Antes da Estante

James Cameron não chega nem perto

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 14, 2010

Roma – Chapéus panamá fajutos, camisas coloridas, bermudas folgadas, papetes, garrafinhas d’água, guias e máquinas fotográficas. Este é o layout básico da inacreditável quantidade de turistas; de jovens, crianças, velhos, anões, japoneses, russos, americanos, brasileiros; dessa pacífica e globalizada horda de viajantes que, sob o escaldante sol do verão europeu, se amontoa e se derrete numa fila de cinco ou seis quarteirões diante do Museu do Vaticano.

Quatro horas é o tempo médio que se gasta para ter acesso a alguns dos maiores ícones da história da arte, em especial ao teto da Capela Sistina.

Pagando alguns euros a mais, contudo, havíamos feito reserva pela internet, ainda no Brasil e pulamos a fila. Mas mesmo se não tivesse sido assim, mesmo se tivéssemos de nos acotovelar naquela multidão de turistas-de-uma-semana rescendendo a protetor solar e desodorante barato, mesmo se tivéssemos passado toda a manhã declinando ofertas de guias de viagem poliglotas, mesmo assim, teria valido a pena.

A primeira visão do teto da Capela Sistina é tão impactante que um pouco depois da porta há um guarda ordenando que as pessoas andem para o centro do salão. E se ele não tivesse me obrigado a sair do caminho eu teria realmente permanecido ali, diante da porta, parado com a cabeça erguida, boquiaberto diante da beleza das imagens que saltam de um fundo intensamente azul.

Michelangelo passou anos pintando o que pode ser visto como um resumo da história da humanidade contado por um cristão. No centro do teto está a cena da criação do homem, e, num imenso painel central, o maior de todos os conjuntos de pinturas, o dia do juízo final.

Não há iluminação artificial na Capela, a luz entra por grandes vitrais, no alto das paredes laterais. As janelas do fundo do altar foram emparedadas para dar mais espaço às criações de Michelangelo, e assim aquelas imagens foram condenadas a boiarem numa penumbra eterna.

Curioso pensar nisso, em como a decoração, patrocinada pela igreja, descaracterizou completamente o espaço. Não há altar nem bancos com genuflexórios por ali. E nas horas que passei lá dentro, não ouvi uma prece sequer. Apenas um murmuro constante da multidão de turistas, que nunca deixa de abarrotar a capela. O local que Michelangelo certamente pensou como um espaço de veneração, está eternamente lotado.

De tempos em tempos, os grupos de viajantes acabam esquecendo que estão num templo, e as conversas vão se tornando progressivamente mais ruidosas, até que aquele guarda parado diante da entrada ordena silêncio num vigoroso “ssssshhhhhhhh”.

Vez ou outra, quando alguém não resiste e saca a máquina digital para criar sua própria reprodução dessas imagens já tão reproduzidas, é dele também a tarefa de berrar em inglês macarrônico: “no fotos, no pictures”.

Mas nem as intervenções do bedel nem a multidão de turistas é capaz de enfraquecer o impacto causado pela pinceladas de Michelangelo. E nos dias que se seguiram à minha visita à Capela, vez ou outra, flashes dos seres macabros e celestiais cercados de azul se impuseram entre os meus pensamentos.

E se no mundo Imax 3D de hoje aquelas imagens causam tanto assombro, fico pensando o efeito que tiveram na época em que foram criadas.

O império contra-ataca

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 13, 2010

Roma – Roma está sempre ali, gritando, exigindo atenção. Não é possível caminhar por suas ruas ou calçadas sem que, a cada passo, a alma da cidade se faça presente. Certamente isso se deve em parte ao fato de eu ser turista, mas tenho certeza de que essa sensação está presente mesmo nas pessoas que nasceram na cidade.

Para onde quer que se olhe, obras de arte espocam na retina fazendo com que depois de algum tempo, a beleza elegante e inequívoca das esculturas renascentistas se torne algo corriqueiro. Mas não é. O paralelepípedo onde você tropeça ao passar da faixa de pedestres para a calçada provavelmente já estava ali quando Michelângelo ainda usava fraldas, e ensaiava suas obras primas esculpindo na papinha de bebê.

Tudo é história, tudo é único e singular, e tudo parece remeter ao tempo em que se comandava o mundo daquela cidade. Os romanos sabem disso e a cada gesto fazem questão de deixar claro que são os habitantes da sede do extinto império romano. Aliás, a julgar por sua altivez prepotente, para um número considerável de romanos, o império ainda não acabou.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 4)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 11, 2010

Roma – Gina abre a porta sorridente, diz que estava preocupada, pergunta por que demoramos tanto e nós contamos nossas aventuras no transporte público italiano. Gina e eu estudamos juntos por oito anos, da primeira série ao final do colegial. Nunca fomos amigos muito próximos, mas sempre nos demos bem, e esse tempo todo de convivência nos conferiu alguma intimidade e nos livra de silêncios desconfortáveis.

Gina vem de uma família deliciosamente maluca, um matriarcado comandado por Loira, uma cenógrafa mundialmente famosa por promover festas incríveis na sua casa da Granja Viana. Helô sempre foi amiga da Loira, e nossas famílias passaram algumas férias juntas.

Uma vez, na Bahia, estávamos todos na praia, num dia comum. Loira olhou um barco que se preparava para zarpar, voltou-se para Helô e perguntou se a traineira ia para a ilha de Boipeba. Antes de ouvir a resposta, vestindo um biquini apenas, ela mergulhou no mar, nadou algumas dezenas de metros e subiu a bordo. Boipeba ficava a cerca de quatro horas de viagem e Loira só voltou no dia seguinte, com a naturalidade de quem foi até a padaria.

Gina puxou um bom tanto da excentricidade e desprendimento da mãe, e há anos mora sozinha num pequeno apartamento em Roma. É uma joalheira realmente talentosa e, pra complementar a renda, trabalha como garçonete duas noites por semana num restaurante exatamente embaixo de sua casa.

Nesses primeiros dias, ficaremos divididos. Eu durmo num sofá-cama na Gina, Helô e Mateus num quarto de hotel no mesmo andar. O prédio todo já pertenceu ao lado paterno da família de Gina. Aos poucos os apartamentos foram sendo vendidos e agora só sobrou um, que foi subdividido. A parte maior está alugada e a menor, com pouco mais de vinte metros quadrados, é onde minha ex-colega vive atualmente. Um lugarzinho ajeitado, com móveis antigos, flores na janela e paredes recobertas por recortes de revista.

Depois de instalados descemos para comer. Estava seco pra me esbaldar numa bela e tradicional pizza marguerita genuinamente italiana, mas tenho que ceder ao convite de Gina, para jantarmos no restaurante onde ela trabalha.

Que seja. Que venha uma garrafa de vinho branco gelado pra aplacar o calor de trinta graus, e o que tiver pra acompanhar alguns nacos de pão (genuinamente italiano).

Sentado numa mesa na calçada, olho em volta e não há nada realmente excepcional na paisagem. Apesar disso, tudo ao redor, os copos, a toalha, a calçada, os carros e as sacadas velhas do prédio baixo do outro lado da rua parecem gritar para mim: “hei, atenção, você está em Roma!”

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 8, 2010

Roma – Um indiano vem andando depressa lá do fundo do ônibus, esbarrando em todo mundo que está de pé. Veste uma camisa branca de um tecido rústico, amarronzada de encardido ao redor do pescoço e axilas.  Aproxima-se do motorista e despeja sobre ele uma avalanche de palavras completamente incompreensíveis para mim.

O motorista volta-se para ele, ergue a mão e chacoalha os cinco dedos fechados voltados para o queixo, num gesto teatral tipicamente italiano. Depois cospe uma ou duas frases num tom que, de tão agressivo, acaba por acalmar o indiano. Ele diminui a intensidade de suas reclamações, mas resmunga mais um pouco antes de voltar contrariado ao seu lugar.

Mateus me diz que, pelo que entendeu, o homem havia deixado uma bolsa sobre o assento e outro passageiro se apossara dela. Queria que o motorista intervisse a seu favor.

Quando a discussão termina, passo algum tempo observando o motorista. A maneira como usou de violência e agressividade para desarmar seu oponente me causa um fascínio desconfortável, semelhante ao que tinha quando via o Tyson lutar, por exemplo. E conforme o observo, percebo que essa agressividade parece permear aquele sujeito por inteiro.

A forma como dirige, numa velocidade ligeiramente superior à que parece segura; a forma como fala ao celular, acompanhando as palavras com gestos da mão direita; a forma como se veste, com a calça de microfibra azul arregaçada até o joelho por conta do calor.

Quando olho para o relógio exagerado que o sujeito usa, levo um susto. O sol brilha forte lá fora, mas já são quase nove horas da noite. O fato de ser tão tarde traz alguma preocupação, que se desdobra em outras: Não temos clareza de como faremos para chegar ao nosso destino, por exemplo. Sabemos que em algum momento teremos de tomar o metrô, mas quase nada além disso.

Lançando mão de um idioma que imagino assemelhar-se ao Esperanto Helô conversa com a mulher que viaja ao seu lado. Em poucas frases descobre que ela terá de passar perto do nosso destino, e que se dispõe a nos guiar.

A boa samaritana chama-se Camélia, é natural da romena, e mora na Itália há sete anos. Parece sentir-se desconfortável quando perguntamos sua profissão e explica superficialmente. Ficamos em dúvida se é empregada doméstica, governanta ou secretária.

Camélia fala um italiano carregado de sotaque, o que torna suas frases ainda mais incompreensíveis para mim. Ela, por sua vez, não entende que minha tacanhice mental limita-se ao idioma. Acha que sou completamente estúpido e faz questão de me explicar tudo detalhadamente, com direito a mímicas: como devo colocar o bilhete na catraca, como devo me deslocar pelas escadas rolantes, como funciona o metrô, e assim por diante.

Diz que já ouviu falar do Brasil, por conta do carnaval e eu preconceituosamente imagino que ela tenha bastante preconceito para com os brasileiros. Deve achar curioso o fato de não nos vestirmos com tangas e penas.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 7, 2010

Madri/Roma – Cada vez que sento em uma poltrona de avião tenho a impressão de que minhas pernas cresceram. E acho que, se continuar assim, não vou caber no próximo vôo. Imaginava que na Ibéria, uma companhia européia, a situação fosse melhor do que nos teco-tecos nacionais. Doce ilusão. Uma vez sentado e enlatado, qualquer movimento torna-se praticamente impossível. A comida, por outro lado, até que não é má.

E eu fico um pouco fascinado ao imaginar a logística que está por trás desta cozinha que alimenta cerca de duzentas pessoas simultaneamente, numa situação um tanto singular. Verdade que há apenas duas opções de menú, mas estamos voando a 900 quilômetros por hora, a oito quilômetros de altura e minha carne cozida ao molho madeira nem se dá conta disso.

Em nove horas chegamos a Madri, num aeroporto que parece uma cidade de porte médio. Os terminais têm dimensões sobre-humanas e um simples par de pernas não é suficiente para caminhar do desembarque até os guichês de imigração, por exemplo. Por isso boa parte da circulação interna é feita por esteiras rolantes de metal, que fazem os maravilhados turistas do terceiro mundo se sentirem num filme de ficção científica.

Apesar do tamanho descomunal, as indicações são precisas e em nenhum momento tenho o prazer de me sentir perdido. Além disso, o espanhol que se fala por aqui me é cristalinamente compreensível, quase como um sotaque do português.

Em pouco tempo estou voando novamente, num avião menor, mais apertado e aparentemente mais antigo do que o primeiro. Meu corpo inteiro reclama da noite em claro, mas é impossível dormir num avião recheado de italianos e espanhóis. Parece que o idioma deles não funciona se não for gritado em Dolby Surround Sound. Duas horas de feira livre e um copo d’água depois, Roma.

Enquanto espero que minha mochila apareça na esteira de bagagens, sinto uma leve empolgação por estar prestes a pisar no velho mundo pela primeira vez na vida (aeroportos não contam; são todos iguais e deveriam ser considerados espaço internacional).

Por outro lado, aos poucos vou percebendo que não sei falar italiano. E, pior ainda, que não entendo nada do que esse povo fala. Achava que meu sobrenome, que sempre fiz questão de pronunciar corretamente (o “ch” com som de “k”), e minha ascendência 50% italiana, de alguma forma, me dotassem de certo conhecimento do idioma de Berlusconi.

“Até os cachorros entendem italiano por aqui, e você nada”, provoca Mateus, que, com alguns meses de curso, se vira bastante bem.

E já que ele consegue se comunicar, nos sentimos seguros para trocar o táxi pelo ônibus e economizar alguns euros. Motorista simpático, ar-condicionado e nenhum outro passageiro. Groove!

Mas alegria de brasileiro na Europa dura pouco. No primeiro ponto o ônibus já é tomado de assalto por uma horda de homens sujos e mal-trapilhos, que poderiam muito bem estar voltando de um dia de trabalho na construção da Torre de Babel. Subitamente, fala-se uma infinidade de línguas à nossa volta. Dialetos aparentemente africanos e hindús se misturam em conversações incompreensíveis. A partir daí, a cada parada, mais gente se espreme à nossa volta. Italianos são artigo raro por aqui.

Nossa bagagem, que estava espalhada em três bancos, agora se amontoa no corredor e a todo momento tem de ser rearranjada devido ao entra e sai de passageiros. Então, uns vinte minutos depois de deixarmos o aeroporto de Roma, o semáforo abre, o motorista engata a primeira marcha, acelera, mas o ônibus se nega a obedecer. Ele repete a operação. Nada. Ele insiste. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera.

Por uns cinco minutos, ele se desdobra em esforços, brigando com a máquina xucra. Depois desiste. Levanta, volta-se para os seus cerca de cinquenta passageiros multiétnicos e diz o óbvio. O ônibus quebrou. Todos devem descer e esperar pelo próximo.

Sem alternativa, obedecemos. Saltamos em meio àquela horda de trabalhadores que, assim como nós, encontram-se consideravelmente cansados, suados e mau-humorados. Mas apesar de estarmos, por assim dizer, “todos no mesmo ônibus”, os olhares que eles nos dirigem não parecem nada amigáveis.

Não fazemos a mínima ideia de onde nos encontramos realmente. Só sabemos que é longe. Tanto do aeroporto, quanto do centro histórico, onde ficaremos hospedados. Esperamos. Tentamos descolar uma carona com um passageiro que ligou para a mulher buscá-lo. Gentil ele diz que é possível, mas não pode garantir se caberemos no carro com a bagagem.

Assim, após cerca de uma hora de espera, quando o próximo ônibus passa, resolvemos embarcar, junto com nossos companheiros mau-encarados.

Acomodo-me ao lado do motorista, meio em pé meio sentado, com a mochila apoiada sobre o painel do ônibus. O cansaço percorre minhas pernas numa espécie de formigamento que parece emanar de dentro dos ossos.

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