Antes da Estante

O charme retrô dos bigodes de Levy Fidelix, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 3, 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro – com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

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Conheça a rede de TV árabe Al Jazeera, na edição 49 de Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2011

 As Batalhas da Al Jazeera

A emissora árabe, que ficou famosa após divulgar vídeos de Osama bin Laden, foi bombardeada pelos EUA, teve um cinegrafista preso em Guantánamo por sete anos, desempenhou papel determinante nas recentes revoltas do Oriente Médio e recebeu elogios de Hillary Clinton

por Tomás Chiaverini

NO INÍCIO DE  2003, a Guerra do Iraque monopolizava o noticiário internacional. Sob o argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, o governo de George W. Bush iniciara uma pesada ofensiva contra o país árabe. A operação avançou rapidamente e 20 dias após o início do conflito tropas norteamericanas cobriam a cidade de Bagdá com uma intensa chuva de mísseis.

No escritório da rede de TV Al Jazeera na capital iraquiana, ouvia-se uma interminável sequência de explosões e disparos, como se a guerra fosse invadir o local a qualquer momento. Enquanto parte da equipe da emissora queria subir ao telhado do prédio para registrar a troca de tiros, o produtor sênior Samir Khader continha os ânimos, pedindo que esperassem o combate se afastar. Durante algum tempo, técnicos, produtores e repórteres apenas ouviram os estrondos e estampidos. Quando o conflito pareceu arrefecer, Khader ordenou que o correspondente Tarek Ayub e um operador de câmera subissem à cobertura.

Minutos mais tarde a transmissão teve início, mas tudo que se via na sala de edição era a imagem do correspondente sentado no chão, com as costas apoiadas contra uma barricada de sacos de areia. Usava um pesado capacete de combate e um colete à prova de balas azul-escuro, que lhe cobria o tronco até o pescoço. Trazia no rosto uma expressão tensa, mistura de medo, incompreensão e ansiedade.

Da sala de controle, o editor ordenou ao cinegrafista que deixasse de filmar o repórter, voltasse as lentes para a rua e procurasse mostrar cenas do bombardeio que destruía a cidade. O técnico obedeceu e passou a procurar imagens aleatoriamente.

Enquanto isso, outro corresponde da Al Jazeera na cidade, ao telefone com um editor, avisou que um caça norte-americano se aproximava da emissora com o nariz baixo, numa manobra característica de ataque. O cinegrafista que estava com este segundo correspondente acompanhou o voo rasante da aeronave e registrou o momento em que três pequenos pontos incandescentes se desprenderam do caça. Três mísseis lançados simultaneamente. Um deles atingiu em cheio o telhado do escritório da Al Jazeera, matando na hora o correspondente Tarek Ayub e ferindo o operador de câmera.

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Confira o site da Retrato 

O trabalho dos flanelinhas, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 17, 2011

Se Essa Rua Fosse Minha

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público

Por Tomás Chiaverini

É noite no bairro boêmio da Vila Madalena,em São Paulo. Um“x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.

Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta,em São Paulo. Seudomínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

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Na revista piauí deste mês

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

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Outro lado

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 23, 2010

Florença – Depois de falar tão mal da comida italiana no post anterior, e sabendo que em breve farei mais críticas ao italian way of life, sinto-me na obrigação de ressaltar alguns pontos positivos.

O sorvete fez valer a fama. Provei vários, e nenhum decepcionou. Houve alguns casos de considerável deleite, como quando nos arriscamos a um engodo turístico, no Café Vivoli, tido por certos críticos como a melhor sorveteria do mundo. Sempre que topo com dizeres como “o melhor do mundo”, tendo à desconfiança. Mas nesse caso o pé atrás felizmente não se justificou. O sorvete de pistache (que não tem corantes nem aditivos por isso é bege e não verde) talvez tenha sido realmente o melhor que comi na vida.

Presunto cru e mussarela fresca também não fizeram feio. As frutas, em especial pêssegos e cerejas, expostas em vendas na calçada – onde é pecado dar aquela apalpadela tão dona-de-casa-brasileira – são baratas, graúdas e suculentas.

Além disso, tive surpresas agradáveis em algumas bibocas e botecos. Num deles, uma portinha de garagem em Roma, comi um enroladinho de linguíça, batata e espinafre que talvez tenha sido o melhor da Itália em termos gastronômicos.

Por último, mas certamente não menos importante, temos o vinho. Em todos os restaurantes em que chegávamos, a primeira coisa era pedir um vinho da casa, geralmente branco por conta do calor. E nunca, nem nos locais mais turísticos, me serviram algo que não fizesse frente aos chilenos e argentinos vagabundos com os quais estou acostumado.

Isso me faz pensar que talvez haja salvação para este país.

Bate-e-volta na Áustria (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 20, 2010

Silian – O posto de fronteira entre a Itália e a Áustria não passa de um guichê de metal enferrujado, vazio e abandonado. Provavelmente está sem uso desde o estabelecimento da União Européia. Depois da fronteira, onde não temos de parar ou mostrar qualquer documento, seguimos por uma série de pequenos povoados, bucólicas cidadezinhas espalhadas por verdes pradarias, cercadas por montanhas que, no inverno, atraem esquiadores de todo o Velho Mundo.

Passa um pouco das cinco da tarde, os sanduichinhos e cerejas já não passam de uma remota lembrança, por isso encosto o carro ao lado do que, para meus olhos brasileiros, se parece com uma típica estalagem austríaca. Atrás do restaurante e pousada, encarapitado no alto de um morro não muito alto, há um imponente castelo medieval.

Helô e Mateus esperam no carro enquanto saio para explorar o ambiente. Vou me esgueirando devagar pela entrada ampla do casarão. As tábuas antigas do assoalho rangem a cada passo e não há ninguém no primeiro salão. Entrepidamente sigo adiante.

No segundo salão também não há clientes nas mesas. Mas no final do balcão do bar, ao lado de uma imponente máquina de cerveja, um senhor magro e comprido me fita com ar de curiosidade. Descansa o braço direito sobre o tampo de madeira escura, a mão acariciando de leve um avantajado copo de cerveja. Entre os dedos médio e indicador, um cigarro queima preguiçosamente, liberando uma fita esbranquiçada de fumaça.

Quando paro diante do balcão ele levanta-se solenemente e me saúda com um sorriso cordialmente simpático. Peço para olhar o menú, e ele diz que a cozinha só abrirá em meia hora. Mas, ao contrário do que provavelmente aconteceria se estivéssemos na Itália, o estalajadeiro me diz isso de forma extremamente cortês e acolhedora. Tanto que me sinto à vontade para arriscar algumas frases em alemão (idioma que, diga-se de passagem, não sei falar). Para minha surpresa elas são compreendidas.

Quando pergunto se podemos tomar uma cerveja enquanto esperamos, ele me responde como um sorriso afirmativo de cumplicidade. Sinto que acabei de firmar uma amizade genuína. Vou até o carro, chamo Mateus e Helô e pouco tempo depois estamos refestelados nas cadeiras acolchoadas, cada um diante de uma caneca com meio litro de cerveja austríaca.

O estalajadeiro, cujo nome vergonhosamente esqueci, informa que estamos no povoado de Silian e, com um misto de orgulho e tristeza, conta que o castelo no topo do morro pertenceu a sua família, mas foi vendido há alguns anos.

Depois pacientemente nos ajuda a decifrar o cardápio. Pedimos um prato para duas pessoas, que serve a nós três com folga: bisteca de porco, frango empanado, linguiça, bacon, legumes cozidos, batata, bolinhos variados, arroz e frutas.

Simples e saborosa, a refeição é uma bênção diante das frustrações gastronomicas dos últimos dias. Em pouco mais de uma semana, a melhor comida que comi na Itália, foi na Áustria (voltarei ao assunto em breve).

Pra completar o banquete, café e um strudel de mação com nozes que vem fumegando, direto do forno, acompanhado de uma generosa porção de chantili. Massa aveludada de manteiga, pedaços de maçã envoltos numa calda não muito doce, pontuados por minúsculos grãozinhos de nozes moídas.

No final do cardápio há detalhes sobre a hospedaria que funciona naquela mesma casa. Um quarto de 70 metros quadrados, com direito a cozinha e lavanderia, sai mais barato do que a espelunca que nos aguarda em Veneza. Por alguns instantes consideramos a hipótese de passar mais alguns dias naquela cidadela perdida entre as pradarias austríacas, mas temos um planejamento a seguir.

Duzentos quilômetros e algumas horas depois estamos novamente nas imediações de Veneza. Quando faltam cerca de 20 minutos para chegarmos ao local de devolução do carro, paro num pedágio e passo alguns longos instantes brigando com a máquina de cobrança. Marrenta e mal-educada, ela cospe meus cartões de crédito e desdenha de nossas cédulas amarfanhadas. Só se dá por satisfeita quando lhe alimentamos com uma interminável coleção de moedas, a muito custo garimpadas nos bolsos, bolsas e pochetes.

Ando alguns metros depois que a cancela se abre, mas logo sou obrigado a parar novamente, diante dos acenos de um Carabinieri que certamente desconfiou de tanta dificuldade com o pedágio. Lembro do meio litro de cerveja que, há algumas horas, desceu despreocupadamente por minha goela abaixo.

Continua …

Bate-e-volta na Áustria (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Veneza – Alugamos um carro. Pedimos o mais simples que tinha e levamos um Citroên C3 com ar, direção e computador de bordo. Ainda acho que não há forma tão divertida de viajar quanto de carro (de moto, talvez, mas creio que em pouco tempo eu acabaria me estropiando). São raros os meios de transporte que propiciam tanta liberdade e interação com o mundo.

Vamos ainda mais para o norte da Itália, até Cortina D’Ampezzo, uma cidadezinha conto-de-fadas com casas de telhado pontudo, cercada por montanhas de dolomita ­– formação rochosa com enormes escarpas cor de areia, que mudam a tonalidade ao longo do dia.

Caminhamos um pouco por trilhas no entorno da cidade, comemos uns sanduíches surrupiados mais cedo do café da manhã no hotel, e compramos cerejas e amoras numa venda onde tudo parece pedir uma dentada.

Depois voltamos para o carro e vou dirigindo meio sem rumo, por uma estradinha sinuosa que se espreme entre as montanhas, cantando aquela canção tradicional dos viajantes italianos: la donna è mobile, con vostro automòbile!

A temperatura vai caindo conforme a altitude aumenta, o que é extremamente agradável para nós, que passamos os últimos dias derretendo num calor de mais de 30º. No alto das montanhas, além do verde claro das copas dos pinheiros, é possível avistar manchas brancas de neves eternas. A estrada é tão bonita que continuamos em frente, meio sem rumo até que começamos a notar certas peculiaridades à nossa volta. A primeira delas: “Pizzaria Hans”. Depois, as placas de trânsito passam a apresentar-se em italiano e alemão.

Encafifado com a situação, paro no acostamento, diante de um lago de pacatas águas azuladas. Me aproximo de um senhor de idade que, vestindo um chapéu de feltro verte, recolhe seu equipamento de pescaria. Usando todos os meus recursos linguisticos (que, necessário deixar claro, não são tantos) pergunto que país é aquele afinal.

Ele parece um tanto surpreso com a pergunta, o que é bastante compreensível. Mas por fim, misturando italiano, alemão e inglês, me explica que estamos na parte sul da região conhecida como Tirol. Ainda na Itália, mas muito perto da fronteira com a Áustria. Mudo meu repertório lírico de la donna è mòbile para aquela velha canção tiroleza: tira o lei-í-ti, e vou adiante.

Antes de dar a partida novamente no nosso levemente afeminado C3 branco, nos entreolhamos os três com a mesma ideia em mente: vamos para a Áustria.

Veneza

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 15, 2010

Veneza ­– Nunca estive numa cidade tão bonita como Veneza. As ruas de pedra são ladeadas pelas fachadas antigas das casas, hotéis e restaurantes que se emendam uns nos outras formando uma espécie de muro cheio de becos e esquinas. Algumas dessas vielas medem apenas meio de largura, outras têm passagens em túneis por debaixo de prédios de tijolo aparente.

Eu, que já sou naturalmente perdido, só ando por aqui com o mapa na mão. Mas turistas andando assim, com o mapa aberto a um palmo do rosto, estão por toda a parte em Veneza. E mesmo quando o mapa não é suficiente, não há grandes problemas. É um prazer estar perdido em Veneza.

Ao contrário do que se fala, a cidade não fede a esgoto, pelo menos não nessa época. Os canais de água esverdeada parecem consideravelmente limpos, e cheguei a ver peixes num deles.

As ruas também são quase todas impecavelmente asseadas. Há vasos de flores nas janelas, e, nos canais, os postes para amarrar barcos são pintados em espirais coloridas, como pirulitos gigantes.

Às vezes tenho a impressão que estou numa cidade cenográfica. Sentimento parecido ao que experimentei nas vezes em que estive, por exemplo, em Parati ou em Tiradentes; de que há uma porção da cidade conservada e maquiada, com função exclusivamente turística.

Mas em Veneza é diferente. Primeiro porque o centro histórico é enorme em comparação com as outras cidades. Não sei dizer se é possível percorrer todo ele a pé. Além disso, a cidade realmente acontece por aqui. Há pessoas morando, donas de casa pendurando a roupa no varal, jovens ragazzas levando o cachorro pra passear e funcionários públicos fazendo a leitura de água e gás.

O império contra-ataca

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 13, 2010

Roma – Roma está sempre ali, gritando, exigindo atenção. Não é possível caminhar por suas ruas ou calçadas sem que, a cada passo, a alma da cidade se faça presente. Certamente isso se deve em parte ao fato de eu ser turista, mas tenho certeza de que essa sensação está presente mesmo nas pessoas que nasceram na cidade.

Para onde quer que se olhe, obras de arte espocam na retina fazendo com que depois de algum tempo, a beleza elegante e inequívoca das esculturas renascentistas se torne algo corriqueiro. Mas não é. O paralelepípedo onde você tropeça ao passar da faixa de pedestres para a calçada provavelmente já estava ali quando Michelângelo ainda usava fraldas, e ensaiava suas obras primas esculpindo na papinha de bebê.

Tudo é história, tudo é único e singular, e tudo parece remeter ao tempo em que se comandava o mundo daquela cidade. Os romanos sabem disso e a cada gesto fazem questão de deixar claro que são os habitantes da sede do extinto império romano. Aliás, a julgar por sua altivez prepotente, para um número considerável de romanos, o império ainda não acabou.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 4)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 11, 2010

Roma – Gina abre a porta sorridente, diz que estava preocupada, pergunta por que demoramos tanto e nós contamos nossas aventuras no transporte público italiano. Gina e eu estudamos juntos por oito anos, da primeira série ao final do colegial. Nunca fomos amigos muito próximos, mas sempre nos demos bem, e esse tempo todo de convivência nos conferiu alguma intimidade e nos livra de silêncios desconfortáveis.

Gina vem de uma família deliciosamente maluca, um matriarcado comandado por Loira, uma cenógrafa mundialmente famosa por promover festas incríveis na sua casa da Granja Viana. Helô sempre foi amiga da Loira, e nossas famílias passaram algumas férias juntas.

Uma vez, na Bahia, estávamos todos na praia, num dia comum. Loira olhou um barco que se preparava para zarpar, voltou-se para Helô e perguntou se a traineira ia para a ilha de Boipeba. Antes de ouvir a resposta, vestindo um biquini apenas, ela mergulhou no mar, nadou algumas dezenas de metros e subiu a bordo. Boipeba ficava a cerca de quatro horas de viagem e Loira só voltou no dia seguinte, com a naturalidade de quem foi até a padaria.

Gina puxou um bom tanto da excentricidade e desprendimento da mãe, e há anos mora sozinha num pequeno apartamento em Roma. É uma joalheira realmente talentosa e, pra complementar a renda, trabalha como garçonete duas noites por semana num restaurante exatamente embaixo de sua casa.

Nesses primeiros dias, ficaremos divididos. Eu durmo num sofá-cama na Gina, Helô e Mateus num quarto de hotel no mesmo andar. O prédio todo já pertenceu ao lado paterno da família de Gina. Aos poucos os apartamentos foram sendo vendidos e agora só sobrou um, que foi subdividido. A parte maior está alugada e a menor, com pouco mais de vinte metros quadrados, é onde minha ex-colega vive atualmente. Um lugarzinho ajeitado, com móveis antigos, flores na janela e paredes recobertas por recortes de revista.

Depois de instalados descemos para comer. Estava seco pra me esbaldar numa bela e tradicional pizza marguerita genuinamente italiana, mas tenho que ceder ao convite de Gina, para jantarmos no restaurante onde ela trabalha.

Que seja. Que venha uma garrafa de vinho branco gelado pra aplacar o calor de trinta graus, e o que tiver pra acompanhar alguns nacos de pão (genuinamente italiano).

Sentado numa mesa na calçada, olho em volta e não há nada realmente excepcional na paisagem. Apesar disso, tudo ao redor, os copos, a toalha, a calçada, os carros e as sacadas velhas do prédio baixo do outro lado da rua parecem gritar para mim: “hei, atenção, você está em Roma!”

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 8, 2010

Roma – Um indiano vem andando depressa lá do fundo do ônibus, esbarrando em todo mundo que está de pé. Veste uma camisa branca de um tecido rústico, amarronzada de encardido ao redor do pescoço e axilas.  Aproxima-se do motorista e despeja sobre ele uma avalanche de palavras completamente incompreensíveis para mim.

O motorista volta-se para ele, ergue a mão e chacoalha os cinco dedos fechados voltados para o queixo, num gesto teatral tipicamente italiano. Depois cospe uma ou duas frases num tom que, de tão agressivo, acaba por acalmar o indiano. Ele diminui a intensidade de suas reclamações, mas resmunga mais um pouco antes de voltar contrariado ao seu lugar.

Mateus me diz que, pelo que entendeu, o homem havia deixado uma bolsa sobre o assento e outro passageiro se apossara dela. Queria que o motorista intervisse a seu favor.

Quando a discussão termina, passo algum tempo observando o motorista. A maneira como usou de violência e agressividade para desarmar seu oponente me causa um fascínio desconfortável, semelhante ao que tinha quando via o Tyson lutar, por exemplo. E conforme o observo, percebo que essa agressividade parece permear aquele sujeito por inteiro.

A forma como dirige, numa velocidade ligeiramente superior à que parece segura; a forma como fala ao celular, acompanhando as palavras com gestos da mão direita; a forma como se veste, com a calça de microfibra azul arregaçada até o joelho por conta do calor.

Quando olho para o relógio exagerado que o sujeito usa, levo um susto. O sol brilha forte lá fora, mas já são quase nove horas da noite. O fato de ser tão tarde traz alguma preocupação, que se desdobra em outras: Não temos clareza de como faremos para chegar ao nosso destino, por exemplo. Sabemos que em algum momento teremos de tomar o metrô, mas quase nada além disso.

Lançando mão de um idioma que imagino assemelhar-se ao Esperanto Helô conversa com a mulher que viaja ao seu lado. Em poucas frases descobre que ela terá de passar perto do nosso destino, e que se dispõe a nos guiar.

A boa samaritana chama-se Camélia, é natural da romena, e mora na Itália há sete anos. Parece sentir-se desconfortável quando perguntamos sua profissão e explica superficialmente. Ficamos em dúvida se é empregada doméstica, governanta ou secretária.

Camélia fala um italiano carregado de sotaque, o que torna suas frases ainda mais incompreensíveis para mim. Ela, por sua vez, não entende que minha tacanhice mental limita-se ao idioma. Acha que sou completamente estúpido e faz questão de me explicar tudo detalhadamente, com direito a mímicas: como devo colocar o bilhete na catraca, como devo me deslocar pelas escadas rolantes, como funciona o metrô, e assim por diante.

Diz que já ouviu falar do Brasil, por conta do carnaval e eu preconceituosamente imagino que ela tenha bastante preconceito para com os brasileiros. Deve achar curioso o fato de não nos vestirmos com tangas e penas.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 7, 2010

Madri/Roma – Cada vez que sento em uma poltrona de avião tenho a impressão de que minhas pernas cresceram. E acho que, se continuar assim, não vou caber no próximo vôo. Imaginava que na Ibéria, uma companhia européia, a situação fosse melhor do que nos teco-tecos nacionais. Doce ilusão. Uma vez sentado e enlatado, qualquer movimento torna-se praticamente impossível. A comida, por outro lado, até que não é má.

E eu fico um pouco fascinado ao imaginar a logística que está por trás desta cozinha que alimenta cerca de duzentas pessoas simultaneamente, numa situação um tanto singular. Verdade que há apenas duas opções de menú, mas estamos voando a 900 quilômetros por hora, a oito quilômetros de altura e minha carne cozida ao molho madeira nem se dá conta disso.

Em nove horas chegamos a Madri, num aeroporto que parece uma cidade de porte médio. Os terminais têm dimensões sobre-humanas e um simples par de pernas não é suficiente para caminhar do desembarque até os guichês de imigração, por exemplo. Por isso boa parte da circulação interna é feita por esteiras rolantes de metal, que fazem os maravilhados turistas do terceiro mundo se sentirem num filme de ficção científica.

Apesar do tamanho descomunal, as indicações são precisas e em nenhum momento tenho o prazer de me sentir perdido. Além disso, o espanhol que se fala por aqui me é cristalinamente compreensível, quase como um sotaque do português.

Em pouco tempo estou voando novamente, num avião menor, mais apertado e aparentemente mais antigo do que o primeiro. Meu corpo inteiro reclama da noite em claro, mas é impossível dormir num avião recheado de italianos e espanhóis. Parece que o idioma deles não funciona se não for gritado em Dolby Surround Sound. Duas horas de feira livre e um copo d’água depois, Roma.

Enquanto espero que minha mochila apareça na esteira de bagagens, sinto uma leve empolgação por estar prestes a pisar no velho mundo pela primeira vez na vida (aeroportos não contam; são todos iguais e deveriam ser considerados espaço internacional).

Por outro lado, aos poucos vou percebendo que não sei falar italiano. E, pior ainda, que não entendo nada do que esse povo fala. Achava que meu sobrenome, que sempre fiz questão de pronunciar corretamente (o “ch” com som de “k”), e minha ascendência 50% italiana, de alguma forma, me dotassem de certo conhecimento do idioma de Berlusconi.

“Até os cachorros entendem italiano por aqui, e você nada”, provoca Mateus, que, com alguns meses de curso, se vira bastante bem.

E já que ele consegue se comunicar, nos sentimos seguros para trocar o táxi pelo ônibus e economizar alguns euros. Motorista simpático, ar-condicionado e nenhum outro passageiro. Groove!

Mas alegria de brasileiro na Europa dura pouco. No primeiro ponto o ônibus já é tomado de assalto por uma horda de homens sujos e mal-trapilhos, que poderiam muito bem estar voltando de um dia de trabalho na construção da Torre de Babel. Subitamente, fala-se uma infinidade de línguas à nossa volta. Dialetos aparentemente africanos e hindús se misturam em conversações incompreensíveis. A partir daí, a cada parada, mais gente se espreme à nossa volta. Italianos são artigo raro por aqui.

Nossa bagagem, que estava espalhada em três bancos, agora se amontoa no corredor e a todo momento tem de ser rearranjada devido ao entra e sai de passageiros. Então, uns vinte minutos depois de deixarmos o aeroporto de Roma, o semáforo abre, o motorista engata a primeira marcha, acelera, mas o ônibus se nega a obedecer. Ele repete a operação. Nada. Ele insiste. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera.

Por uns cinco minutos, ele se desdobra em esforços, brigando com a máquina xucra. Depois desiste. Levanta, volta-se para os seus cerca de cinquenta passageiros multiétnicos e diz o óbvio. O ônibus quebrou. Todos devem descer e esperar pelo próximo.

Sem alternativa, obedecemos. Saltamos em meio àquela horda de trabalhadores que, assim como nós, encontram-se consideravelmente cansados, suados e mau-humorados. Mas apesar de estarmos, por assim dizer, “todos no mesmo ônibus”, os olhares que eles nos dirigem não parecem nada amigáveis.

Não fazemos a mínima ideia de onde nos encontramos realmente. Só sabemos que é longe. Tanto do aeroporto, quanto do centro histórico, onde ficaremos hospedados. Esperamos. Tentamos descolar uma carona com um passageiro que ligou para a mulher buscá-lo. Gentil ele diz que é possível, mas não pode garantir se caberemos no carro com a bagagem.

Assim, após cerca de uma hora de espera, quando o próximo ônibus passa, resolvemos embarcar, junto com nossos companheiros mau-encarados.

Acomodo-me ao lado do motorista, meio em pé meio sentado, com a mochila apoiada sobre o painel do ônibus. O cansaço percorre minhas pernas numa espécie de formigamento que parece emanar de dentro dos ossos.

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

Festa Infinita em Curitiba

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2009

A convite da Fnac, na próxima quinta-feira, dia 24, estarei em Curitiba para participar de uma mesa redonda sobre o livro “Festa Infinita”. O evento fará parte do 4o Encontro Fnac de Música Eletrônica, e ocorrerá das 20h30 às 21h30.

Debatendo com este que vos escreve, estarão a psiquiatra Vanessa Andrade, e o DJ e produtor Thiago Henrique. Falaremos sobre raves, comportamento, drogas, música, jornalismo, entre outras bizarices.

Uma estranha realidade

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 3, 2009

Às vezes abro o jornal e me sinto vivendo numa realidade paralela. Tudo bem, sentimento compartilhado, creio eu, pela maioria dos leitores, nenhuma grande novidade. Esse mundo é muito estranho mesmo, e a imprensa faz questão de ressaltar as bizarrices. Mas às vezes as coisas vão além.

Hoje, por exemplo, fui brindado com a notícia de que, por uma sábia medida do governo, em 2014 os carros produzidos aqui terão de poluir 30% menos. Nada de bizarro, ok. Se não fosse por um detalhe: essa meta é inferior àquela que Europa e EUA já adotaram.

Surreal, não?

Sim, mas nada que se compare ao Collor. Pois é, ele de novo. Para quem não sabe, o nosso bicudo caçador de marajás, o boneco assassino do senado, a Fênix do impeachment agora se tornou imortal. Sem nunca ter publicado um livro, o filho do tinhoso conseguiu a proeza de ser escolhido para uma vaga da Academia Alagoana de Letras.

Bizarro o bastante ou querem mais?

Festa Infinita na UM

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2009

E continua o espetacular maremoto que Festa Infinita vem causando na mídia brasileira. Este mês, estamos nas bancas em entrevista à revista UM.

Woodstock X Universo Paralello

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2009

Pois é, caro leitor hippie velho, lá se vão quarenta anos desde que, numa fazenda próxima a Nova Iorque, reuniu-se meio milhão dos mais malucos exemplares humanos. É isso, em agosto o lendário festival de Woodstock completou 40 anos.

E para comemorar, coloco abaixo um trecho do “Festa Infinita” que descreve o começo de um outro festival. Os tempos são outros, a música é outra, o público é outro, e a organização do evento nacional é infinitamente superior à do grande marco hippie. Mas não há como negar que há um bom tanto de Woostock no Universo Paralello.

No início da tarde do dia 29, a pista principal ainda está em silêncio, mas uma multidão já se acomoda por ali, sentada embaixo dos imensos triângulos de lycra colorida, esperando que o ritual de êxtase tenha início. Mas ao invés de emanarem das gigantescas pilhas de caixa de som, as primeiras pancadas são ouvidas à distância, e vêm se aproximando,  mas  num ritmo diferente, e então os que estão sentados têm de se levantar e abrir espaço para que o cortejo de estandartes e saias coloridas passe e se posicione no centro da pista.

Tocando tambores, pandeiros, apitos e chocalhos, o grupo pernambucano de maracatu se apresenta com repentes de boas vindas aos ravers. Todos dançam, cantam junto e tiram fotos. No céu azul, já livre de qualquer ameaça de chuva, um ultraleve colorido voa tranqüilo como se fizesse parte da apresentação. Cerca de 20 minutos depois, o grupo se despede, um deles toma o microfone e durante longos instantes faz propaganda de seu estado, e dos grupos de maracatu, até que, numa pausa mais longa, os técnicos de som cortam o seu microfone. Após alguns segundos de suspense silencioso, uma espécie de vendaval marítimo envolve aqueles milhares de pessoas, percorrendo as caixas sonoras de um lado para o outro, deixando a pista suspensa num crescendo de energia potencial, até que lá de trás vem surgindo o bumbo demarcado, que logo se propaga em irresistíveis ondas de choque e aquela euforia contida é liberada de uma vez, junto a gritos, assobios e à dança livre, frenética e incontrolável.

Ao redor, ao longo daquele quilômetro de coqueiral à beira-mar, a festa desabrocha em toda a sua magnitude. Os sanitários funcionam e o problema das fossas foi resolvido com pequenas bombas, que drenam constantemente a água da chuva, por baixo do plástico sobre o qual são depositados os dejetos. A maioria dos hippies já não está mais acampada no centro de Pratigi e, depois de conseguir ingressos a preços promocionais, expõe suas mercadorias em pontos diversos do festival. Além de posto-médico, salva-vidas, guarda-volumes, lan-house, cozinha comunitária, banheiros e duchas, há a praça de alimentação com 40 restaurantes, onde é possível comer faláfels, temakis ou um simples arroz com feijão e frango assado.

A rua de areia fofa que percorre a festa de ponta a ponta, transformou-se num movimentado bulevar em que se escuta conversas em inglês, japonês, hebraico, alemão, espanhol e outras infinitas e irreconhecíveis línguas. Milhares de almas que não param de se movimentar e de interagir em completa harmonia. São  pessoas estranhas, diferentes entre si, mas que respeitam as diferenças porque quase todos carregam mentes abertas, muitas vezes a golpes das mais potentes e diversas drogas conhecidas.

Ou não…

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 17, 2009

A pesquisa avança, entrevistas se acumulam e o tema de nosso próximo projeto adquire contornos mais claros. A nuvem de possibilidades em que se constitui um novo assunto se adensa e se aproxima da realidade. Então, de repente, as certezas tornam-se dúvidas para, no entanto, logo dar lugar a outras certezas.

Tudo isso pra dizer o seguinte: mudamos de ideia, caros leitores.

É uma mudança simples, porém radical. No lugar de um livro-reportagem, teremos um romance histórico. No lugar da não-ficção teremos a ficção baseada em fatos reais. Assim, nos libertaremos das amarras da realidade. O porquê de tão brusca mudança, explicarei amanhã.

Sobre o poder da grande imprensa

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 5, 2009

É impressionante, coisa de louco mesmo, o poder de penetração que as grandes corporações jornalísticas possuem nessa nossa enorme republiqueta de bananas. Desde que foi lançado, no início de abril, o Festa Infinita se espalhou feito fogo morro acima por sites e blogues.

Foi muita coisa mesmo. Quem quiser conferir pode clicar nesta página, onde agrupei a maioria dos links. A vida, entretanto, continuou seu rumo normal. Houve, é verdade, uma ou duas pessoas que me disseram ter ouvido sobre o livro no rádio, ou lido em algum lugar, mas pouca gente.

Eis que no domingo passado, a Revista da Folha faz uma matéria sobre os malucões do Fuck For Forest e, gentilmente, cita meu livro como uma das fontes (aqui para assinantes).

Não era uma matéria específica sobre o livro, meu nome foi até grafado errado, com o requintado toque britânico de um “h”. Mesmo assim, a quantidade de gente que veio comentar comigo foi maior do que nos três meses anteriores. Fico imaginando a beleza que não deve ser sair na capa da Ilustrada…

Fim do diploma, ponto pro Supremo

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 18, 2009

Não é mais necessário ter diploma de jornalismo para trabalhar na imprensa. Foi isso que o Supremo Tribunal Federal (a mais alta corte do país) determinou ontem, pondo fim a uma situação discretamente hipócrita.

Hipócrita porque qualquer um que já atuou nos grandes meios de comunicação sabe que a maioria dos veículos não dava lá muita bola pra exigência de diploma.

E com razão, porque as maiores qualidades de um jornalista ­– tais como amplo conhecimento geral, ética e capacidade de comunicação – não são aprendidas em sala de aula. Os cursos de jornalismo, via de regra, fazem um apanhando geral de matérias desconexas e jogam tudo isso sobre o aluno sem muito critério.

Na faculdade, vejam só, tive um semestre de uma matéria que se chamava “História Geral”. Quatro horas por semana durante quarto meses. E o ilustre docente, um jornalista, pretendia realmente que seus alunos aprendessem toda a história da humanidade nesse período.

Oras, se no exercício da profissão, surgisse a necessidade de aplicar conhecimentos de história, quem se sairia melhor? Um historiador que sabe escrever, ou um jornalista, que é infinitamente mais ignorante no assunto?

Há, sim, algumas técnicas de apuração e redação próprias do jornalismo que são relativamente esclarecidas nas universidades. Nada, contudo, que seis meses de estágio, ou um curso técnico não pudessem resolver com mais eficiência.

Além disso, essa história de exigir curso superior é extremamente conveniente para certas universidades de fundo de quintal que vendem diplomas a prestação. Tramitam, no Congresso Nacional, dezenas de projetos de lei para regulamentação profissional.

Nem todos propõem a exigência de curso universitário, mas todos tornam necessária alguma formação. Há, inclusive, casos bizarros, como os que propõem a regulamentação das ocupações de apicultores, capoeiristas, cabeleireiros, entre outros. Quem quiser saber mais pode acessar essa matéria (apenas assinantes) que escrevi para a Folha de S.Paulo há algum tempo.

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