Antes da Estante

A ética dos baseados ocultos

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2008

Todo mundo fuma maconha. Traduzindo “todo mundo” em números, temos algo como 160 milhões ao redor do planeta, de acordo com estimativa da Onu de 2006. Mas se eu fosse fazer um levantamento de acordo com os meus dados empíricos, diria que 160 milhões é pouco.

Conheço muita gente que fuma maconha. Conheço maconheiros de idades variadas e de classes sociais diversas. Conheço mães da família que não vivem sem doses regulares de THC no sangue. Uma delas ocupa um importante cargo executivo, e pelo menos três vezes por dia encontra um cantinho discreto das instalações de uma mega-corporação pra dar seus peguinhas.

Nem preciso dizer, portanto, que entre os organizadores de rave e seus asseclas, a boa e velha Cannabis sativa é consideravelmente popular.

Pois não é que o tão comum e disseminado cigarrinho do capeta acabou por me colocar num desagradável dilema ético.

A questão é que um dos personagens do livro é desses que consomem três, quatro, cinco, vários baseados por dia. Mas logo na primeira vez em que fumou durante uma de nossas entrevista, ele pediu que eu deixasse a substância, digamos assim, em “off”.

Eu concordei na hora, mas sem muita convicção.

Em encontros posteriores, os baseados continuaram e fui percebendo que o ato de fumar funcionava, para o personagem em questão, como uma espécie de ritual. Era algo que fazia parte da essência desse indivíduo.

Então, depois de várias entrevistas e inúmeros baseados, voltei ao assunto. Pedi permissão para citar o uso da droga no texto, argumentei que um perfil sobre ele ficaria incompleto sem citar a maconha, que havia inúmeras personalidades assumidamente maconheiras, evoquei Bob Marley, e assim por diante.

Na hora ele concordou, um pouco contrariado. Mas depois de algum tempo, em uma de nossas últimas entrevistas, voltou atrás. Explicou que não queria levantar bandeira de nada, que as raves já sofrem muito nas mãos da imprensa, e pediu que eu tirasse defintivamente os baseados do texto.

E o que fazemos numa situação dessas?

Quinta-feira, a resposta. Ou mais perguntas…

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