Antes da Estante

Operação Trancendence

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on agosto 14, 2008

Durante três das cinco noites do festival Trancendence, a Polícia Civil de Goiânia esteve presente numa operação para coibir o tráfico e o consumo de drogas.

Eram quinze agentes, um delegado e três escrivões. Um total de dezenove policiais que, diariamente enfrentavam os quarenta quilômetros de terra da estrada que levava à festa para passar os dias em uma pousada de Alto Paraíso.

Assim, gastando o dinheiro dos contribuintes, essa brilhante operação autuou 73 pessoas que, quando muito, terão de pagar uma multa, mas, muito provavelmente, serão apenas repreendidas verbalmente por um juiz do interior.

O que mais impressiona, contudo, é a quantidade pantagruélica de drogas apreendidas: 131 gramas de maconha, 45 gramas de haxixe, 19 pontos de LSD e 8 gramas de maconha.

Ou seja, se apenas um daqueles policiais virasse de ponta cabeça a mochila do sujeito que dormia na barraca ao lado da minha, provavelmente iria economizar um bocado de tempo e dinheiro público.

Talvez até achasse uns comprimidinhos de ecstasy para deixar o flagrante mais colorido.

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O dia em que quase parei o Trancendence

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 31, 2008

Logo no início do festival, vendo que eu tinha um cadeado na minha barraca, a DJ Paula Simioni pediu que eu guardasse um imenso estojo com todas as faixas que ela e seu namorado, Ricardo Janczur, apresentariam no seu primeiro set em uma festa da magnitude do Trancendence.

Eu concordei, claro, acomodei o caixotão de couro embolado no meu saco de dormir, e evidentemente não voltei a pensar no assunto.

Duas noites depois, a fim de espairecer um pouco os ouvidos, tomei de uma lata gelada de cerveja e caminhei até o rio que corria atrás do camping. Para minha alegria, eu era o único por ali, e durante horas permaneci em silêncio no escuro, olhando a lua, deitado sobre uma pedra lisa que despontava no meio da corredeira.

Depois, caminhei sem pressa na direção do camping e parei no caminho para escovar os dentes, na pia ao relento de um dos banheiros coletivos.

Quando cheguei na minha barraca, foi só enfiar a chave no mini-cadeado e Paula colocou o rosto lívido para fora de sua tenda de lona, bem ao lado da minha.

­- Tomás, é você? – perguntou com a voz nervosa.

Quando respondi que sim, ela suspirou aliviada.

– Nossa, estamos há três horas te procurando na festa inteira. A gente entra em trinta minutos, na pista principal!

Mais alguns instantes naquela pedra e a pista principal ficaria em silêncio. Ou, mais provavelmente, a barraca de meu amigo Bruno Bartaquini sofreria uma cesariana.

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Denarc monta delegacia em pleno cerrado

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 24, 2008

O raver estava lá na pista, ouvindo aquele som hipnótico, aos pés da chapada, fumando seu baseado em meio a milhares de pessoas incrivelmente amigáveis. A certa altura da madrugada, um sujeito se aproximava dele, passava o braço em volta de suas costas num abraço fraterno e lançava a pergunta:

­- E então, legal a festa? Tá curtindo?

– Opa, massa! – respondia o outro.

– E esse baseado aí, tá curtindo?

– Opa, quer aí – o raver oferecia na gentileza característica da maioria dos participantes do Trancendence.

– Não, obrigado. Mas você pode vir comigo que você está preso.

O Denarc de Goiânia ainda não terminou de tabular os dados da operação, mas fala-se em algo como duzentas pessoas detidas. Eram todos levados para uma tenda, armada em plena festa, num espaço mais discreto do cerrado, e só durante a noite.

Como desde 2006 a lei brasileira passou a distinguir usuários de traficantes, hoje quem é flagrado usando ou transportando drogas não corre mais o risco de acabar na cadeia. As punições – que variam de acordo com o tipo e a quantidade de drogas apreendidas, e com a vontade do juiz – vão de repreensões verbais a multas ou serviços comunitários.

Para os que foram detidos no Trancendence havia um problema a mais. Além de tomarem um chá de cadeira em pleno festival, todos teriam de voltar à cidade de Alto Paraíso no mês seguinte, para ouvir a decisão do juiz.

E alguns produtores de festas da região, que tradicionalmente aproveitam o público remanescente do festival, até acharam boa a idéia toda essa confusão. Afinal, era um incentivo a mais para que os ravers esticassem um pouco a estadia na cidade.

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A pista principal

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on julho 23, 2008

Uma verdadeira pista de pouso para ETs em pleno cerrado
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Trancendence

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 21, 2008

Cinco dias de festa e aproximadamente quatro mil pessoas (número a ser averiguado) acampadas em barracas espalhadas em meio àquela poeira fina do cerrado, numa semana em que a região completava mais de dois meses sem ver um único pingo de chuva.

Banho só com água fria e em geral, após enfrentar um bom tanto de fila. Demais necessidades fisiológicas deveriam ser administradas em um cubículo de cimento, com uma porta de madeira compensada, sem trinco. E a música, cinco dias de música sem parar um único minuto, pancadas eletrônicas ininterruptas, provenientes das mais modernas caixas de som que o homem foi capaz de criar.

Olhando de longe para aquelas barracas perdidas na poeira, num terreno distante cerca de duas horas de qualquer sinal de civilização, olhando aqueles malucos envergando cabeleiras dreadlock e fumando cones de maconha ou haxixe, um homem civilizado qualquer poderia afirmar que ali se vivia um clima de caos e anarquia.

Estaria certo, sem dúvida nenhuma, com um único detalhe. Durante aqueles cinco dias, não só por conta da bem organizada produção de evento, mas principalmente pela postura dos participantes, não tive o desprazer de assistir nada que realmente ameaçasse aquela estranha ordem vigente.

Não há brigas nas filas, mulheres dormem semi-nuas no chill-out sem serem incomodadas e crianças, várias crianças, brincam soltas na poeira, como se estivessem em um grande parque de diversões. As pessoas se ajudam, se preocupam umas com as outras e é quase impossível alguém comer, fumar ou beber algo do seu lado sem lhe oferecer um pedaço, uma tragada ou um gole.

Curiosamente, essa atmosfera de caos ordenado só foi quebrada quando a polícia, mais especificamente o DENARC de Goiânia, resolveu fazer valer a lei do mundo exterior naquele pedaço barulhento de cerrado.

Mais detalhes na quinta-feira, que ainda temos horas e horas de entrevista para transcrever e páginas e páginas de bloquinho para decifrar.

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