Antes da Estante

Temos prefácio

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 26, 2009

Existem, creio eu, dois tipos básicos de prefácio. Um, geralmente está presente na obra de grandes autores consagrados, quase sempre mortos ou imortalizados. São textos escritos por especialistas que dissecam, explicam e contextualizam a obra que estão apresentando.

Evidente que no “Festa Inifinta”, cujo autor não é consagrado, imortalizado ou (eu hein) morto, teremos um prefácio do segundo tipo. Esses costumam ser escritos por autores reconhecidos que emprestam seu prestígio e o peso de seu nome a obras de escritores iniciantes.

No “Cama de Cimento”, meu primeiro livro, o prefácio foi escrito por Gilberto Dimenstein. Agora, novamente, tive a sorte de conseguir que um grande jornalista gastasse algum tempo lendo meus originais e escrevendo algumas linhas prefaciais. Na última sexta-feira, recebi um e-mail de meu editor, com três páginas de um elogioso texto escrito por ninguém menos do que Ricardo Kotscho.

Na ativa há mais de 40 anos, um tempo em que facilidades como celular e Internet não apareciam nem em filme de ficção científica, Kotscho passou pelas principais redações de São Paulo e ocupou cargos importantes no início do governo Lula. Suas aventuras jornalísticas estão divertidamente registradas no livro “Do Golpe ao Planalto” (Cia das Letras 2006), uma  espécie de autobiografia que recomendo para qualquer um que queira saber um pouco mais sobre este ofício ímpar que é a função de repórter.

O nobre colega também mantém o blog “Balaio do Kotscho”, que contém interessantes reflexões sobre as atualidades do Brasil e do mundo. Eu, de minha parte, deixo aqui registrados meus agradecimentos a Ricardo Kotscho. No próximo post, volto a falar sobre a experiência de ser prefaciado.

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Viu como se faz… – parte II

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 19, 2009

Paralelamente aos trabalhos voltados à forma do livro, há os que dão a última lapidada no conteúdo. Aí, novamente há duas etapas distintas: a preparação e a revisão.

A primeira, talvez seja a parte mais penosa do processo editorial. O preparador lê o texto com lupa, faz correções gramaticais e – aí temos a parte mais insuportável ­­- padroniza o texto.

No caso do Festa Infinita, por exemplo. A palavra “rave”, um termo estrangeiro, é usado milhares de vezes. Por isso, sabiamente, o preparador optou por não grafá-lo em itálico. Já o termo “ravers”, ganhou apenas o “s” itálico, ficou “ravers”. Como esses há inúmeros detalhes, como números (por extenso ou não), abreviações (quilômetro ou km), gírias (com aspas ou itálico), enfim, um trabalho meticuloso e enfadonho.

Além disso, os bons preparadores, também fazem o trabalho de checador. Ao lerem o texto, buscam identificar possíveis erros e contradições que tenham escapado ao autor.

Mas os preparadores podem se tornar pessoas muito perigosas, e às vezes, sem entender exatamente a construção escolhida pelo autor, simplesmente invertem sentenças, cortam palavras e enfiam desagradáveis vírgulas e travessões em qualquer canto. Para ler mais sobre o assunto, vale uma espiada neste texto do Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.

De qualquer forma, ciente destes detalhes desde a publicação de “Cama de Cimento”, fiz questão de ler o texto logo após a preparação. Mais uma vez, reli o maledeto. Perdi a conta de quantas vezes já reli esse mesmo texto. A vantagem disso, é que já sei tudo praticamente de coração, e se tiver uma vírgula fora do lugar, percebo logo de cara.

Mas enfim, li, fiz minhas correções e enviei o texto novamente para a editora. Agora só falta a última etapa que é a revisão. Essa é mais simples: uma última leitura, empreendida por um profissional altamente competente, que busca e destrói os últimos erros gramaticais, ortográficos e de digitação.

Depois, ai, ai, o texto é novamente enviado para este pobre autor, que, mais uma vez relê o calhamaço, agora já com as mãos dolorosamente atadas, sem a possibilidade de fazer qualquer alteração significativa.

Dias de Universo Paralello

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on janeiro 26, 2009

Pois então, lá estava eu, metido em um quartinho espartano e mal-acabado, no distante povoado de Pratigi, em algum lugar entre Ilhéus e Salvador. A uns três quilômetros de distância, numa praia vasta e deserta, desenrolava-se o Universo Paralello, talvez a mais famosa festa rave do Brasil, que, por sinal, rejeita o título de rave. Diz-se um festival de cultura alternativa.

Pois lá estava eu, instalado só no quartinho. Dormia pouco naqueles dias. Acordava sempre cedo, antes das oito da manhã. Depois não conseguia voltar a dormir. Acordava pensando no que faltava para terminar a apuração, a última etapa da apuração de um livro que levou um ano para ser escrito.

Um ano de trabalho pensado e repensado, que agora tinha que ser arrematado em cerca de 15 dias. (O festival terminou no dia 4 e o texto final foi entregue no dia 19 de janeiro). Isso me tirava o sono, me deixava ansioso.

Eu acordava, ia até um dos poucos restaurantes locais, pedia um pão com ovo e um copo de leite quente grande. O café baiano é muito fraco para paladares paulistas, então eu levava um saquinho de Nescafé e dissolvia eu mesmo, com pouco açúcar. Tomava café em silêncio, pensando na apuração.

Depois voltava pro muquifo, ligava o ventiladorzinho e passava a manhã e o começo da tarde escrevendo o que havia visto e vivido nos dias anteriores. Antes das três da tarde, tomava um banho frio (não havia outra opção), colocava uma bermuda, amarrava uma canga na cintura, e caminhava uns 40 minutos até o Universo Paralello.

Na véspera do ano novo, fui conversar com Valney, o sujeito que alugava o quartinho.

Era sempre uma aventura falar com o homem, porque ele tinha um sotaque tão forte, e as palavras saíam tão atropeladas que eu entedia, digamos, apenas uns 40 por cento.

Mas eu fui até ele, disse que estava precisando me barbear, e perguntei se, assim, por acaso, ele não teria um espelho pra me arrumar. Não havia nada no quarto além do beliche de alvenaria. Era tão espartano, que o simples ato de pedir o espelho me fez parecer meio ridículo. Um almofadinha da cidade que precisa de um espelho para se barbear.

Se pensou assim, contudo, Valney não o demonstrou. Voltou depois de dez minutos com um daqueles espelhinhos cor-de-laranja na mão:

­­­- Tá aqui o espelho ­- exclamou me esticando o braço. – Peguei emprestado com a menina da venda. Você usa, depois devolve lá pra ela.

Ainda sobre o título

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 22, 2009

A primeira ideia era simples, objetiva e impactante: “rave”. Não há nada que descreva melhor esse fenômeno, e nada que chame mais atenção para o assunto.

Além disso, escolher título é uma das tarefas mais ingratas na elaboração de um livro e este estava fácil, à mão. O “Cama de Cimento”, por exemplo, só veio à luz após semanas de trabalho de parto. O título original, “Incômodos”, não agradou a meu editor, que pediu uma segunda possibilidade. Na época não foi fácil, mas creio que, no final, tenha ficado melhor mesmo.

O título “rave”, pelo contrário, foi bem recebido. A iniciativa de mudá-lo foi minha e ocorreu por dois motivos.

Primeiro, os mais aficionados por este universo já não usam o termo que, com a proliferação de manchetes policialescas, acabou adquirindo conotação negativa. Agora, “rave” se transformou em “festa open-air”. Eu, particularmente, acho uma babaquice ficar criando termos politicamente corretos, quando o preconceito não é voltado contra palavra, e sim contra o objeto.

O termo “mendigo”, por exemplo, foi substituído por “morador de rua”, depois, novamente, por “pessoa em situação de rua”, e a realidade desse pessoal não melhorou nada por isso.

De qualquer forma, achei que utilizar a palavra “rave” no título seria um ato de agressividade gratuita contra aqueles que colaboraram na elaboração do livro (no corpo do texto, contudo, o termo é usado sem pudores).

Essa foi uma das motivações para a mudança, mas não a única.

A palavra “rave” é um termo estrangeiro, o fenômeno não começou aqui, e eu sou um jornalista brasileiro. Assim, achei uma boa escolher um título em claro e atualizado português.

Além disso, acredito que o “Festa Inifnita” acabe por criar uma aura de mistério e curiosidade, que o assunto escancarado no título não propiciaria.

Ossos do ofício (?!)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 5, 2009

Eis que se encerra a última etapa da apuração, junto com o Universo Paralello, o maior festival de cultura trance do país. A decisão de me hospedar numa pousada ao invés de ficar acampado em meio a dez mil ravers, permitiu que eu escrevesse bastante durante a festa, e o texto está relativamente avançado, já com 30 páginas no formato A4.

Mas antes de entrar nesses pormenores, não posso deixar de dividir com os leitores do Antes da Estante a história daquilo de mais estranho que já fiz na vida. E provavelmente que farei até morrer.

Fui o tradutor de um show de sexo explícito ambiental.

Depois de passar todo o festival fazendo propaganda de seu projeto, o pessoal do “Fuck for Forest” (que já foi apresentado aqui) finalmente estava pronto para sua performance ao vivo, na madrugada do dia 3.

Mas, como muita gente não fala inglês, eles resolveram arrumar alguém que traduzisse o texto de abertura, em que um dos integrantes apresenta o projeto e pede colaborações. Como eu havia entrevistado o grupo diversas vezes, sobrou para mim a bizarra tarefa.

À uma da manhã, o local demarcado para a performance abrigava uma verdadeira multidão ensandecida, curiosa e excitada. Num pequeno palco iluminado com luzes vermelhas, as meninas do grupo tiraram a roupa e a multidão veio abaixo, numa energia raivosa de gritos e assobios.

Vestindo uma camisola de voal preto com estampas floridas, o líder do grupo despejou pepinos, cenouras e bananas no palco, depois se apoderou de um microfone, e se abaixou atrás do palco. Tomando cuidado para não trombar com nenhuma intimidade alheia, me abaixei ao seu lado e, com outro microfone, fui traduzindo o manifesto pela liberação da sexualidade e pela proteção do ambiente.

Para minha sorte, ninguém estava muito interessado em palavras, e o texto foi bastante breve. Depois Tommy se enroscou em meio a três garotas estrangeiras, e dois rapazes brasileiros, agregados ao projeto.

A partir daí, graças a Dionísio, a tradução não se fez mais necessária.

O resto do show, caros leitores, poderá ser conferido no livro, que sai em pouco mais de dois meses. Mas só para mostrar como sou caridoso, prometo colocar, na quinta-feira, uma degustação do texto que vai tomando vida.

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AAAaaarrrrrrrggg!

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 16, 2008

Pois bem, eruditos leitores do Antes da Estante, podem espantar o cinza de suas vidas pois estamos de volta. Esses poucos dias em que seguimos afastados, certamente devem ter figurado como toda uma era geológica para os senhores. E digo que, para este que vos escreve, o tempo também tem custado a passar.

Primeiro porque, evidentemente, esse tempo afastado não foi algo assim como férias, visto que é comprovadamente impossível manter uma distância mental mínima desta obra em andamento. Segundo, porque essa impossibilidade de distanciamento vem trazendo um desagradável sentimento de saturação.

Não posso mais olhar para o texto que meus olhos se reviram para acabar se juntando, emburrados, num ponto indefinido entre meu nariz e a cansada tela de meu notebook, o já famoso Mr. Black.

Depois, porque não aguento mais me deparar com dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs, marombados dançando na lama, destinos paradisíacos, e garotas de saias indianas fazendo malabares ao nascer do sol.

Não quero mais saber, não quero mais ouvir histórias, não quero entrevistar mais ninguém, nem quero encontrar com aquele amigo que não vejo há alguns meses e ter de responder à encantadora pergunta: “e o livro, sai quando?”.

Cansei do mesmo assunto, cansei e quero esquecer a palavra “rave” para todo o sempre.

Ufa!

Desabafo desabafado e informo aos estimados leitores que na próxima sexta, dia 19, deixo São Paulo rumo a uma paradisíaca praia ao sul da Bahia, onde passarei 20 dias cobrindo o Universo Paralello, desde a montagem até o apagar das luzes. Vinte dias de dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs e etc.

Humpf!

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 24, 2008

Pensando na capa…

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… e brincando no Photoshop

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Foto de Murilo Ganesh

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Rave: um fenômeno, infinitas interpretações

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on novembro 20, 2008

Para quem tiver paciência para downloads, vale a pena assistir aos dois vídeos abaixo, pra ver como um mesmo fenômeno pode ser interpretado de formas radicalmente diversas.

No primeiro, temos uma entrevista com o veterano e arguto repórter Zuenir Ventura, no programa Jô Soares. Ele andou freqüentando raves para estabelecer uma comparação entre a juventude atual e a da sua geração, pelos idos da década de 1960/70. O resultado está no livro “1968 – o que fizemos de nós” (Planeta/2008).

Nos outros dois, temos uma reportagem sobre raves produzida e veiculada pelo Fantástico, que enfoca, com propriedade, o lado, digamos, menos divertido das festas.

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A ética dos baseados ocultos

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2008

Todo mundo fuma maconha. Traduzindo “todo mundo” em números, temos algo como 160 milhões ao redor do planeta, de acordo com estimativa da Onu de 2006. Mas se eu fosse fazer um levantamento de acordo com os meus dados empíricos, diria que 160 milhões é pouco.

Conheço muita gente que fuma maconha. Conheço maconheiros de idades variadas e de classes sociais diversas. Conheço mães da família que não vivem sem doses regulares de THC no sangue. Uma delas ocupa um importante cargo executivo, e pelo menos três vezes por dia encontra um cantinho discreto das instalações de uma mega-corporação pra dar seus peguinhas.

Nem preciso dizer, portanto, que entre os organizadores de rave e seus asseclas, a boa e velha Cannabis sativa é consideravelmente popular.

Pois não é que o tão comum e disseminado cigarrinho do capeta acabou por me colocar num desagradável dilema ético.

A questão é que um dos personagens do livro é desses que consomem três, quatro, cinco, vários baseados por dia. Mas logo na primeira vez em que fumou durante uma de nossas entrevista, ele pediu que eu deixasse a substância, digamos assim, em “off”.

Eu concordei na hora, mas sem muita convicção.

Em encontros posteriores, os baseados continuaram e fui percebendo que o ato de fumar funcionava, para o personagem em questão, como uma espécie de ritual. Era algo que fazia parte da essência desse indivíduo.

Então, depois de várias entrevistas e inúmeros baseados, voltei ao assunto. Pedi permissão para citar o uso da droga no texto, argumentei que um perfil sobre ele ficaria incompleto sem citar a maconha, que havia inúmeras personalidades assumidamente maconheiras, evoquei Bob Marley, e assim por diante.

Na hora ele concordou, um pouco contrariado. Mas depois de algum tempo, em uma de nossas últimas entrevistas, voltou atrás. Explicou que não queria levantar bandeira de nada, que as raves já sofrem muito nas mãos da imprensa, e pediu que eu tirasse defintivamente os baseados do texto.

E o que fazemos numa situação dessas?

Quinta-feira, a resposta. Ou mais perguntas…

Proibição das raves: quando o legislativo age de forma clara

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 9, 2008

O deputado Fernando Capez (PSDB) é o responsável por um projeto de lei que, se aprovado, inviabilizará a produção de raves no estado de São Paulo. Ele, obviamente nem pensou em me conceder uma entrevista pessoalmente. Apenas concordou em responder algumas perguntas por e-mail (trabalho que deve ter sido feito por assessores).

De qualquer forma, ali ele afirma que seu intuito com a lei é apenas regulamentar as raves, nada de proibição.

A verdade, contudo, é que se o projeto passar, o que, acredito, não deve acontecer, a vida dos organizadores de festa ficará pra lá de complicada.

Entre as cláusulas mais absurdas da lei, está uma que estipula a obrigatoriedade de um seguraça para cada vinte pessoas, enquanto a Polícia Federal, recomenda uma média de um para cada 80 participantes.

Ou seja, do jeito que está, a regulamentação mais parece uma proibição disfarçada. Mas talvez o próprio deputado careça de certeza quanto a seus propóstios. Ouçam as sinuosas palavra do nobre Fernando Capez. Vale a pena.

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Visões antropológicas

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on outubro 2, 2008

“toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas

características de cerimônia religiosa, pois, em todos os casos ela tem por

efeito aproximar os indivíduos, colocar em movimento as massas e suscitar

assim um estado de efervescência, às vezes mesmo de delírio, que não é

desprovido de parentesco com o estado religioso.[…] Pode-se observar,

também, tanto num caso como no outro, as mesmas manifestações: gritos,

cantos, música, movimentos violentos, danças, procura de excitantes que

elevem o nível vital etc. Enfatiza-se freqüentemente que as festas populares

conduzem ao excesso, fazem perder de vista o limite que separa o lícito do

ilícito. Existem igualmente cerimônias religiosas que determinam como

necessidade violar as regras ordinariamente mais respeitadas. Não é,

certamente, que não seja possível diferenciar as duas formas de atividade

pública. O simples divertimento, […] não tem um objeto sério, enquanto

que, no seu conjunto, uma cerimônia ritual tem sempre uma finalidade

grave. Mas é preciso observar que talvez não exista divertimento onde a

vida séria não tenha qualquer eco. No fundo a diferença está mais na

proporção desigual segundo a qual esses dois elementos estão combinados.”

Émile Durkheim (sociólogo francês)

Citação extraída da tese de mestrado “Festa à Brasileira: significados do festejar, no país que “não é sério””, da antropóloga Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral.

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Paz, amor e aliciamento

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 29, 2008

É fato. Querem acabar com as raves. Há uma série de projetos de lei tramitando em diversos municípios brasileiros. As propostas são embasadas pelo argumento de que as festas constituem um estímulo ao consumo de drogas, visão compartilhada por políticos, policiais, pastores evangélicos e pais aflitos.

Mas, além desses setores mais conservadores da sociedade, há um bom número de ex-entusiastas do movimento, que hoje sequer passa perto de uma rave. Para eles, nos primeiros eventos, ocorridos há mais de uma década, havia um clima de paz, amor e comunhão, clima que se acabou quando as festas tornaram-se gigantescas e passaram a visar o lucro acima de tudo.

Numa manhã de domingo durante uma mega-rave ocorrida no segundo semestre de 2008, o organizador da festa, visivelmente embriagado de vodka com energético, travava um discurso pra lá de surreal, que ilustra bem a distância dos princípios neo-hippies das primeiras raves.

– Traz aqui. Deixa eu ver – dizia para um outro sujeito baixo, acima do peso, e com uma mancha vermelha no branco de um dos olhos, como se tivesse levado um soco.

– Mas não precisa, elas são de primeira – argumentava o do olho vermelho.

– Traz aqui. E eu quero ver – insistiu o organizador do evento até que o outro concordou e saiu andando.

Algum tempo depois voltou, cutucou o ombro do dono da festa e apontou para três meninas aparentando uns 16 ou 17 anos. Paradas no gramado, a alguns metros, as três tinham cabelos lisos compridos, usavam jeans justo, botas de cano alto, mordiscavam pirulitos e olhavam sorrindo para os dois sujeitos que discutiam.

– Não vai dar – respondeu o organizador depois de examinar as meninas.

– Pôxa meu, deixa eu subir com elas no palco, meia hora só.

– Não. Depois elas vão querer aparecer, ir lá pra frente junto com os DJs, não tem como.

– Pôxa meu, eu juro pra você, eu subo lá e quando você disser pra eu vazar eu vazo.

– Então vaza agora.

– Quinze minutos.

– Não vai dar – continuou o organizador, depois olhou para as meninas de novo, voltou-se para o outro e exclamou, como que se explicando – você podia ter arrumado coisa melhor, né?

– Ah, mas fazer o quê – respondeu o outro – é o que a gente consegue. Essas aí são fáceis. É só subir ali, encostar atrás do telão e em cinco minutos aposto que rola uma chupetinha…

Ser ou não ser: esta é uma questão

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 25, 2008

No divertido último post, Bruno e JC sugeriram que eu inserisse, no livro, a história do roubo da cerveja no puteiro.[1] Pois eu, de minha parte, tenho certas dúvidas sobre até que ponto o repórter/narrador deve se colocar também como personagem.

Através da história do tal “jornalismo-literário” há diversos exemplos de autores que se retratam como parte do enredo e de outros, que se arvoram do posto de narrador oculto. A grande graça dos textos em que o repórter se coloca como personagem, na minha opinião, é que o leitor comum, geralmente, está muito mais próximo do autor do livro, do que do objeto retratado.

É mais fácil, para o cidadão médio, se identificar com um jornalista do que: com freqüentadores de clubes swing (Gay Talese em “A mulher do próximo”), com produtores de Hollywood (Lillian Ross em “Filme”), ou com bandoleiros motorizados (Hunter S. Thompson em “Hell´s Angels”)

No “Cama de Cimento”, em momentos diversos, me coloquei como personagem. Não havia como deixar de fora as impressões de um jovem repórter de classe média que se embrenha entre os desabrigados de São Paulo.

E acredito que um dos maiores trunfos do livro é justamente fazer com que o leitor se sinta na pele de um sujeito (relativamente) normal, que passa uma noite tentando dormir ao lado de traficantes de crack, ou que se disfarça de mendigo para ser recolhido a um albergue municipal.

No “Projeto Rave”, entretanto, tenho mantido o personagem repórter um pouco mais distanciado, a não ser em algumas circunstâncias específicas, como no capítulo em que narro as sensações que tive depois de tomar um ecstasy na pista de dança de uma rave.

Acho que, como o livro será muito focado em perfis dos personagens, a interferência do narrador desviaria a atenção. No caso da história do puteiro, por exemplo. Gasto duas ou três páginas para descrever as ações de Dmitri naquele ambiente, o que deve fornecer ao leitor pistas sobre a personalidade do DJ.

E por mais que a referida narrativa agregue informações sobre o mundo do personagem, será que não seria exagero encaixar duas páginas descrevendo meus contratempos com a cerveja?


[1] Com a nova, feia e confusa diagramação da página (feita pelo WordPress, mas já posta de lado), Bruno e JC se atrapalharam, e colocaram o comentário no post anterior, mas entendi que se referiam à história do roubo da cerveja

Ossos do ofício: roubado duas vezes num puteiro do centrão

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2008

Pois então, sexta passada, lá estava eu em um puteiro do centro da cidade, na companhia de Dmitri Rugiero, fundador do núcleo de festas Mega-Avonts e importante personagem do nosso livro.

Já vou avisando, para os leitores mais conservadores do Antes da Estante, que a referida casa de tolerância, encontrava-se desativada para sediar uma espécie de rave indoor.

Ainda havia luzes de neon roxo e palcos com aqueles postes prateados, onde uma ou outra garota de biquíni se exibiu durante algum tempo, mas, para fins libidinosos tradicionais, o estabelecimento estava mesmo desativado.

Mas, enfim, vamos ao primeiro roubo: paguei 5 reais por uma lata de Skol quase na temperatura ambiente. Aliás, paguei 5 reais por várias latas de Skol quase na temperatura ambiente, porque cheguei ao local por volta das onze da noite de sexta, hora em que Dmitri abriu a pista, e não saí antes das cinco da manhã. O primeiro roubo, portanto, repetiu-se algumas vezes.

O segundo roubo aconteceu quando a madrugada já ia mais do que alta. Novamente paguei os cinco reais por uma cerveja, apoiei a lata no balcão do bar enquanto guardava a carteira no bolso e quando virei para apanhar novamente a cerveja, ela havia evaporado. Não apenas a cerveja, mas a lata também.

Olhei em volta em busca do precioso líquido dourado e, bem ao meu lado, havia um rapaz magro, baixo, usando uma camisa ridiculamente florida e com a expressão do rosto posta numa inacreditável cara de paisagem. E na sua mão, evidentemente, havia uma lata de cerveja que não estava lá antes, e que se parecia incrivelmente com aquela que eu havia acabado de comprar.

Eu me aproximei do sujeito, e com a boca quase colada na sua orelha repulsiva, perguntei polidamente:

– Você roubou minha cerveja?

Ele deu de ombros e continuou com aquela cara abobada de paisagem. Eu me aproximei mais, até quase sentir o cheiro de desodorante barato, e perguntei de novo, agora já quase afirmando:

– Você roubou minha cerveja?!

Ele então se virou com uma careta retorcida, balançou um pouco de bêbado, e esticou a lata em minha direção, simplesmente devolvendo o produto do roubo. Eu, da minha parte, lembrei dos conselhos que minha mãe sempre me dá quando freqüento puteiros: “Vê lá onde põe a boca, meu filho”.

Então simplesmente fiz um gesto de desprezo e me virei para o outro lado, apenas para topar com uma amiga do sujeito que, vendo que eu conversava com ele, achou-se no direito de também conversar comigo:

­- Você é amigo do fulaninho? – (desculpem esqueci o nome da figura)

– Não, ele só acabou de roubar minha cerveja.

– Ai, putz – exclamou a menina meio sem jeito – Ai, dá um desconto pra ele, porque, ai putz, ele é supermeuamigo, mas é que as drogas tipo comeram o cérebro dele.

Degustação: Rica Amaral toca na rave Xxxperience

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 18, 2008

Foram horas e mais horas de conversa, leituras e mais leituras de tudo o que já foi publicado sobre o DJ,  noites e mais noites apenas circulando por seu restaurante (o Chácara Santa Cecília), e uma viagem a Ribeirão Preto.

Mas, por fim, creio que temos um perfil caprichado do DJ Rica Amaral, que se espalhará por três capítulos do livro, amarrando e sendo amarrado pela história das raves no Brasil.

Abaixo, coloco três parágrafos que estarão na porção final do perfil, uma espécie de clímax da história de Rica. Os fatos narrados abaixo foram colhidos na madrugada do último dia 7, pouco depois de quase passarmos dessa para melhor, como contei aqui há duas semanas.

Depois de cruzar a aquela multidão sendo agarrado, apalpado e cumprimentado, Rica Amaral sobe pela lateral do palco e pontualmente às cinco horas da manhã, dez minutos depois de ter acordado no banco de trás do taxi de seu Zé, ele está pronto, e pergunta para uma moça da produção se já é hora de começar o set. Mas o line-up atrasou um pouco, e Rica ainda espera uns trinta minutos antes de entrar no palco, diante de um telão de uns quatro metros de altura.

Antes de assumir a CDJ, ele pede que a produção apague as luzes voltadas para a mesa de equipamentos. Explica que o DJ não pode ser um pop-star, que ele não está ali protagonizando um show de rock e que seu objetivo é fazer as pessoas dançaram, transcenderem pela música. Para isso, quanto menos aparecer, melhor.

Às cinco e trinta e três da manhã, vestindo uma jaqueta camuflada fechada até o pescoço, Rica coloca o fone de ouvido, insere um CD, ajusta alguns botões, e marca o ritmo das pancadas suaves que se iniciam, pac, pac, pac, como se seu dedo indicador fosse a baqueta do baterista virtual, pac, pac, pac e outras batidas descompassadas vão aparecendo e o pac, pac, pac continua, e a pista parece suspensa apenas esperando pelo que virá, e então, como se aplicasse um golpe de karatê, com a outra mão, o DJ anuncia a entrada do bumbo e tum, tum, tum, pronto, já era, todos estão pulando, gritando e assobiando como se fizessem parte daquela máquina musical comandada por Rica.

“Rave”

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on setembro 17, 2008

De acordo com o Michaelis:

n 1 delírio, acesso de cólera, fúria. 2 coll elogio exagerado. 3 moda passageira, novidade. 4 festa louca e animada. • vi 1 delirar, tresvariar, proferir palavras incoerentes. 2 enfurecer, encolerizar. 3 ser louco por, querer a todo custo. 4 falar com demasiado entusiasmo, elogiar exagera­damente. rave-up Brit coll festa muito louca. to rave about one’s abilities fazer alarde de suas qualidades. to rave after querer a todo custo. to rave up festejar, divertir-se.

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O repórter e o raver

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 15, 2008

Uns sete ou oito meses atrás, sentado numa daquelas mesinhas de mármore do bar do Genésio, eu conversava com meu amigo JC sobre uma idéia que começava a tomar forma na minha cabeça, uma idéia maluca e despropositada, de escrever um livro-reportagem sobre raves.

Engessado pelo esquemão quadrado da grande imprensa, onde ainda hoje está atuando, meu estimado colega se empolgou de cara e, antes mesmo que eu fosse capaz de pronunciar a palavra psytrance, pegou no meu braço, se inclinou para frente e abriu um sorriso levemente assustador:

– Cara, se torne um raver – exclamou articulando bem as palavras. – Mergulhe de cabeça nesse mundo que vai ser um livro docaralho!

Desde então, venho tentando seguir os sábios conselhos de JC. Fui a um punhado de festas e até me descambei para o interior de Goiás num ônibus fretado, em companhia de 40 malucos, para participar dos cinco dias de música ininterrupta do festival Trancendence.

Mas acho que foi só neste último fim-de-semana, mais precisamente no sábado, dia 13, que, ao menos por algumas horas, realmente me tornei um raver. Pela primeira vez fui a uma festa sem o intuito de atuar como repórter.

Até levei minha bolsa, com bloco de anotações, caneta e gravador (vai saber), mas não usei nada disso. A fim de me ajudar a manter distância segura da reportagem, consegui arrastar minha namorada e um amigo – ambos virgens no mundo das raves -, para debaixo das tendas flúor da Earth Dance. Ainda encontrei outro colega da época da faculdade por lá, este um raver ocasional.

Assim, como simples amigos num sábado à noite, participamos do ritual de abertura que aconteceu ao mesmo tempo em 300 cidades de 80 países ao redor do mundo, dançamos por umas boas horas ao som do psytrance, comemos hambúrguer de soja, fizemos compra na lojinha de roupas raver, tomamos chuva e quase atolamos o carro na volta pra casa (com o doloroso prejuízo de uma lanterna traseira, esmigalhada contra o tronco duma árvore).

Já durante o percurso de volta, contudo, o repórter voltou a dominar a situação. E enquanto tentava enxergar a estrada debaixo de uma chuva grossa que não dava trégua, tratei de cobrir meus dois acompanhantes com uma avalanche de perguntas sobre suas primeiras impressões a respeito daquele barulhento fenômeno dançante.

Expandindo os tentáculos virtuais

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 11, 2008

Na época em que o site Essential, do portal Limão, publicou aquela matéria

sobre o “Projeto Rave”, Paula Romano, a repórter que me entrevistou, propôs que eu publicasse alguns dos textos do blog naquele mesmo espaço.

Fiquei um pouco em dúvida na época, afinal o site é sobre música, e o Antes da Estante está mais voltado para o jornalismo e seus meandros. De qualquer forma, ontem resolvi fazer uma experiência e o post desta segunda pode ser lido também no Essential que, a princípio, passa a publicar um texto meu por semana, todas as quartas.

Ossos do ofício

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 8, 2008

Pouco depois das três e meia da madrugada deste domingo, encontrava-me a percorrer o quilômetro 165 da rodovia Anhanguera. Meu transporte era um táxi extremamente confortável, com direito a bancos de couro e filmes de DVD. Como companhia, além de seu Zé, divertido motorista que sabe tudo sobre a vida dos principais DJs brasileiros, estava Rica Amaral.

Já disse aqui no blog, mas não custa repetir, que Rica será um dos principais personagens do livro. Por isso, eu havia me metido naquela viagem insólita, rumo a uma fazenda de cana em Ribeirão Preto, onde ocorreria a última edição da rave Xxxperience. A idéia era observar o DJ em ação.

Havíamos saído de São Paulo por volta da uma e meia da manhã, Rica tocaria às cinco, e Ribeirão ficava a mais de 300 quilômetros de distância. Assim, não havia tempo a perder e seu Zé pilotava a uma velocidade média de 140 quilômetros por hora, alcançando picos de 160 com facilidade.

Naquela hora, contudo, estávamos mais devagar, a uns 120, porque observávamos um carro na nossa frente, que descrevia perigosos zigue-zagues na pista, como se o motorista estivesse bêbado ou cochilando ao volante. Eu viajava no banco dianteiro e Rica ia atrás, devorando um pacote de batatinhas.

Quando seu Zé diminuiu a velocidade, um pouco receoso de ultrapassar o outro veículo, Rica debruçou-se entre os dois bancos dianteiros, e por algum tempo ficamos a observar os movimentos do outro carro, torcendo para que ele não saísse da pista e se esborrachasse contra algum outro veículo.

A possibilidade era remota, porque a estrada estava muito vazia, havia duas pistas largas e lisas, separadas das outras duas que voltavam por um amplo canteiro gramado.

Nós continuávamos observando, seu Zé esperava a hora para ultrapassar, quando, subitamente, vimos uma luz estranha crescer diante de nós. O carro que ia em zigue-zague desviou para a pista da direita. Como que por instinto, sem saber do que se tratava a luz, seu Zé achou por bem fazer o mesmo. Diminuiu ainda mais a velocidade e encostou à direita, seguindo o motorista que parecia bêbado.

Foi o tempo exato para evitar o choque com um outro veículo que vinha em alta velocidade, na contra-mão. Ele passou por nós como um fantasma, sem dar sinais de luz alta, sem tocar a buzina, apenas seguindo adiante naquela velocidade vertiginosa, à espera do encontro com o inevitável.

E nós também seguimos adiante. Tudo aconteceu tão rápido que não houve tempo para sustos.

Duas horas depois, Rica Amaral tocava no palco da Xxxperience, tentando não se desconcentrar com uma garota que, debruçada nas grades de proteção diante do palco, gritava sem parar:

“Ricaaaaa, te amôÔÔÔÔ!”.

Rave na pré-história

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2008

Quando escrevia o post anterior, falando sobre as origens tribais das raves, lembrei de uma matéria que li na Folha de S.Paulo e pode ser acessada aqui.

Lá o repórter e colunista Thiago Ney, especialista em música pop, desencava uma pesquisa de um certo sociólogo britânico sobre o comportamento musical dos homens de Neandertal.

Fazendo um paralelo com o mundo moderno, o sociólogo afirma que nossos ancestrais* promoviam algo muito parecido com uma rave, em suas cavernas situadas onde hoje se encontra a França.

*ERRO MEU: conforme bem apontou o leitor Ádrio Inveriach nos comentários abaixo, os Neandertais não são nosssos ancestrais.

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