Antes da Estante

Quando tudo está perdido…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 27, 2010

É sempre assim: quando as opções parecem ter se esgotado, quando um banco de praça ou a embaixada brasileira parecem ser a única saída, alguém aparece pra ajudar. Foi assim com Camélia e o ônibus quebrado em Roma, foi assim com a brasileira e a greve de ônibus em Ventimiglia, e foi assim com o posto de gasolina em Nice. Mas, comecemos do começo.

O começo é mais um aluguel de carro. Um Spark, modelo novo da Chevrolet que ainda não chegou ao Brasil, uma espécie de Celta com aspirações a Smart. Mas, enfim, alugamos o carrinho, passamos todo o dia percorrendo as bucólicas cidadelas medievais ao redor de Nice, até que resolvemos voltar.

E, como geralmente ocorre nas locadoras, temos de devolver o carro com o tanque cheio. Sem problemas. É só parar ao lado de um taxista, descobrir o posto mais próximo e pronto, certo? Errado. As tarefas mais simples adquirem complexidade inacreditável quando se está em um país desconhecido.

Ninguém parece precisar abastecer o carro nessa cidade e gastamos uma hora até encontrarmos o primeiro posto de gasolina em Nice. Mas, como passa um pouco das 21h de um domingo, o posto está fechado. Mesmo assim pego uma das bombas, enfio no tanque do carro e aperto o gatilho. Evidentemente que não sai nenhuma gota de gasolina. Olhamos em volta. Um leve desespero paira sobre nós.

Helô vai até a loja de conveniência, que, claro, está fechada. Cola bem o rosto no vidro e vê que há alguém lá dentro. Bate na porta. A mulher, uma negra com dentes reluzentes, se aproxima e faz um gesto com as mãos dizendo o óbvio: que a loja está fechada. Helô continua a bater na porta. A mulher segue fazendo gestos em negativa. Helô passa a esmurrar a porta. Lethea finalmente se cansa e abre a porta. Explicamos a situação a ela e pedimos, imploramos, que nos venda gasolina, mas ela diz que não tem como ligar as bombas. Perguntamos por outro posto, e ela leva as mãos à cabeça.

Trazemos o mapa da cidade. Ela olha, diz que não é boa com mapas, mas diante de nossa desolação, toma uma atitude um tanto surpreendente. Propõe-se a nos levar até o posto. Por alguns instantes tentamos dissuadi-la da ideia, dizer que não é necessário, mas logo aceitamos, mesmo por que não há outra saída à vista.

Lethea, que a essa altura já sabermos ser do Senegal, entra no carro e explica o caminho. Não é tarefa fácil seguir suas indicações, que vêm em francês, idioma que não entendo, acompanhadas de gestos, que não enxergo, já que ela vai no banco de trás. Mas depois de uns vinte minutos rodando pelo harmonioso, charmoso e garboso arruamento de Nice, finalmente encontramos um posto aberto.

Depois, como compensação, nos oferecemos para levar Lethea até sua casa, mas ela diz que tomará o trem de superfície no mesmo ponto que a gente. Deixamos o carro no estacionamento, e nos dividimos. Eu vou deixar a chave no “quick-drop” da agência, Mateus e Helô vão com Lethea pegar o trem.

Mas conforme eles caminham, Lethea começa levá-los para uma direção diferente da parada do trem. Mateus e Helô estão em Nice há três dias, e conhecem a cidade o bastante para saber que estão indo no caminho contrário. Lethea fala ao celular pela segunda vez e é o bastante para os dois começarem a desconfiar.

Helô se põe nervosa, não sabe bem como agir. Então, como quem não quer nada, pergunta a Lethea se a parada do trem não é em outra direção. Claro que sim, diz Lethea, só estava levando os dois para conhecerem alguns pontos turísticos da cidade.

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Quer moleza, senta no pudim

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 25, 2010

Nice – Deixamos Florença no meio da manhã, rumo a Nice, no Sul da França. Vamos de trem até uma pequena cidade próxima à fronteira, Ventimiglia, onde faríamos uma baldeação. Chegamos lá por volta das 17h, quando somos brindados com a soberba notícia de que, por conta de uma greve, não haverá mais trens. A estação está fechada. Simples assim.

Pra piorar, não somos os únicos. Deve haver uns 500 turistas na mesma situação, e a cidade não chega nem perto de ter infra-estrutura pra abrigar toda essa gente.

Em alguns minutos os hotéis no entorno da estação estão lotados. Taxis cobram no mínimo 100 euros (pouco de mais de R$ 200) por uma corrida até Nice, que fica a algumas dezenas de quilômetros.

Sem grandes aflições, saio em busca de alguém que me explique como chegar ao balneário de Nice. Entro num primeiro hotel e pergunto se a recepcionista fala inglês. “Français”, é a resposta. Agradeço e vou para o próximo, onde sou consideravelmente melhor recebido. Troco algumas palavras em inglês rudimentar, até que a atendente me pergunta de onde eu sou afinal. Quando respondo, ela sugere que, para facilitar as coisas, falemos português. É de Bragança Paulista, a guria.

Prestativa, ela se dispõe a me levar até o ponto onde passa o ônibus que nos levará até a fronteira. Antes, vai comigo a uma banca de jornal, e me ajuda a comprar os bilhetes. Depois vamos ao encontro de Helô e Mateus, que esperam na estação com as malas.

Chego todo empolgado e apresento nossa salvadora. Conversamos alegremente em português. Enquanto isso, parado ao nosso lado, há um garoto magro e branquelo, espiando tudo com o canto dos olhões grandes. Quando percebe que a curiosidade do moleque é ligeiramente maior do que a usual, Helô volta-se para o lado e pergunta para onde ele está indo, em português mesmo.

– Pra Nice ­­– ele responde se colocando tímido.

– Está com seus pais?

– Estão lá na estação, tentando descobrir de onde sai o ônibus.

– Então vai lá, diz pra eles que a gente sabe.

Era só a deixa que o garoto estava esperando pra sair correndo no meio dos turistas. Um pouco depois, todo orgulhoso por ter achado a solução e salvado o dia da família, Ian volta correndo seguido pelos pais carregados de malas. Durante as horas que se seguiram, viajamos juntos.

Tomamos um ônibus até Menton, onde atravessamos a fronteira a pé, cada um com sua mochila nas costas ou arrastando as malas de rodinhas feito um exército de retirantes. Já na França, tomamos outro ônibus que vai serpenteando pelas encostas da Côte D’Azur, um caminho que me lembra muito a Ilha Bela. Passamos por Monte Carlo, Mônaco e outros lugarejos endinheirados, onde tudo parece ter sido herdado de alguém.

Cinco horas depois de termos desembarcado em Vintemiglia finalmente largamos as malas na recepção do nosso hotel. As boas novas continuam. Estamos num quarto sem ar-condicionado (sendo que a temperatura beira os 40º) e sem café da manhã. Bufamos exaustos, mas falta energia pra discutir. Apenas aceitamos a situação. Subimos de elevador e quando entramos na pequena estufa onde teremos de passar a noite, topamos com uma imensa e jocosa cama de casal.

Volto à recepção. Digo ao velho senhor atendente que reservamos um quarto com três camas de solteiro, não com uma cama de casal e uma sobressalente. O homem pede desculpas, mas diz que o hotel está lotado e não há o que fazer. Tento me pôr nervoso, mas novamente não tenho energia. Subo, entro no quarto, dou uma conferida na cama. Mais uma surpresa. Há apenas um lençol forrando o colchão e um grosso edredom.

Por Napoleão, quem dorme com edredom num forno como aquele!

Desço novamente e posto-me diante do senhor da recepção. Espero ele acabar de falar ao telefone. Depois peço que ele me arrume três lençóis. Ele entra por uma porta, volta algum tempo depois, e diz que não há lençóis. Sente muito, mas não pode fazer nada. Baixo a cabeça em sinal de completa derrota. O recepcionista dá dois ou três tapinhas nas minhas costas a título de consolo. Ao menos é simpático. Não resolve nada, mas é simpático.

Depois de instalados, carregamos o que restou de nós mesmos até o restaurante mais próximo. Então vem a recompensa. Não há alegria maior do que algo dar certo depois de tudo ter dado errado. Acabamos num bistrozinho charmoso, com mesas ao ar livre, espalhadas por um simpático bulevar.

O dono e garçom, um sujeito baixo, careca e hiperativo, fala uma porção de línguas e em pouco tempo nos traz um vinho branco que desce como veludo gelado. Pedimos o prato do dia: cordeiro, batatas e legumes. Tudo fresco, temperado com sotaque francês.

Infelizmente não tenho nenhuma metade francesa na minha ascendência. Mas se tivesse, ela certamente estaria rindo da metade italiana. (ver dois post antes)

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