Antes da Estante

O crack e o trabalho de redução de dano, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 15, 2011

Dos Males o Menor

Por Tomás Chiaverini

Pedestres, Policiais militares e guardas-civis não reparam no garoto de uns oito ou dez anos que fuma crack na esquina da rua dos Gusmões com a avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mesmo assim, ele está sempre atento, pronto para se esconder ou fugir, escapulindo para algum cortiço ocupado da região. Tanto que, quando o redutor de danos Marco Fuentealva se aproxima para conversar, ele se protege feito um avestruz, cobrindo a cabeça com um moletom azul-encardido.

Sorridente e bonachão, Fuentealva não se aflige com a postura arredia do menino e segue adiante. Vestindo a camiseta amarela do Centro de Convivência É de Lei (uma das primeiras ONGs a fazerem redução de danos no Brasil), embrenha-se num grupo com duas dezenas de pessoas maltrapilhas e sujas, cobertas de feridas nos rostos, braços e mãos. Quase todos estão agarrados a pequenos cachimbos de metal e observam o entorno com um olhar de desespero e incompreensão.

Aos poucos vão percebendo a presença de Fuentealva e de sua parceira de trabalho e se aproximam formando um pequeno aglomerado. Não há muito espaço para conversa. Todos já conhecem a rotina, repetida duas a três vezes por semana: avançam, pegam uma piteira de silicone, um batom protetor labial à base de calêndula e logo voltam a se afastar, acomodando-se pelos cantos da calçada suja.

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Como encontrar um traficante de ecstasy

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on abril 1, 2008

Aviso aos navegantes: o Antes da Estante não incentiva o uso e muito menos o tráfico de drogas. O post que se segue tem como único propósito mostrar como é fácil comprar ecstasy sem nem mesmo sair de casa e como o tráfico de drogas está disseminado na Internet.

  • 1) Entre no Orkut
  • 2) Digite “rave” no campo de busca (no alto à direita) e clique na lupinha.
  • 3) Clique na segunda comunidade da lista: “Quero ir a rave de Madagascar”.
  • 4) Clique no link “Vendo lança perfumes, doces e balas…”

É isso. A partir daí é possível ter contato direto com um traficante de ecstasy, LSD e lança perfumes.

A entrega, segundo o sujeito, é feita por SEDEX, via caixa postal.

NÃO RECOMENDO CLICAR NO PERFIL DO TRAFICANTE pois ele pode saber quem acessou.

Ressalto ainda que o ecstasy é uma droga ilícita e, portanto, não passa por qualquer controle de qualidade.

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Ecstasy – Da classe média ao PCC

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on março 17, 2008

200px-ecstacy_monogram1.jpgA equipe especializada em drogas sintéticas da Polícia Civil de São Paulo causou uma certa confusão e desconforto em seus colegas quando apareceu na delegacia com 1.200 comprimidos de ecstasy e alguns suspeitos presos em flagrante, em1998.

Era a primeira grande apreensão da droga em São Paulo e, como a substância era pouco conhecida, não estava claro se os jovens de classe média alta, que as vendiam em festas de música eletrônica, deveriam ser enquadrados nas leis previstas para crimes como tráfico de drogas, associação para o tráfico e formação de quadrilha.

Mas a dúvida não durou muito. Os filhos da classe média, agora elementos, foram presos e a equipe, chefiada pelo investigador Claudiney Henrique e estimulada por seus superiores, passou a investir mais em operações relacionadas ao ecstasy.

Além dos métodos tradicionais de investigação, como escutas telefônicas e monitoramento de suspeitos, até alguns anos atrás a polícia mantinha agentes disfarçados que freqüentavam boates de música eletrônica e festas raves.

Muitas prisões aconteciam dentro dos clubes e durante as festas. E era muito fácil prender essa molecada. Eles não andavam armados, não tinham relações com o tráfico de drogas tradicional e não se preocupavam muito com a polícia.

Na verdade, muitos deles nem mesmo se consideravam traficantes e não acreditavam que estavam sendo algemados, colocados em um camburão e levados para alguma carceragem para esperar pelo julgamento.

A maioria era composta por jovens que viajavam para a Europa ou os EUA, tinham contato com o ecstasy lá, traziam alguns comprimidos na bagagem e vendiam aos amigos.

Com o tempo, foram percebendo que aquilo podia render muito dinheiro sem grande esforço.

Alguns se profissionalizaram e passaram a fazer o tráfico de mão-dupla. Viajavam para os EUA ou Europa levando Cocaína – que aqui é mais barata pela proximidade de países produtores como Colômbia e Bolívia – e voltavam com os comprimidos de Ecstasy que chegavam a custar R$ 80 em território nacional.

A maioria deles não acreditava que estava indo presa só por vender umas “balinhas” aos amigos, mas a equipe de Claudiney, ou apenas Ney, como o policial gosta de ser chamado, continuava a assombrar as festas e a prender os traficantes que também começaram a ir a julgamento.

Por incrível que pareça, os advogados bem pagos da classe média não conseguiram evitar que boa parte desses traficantezinhos de fim-de-semana acabassem condenados e encaminhados às prisões.

E naquela conversa de o que você fez e quanto você puxou, eles começaram a contar sobre o produto que comercializavam, os comprimidinhos que vêm em cores diferentes e com símbolos estampados, para ajudar o usuário a saber a procedência da droga e a viagem que ela promoverá.

A forma da pílula é uma espécie de marca do produto que indica principalmente o conteúdo porque, apesar de ser composta basicamente por MDMA – Metilenodioximetanfetamina, uma substância desenvolvida pela Merk em 1914 para inibir o apetite – é comum haver outras drogas misturadas nas “balinhas”.

Os filhos da burguesia contaram tudo isso nas celas das penitenciárias e não deu outra. O pessoal que puxava cana com eles, preso por tráfico de cocaína, maconha e crack, cresceu os olhos para o negócio. As informações se espalharam pela rede do crime organizado.

De uns dois anos pra cá, a equipe de Ney até vai a algumas festas para observar os mecanismos de comercialização, mas geralmente nem se dá ao trabalho de efetuar prisões. Porque quem for preso tomando bala ou dividindo com um amigo não irá cumprir um dia de pena e nem precisará pagar multa. Apenas assinará um termo circunstanciado como usuário e será liberado em seguida.

E o tráfico já não se restringe mais às festas, entrou no esquema profissional. Tanto que, atualmente, a polícia suspeita que o PCC (Primeiro Comando da Capital), aquela organização comandada de dentro das prisões que aterrorizou São Paulo em 2006, já esteja produzindo seu próprio ecstasy em laboratórios aqui no Brasil.

Só que a qualidade é muito pior do que a das balinhas trazidas da Europa. E muitos dos usuários de hoje tomam esse ecstasy sujo, que chega a custar apenas R$ 15, e não sabe que o que está ingerindo tem pouco a ver com o ecstasy europeu.

E ao que tudo indica o tráfico das “balinhas coloridas” só tende a aumentar.

“Quando estourava uma biqueira na favela, eu nunca ia imaginar encontrar ecstasy. Hoje, eu posso te dizer que cerca de 15% a 20% da contabilidade do tráfico organizado de drogas é decorrente da venda do ecstasy”, afirma Ney.

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