Antes da Estante

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

Festa Infinita na UM

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2009

E continua o espetacular maremoto que Festa Infinita vem causando na mídia brasileira. Este mês, estamos nas bancas em entrevista à revista UM.

Woodstock X Universo Paralello

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2009

Pois é, caro leitor hippie velho, lá se vão quarenta anos desde que, numa fazenda próxima a Nova Iorque, reuniu-se meio milhão dos mais malucos exemplares humanos. É isso, em agosto o lendário festival de Woodstock completou 40 anos.

E para comemorar, coloco abaixo um trecho do “Festa Infinita” que descreve o começo de um outro festival. Os tempos são outros, a música é outra, o público é outro, e a organização do evento nacional é infinitamente superior à do grande marco hippie. Mas não há como negar que há um bom tanto de Woostock no Universo Paralello.

No início da tarde do dia 29, a pista principal ainda está em silêncio, mas uma multidão já se acomoda por ali, sentada embaixo dos imensos triângulos de lycra colorida, esperando que o ritual de êxtase tenha início. Mas ao invés de emanarem das gigantescas pilhas de caixa de som, as primeiras pancadas são ouvidas à distância, e vêm se aproximando,  mas  num ritmo diferente, e então os que estão sentados têm de se levantar e abrir espaço para que o cortejo de estandartes e saias coloridas passe e se posicione no centro da pista.

Tocando tambores, pandeiros, apitos e chocalhos, o grupo pernambucano de maracatu se apresenta com repentes de boas vindas aos ravers. Todos dançam, cantam junto e tiram fotos. No céu azul, já livre de qualquer ameaça de chuva, um ultraleve colorido voa tranqüilo como se fizesse parte da apresentação. Cerca de 20 minutos depois, o grupo se despede, um deles toma o microfone e durante longos instantes faz propaganda de seu estado, e dos grupos de maracatu, até que, numa pausa mais longa, os técnicos de som cortam o seu microfone. Após alguns segundos de suspense silencioso, uma espécie de vendaval marítimo envolve aqueles milhares de pessoas, percorrendo as caixas sonoras de um lado para o outro, deixando a pista suspensa num crescendo de energia potencial, até que lá de trás vem surgindo o bumbo demarcado, que logo se propaga em irresistíveis ondas de choque e aquela euforia contida é liberada de uma vez, junto a gritos, assobios e à dança livre, frenética e incontrolável.

Ao redor, ao longo daquele quilômetro de coqueiral à beira-mar, a festa desabrocha em toda a sua magnitude. Os sanitários funcionam e o problema das fossas foi resolvido com pequenas bombas, que drenam constantemente a água da chuva, por baixo do plástico sobre o qual são depositados os dejetos. A maioria dos hippies já não está mais acampada no centro de Pratigi e, depois de conseguir ingressos a preços promocionais, expõe suas mercadorias em pontos diversos do festival. Além de posto-médico, salva-vidas, guarda-volumes, lan-house, cozinha comunitária, banheiros e duchas, há a praça de alimentação com 40 restaurantes, onde é possível comer faláfels, temakis ou um simples arroz com feijão e frango assado.

A rua de areia fofa que percorre a festa de ponta a ponta, transformou-se num movimentado bulevar em que se escuta conversas em inglês, japonês, hebraico, alemão, espanhol e outras infinitas e irreconhecíveis línguas. Milhares de almas que não param de se movimentar e de interagir em completa harmonia. São  pessoas estranhas, diferentes entre si, mas que respeitam as diferenças porque quase todos carregam mentes abertas, muitas vezes a golpes das mais potentes e diversas drogas conhecidas.

Por que ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2009

São relativamente simples os fatores que me levaram a achar a história que tenho em mãos mais adequada a uma peça de ficção, a um romance, do que à não-ficção, a um livro-reportagem.

É uma questão de adequação da trama ao veículo, ao meio, e às suas idiossincrasias. Explico me arriscando a simplificar demais o assunto, mas vamos lá.

Um livro-reportagem deve ser, sobretudo, um documento histórico-social. Deve registrar algo de relevante que esteja acontecendo no nosso tempo. Em segundo plano, deve trazer personagens que sintam, que vivam dramas e que aproximem a narrativa ao leitor.

Muitas vezes, este segundo plano é posto de lado nos livros-reportagem. Mas, para mim, um texto deve ser atraente, fluido e envolvente, e as comédias e dramas humanos acrescentam prazer à leitura.

No romance, esses dois aspectos se invertem. O mais importante é a humanidade. Fatos e dados historicamente relevantes são desejáveis, mas devem ser postos no segundo plano. Devem ser apresentados apenas para contextualizar e evidenciar a vivência dos personagens.

Pois bem, o que tenho é uma história familiar sobre uma amizade que se desenrola durante a ditadura, uma narrativa cheia de drama e paixão. O período em que ela ocorre e os fatos que a perpassam foram mais do que explorados em livros-reportagem e históricos. O que nos interessa, portanto, é mergulhar na alma dos personagens.

E o instrumento adequado para isso é o romance.

Ou não?

Primeiros passos

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2009

Como prometido no último post, coloco abaixo, a introdução do projeto do próximo livro-reportagem. A pesquisa já começou, algumas entrevistas também, mas, como fica claro pelas linhas abaixo, ainda estamos esculpindo em pedra bruta.

O ano é 1964. O Brasil tenta entender o significado do golpe que instaurou uma ditadura no país. Ainda sob a crença geral de que aquela seria uma situação passageira, militares iniciam mudanças que logo resultariam num governo tirânico, onde a tortura e o assassinato seriam práticas recorrentes.

Paralelamente, diversos setores da sociedade iniciam manobras de oposição e resistência. A política torna-se o centro das atenções. Para boa parte da juventude de então, não há como manter distância.

Nesse cenário político caótico e arriscado, dois amigos, criados em famílias intelectuais paulistanas, ingressam na Universidade de São Paulo, onde o clima é semelhante ao das ruas. Quando o assunto é política, não há meio termo. Professores e estudantes são perseguidos e coagidos por esboçar simpatia a teorias socialistas ou comunistas, enquanto outros são taxados de fascistas e reacionários por não aderirem a movimentos de esquerda.

Para os dois calouros, não há escapatória. Pelas famílias onde cresceram é dado que farão parte da oposição ao regime militar, e antes mesmo do golpe, ambos já se envolviam em manifestações, assembléias e passeatas ligadas a setores da esquerda. Com o endurecimento do sistema, contudo, a forma como cada um encara essa situação vai tornando-se diversa. A amizade entre os dois continua, mas enquanto um mergulha de cabeça em organizações de resistência envolvendo-se em atentados contra instituições militares, outro, apesar de ainda se engajar em atividades de oposição pacífica, recusa-se a pegar em armas.

Essa tentativa de preservar o vínculo de amizade separado do posicionamento ideológico, contudo, não se sustenta por muito tempo e ambos acabam se envolvendo e envolvendo as próprias famílias em um turbilhão de acontecimentos que, como tantas outras histórias dessa época, terminará de maneira trágica.

A descrição, que parece saída de um roteiro de ficção, é apenas um esboço da história vivida pelos estudantes André Gouveia, filho da escritora Tatiana Belinky, e Dario Chiaverini, filho do cardiologista Reinaldo Chiaverini e pai do autor.

André engajou-se ativamente na luta-armada através da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), participou do atentado frustrado ao quartel do II exército, em São Paulo, que causou a morte de um militar, fugiu para a Europa e acabou morto de forma misteriosa, na França. Dario nunca se envolveu diretamente na luta-armada, mas acabou involuntariamente ligado às ações de André. Sofreu consequências, foi preso (assim como seus pais) pelo DOI-CODI e ainda hoje não sabe até que ponto suas decisão de se manter afastado da resistência influenciou na morte precoce do colega.

Em homenagem ao amigo, Dario batizou seu primeiro filho com o nome de André.

O papel dos papéis

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 5, 2009

Finalização do Festa Infinita e andamos às voltas com imagens. Sim, o livro terá fotos. E coloridas, como não podia deixar de ser. Um caderno em papel  especial, com 16 páginas onde haverá, basicamente, dois tipos de foto. As primeiras são imagens de arquivo pessoal, que os personagens do livro juntaram ao longo dos anos.

As segundas, serão registros das mais diversas festas, feitos pelo fotógrafo e raver convicto, Murilo Ganesh.

Mas quando se fala em imagem – ah, a imagem, coisa mais valiosa! – a Ediouro  tem algumas restrições. Fotos onde se reconheça qualquer rosto, só são publicadas se o dono deste qualquer rosto assinar uma autorização.

Nos últimos dias, portanto, junto com Murilo, ando atrás de assinaturas. Ontem fiz uma visita a Dmitri (dono de todo um capítulo do Festa Infinita e conhecido dos freqüentadores do Antes da Estante) para que ele me autorizasse a usar as fotos que ele mesmo me emprestara para escanear.

No ano passado, durante a apuração do livro, encontrei Dmitri várias vezes. Fui à casa dele, gravei horas a fio de conversas abordando assuntos pessoais, íntimos até. Caí com ele na noite paulistana, conheci ex-namoradas e futuras namoradas(?), conheci até a mãe e os cachorros dele. Em nenhum momento Dmitri titubeou antes de abrir sua vida.

Mas ontem, quando saquei a alva folha A4 recheada de termos jurídicos, os cabelos da nuca do DJ semi-aposentado se arrepiaram. Ele leu, releu, olhou pra mim, leu novamente, depois lançou a pergunta:

–    Você não vai colocar nada que me prejudique no livro, não é?

­Eu, de minha parte, usando da mais imbecil honestidade, rebati com a seguinte resposta:

–    Espero que não.

– Espero que não!? – Dmitri exclamou com um misto de surpresa e indignação nos olhos.

Tentando concertar a frase abobalhada, me corrigi afirmando que não, não haverá nada que o prejudique no texto, e mais do que isso, que acredito que ele achará bacana o capítulo sobre sua vida. Tudo verdade, diga-se de passagem.

Ele pensou mais um  pouco, respirou fundo, e assinou com uma canetada rápida antes de me entregar o papel:

– Tá aí, vai – exclamou um pouco contrariado.

E antes que eu entrasse no carro para ir embora, ainda lançou um último aviso.

– Vê lá que eu te mato, hein – e sorriu pra tirar um pouco o peso da frase.

Errar é jornalístico

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 29, 2009

Errar. Talvez este seja o verbo mais temido pelos jornalistas. Mas não há com escapar.  O erro é inerente à profissão. Tanto que as publicações jornalísticas mais sérias mantém seções destinadas apenas à correção de deslizes.

Errar num livro, contudo, é certamente mais grave do que errar num jornal diário, num blog, ou mesmo numa transmissão de telejornal. Um livro, por mais obscuro que seja, tem incrível longevidade. Daqui a décadas alguém pode desencavar um volume num sebo qualquer e o erro estará lá, perpetuado quase eternamente.

Além disso, os livros geralmente possuem autoridade maior do que qualquer jornal. São frequentemente considerados fontes mais confiáveis, onde a informação foi checada e rechecada antes de ser finalmente impressa.

Tenho horror a erros. Sou realmente assombrado por eles. E não falo de erros de português, de vírgula ou de grafia, estes são banais e não assustam muito, apenas dão um calor na face quando apontados por um leitor amigo. O que realmente assusta são os erros de apuração. A possibilidade de publicar algo inverídico sobre a vida de alguém, algo que chegue a prejudicar uma pessoa injustamente. Disso eu tenho horror.

E quando digo que tenho horror, não estou exagerando.

Agora que o texto está pronto, às vezes eu acordo no meio da noite, lembro de uma determinada passagem, e sinto uma espécie de frio no estômago quando alguma dúvida paira sobre a precisão ou a veracidade de determinada informação.

Então passo longos minutos lembrando de onde veio aquele dado, com ele foi conferido e, caso a possibilidade de estar errado se mostre provável, penso também nas consequências do deslize.

O pior é que sei que haverá pencas de erros, imprecisões e aproximações no “Festa Infinita”. Não há livro que não os contenha. Muitos deles passarão despercebidos para a maior parte dos leitores, alguns não serão sequer identificados. E espero que nenhum seja realmente sério.

Tendo essa consciência, como leitor-jornalista costumo perdoar erros alheios. Mas não posso negar que, em alguns casos, eles podem demolir a credibilidade de um autor. No próximo post, apontarei um erro bem caprichado, que quase fez com que eu lançasse o best-seller mundial “Gomorra”, pela janela.

Dias de Universo Paralello

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on janeiro 26, 2009

Pois então, lá estava eu, metido em um quartinho espartano e mal-acabado, no distante povoado de Pratigi, em algum lugar entre Ilhéus e Salvador. A uns três quilômetros de distância, numa praia vasta e deserta, desenrolava-se o Universo Paralello, talvez a mais famosa festa rave do Brasil, que, por sinal, rejeita o título de rave. Diz-se um festival de cultura alternativa.

Pois lá estava eu, instalado só no quartinho. Dormia pouco naqueles dias. Acordava sempre cedo, antes das oito da manhã. Depois não conseguia voltar a dormir. Acordava pensando no que faltava para terminar a apuração, a última etapa da apuração de um livro que levou um ano para ser escrito.

Um ano de trabalho pensado e repensado, que agora tinha que ser arrematado em cerca de 15 dias. (O festival terminou no dia 4 e o texto final foi entregue no dia 19 de janeiro). Isso me tirava o sono, me deixava ansioso.

Eu acordava, ia até um dos poucos restaurantes locais, pedia um pão com ovo e um copo de leite quente grande. O café baiano é muito fraco para paladares paulistas, então eu levava um saquinho de Nescafé e dissolvia eu mesmo, com pouco açúcar. Tomava café em silêncio, pensando na apuração.

Depois voltava pro muquifo, ligava o ventiladorzinho e passava a manhã e o começo da tarde escrevendo o que havia visto e vivido nos dias anteriores. Antes das três da tarde, tomava um banho frio (não havia outra opção), colocava uma bermuda, amarrava uma canga na cintura, e caminhava uns 40 minutos até o Universo Paralello.

Na véspera do ano novo, fui conversar com Valney, o sujeito que alugava o quartinho.

Era sempre uma aventura falar com o homem, porque ele tinha um sotaque tão forte, e as palavras saíam tão atropeladas que eu entedia, digamos, apenas uns 40 por cento.

Mas eu fui até ele, disse que estava precisando me barbear, e perguntei se, assim, por acaso, ele não teria um espelho pra me arrumar. Não havia nada no quarto além do beliche de alvenaria. Era tão espartano, que o simples ato de pedir o espelho me fez parecer meio ridículo. Um almofadinha da cidade que precisa de um espelho para se barbear.

Se pensou assim, contudo, Valney não o demonstrou. Voltou depois de dez minutos com um daqueles espelhinhos cor-de-laranja na mão:

­­­- Tá aqui o espelho ­- exclamou me esticando o braço. – Peguei emprestado com a menina da venda. Você usa, depois devolve lá pra ela.

Ainda sobre o título

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 22, 2009

A primeira ideia era simples, objetiva e impactante: “rave”. Não há nada que descreva melhor esse fenômeno, e nada que chame mais atenção para o assunto.

Além disso, escolher título é uma das tarefas mais ingratas na elaboração de um livro e este estava fácil, à mão. O “Cama de Cimento”, por exemplo, só veio à luz após semanas de trabalho de parto. O título original, “Incômodos”, não agradou a meu editor, que pediu uma segunda possibilidade. Na época não foi fácil, mas creio que, no final, tenha ficado melhor mesmo.

O título “rave”, pelo contrário, foi bem recebido. A iniciativa de mudá-lo foi minha e ocorreu por dois motivos.

Primeiro, os mais aficionados por este universo já não usam o termo que, com a proliferação de manchetes policialescas, acabou adquirindo conotação negativa. Agora, “rave” se transformou em “festa open-air”. Eu, particularmente, acho uma babaquice ficar criando termos politicamente corretos, quando o preconceito não é voltado contra palavra, e sim contra o objeto.

O termo “mendigo”, por exemplo, foi substituído por “morador de rua”, depois, novamente, por “pessoa em situação de rua”, e a realidade desse pessoal não melhorou nada por isso.

De qualquer forma, achei que utilizar a palavra “rave” no título seria um ato de agressividade gratuita contra aqueles que colaboraram na elaboração do livro (no corpo do texto, contudo, o termo é usado sem pudores).

Essa foi uma das motivações para a mudança, mas não a única.

A palavra “rave” é um termo estrangeiro, o fenômeno não começou aqui, e eu sou um jornalista brasileiro. Assim, achei uma boa escolher um título em claro e atualizado português.

Além disso, acredito que o “Festa Inifnita” acabe por criar uma aura de mistério e curiosidade, que o assunto escancarado no título não propiciaria.

Reta final

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 12, 2009

Pois então, cá estamos nós, de volta à calorenta, fedorenta, modorrenta e amada cidade de São Paulo, depois de um longo e psicodélico mergulho no Universo Paralello. O texto está todo escrito, totalizando um orgulhoso calhamaço de 212 páginas A4, o equivalente a pouco mais de 300 páginas no formato de livro.

Agora os prazos urgem e começa a correria para conseguir publicar ainda no mês de março. Estou fazendo uma última leitura para as correções finais, e pretendo entregar a cópia definitiva entre o fim desta semana e o início da próxima.

As alterações são apenas detalhes: uma virgulhinha aqui, outra ali, mesmo porque, depois de tanto ler e reler, é impossível ter algum discernimento que permita efetuar grandes mudanças no texto. Numa leitura, determinada passagem pode parecer maravilhosa, e logo depois, figurar como a maior bosta já diagramada em Times New Roman.

De qualquer forma, quando passar às mãos da Ediouro, o texto ainda será submetido a uma revisão e será devolvido para mim, para que eu aprove ou rejeite as correções. Após este último OK, ainda é preciso encaixar tudo num projeto gráfico bacaninha, diagramar as fotos, escolher a melhor capa e só então, ufa!, encaminhar o livro para a gráfica.

Aí começa a outra etapa, de lançamentos, releases, entrevistas e o escambau.

Por enquanto, ainda estou quebrando a cabeça para escolher, vejam só, o título de nossa querida narrativa. Mais detalhes no post de quinta.

Degustação: vista de Ituberá

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 8, 2009

Em meio a toda essa confusão de ciclistas, pedintes e carros estacionados de qualquer maneira atrapalhando o tráfego há uma construção do tamanho de um campo de futebol, com teto de zinco, que abriga o mercado municipal, onde é possível encontrar, expostos em bancas de madeira apodrecida, artigos como peixe e carne seca, miúdos de boi, temperos, legumes, roupas e frutas nativas.

Num dos extremos do mercado, atrás de um balcão de azulejos brancos, o açougueiro careca e barrigudo, vestindo uma camiseta branca respingada de sangue, faz o troco de um cliente para logo depois, com os mesmos dedos cobertos de sebo, voltar a desbastar nacos de gordura. Atrás dele, um homem de bermudas e regata, usando um boné preto e com um cigarro meio-apagado embaixo do bigode, se vale de uma faca curta e afiada para destrinchar todo um quarto de boi, que descansa com as costelas à mostra, pendurado num gancho de metal. Com precisão cirúrgica ele passa a faca por regiões precisas, onde as fibras esbranquiçadas que separam os músculos abrem espaço ao simples toque da lâmina, formando grandes peças de músculo e gordura. Ele vai jogando os toletes avermelhados sobre o balcão, e o outro, usando uma faca um pouco maior, continua a aparar porções de uma gordura amarela, que vão sendo lançadas no canto do balcão, formando um grande pudim abjeto. Em pouco mais de cinco minutos, todo aquele quarto de boi encontra-se separado em peças, e só o que restou foi o osso esbranquinçado da perna que, pendurado no gancho de metal, ainda arrisca um último coice involuntário.

Ao longo do dia, principalmente aos sábados, a operação se repete em vários outros boxes azulejados e o cheiro enjoativo de sangue toma conta do mercado. Cabeças degoladas de boi são descarnadas no chão, sobre pedaços de papelão empapados de sangue. Depois, quando tudo o que restou foi o esqueleto sorridente do bicho, elas são expostas no contra-piso de cimento, para alegria e deleite das moscas.

Gastando a sola das havaianas

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 22, 2008

Escrevo este post direto da lan house Giga-net, no coração barulhento e abafado da cidade de Ituberá. E, como havia previsto no post anterior, a apuração não está saindo exatamente como o esperado.

A cidade de Ituberá encontra-se a 26 quilômetros da vila de Pratigi (onde estou hospedado), que está a cerca de três quilômetros do local onde a equipe de produção do Universo Paralello está acampada que, por sua vez, está a cerca de um quilômetro do local onde ocorrerá a festa.

Os meios de transportes são irregulares a ponto de o motorista do ônibus não saber informar os horários do dia seguinte. O jeito tem sido resolver com caronas e gastando a sola das sandálias havaianas.

E os contratempos vão além das dificuldades de transporte. Os organizadores do Universo Paralello, que haviam se mostrado extremamente abertos e dispostos a participar do projeto alguns meses atrás, encontram-se agora à beira de um ataque de nervos. Nesse ambiente tenso de produção, desnecessário dizer que a presença de um repórter se torna no mínimo indesejada.

Pra completar, vejam só, o paraíso baiano de sol e coqueiros amanheceu embaixo de chuva. E pelo jeito dessa garoa fina, parece que o clima vai continuar nojento por alguns dias.

Mas nem tudo são espinhos. Já colhi algumas histórias e cenas interessantes e, inclusive, tenho algumas páginas rascunhadas sobre três ativistas gringos do projeto Fuck for Forest, algo como Foder para a Floresta, num português claro.

O cerne do projeto é, basicamente, um site de pornografia com conteúdo pago e com recursos destinados à preservação da natureza. O divertido é que as fotos são deles mesmos (duas garotas e um rapaz), e de outras pessoas ao redor do mundo, que mandam suas performances sexuais em fotos e vídeos, como forma de contribuir com o projeto.

Além de manter o site, o trabalho dos três fundadores é, basicamente, recrutar pessoas que achem interessantes e que estejam dispostas a transar com eles, ser fotografados e ter as fotos expostas na internet.

Quem tiver curiosidade ou quiser participar, pode conferir aqui o site deles.

Adri, não se preocupe que eu, evidentemente, declinei do convite.

Em busca do Universo Paralello

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 18, 2008

Amanhã, sexta-feira, 19 de dezembro, meu laptop (Mr. Black) e eu embarcamos para o último grande desafio na elaboração de nosso livro-reportagem. Pouco depois das 10h deixaremos o aeroporto de Congonhas rumo à cidade de Ilhéus, onde teremos de descobrir uma maneira apropriada para chegar à praia de Pratigi, local em que já ocorrem os preparativos para o Universo Paralello, a mãe de todas as raves.

Mr. Black tem a difícil tarefa de agüentar a longa viagem em plena terceira idade e de lidar com elementos tecnologicamente desagradáveis como areia, sol e água salgada.

Eu, por minha vez, tenho a missão de encontrar uma forma de falar sobre o festival sem deixar o texto repetitivo. E de fazer isso em tempo recorde.

Pelo fato de ocorrer sempre durante o reveillon, o Universo Paralello acabou tendo de ficar para a última hora na ordem de apuração, o que, evidentemente não é o ideal. E, com o lançamento previsto para março de 2009, tenho de entregar o texto antes do fim de janeiro, para revisões, projetos gráficos e etc. Considerando que o festival termina no dia 4 de janeiro, concluímos que o tempo é justo e curto.

De qualquer forma, o restante do texto está pronto, redondo e no ponto, e já tenho inclusive um local esperando pelos capítulos sobre o festival baiano. Já tenho também alguma idéia da maneira que pretendo abordar a festa a fim de fugir das demais narrativas do livro. Pretendo explorar a relação entre a população de uma cidadela perdida no sul da Bahia e toda a loucura cosmopolita dos participantes do Universo Paralello.

Mas apesar da pauta pré-definida, tudo pode mudar, porque, infelizmente, não há como ir contra os caprichos e surpresas do mundo real. Está aí uma das partes mais emocionantes da profissão: as coisas nunca acontecem exatamente como o previsto.

PS: Devido a acidentes de percurso, os posts podem ocorrer com certa irregularidade daqui pra frente. Mas fiquem atentos porque certamente haverá notícias saborosas diretamente do front.

AAAaaarrrrrrrggg!

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 16, 2008

Pois bem, eruditos leitores do Antes da Estante, podem espantar o cinza de suas vidas pois estamos de volta. Esses poucos dias em que seguimos afastados, certamente devem ter figurado como toda uma era geológica para os senhores. E digo que, para este que vos escreve, o tempo também tem custado a passar.

Primeiro porque, evidentemente, esse tempo afastado não foi algo assim como férias, visto que é comprovadamente impossível manter uma distância mental mínima desta obra em andamento. Segundo, porque essa impossibilidade de distanciamento vem trazendo um desagradável sentimento de saturação.

Não posso mais olhar para o texto que meus olhos se reviram para acabar se juntando, emburrados, num ponto indefinido entre meu nariz e a cansada tela de meu notebook, o já famoso Mr. Black.

Depois, porque não aguento mais me deparar com dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs, marombados dançando na lama, destinos paradisíacos, e garotas de saias indianas fazendo malabares ao nascer do sol.

Não quero mais saber, não quero mais ouvir histórias, não quero entrevistar mais ninguém, nem quero encontrar com aquele amigo que não vejo há alguns meses e ter de responder à encantadora pergunta: “e o livro, sai quando?”.

Cansei do mesmo assunto, cansei e quero esquecer a palavra “rave” para todo o sempre.

Ufa!

Desabafo desabafado e informo aos estimados leitores que na próxima sexta, dia 19, deixo São Paulo rumo a uma paradisíaca praia ao sul da Bahia, onde passarei 20 dias cobrindo o Universo Paralello, desde a montagem até o apagar das luzes. Vinte dias de dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs e etc.

Humpf!

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 24, 2008

Pensando na capa…

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… e brincando no Photoshop

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Foto de Murilo Ganesh

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Das críticas e outros demônios (continuação)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 17, 2008

boxe_caras Uma das dicas dos manuais para tornar-se escritor (eles existem!) é não deixar que outros leiam seu texto antes que esteja finalizado. Pois eu, como não acredito em manuais (exceto aqueles que ficam no porta-luvas do carro ou que ensinam a manusear o microondas) ignorei o conselho, como conta o post anterior.

E agora que as críticas vêm chegando, sou obrigado a, apenas por um momento, dar o braço a torcer e ver algo de sensato na manutenção do texto em segredo.

Primeiro há o fato de que as críticas negativas têm muito mais peso do que as positivas. Afinal, é muito mais fácil elogiar do que apontar defeitos. Para alguém olhar nos olhos de um escritor e dizer que seu trabalho não é bom, é preciso que o livro tenha realmente desagradado. Mas quando uma pessoa encontra o autor na rua e diz que o texto é bom, ela  pode muito bem estar apenas sendo simpática e educada.

Assim, é óbvio que as críticas negativas têm mais peso. Também é óbvio que elas machucam o orgulho do autor, abalam a auto-estima e às vezes chegam até a tirar o ânimo para continuar o trabalho. Este é o primeiro fator que, ao meu ver, justifica o segredo até a publicação.

Mas há outros. Um dos principais, acho eu, deve-se ao fato de que aqueles que criticam são, assim como aqueles que escrevem, seres humanos. E seres humanos são  incrivelmente diferentes entre si. Nas críticas de leitores diversos que recebi há momentos de completa contradição. A passagem do texto que um apontou como o auge do livro, foi apontada por outro como um ponto falho. E garanto que é difícil imaginar a confusão mental que esse choque de opiniões vem provocando na cabeça deste autor.

Mas, como disse lá em cima, concordo apenas por um momento com a manutenção texto em segredo. Creio que há um ponto do trabalho em que as críticas são, sim, necessárias, e que, com elas, a qualidade da obra será superior. Vários erros e pequenas contradições do texto foram pescados por meus estimados leitores críticos.

Quanto à confusão na cabeça do repórter, bem, ela faz parte de um processo tão longo como a elaboração de um livro. Ainda mais de um livro que usa elementos artísticos (portanto subjetivos), para falar sobre fatos reais (portanto imutáveis).

E quanto à auto-estima do pobre repórter, bom, ela tem que ser suficientemente sólida para resistir às pancadas. Tem que saber se esquivar daquelas que não são merecidas e receber as que são sem ir à lona.

Agradecimentos, portanto, a Adriana Yazbek, Arpad Spalding, Bruno Bartaquini, Dario Chiaverini e João Carlos Magalhães.

Das críticas e outros demônios

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 13, 2008

O texto está pronto. Há ainda um ou alguns capítulos sobre o Universo Paralello, que serão inseridos mais pra frente, já que o festival ocorre durante o reveillon. Essa última parte terá que ser composta meio como aqueles quadros dos pintores impressionistas, que colocavam o cavalete de frente pro mar e pintavam desesperadamente rápido um único e passageiro momento.

Verdade que há sempre um pouco de imediato no jornalismo: há urgência em tornar texto os pensamentos antes que eles sejam filtrados pela memória e se tornem por demais pessoais. Muito da apuração do nosso livro foi assim. Voltar de uma rave, acordar na segunda-feira, ainda com o relógio biológico meio abobado por conta da noite em claro, e despejar todo o fluxo de informações no HD do moribundo Mr. Black (meu laptop, de tão velho, ganhou direito a nome próprio).

Mas, apesar de ser composto dessa forma passional, o grosso do texto (no caso 174 páginas no formato A4, o que equivale a umas 200 e poucas no tamanho livro) vem sendo trabalhado por meses a fio.

As informações são apuradas e reapuradas, checadas e rechecadas. O texto é lido, relido, modificado, relido de novo, invertido, cortado, expandido e relido mais uma vez, infinitas vezes. Ele é tão relido, que chega quase a ser decorado, e há momentos em que acreditamos estar fazendo uma revisão, mas, na verdade, uma boa parte daquilo que estamos lendo é automaticamente preenchida pelo nosso cérebro.

Essa proximidade simbiôntica com o texto torna imperceptíveis não apenas os detalhes gramaticais, de forma, coesão e etc, como também a própria qualidade da obra no geral. Chega uma hora que já não é possível afirmar se aquilo é bom, ruim ou apenas medíocre. O “que merda” e o “do caralho” viram irmãos, e passeiam pelos nossos neurônios ao sabor de fatores externos como humor, cansaço, ou unha encravada.

Nessas horas, há duas coisas a fazer. Colocar o texto pra descansar, e distribuir para amigos que tenham bom senso e sejam capazes de elaborar críticas construtivas.

Foi o que eu fiz. Há mais de 15 dias tenho me controlado pra não olhar para o texto, como um viciado que mantém distância das agulhas. E começo a receber as dolorosas críticas construtivas.

Continua na segunda…

Ossos do ofício

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 6, 2008

Nessa fase final da apuração, ando concentrado em checar as informações do texto. A conduta é vital para o jornalismo sério, e há diversos meios de comunicação que mantém profissionais cuja única e exclusiva função é conferir os dados apurados pelo repórter.

Aliás, a Piauí deste mês publicou o perfil de Adam Sun, um desses checadores, colaborador da revista, falecido recentemente. Quem tiver curiosidade sobre o ofício pode acessar a matéria por aqui.

No caso de um livro-reportagem, geralmente essa checagem também é feita, mas o foco está mais nas questões gramaticais do que nas informações propriamente ditas. E quando as informações tornam-se por demais especializadas, fica ainda mais complicado comprovar sua acurácia (que linda palavra esta, me senti o próprio Mino Carta!).

Assim, procuro eu mesmo conferir ao máximo os dados do texto, de preferência confrontando fontes diversas. Erros sempre passam, mas nosso objetivo é torná-los raros ao extremo.

Nesse processo, o que vem me dando mais trabalho é a história da música eletrônica, seus gêneros, subgêneros e nomenclaturas. Há muita gente apaixonada pelo assunto, e “nativos” desse universo costumam fornecer informações de acordo com suas preferências musicais, o que acaba por embananar de vez a mente deste pobre repórter.

Pois na tentativa de dirimir as dúvidas remanescentes, marquei uma entrevista com o editor da revista DJ Mag, especializada em música eletrônica.

Piti Vieira me recebeu ontem, de bom grado, mas pareceu um pouco encafifado quando tirei meu bloquinho e comecei a desfiar uma série de cabulosas e cabeludas perguntas. Ele respondeu algumas, foi prestativo, consultou arquivos em seu laptop, e me indicou outros especialistas. Mas aquele estranhamento inicial continuou até o término da entrevista.

Só quando estava indo embora, Piti esclareceu a situação. Ele achava que eu tinha ido até ele para dar uma entrevista sobre o livro, não para entrevistá-lo. Essa nunca tinha me acontecido antes.

A boa notícia é que, além de me ajudar com algumas dúvidas, Piti deixou a porta aberta para uma possível matéria, por ocasião do lançamento.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como. (Última Parte)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 3, 2008

Depois de muita insistência e de uma vasta coleção de respostas padrão negativas, finalmente uma editora havia se interessando em publicar Cama de Cimento (ver posts anteriores). Mas então, quando já era possível pensar em detalhes como capa e estratégias de venda, Quartim, o dono da editora Conex, me deu a perturbadora notícia de que a sociedade com o grupo Nobel estava sendo desfeita.

Ele mesmo não sabia fazer prognósticos precisos sobre seu futuro como editor. Todos os projetos iniciados estavam em suspenso até segunda ordem, Cama de Cimento incluso. Mais uma vez, não havia nada que apontasse para a possibilidade de publicação, a não ser o otimismo de Quartim, que, durante os meses em que fiquei a importuná-lo, não cansava de repetir.

– Calma rapaz…. As coisas acabam se ajeitando.

E, apesar da minha falta de calma, após uns quatro ou cinco meses de agonia, as coisas realmente começaram a se ajeitar. Quartim abandonou a marca Conex com o grupo Nobel e, depois de um longo período de incerteza, tornou-se um editor associado da Ediouro, um mega-grupo, dono de selos diversos (Nova Fronteira, Agir, Prestígio, etc.) e que disputa a liderança do mercado editorial brasileiro com o grupo Record.

A notícia era excelente. A simples possibilidade de ter o primeiro livro publicado por uma das maiores editoras do país, tirou o sono deste repórter por noites a fio. Mas ainda não era certeza. Para ser publicado pela Ediouro, qualquer livro tem de ser aprovado por um exigente conselho editorial, que, via de regra, rejeita a maior parte dos títulos.

Então, em uma tarde qualquer do mês de abril de 2007, atendi o meu ramal provisório na redação da Folha de S.Paulo, e do outro lado da linha ouvi a voz sempre calma e otimista de Mr. Q.

– Pode soltar os rojões, rapaz. Seu livro acaba de ser aprovado pelo conselho editorial.

Alguns meses mais tarde, lá estava eu, na refinada Livraria da Vila da alameda Lorena, autografando livros que eu mesmo havia escrito, e ainda sem acreditar em toda a montanha russa que havia me levado até lá.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como – Parte II

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on outubro 30, 2008

Quando todas as possibilidades de publicar “Cama de Cimento” (que na época tinha o título provisório de “Incômodos”) se esgotaram, resolvi apelar para São Google. Sentei diante do computador e digitei “editora” no buscador.

Passei dois dias visitando todos os sites de editora que encontrei. Entrava, dava uma conferida no catálogo pra ver se meu livro se encaixava, depois, na maioria dos casos, enviava, por e-mail mesmo, uma sinopse me apresentando e explicando do que se tratava o livro.

Mandei para umas vinte editoras, no mínimo. E recebi uma, apenas uma, única e solitária resposta que não fosse padrão. O editor Quartim de Moraes, dono de uma pequena editora chamada Conex, me respondeu com um e-mail curto que me deu vontade de sapecar um beijo na tela do computador.

Na época eu não sabia, mas Quartim era um repórter veterano. Chegara ao mundo editorial quase que por acaso, convidado, de uma hora pra outra, a fundar uma editora, a Senac, que ainda hoje permanece firme e forte estantes afora.

No e-mail Quartim pedia que, dali a dois dias, eu fosse pessoalmente lhe entregar uma cópia do livro. Se estivesse de acordo, era só aparecer, por ele já estava marcado.

Pois lá fui eu, um pouco nervoso e gaguejante, entregar o calhamaço encadernado à única pessoa que mostrou algum interesse. Com sua calma habitual, Quartim pediu que eu explicasse do que se tratava o livro, passou o polegar pela lombada como quem maneja um baralho, disse que o tema lhe interessava, mas, usando de uma dolorosa franqueza, ressaltou que tudo ia depender da qualidade do  texto.

Por fim, prometeu que me ligaria dali a mais ou menos um mês e meio, e me acompanhou até a porta.

Durante o tal mês e meio, reli o texto novamente e refiz cada frase do diálogo com o editor um sem número de vezes, sempre tentando extrair, de cada palavra, por mais banal que fosse, alguma indicação das impressões de Quartim.

Esperei mais 15 dias e nada de Mr Q. me ligar, nem mesmo para me dar uma daquelas respostas padrão. Esperei mais 15 dias. Tinha começado a trabalhar na Folha de S.Paulo na época, e o cotidiano puxado distraía um pouco a atenção.

Apesar disso, mais de dois meses depois de ter entregue uma cópia dos originais, não resisti. Mandei um e-mail para Quartim, pedindo desculpas pela insistência, mas perguntado se ele tinha conseguido dar uma olhada no texto.

A resposta veio menos de meia hora depois, em grandes letras azuladas. E dessa vez, além de ter aquela mesma vontade de beijar a tela do computador, não resisti a um alto e sonoro “puta que pariu!”, acompanhado de um soco na mesa, que fez toda a redação olhar para mim com um misto de susto e repreensão.

Quartim cobriu o texto de elogios, disse que além de bem escrito o material era um documento histórico, que tinha de ser editado e que, portanto, havia entrado na lista de publicação da Conex, para o primeiro semestre de 2007. Estávamos, então, em meados de 2006.

Mas havia um porém. Depois de fundar a Conex, Quartim tinha se associado ao grupo Nobel, e a publicação dependia do apoio dos sócios. Aparentemente não era nada que ameaçasse o projeto. Mas apenas aparentemente, porque muita água teria de rolar até que o livro chegasse finalmente às prateleiras…

… Continua segunda

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