tosquice devia-se ao fato de estarmos em lugares turísticos. Não é preciso cativar clientes no centro histórico de Veneza. Por pior que seja a comida, no dia seguinte haverá outro turista trouxa, pronto pra pagar 12 euros por uma lasanha de microondas.

De qualquer forma, apesar das baixas probabilidades, tinha fé de que, com a pizza, as coisas seriam diferente. E isso só aumentou minha dor diante da realidade desoladora.

Primeiro, os eleitores de Berlusconi não têm o mínimo respeito pelo sagrado manjar. Em qualquer boteco vendem pedaços de pão achatado com o que tiver em cima, e chamam aquilo de pizza, na cara dura. Esses infiéis chegaram, inclusive, ao descaramento de inventar uma máquina de pizza. Como se fosse comprar uma Coca Cola, o sujeito insere uma moeda de dois euros, e sai mastigando pelas ruas, completamente alheio à tradição.

Mas minha decepção foi maior diante do que me serviram em estabelecimentos que se diziam tradicionais. Um deles se arvorava do título de restaurante mais antigo do mundo, imputando-se mais de 500 anos de existência. Leonardo da Vinci reunia-se ali com os amigos, jactava-se um texto na primeira página do cardápio.

Pois bem, sentei-me nas ilustres cadeiras e nem tive de pensar para me decidir sobre o que comeria – diferentemente do Brasil, a pizza na Itália é individual e um pouco menor. Em busca da harmonia que só existe na simplicidade, pedi uma marguerita, sem dúvida uma das maiores invenções da humanidade.

Que desgosto! A massa era fina como uma panqueca. Queimada de um lado, crua do outro. O molho, apesar de abundante, tinha gosto de extrato de tomate. O queijo estava borrachento e gorduroso. E, que pasmem meus ancestrais, não havia nem sinal de manjericão.

Portanto, caros compatriotas paulistanos, vida longa a Speranza, Bráz, e Castelões!

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