Antes da Estante

Crônica de estreia no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on fevereiro 8, 2012

Ressaca, Michel Teló e Times New Roman

Pretendia escrever sobre um filme. Comecei até. Ia ser um texto legal, descolado, com tiradas de humor.

No final ia ter uma co-relação com o título da coluna que, como a Helena me disse com a sinceridade anabolizada por meia garrafa de vinho, não é dos melhores.

Mas eu ia escrever porque é o que gosto de fazer, porque a ideia parecia boa, porque me comprometi com um amigo. Comecei a escrever, até. Mas estava ficando uma merda.

Não uma completa merda, mas uma merda razoável. Talvez vocês lessem e achassem bacana, se divertissem, curtissem ou até, honraria maior das redes sociais, compartilhassem no mural do Facebook. Mas o fato é que estariam lendo apenas uma merda razoável.

Leia na íntegra…

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

Leia matéria na íntegra…

Avesso, no jornal A Gazeta

Posted in Avesso by Tomás Chiaverini on junho 20, 2011

Escritor se equilibra entre ficção e realidade

 Com dois livros-reportagem no currículo, Tomás Chiaverini faz sua estreia na ficção

Tiago Zanoli
tzanoli@redegazeta.com.br

Basta uma olhadela pela história de Tomás Chiaverini para perceber que ele é movido pela necessidade de estar em constante movimento, de descobrir novos lugares e diferentes personagens. Há sete anos, por exemplo, ele mal concluíra o curso de Jornalismo, quando decidiu aventurar-se pelo Norte do país à procura de histórias que lhe rendessem boas reportagens.

Passou cinco meses entre Amazonas, Pará e Roraima e, de lá, escreveu como freelancer para as revistas “Carta Capital” e “Caros Amigos” e a Agência de Notícias Brasil-Árabe.

O melhor fruto dessa experiência, no entanto, chega bem mais tarde, com a publicação do romance “Avesso”, lançado recentemente pela editora Global. Na obra, Chiaverini joga o tempo inteiro com ambiguidades, se equilibrando no tênue limite entre ficção e realidade, entre jornalismo e literatura, ao narrar (em primeira pessoa) a viagem de um jovem jornalista recém-formado pela região amazônica.

Confira matéria na íntegra…

Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Posted in Avesso, literatura by Tomás Chiaverini on março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

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Humpf!

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on agosto 27, 2010

Algum escritor consagrado cujo nome não faço questão de lembrar, disse a seguinte máxima, que é constantemente repetida como conselho a jovens escritores: “se pode viver sem escrever, não escreva”. Não sei se eram exatamente essas as palavras, mas o sentido é basicamente esse; ou seja, se conseguir fugir dessa carreira maldita, faça-o rápido, vá ser engenheiro ou médico, construir paredes, consertar ossos quebrados, vá fazer alguma coisa útil, que realmente sirva pra alguma coisa.

Pois é, caros leitores, às vezes me arrependo de não ter escutado o tal sujeito. Porque não é nada fácil avançar nesse mundo das letras. Não é bolinho passar um ano inteiro escrevendo um livro, um único livro, vertendo sangue e suor em Times New Roman, pra depois ler, num blog qualquer, as críticas demolidoras de um sujeito que nem sequer folheou o maldito livro, e que não consegue nem escrever o subtítulo sem assustadores erros de português: “o intorpecente mundo das raves”.

Não é fácil. Não é fácil ler o conselho de outro leitor, que recomenda o seu livro ao amigo, e sugere que, quando for percorrer aquelas páginas que você esculpiu com tanto esmero e carinho, o outro tenha sempre um iPod cravado nos ouvidos, bombardeando-lhe com faixas de psytrance.

Não é mole ter de encarar olhares de desconfiança e incredulidade quando, numa rodinha de desconhecidos na festa de sábado à noite, você se arrisca a confessar que até se diz jornalista, mas, na verdade, sua profissão é ser escritor mesmo.

Não tem graça nenhuma estar permanentemente torcendo para que mais alguns exemplares sejam vendidos, o que lhe garantirá alguns trocados de direitos autorais, que pingarão na sua conta dali a seis meses.

Não é nada animador ver que, em se tratando de resenhas, geralmente uma boa rede de contatos e amizades influentes vale muito mais do que um livro realmente bom. Pior ainda é ter consciência de que, ser um bom profissional apenas, não significa nada no mundo das letras. Afinal, um bom médico tem o trabalho dele garantido, e viverá uma vida próspera e feliz, com casa em condomínio, carro do ano e cachorro abobalhado; enquanto que um escritor apenas bom terá uma vida medíocre, recheada de desilusões e decepções.

Por fim, não é nada fácil encarar o longo, penoso e burocrático processo que leva um livro da nossa cabeça até as livrarias.

Mas, enfim, me desculpo pelo desabafo que, no entanto, não ocorre sem motivos. Acabo de saber que meu romance, Avesso, que tinha lançamento inicialmente previsto para este mês de agosto, depois adiado para outubro, vai ter de esperar no forno mais alguns meses. Deve sair só no início do ano que vem. Nada a fazer senão escutar os conselhos de meu estimado editor e ter paciência, muita paciência.

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A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

O vencedor eterno

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2009

Deu Cristóvão Tezza novamente. Depois de amealhar os principais prêmios literários de 2008 (Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, entre outros), o livro “O filho eterno” levou também o 6o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Em dinheiro, pelos meus cálculos, a somatória de todas as premiações deve dar mais de meio milhão de reais.

Sem lá muita alternativa, li o livro de Tezza, que é, realmente, muito bom. Em pouco mais de duzentas páginas de alto teor dramático, o escritor catarinense conta a relação de um pai com o filho portador síndrome de Down. O livro torna-se ainda mais forte quando se sabe que o autor realmente tem um filho com a mesma doença.

A despeito das inegáveis qualidades do livro, contudo, essa unanimidade na distribuição de prêmios me parece pouco saudável. Afinal, não é possível que em toda a produção literária nacional de 2008 não haja ao menos um outro livro que faça frente ao romance de Tezza.

Além disso, qualquer análise crítica, por mais embasada que seja, é extremamente subjetiva. Será possível que todos os jurados realmente tenham visto em “O filho eterno” algo de inegavelmente superior?

Não sei. A mim, me parece que temos aí um efeito manada. Não é fácil analisar cada exemplar dentre os caminhões de livros que devem chegar de todo o Brasil para um prêmio de destaque. Mais fácil, portanto, acatar a unanimidade, que, como diria Nelson Rodrigues, “é burra”.

De qualquer forma, há algo de positivo nessa concentração toda. Temos um escritor pop-star. Alguém que se tornou capaz de viver (e bem) de literatura, de dedicar-se à escrita acima de tudo, de vender livros a rodo e de criar certa comoção em torno da profissão de escritor. Tomara que Tezza cumpra a missão a contento e faça valer o poder da fama.

E se, uma vez por ano, um novo escritor brasileiro for alçado à condição de pop-star, levando pra casa uma bolada de meio milhão, talvez essa estranha atividade passe a ser levada mais a sério.

Ou não.

Por que ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2009

São relativamente simples os fatores que me levaram a achar a história que tenho em mãos mais adequada a uma peça de ficção, a um romance, do que à não-ficção, a um livro-reportagem.

É uma questão de adequação da trama ao veículo, ao meio, e às suas idiossincrasias. Explico me arriscando a simplificar demais o assunto, mas vamos lá.

Um livro-reportagem deve ser, sobretudo, um documento histórico-social. Deve registrar algo de relevante que esteja acontecendo no nosso tempo. Em segundo plano, deve trazer personagens que sintam, que vivam dramas e que aproximem a narrativa ao leitor.

Muitas vezes, este segundo plano é posto de lado nos livros-reportagem. Mas, para mim, um texto deve ser atraente, fluido e envolvente, e as comédias e dramas humanos acrescentam prazer à leitura.

No romance, esses dois aspectos se invertem. O mais importante é a humanidade. Fatos e dados historicamente relevantes são desejáveis, mas devem ser postos no segundo plano. Devem ser apresentados apenas para contextualizar e evidenciar a vivência dos personagens.

Pois bem, o que tenho é uma história familiar sobre uma amizade que se desenrola durante a ditadura, uma narrativa cheia de drama e paixão. O período em que ela ocorre e os fatos que a perpassam foram mais do que explorados em livros-reportagem e históricos. O que nos interessa, portanto, é mergulhar na alma dos personagens.

E o instrumento adequado para isso é o romance.

Ou não?

Ou não…

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 17, 2009

A pesquisa avança, entrevistas se acumulam e o tema de nosso próximo projeto adquire contornos mais claros. A nuvem de possibilidades em que se constitui um novo assunto se adensa e se aproxima da realidade. Então, de repente, as certezas tornam-se dúvidas para, no entanto, logo dar lugar a outras certezas.

Tudo isso pra dizer o seguinte: mudamos de ideia, caros leitores.

É uma mudança simples, porém radical. No lugar de um livro-reportagem, teremos um romance histórico. No lugar da não-ficção teremos a ficção baseada em fatos reais. Assim, nos libertaremos das amarras da realidade. O porquê de tão brusca mudança, explicarei amanhã.

Romance de não-ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 11, 2009

Quando lançou “A Sangue Frio”, em 1966, seu afetado autor, Truman Capote, não se satisfez em enquadrá-lo no new-journalism – gênero recém criado pelos americanos, que estava na crista da onda na época (já falamos disso aqui).  Do alto de sua incomparável modéstia, ele dizia estar inaugurando um novo gênero literário: o “romance de não-ficção”.

Quando dizia isso, Capote se referia ao fato de que, para ele, o mais importante não eram os fatos em si. Afinal, o assassinato da família Holcomb, notícia que deu origem ao livro, não ocupou mais do que uma pequena nota nos jornais americanos.

O que interessava a Capote, ia além de detalhes, motivações e sentenças. O que lhe interessava era o material bruto para contar uma história de forma magistral, para investigar o drama da existência humana, para expor a mediocridade da vida dos americanos comuns.

Ao dar as costas ao jornalismo, Capote também se livrava, em parte, do compromisso com a veracidade dos fatos. Podia, por exemplo, gastar páginas e páginas descrevendo o que uma menina pensou e fez sozinha, trancada no quarto, nos instantes imediatamente anteriores à sua morte. Não havia como saber desses detalhes, mas Capote se permitiu imaginar e escrever sem grandes pudores.

Nada disso é muito novo, verdade. Essas denominações todas, romance de não-ficção, new journalism, jornalismo-literário e etc., têm  mais a ver com o bom e velho marketing do que com inovações legítimas. Praticamente tudo o que eles faziam já era feito antes sem tanto estardalhaço. Até por aqui, o brasileiríssimo João do Rio já fazia jornalismo literário desde o começo do século passado.

Mas escrevo tudo isso porque as definições criadas pelos americanos deixaram mais claros os contornos de toda essa confusão. E porque, depois de usar e abusar de técnicas lapidadas pelo new journalism (em Cama de Cimento e Festa Infinita), estou tendendo a guinar para o romance de não-ficção.

Não pretendo de forma alguma deixar de tentar retratar os fatos como eles realmente aconteceram. Mas é certo que, no novo projeto, dados, números e construções jornalísticas perderão espaço para o aprofundamento de questões humanas, para a reconstrução do clima de uma época, e para a lapidação do texto como se ele, por si só, fosse o objetivo de toda a apuração.

Amanhã, mais detalhes sobre o novo “romance de não-ficção”.

Há vida neste blog!

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 30, 2009

Aaaarrrrgggghhhhh, estamos de volta!

Peço desculpas pelo longo tempo que estive distante, mas às vezes, ao contrário do que a amplidão da blogosfera sugere, simplesmente não temos nada de interessante a dizer. Isto posto, direi algo que é, na verdade, bem pouco interessante.

Trata-se de um aviso, àqueles que pretendem possuir a relíquia que logo se tornará a primeira edição de “Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas”. Dos cerca de 3 mil exemplares impressos, restam pouco mais de trezentos, nos estoques da Ediouro.

Há um bom tanto ainda espalhado pelas livrarias do país, mas na maioria das prateleiras, a quixotesca brochura já se tornou artigo raro. Corram, pois. Mas não se atropelem, por favor.

Como os livros são vendidos?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 1, 2009

Essa é uma pergunta que me acompanha desde que lancei o Cama de Cimento, nos idos de 2007, época distante, em que eu seria incapaz de postar este texto num blog sem ajuda de um especialista.

Esmiuçando a pergunta: o que faz com que alguém entre numa livraria e resolva comprar o livro de um autor completamente desconhecido?

E antes que você debande achando que esta é mais uma daquelas listas de perguntas não respondidas, já me adianto e digo que se acalme, caro leitor, pois, sim, eu tenho uma resposta. Uma resposta parcial. Meia resposta, talvez.

O tempo urge, o mundo roda, Lugo copula e Kim Jong-il ameaça pôr um fim em tudo isso. Mas, novamente, peço calma. Aceitando a hipótese de que você, leitor, seja parte da população economicamente ativa, ouso dizer que alguns instantes a mais, gastos neste texto cheio de malabarismos de baixa qualidade literária, não trarão grandes prejuízos para o PIB deste nosso impávido colosso.

Pois bem, um passo atrás para tentar responder a pergunta. Ou a metade da pergunta. Três quartos, diria eu. E apesar de minha matemática falha, proponho uma divisão. Não da pergunta ainda, mas dos livros.  Livros de ficção pra um lado e livros de não-ficção para o outro. Todos acompanhando? Não? Pois bem. Vamos à não-ficção.

Esses, num primeiro momento, são mais fáceis de se vender. Pelo simples motivo de que, geralmente, há uma parcela da população que tem  interesse específico pelo assunto retratado. Tomemos o exemplo deste que vos escreve.

No caso do meu primeiro livro, Cama de Cimento, calculo que haja algo como 13,7 sociólogos que se interessem pelo tema retratado, a população de rua (que a maioria dos mortais quer mais é esquecer). No caso do segundo, Festa Infinita, há centenas de milhares de ravers que podem ser vistos como potenciais interessados.

Aí temos, portanto, metade da pergunta respondida. Os interessados entram na livraria, se deparam com seu assunto predileto e se arriscam a comprar.

Agora vamos ao outro um quarto. Que não é um quarto de verdade, porque agora podemos juntar tudo novamente. Ficção e não-ficção. A coisa está ficando um pouco confusa, mas não importa. A essas alturas acho que não há mais ninguém me acompanhando. Textos para a internet têm de ser curtos e objetivos, não longos e confusos como este.

Mas, agora não há remédio. Vamos até o final. Juntamos tudo. Porque, por mais ravers que haja no Brasil, acho pouco provável que eles compareçam em massa às livrarias e façam o livro se tornar um sucesso de vendas. Para isso, é necessário que o livro rompa a barreira de seu circulo de aficionados. É preciso que atraia leitores que se interessem apenas pela leitura, como no caso dos livros de ficção. É isso. É preciso atrair pessoas que gostem de ler. Ponto. Aí voltamos ao um quarto da pergunta, ou da resposta, mas que, na verdade, não é um quarto, porque juntamos tudo. Santos contorcionismos mentais, Batman!

Mas, enfim, há alguns seres estranhos que realmente entram na livraria e compram um livro de um autor desconhecido. Seja ele de ficção ou de não-ficção. Essa é a parte que vai ficar sem resposta.

A outra forma de se vender livros é através daquilo que os marqueteiros chamam de mídia espontânea. Matérias sobre o livro. Exemplo disso é o estrondoso sucesso de Chico Buarque no mundo das letras. Não que ele não o mereça, nem tenha talento para isso. Mas, num primeiro momento, seus livros vendem porque ele é o Chico. E o simples fato do Chico lançar um livro é notícia.

Nós, que não somos o Chico, vamos nos espalhando em notas, entrevistas e resenhas. Nada de capa da Ilustrada, mas muitos textos bacanas. Desde o lançamento, toda semana sai alguma novidade sobre o livro. Algumas, bem bestas. Outras pra encher a gente de orgulho, como esta, escrita por Luiz Felipe Carneiro, jornalista carioca especializado em música.

Ufa, esse foi difícil! Alguém teve a manha de chegar ao final junto comigo?

J.M. Coetzee

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on maio 28, 2009

Alguns posts atrás, falava eu sobre o fascinante mistério feminino que paira sobre os contos de Miranda July. Depois, como também disse na ocasião, embarquei em outros contos, da nossa Lygia Fagundes Telles. Também femininos, apesar de um pouco mais duros. Mas me agradaram.

Assim, estava eu em meio a toda essa faceira feminilidade literária, quando, na semana passada, resolvi mergulhar no romance “Juventude”, do prêmio Nobel moçambicano, J.M. Coetzee. Já estava em falta com o sujeito fazia tempo e essa foi minha estréia no mundo deste, que é considerado um dos maiores escritores vivos.

E nossa!, quanta masculinidade. Não aquela masculinidade rude de Hemingway, Bukowski, Henry Miller. Nada de bebedeiras, pescarias, touradas ou trepadas em banheiros de bar (desculpem senhoritas).

A masculinidade de Coetzee está na sua inteligência cartesiana. Frases curtas, que se encadeiam numa lógica precisamente matemática, que reflete a profissão do personagem principal, um programador de computadores. Um programador com aspirações a poeta (e talvez a prêmio Nobel). Mas um programador, em 1960, uma época em que computadores eram coisa de ficção científica.

O livro é curto (184 páginas), enxuto, ágil. Uma pequena obra-prima. Mas, como bem observou uma leitora, há algo de excessivamente mental na narrativa. Excessivamente masculino, talvez. Não concordei quando estava no meio do livro. Mas quando terminei, tive a impressão de que o autor forçou um pouco a mão. Quando tudo na narrativa levava para algum tipo de redenção, ainda que modesta, a poderosa mente literária de Coetzee puxa o freio. Nos dá o final esperado, amargo, masculino.

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Avante!

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on maio 14, 2009

Pois então, caros leitores do Antes da Estante, o atormentado, suado e despudorado texto do post anterior tem grandes chances de ser o início de uma nova etapa. É isso. Enquanto o Festa Infinita se afasta para o mundo, ofereço-lhes, em primeira mão, os três parágrafos que deverão abrir meu primeiro livro de ficção.

É um romance, já tem começo, meio e fim, e estende-se por pouco mais de 180 páginas. Escrevi o primeiro rascunho há cerca de quatro anos, e desde então venho trabalhando nele de forma intermitente.

Durante um ou dois meses, releio, reescrevo e lapido alguns trechos. Depois deixo descansando, para retomar o processo mais tarde. Esses períodos de trégua são importantes, pois permitem um maior distanciamento crítico do texto, e também dão tempo para que o autor amadureça, adquira novas referências na literatura e no mundo.

Agora, quando o burburinho entorno do Festa Infinita vai diminuindo, peguei novamente no texto que esteve parado por quase um ano. Tenho mudado muita coisa. E acho que estou saindo com a versão definitiva que, se tudo der certo, logo estará numa livraria perto de você.

Uma estranha moça chamada Miranda July

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on maio 7, 2009

Ah, as mulheres, suspirei eu ao terminar a última página de um fascinante livrinho chamado “É claro que você sabe do que estou falando”, escrito por Miranda July. Elas são tão poucas nesse mundo das letras, pensei comigo mesmo, mas quando se metem a escrever, nossa!, fazem a diferença.

Depois lembrei das últimas com as quais mantive certa intimidade (intimidade literária, deixemos claro). Clarice, evidentemente, Marguerite Duras, e até Charlotte Roche, aquela guria de gosto duvidoso, que escreveu o best-seller “Zonas Úmidas”. Com esta última, confesso que tive apenas um flerte rápido, num daqueles pufes da livraria Cultura do Conjunto Nacional.

São poucas mesmo, concluí. E voltei a pensar em Miranda, e no que realmente me fascinara no seus contos. Não consegui ir muito longe, porque, infelizmente, fui equipado apenas com um tosco, lógico e limitado cérebro masculino. Mas cheguei à vaga conclusão de que o fascínio vinha justamente desse olhar incrivelmente feminino. Um olhar tão feminino que chega a distorcer nosso embrutecido mundo masculino. E essa distorção vai criando uma aura de estranhamento que talvez seja a maior qualidade do livro.

Eu já havia tido contato com o trabalho da moça, no filme “Eu, você e todos nós”, escrito, dirigido e protagonizado por ela. O filme, estranhíssimo, também me fascinou na época, mas, enfim, é cinema, duas horas e pronto, vamos tomar um café, pensar em outra coisa.

Agora, reencontrar toda aquela estranheza durante alguns dias, é outra história. No fim, acabei pegando tanto gosto pela coisa, que corri até a prateleira da Dri e me muni de dois volumes de Lygia Fagundes Telles. Até agora estou satisfeito. Não é nada tão femininamente bizarro como Miranda, mas há algum estranhamento.

PS: a fim de não cobrir meus estimados leitores de tédio, me arriscarei a uma maior diversificação no assunto dos posts. Em breve é provável que tenhamos mais mudanças no Antes da Estante.

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