Antes da Estante

Tipos (Continuação)

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 13, 2008

Mas antes de ser pioneiro das raves e desembarcar por aqui com uma porção de preciosas fitinhas na bagagem, André fez o caminho inverso.

Ainda adepto do Rock Metal e sem ter muito contato com música eletrônica, ele viu os amigos pintarem a cara em protesto contra nosso presidente caçador de marajás, não achou a menor graça e se mudou para a Inglaterra. Dividia o apartamento com um tatuador que o ajudou a mergulhar de cabeça em um novo mundo, uma moda revolucionária undergroud que se alastrava pela Inglaterra.

Eram as festas de música eletrônica que aconteciam em sítios afastados e em prédios abandonados, produzidas por aqueles jovens que não agüentavam mais ter de ir pra casa às 23 horas, quando os pubs ingleses fechavam as portas.

A partir de então, André deixou de lado o estilo metal e tornou-se um adepto da música eletrônica. Apreendeu a fazer e a colocar piercings e, junto da horda de DJs, produtores e aficionados por festas, viajou para Goa (Índia) onde passou a morar num estúdio com uma inglesa e a vender piercings no mercado de rua, todas as quartas-feiras.

Estava lá quando os DJs europeus, fascinados com as festas na praia e com o resto da psicodelia hippie que se misturava aos ideais budistas, começaram a mixar um novo formato de musica, atualmente disseminado pelo mundo todo e conhecido como psytrance.

Participou dos primeiros festivais e hoje, com um bom tanto de orgulho na voz, ressalta que, naquela época, a Índia não estava tão infestada de Mcdonald`s e Coca-Cola como atualmente. Os festivais eram pontuados por aparições de figuras míticas.

O guru que nunca sentava, o guru que não abaixava o braço havia trinta anos e tinha o ombro calcificado e o guru que levitava em posição de lótus, misturavam-se às mulheres vestidas de sári que ofereciam comida tradicional ao som daquele novo estilo de música eletrônica.

Depois de presenciar o nascimento do psytrance, André, assim como a maioria dos outros estrangeiros, saiu pelo mundo com as tais fitinhas na mochila, promovendo festas undergroud, reuniões de cinqüenta, cem amigos improvisadas em sítios espalhados pelo planeta terra.

O clima de improviso fazia parte da filosofia das festas.

E gerava situações inusitadas como ter de descolar um gerador e um sistema de som às vésperas de um eclipse solar na Romênia. O equipamento era necessário pra alimentar uma festa que André tinha organizado com alguns conhecidos e que devia acontecer durante o tal eclipse.

A Romênia, um país minúsculo que acabava de se desvencilhar da União Soviética e só era conhecida por ser a terra natal do conde Drácula, havia sido escolhida por constituir-se no local onde a visão do fenômeno celeste seria mais privilegiada.

E lá foram os malucos que vinham direto de Goa e se meteram por aquele país escuro de paralelepípedos, mas só o que levavam na bagagem eram as fitinhas DAT.

Incumbido de arrumar o gerador, André lembra de ter tido uma longa conversa em Romeno, inglês e mímicas para conseguir a máquina emprestada com alguns operários ruivos, de quase dois metros de altura, que trabalhavam numa obra pública perto de onde a festa seria realizada.

E se valeu a pena? Noooooosssa imagina assistir a um eclipse total do sol lá nos confins da Europa, no país do Drácula, num sítio afastado e ouvindo as pancadas e efeitos piscodélicos do som de Goa!

Mas essa foi apenas uma de várias festas.

A improvisação continuava pelo mundo até que André e algumas fitinhas chegaram por aqui. E as festas não podiam parar, os amigos se juntavam, juntavam a grana para alugar um terreno, comprar umas cervejas e lá iam todos os malucos para algum sítio isolado, dançar até o raiar do dia.

As confusões também continuavam, óbvio,  e tinha vezes em que a caravana com os trancers se perdia, ninguém era capaz de dizer onde, afinal, ficava o terreno alugado, e o pessoal se cansava, encostava os carros na beira de alguma estrada de terra no meio do nada, ligava o som no talo e a festa rolava ali mesmo.

Ou o dono do terreno, que havia alugado o espaço para uma festa de uma noite, percebia que aqueles doidos, todos tatuados de dread-lock, não iriam mais embora e resolvia espantar todo mundo dando uns tiros para o alto.

Amanhã, a terceira e última parte

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E no que deu?

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 10, 2008

Atendendo ao pedido feito num post da semana passada, coloco aqui um link da LastFM onde é possível escutar gratuitamente algumas faixas de psytrance.

Aos ouvidos mais conservadores e delicados, que certamente verão no estilo traços do cruzamento de Enya com uma britadeira, vale a ressalva: a música, nas festas, pretende ter uma função quase religiosa, algo semelhante aos mantras budistas.

Como o próprio nome (transe psicodélico) já sugere, o objetivo do estilo, sempre reproduzido em caixas de som que mais parecem pequenos edifícios, é levar a um outro estado de consciência, a uma espécie de transe coletivo.

Para quem tem recursos além das ridículas caixinhas do computador, vale a pena ouvir por alguns minutos num volume de incomodar os vizinhos.

Confesso que ainda não mergulhei em nenhuma viagem dessas, mas senti uns movimentos involuntários no pescoço ao escutar algumas das faixas.

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E se a rainha não deixa seus súditos se divertirem…

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 7, 2008

No início da década de 1980, cansados das leis britânicas que obrigavam os Pubs a fecharem às onze da noite, os jovens ingleses começaram a produzir suas próprias festas que, para manter distância segura das autoridades, aconteciam sempre em sítios, afastados da cidade ou nos Squats — prédios abandonados tomados por grupos de jovens que construíam espécies de cortiço, às vezes até com apoio do governo.

Quando começaram a ganhar algum dinheiro com esses estranhos eventos, os DJs e os produtores da Inglaterra passaram a viajar para o estado indiano de Goa que, décadas antes, havia sido a meca do movimento hippie, com festas na praia movidas a maconha, LSD, rock progressivo e reggae.

Quando a tribo da música eletrônica colocou os coturnos londrinos nas areias de Goa, o clima hippie lembrado com nostalgia pelos participantes de woodstock transmutados em yuppies e sentados atrás de alguma escrivaninha em Wall Street , continuava lá, quase intacto. As festas na praia, a psicodelia, o LSD, a liberdade sexual, a filosofia paz e amor de influência budista, os gurus e as cítaras.

E a primeira coisa que os DJs urbanóides fizeram foi ligar os gravadores, os notebooks e começar a capturar tudo aquilo, a transferir os sons da índia para as DAT tapes. Sim, antes do MP3, dos gravadores de CD e da Internet de banda-larga, os meios utilizado pelos DJs viajantes limitavam-se às Digital Áudio Tapes (DAT), umas fitinhas cinzas, parecidas com as Mini-DVs mas usadas para gravar som com alta qualidade.

Eles gravavam tudo. Cítaras, mantras e crianças falando hindi, e depois mixavam, remixavam e misturavam às bases eletrônicas, dando início a um estilo de música que ficaria conhecido como o Goa-Trance.

As festas de Goa, com essa nova vertente do som eletrônico e embaladas naquele clima nostálgico do Verão do Amor, passaram a atrair cada vez mais adeptos de diversas partes do mundo.

To be continued…

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