Antes da Estante

Festa Infinita em Curitiba

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2009

A convite da Fnac, na próxima quinta-feira, dia 24, estarei em Curitiba para participar de uma mesa redonda sobre o livro “Festa Infinita”. O evento fará parte do 4o Encontro Fnac de Música Eletrônica, e ocorrerá das 20h30 às 21h30.

Debatendo com este que vos escreve, estarão a psiquiatra Vanessa Andrade, e o DJ e produtor Thiago Henrique. Falaremos sobre raves, comportamento, drogas, música, jornalismo, entre outras bizarices.

Festa Infinita na UM

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2009

E continua o espetacular maremoto que Festa Infinita vem causando na mídia brasileira. Este mês, estamos nas bancas em entrevista à revista UM.

Woodstock X Universo Paralello

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2009

Pois é, caro leitor hippie velho, lá se vão quarenta anos desde que, numa fazenda próxima a Nova Iorque, reuniu-se meio milhão dos mais malucos exemplares humanos. É isso, em agosto o lendário festival de Woodstock completou 40 anos.

E para comemorar, coloco abaixo um trecho do “Festa Infinita” que descreve o começo de um outro festival. Os tempos são outros, a música é outra, o público é outro, e a organização do evento nacional é infinitamente superior à do grande marco hippie. Mas não há como negar que há um bom tanto de Woostock no Universo Paralello.

No início da tarde do dia 29, a pista principal ainda está em silêncio, mas uma multidão já se acomoda por ali, sentada embaixo dos imensos triângulos de lycra colorida, esperando que o ritual de êxtase tenha início. Mas ao invés de emanarem das gigantescas pilhas de caixa de som, as primeiras pancadas são ouvidas à distância, e vêm se aproximando,  mas  num ritmo diferente, e então os que estão sentados têm de se levantar e abrir espaço para que o cortejo de estandartes e saias coloridas passe e se posicione no centro da pista.

Tocando tambores, pandeiros, apitos e chocalhos, o grupo pernambucano de maracatu se apresenta com repentes de boas vindas aos ravers. Todos dançam, cantam junto e tiram fotos. No céu azul, já livre de qualquer ameaça de chuva, um ultraleve colorido voa tranqüilo como se fizesse parte da apresentação. Cerca de 20 minutos depois, o grupo se despede, um deles toma o microfone e durante longos instantes faz propaganda de seu estado, e dos grupos de maracatu, até que, numa pausa mais longa, os técnicos de som cortam o seu microfone. Após alguns segundos de suspense silencioso, uma espécie de vendaval marítimo envolve aqueles milhares de pessoas, percorrendo as caixas sonoras de um lado para o outro, deixando a pista suspensa num crescendo de energia potencial, até que lá de trás vem surgindo o bumbo demarcado, que logo se propaga em irresistíveis ondas de choque e aquela euforia contida é liberada de uma vez, junto a gritos, assobios e à dança livre, frenética e incontrolável.

Ao redor, ao longo daquele quilômetro de coqueiral à beira-mar, a festa desabrocha em toda a sua magnitude. Os sanitários funcionam e o problema das fossas foi resolvido com pequenas bombas, que drenam constantemente a água da chuva, por baixo do plástico sobre o qual são depositados os dejetos. A maioria dos hippies já não está mais acampada no centro de Pratigi e, depois de conseguir ingressos a preços promocionais, expõe suas mercadorias em pontos diversos do festival. Além de posto-médico, salva-vidas, guarda-volumes, lan-house, cozinha comunitária, banheiros e duchas, há a praça de alimentação com 40 restaurantes, onde é possível comer faláfels, temakis ou um simples arroz com feijão e frango assado.

A rua de areia fofa que percorre a festa de ponta a ponta, transformou-se num movimentado bulevar em que se escuta conversas em inglês, japonês, hebraico, alemão, espanhol e outras infinitas e irreconhecíveis línguas. Milhares de almas que não param de se movimentar e de interagir em completa harmonia. São  pessoas estranhas, diferentes entre si, mas que respeitam as diferenças porque quase todos carregam mentes abertas, muitas vezes a golpes das mais potentes e diversas drogas conhecidas.

Por que ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2009

São relativamente simples os fatores que me levaram a achar a história que tenho em mãos mais adequada a uma peça de ficção, a um romance, do que à não-ficção, a um livro-reportagem.

É uma questão de adequação da trama ao veículo, ao meio, e às suas idiossincrasias. Explico me arriscando a simplificar demais o assunto, mas vamos lá.

Um livro-reportagem deve ser, sobretudo, um documento histórico-social. Deve registrar algo de relevante que esteja acontecendo no nosso tempo. Em segundo plano, deve trazer personagens que sintam, que vivam dramas e que aproximem a narrativa ao leitor.

Muitas vezes, este segundo plano é posto de lado nos livros-reportagem. Mas, para mim, um texto deve ser atraente, fluido e envolvente, e as comédias e dramas humanos acrescentam prazer à leitura.

No romance, esses dois aspectos se invertem. O mais importante é a humanidade. Fatos e dados historicamente relevantes são desejáveis, mas devem ser postos no segundo plano. Devem ser apresentados apenas para contextualizar e evidenciar a vivência dos personagens.

Pois bem, o que tenho é uma história familiar sobre uma amizade que se desenrola durante a ditadura, uma narrativa cheia de drama e paixão. O período em que ela ocorre e os fatos que a perpassam foram mais do que explorados em livros-reportagem e históricos. O que nos interessa, portanto, é mergulhar na alma dos personagens.

E o instrumento adequado para isso é o romance.

Ou não?

Primeiros passos

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2009

Como prometido no último post, coloco abaixo, a introdução do projeto do próximo livro-reportagem. A pesquisa já começou, algumas entrevistas também, mas, como fica claro pelas linhas abaixo, ainda estamos esculpindo em pedra bruta.

O ano é 1964. O Brasil tenta entender o significado do golpe que instaurou uma ditadura no país. Ainda sob a crença geral de que aquela seria uma situação passageira, militares iniciam mudanças que logo resultariam num governo tirânico, onde a tortura e o assassinato seriam práticas recorrentes.

Paralelamente, diversos setores da sociedade iniciam manobras de oposição e resistência. A política torna-se o centro das atenções. Para boa parte da juventude de então, não há como manter distância.

Nesse cenário político caótico e arriscado, dois amigos, criados em famílias intelectuais paulistanas, ingressam na Universidade de São Paulo, onde o clima é semelhante ao das ruas. Quando o assunto é política, não há meio termo. Professores e estudantes são perseguidos e coagidos por esboçar simpatia a teorias socialistas ou comunistas, enquanto outros são taxados de fascistas e reacionários por não aderirem a movimentos de esquerda.

Para os dois calouros, não há escapatória. Pelas famílias onde cresceram é dado que farão parte da oposição ao regime militar, e antes mesmo do golpe, ambos já se envolviam em manifestações, assembléias e passeatas ligadas a setores da esquerda. Com o endurecimento do sistema, contudo, a forma como cada um encara essa situação vai tornando-se diversa. A amizade entre os dois continua, mas enquanto um mergulha de cabeça em organizações de resistência envolvendo-se em atentados contra instituições militares, outro, apesar de ainda se engajar em atividades de oposição pacífica, recusa-se a pegar em armas.

Essa tentativa de preservar o vínculo de amizade separado do posicionamento ideológico, contudo, não se sustenta por muito tempo e ambos acabam se envolvendo e envolvendo as próprias famílias em um turbilhão de acontecimentos que, como tantas outras histórias dessa época, terminará de maneira trágica.

A descrição, que parece saída de um roteiro de ficção, é apenas um esboço da história vivida pelos estudantes André Gouveia, filho da escritora Tatiana Belinky, e Dario Chiaverini, filho do cardiologista Reinaldo Chiaverini e pai do autor.

André engajou-se ativamente na luta-armada através da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), participou do atentado frustrado ao quartel do II exército, em São Paulo, que causou a morte de um militar, fugiu para a Europa e acabou morto de forma misteriosa, na França. Dario nunca se envolveu diretamente na luta-armada, mas acabou involuntariamente ligado às ações de André. Sofreu consequências, foi preso (assim como seus pais) pelo DOI-CODI e ainda hoje não sabe até que ponto suas decisão de se manter afastado da resistência influenciou na morte precoce do colega.

Em homenagem ao amigo, Dario batizou seu primeiro filho com o nome de André.

Romance de não-ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 11, 2009

Quando lançou “A Sangue Frio”, em 1966, seu afetado autor, Truman Capote, não se satisfez em enquadrá-lo no new-journalism – gênero recém criado pelos americanos, que estava na crista da onda na época (já falamos disso aqui).  Do alto de sua incomparável modéstia, ele dizia estar inaugurando um novo gênero literário: o “romance de não-ficção”.

Quando dizia isso, Capote se referia ao fato de que, para ele, o mais importante não eram os fatos em si. Afinal, o assassinato da família Holcomb, notícia que deu origem ao livro, não ocupou mais do que uma pequena nota nos jornais americanos.

O que interessava a Capote, ia além de detalhes, motivações e sentenças. O que lhe interessava era o material bruto para contar uma história de forma magistral, para investigar o drama da existência humana, para expor a mediocridade da vida dos americanos comuns.

Ao dar as costas ao jornalismo, Capote também se livrava, em parte, do compromisso com a veracidade dos fatos. Podia, por exemplo, gastar páginas e páginas descrevendo o que uma menina pensou e fez sozinha, trancada no quarto, nos instantes imediatamente anteriores à sua morte. Não havia como saber desses detalhes, mas Capote se permitiu imaginar e escrever sem grandes pudores.

Nada disso é muito novo, verdade. Essas denominações todas, romance de não-ficção, new journalism, jornalismo-literário e etc., têm  mais a ver com o bom e velho marketing do que com inovações legítimas. Praticamente tudo o que eles faziam já era feito antes sem tanto estardalhaço. Até por aqui, o brasileiríssimo João do Rio já fazia jornalismo literário desde o começo do século passado.

Mas escrevo tudo isso porque as definições criadas pelos americanos deixaram mais claros os contornos de toda essa confusão. E porque, depois de usar e abusar de técnicas lapidadas pelo new journalism (em Cama de Cimento e Festa Infinita), estou tendendo a guinar para o romance de não-ficção.

Não pretendo de forma alguma deixar de tentar retratar os fatos como eles realmente aconteceram. Mas é certo que, no novo projeto, dados, números e construções jornalísticas perderão espaço para o aprofundamento de questões humanas, para a reconstrução do clima de uma época, e para a lapidação do texto como se ele, por si só, fosse o objetivo de toda a apuração.

Amanhã, mais detalhes sobre o novo “romance de não-ficção”.

Viu como se faz… – parte II

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 19, 2009

Paralelamente aos trabalhos voltados à forma do livro, há os que dão a última lapidada no conteúdo. Aí, novamente há duas etapas distintas: a preparação e a revisão.

A primeira, talvez seja a parte mais penosa do processo editorial. O preparador lê o texto com lupa, faz correções gramaticais e – aí temos a parte mais insuportável ­­- padroniza o texto.

No caso do Festa Infinita, por exemplo. A palavra “rave”, um termo estrangeiro, é usado milhares de vezes. Por isso, sabiamente, o preparador optou por não grafá-lo em itálico. Já o termo “ravers”, ganhou apenas o “s” itálico, ficou “ravers”. Como esses há inúmeros detalhes, como números (por extenso ou não), abreviações (quilômetro ou km), gírias (com aspas ou itálico), enfim, um trabalho meticuloso e enfadonho.

Além disso, os bons preparadores, também fazem o trabalho de checador. Ao lerem o texto, buscam identificar possíveis erros e contradições que tenham escapado ao autor.

Mas os preparadores podem se tornar pessoas muito perigosas, e às vezes, sem entender exatamente a construção escolhida pelo autor, simplesmente invertem sentenças, cortam palavras e enfiam desagradáveis vírgulas e travessões em qualquer canto. Para ler mais sobre o assunto, vale uma espiada neste texto do Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.

De qualquer forma, ciente destes detalhes desde a publicação de “Cama de Cimento”, fiz questão de ler o texto logo após a preparação. Mais uma vez, reli o maledeto. Perdi a conta de quantas vezes já reli esse mesmo texto. A vantagem disso, é que já sei tudo praticamente de coração, e se tiver uma vírgula fora do lugar, percebo logo de cara.

Mas enfim, li, fiz minhas correções e enviei o texto novamente para a editora. Agora só falta a última etapa que é a revisão. Essa é mais simples: uma última leitura, empreendida por um profissional altamente competente, que busca e destrói os últimos erros gramaticais, ortográficos e de digitação.

Depois, ai, ai, o texto é novamente enviado para este pobre autor, que, mais uma vez relê o calhamaço, agora já com as mãos dolorosamente atadas, sem a possibilidade de fazer qualquer alteração significativa.

O papel dos papéis

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 5, 2009

Finalização do Festa Infinita e andamos às voltas com imagens. Sim, o livro terá fotos. E coloridas, como não podia deixar de ser. Um caderno em papel  especial, com 16 páginas onde haverá, basicamente, dois tipos de foto. As primeiras são imagens de arquivo pessoal, que os personagens do livro juntaram ao longo dos anos.

As segundas, serão registros das mais diversas festas, feitos pelo fotógrafo e raver convicto, Murilo Ganesh.

Mas quando se fala em imagem – ah, a imagem, coisa mais valiosa! – a Ediouro  tem algumas restrições. Fotos onde se reconheça qualquer rosto, só são publicadas se o dono deste qualquer rosto assinar uma autorização.

Nos últimos dias, portanto, junto com Murilo, ando atrás de assinaturas. Ontem fiz uma visita a Dmitri (dono de todo um capítulo do Festa Infinita e conhecido dos freqüentadores do Antes da Estante) para que ele me autorizasse a usar as fotos que ele mesmo me emprestara para escanear.

No ano passado, durante a apuração do livro, encontrei Dmitri várias vezes. Fui à casa dele, gravei horas a fio de conversas abordando assuntos pessoais, íntimos até. Caí com ele na noite paulistana, conheci ex-namoradas e futuras namoradas(?), conheci até a mãe e os cachorros dele. Em nenhum momento Dmitri titubeou antes de abrir sua vida.

Mas ontem, quando saquei a alva folha A4 recheada de termos jurídicos, os cabelos da nuca do DJ semi-aposentado se arrepiaram. Ele leu, releu, olhou pra mim, leu novamente, depois lançou a pergunta:

–    Você não vai colocar nada que me prejudique no livro, não é?

­Eu, de minha parte, usando da mais imbecil honestidade, rebati com a seguinte resposta:

–    Espero que não.

– Espero que não!? – Dmitri exclamou com um misto de surpresa e indignação nos olhos.

Tentando concertar a frase abobalhada, me corrigi afirmando que não, não haverá nada que o prejudique no texto, e mais do que isso, que acredito que ele achará bacana o capítulo sobre sua vida. Tudo verdade, diga-se de passagem.

Ele pensou mais um  pouco, respirou fundo, e assinou com uma canetada rápida antes de me entregar o papel:

– Tá aí, vai – exclamou um pouco contrariado.

E antes que eu entrasse no carro para ir embora, ainda lançou um último aviso.

– Vê lá que eu te mato, hein – e sorriu pra tirar um pouco o peso da frase.

A camorra e o marketing editorial

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 2, 2009

gomorra1Acabei agora a pouco de ler o livro Gomorra, do jornalista Roberto Saviano. E antes mesmo de terminar as últimas linhas já comecei a me sentir ligeiramente tapeado. Caí numa armadilha mercadológica.

Para quem não sabe, o livro é uma reportagem investigativa sobre a máfia napolitana, tornou-se um fenômeno de vendas na Itália, depois best-seller mundial. O fato de ter sido adaptado para o cinema num filme homônimo, provavelmente ajudou a superar a marca de 2 milhões de livros vendidos ao redor do planeta.

Porém, o que mais me atraiu na obra, exposta com destaque em tudo que é livraria, foi a chamada de capa: “A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”. Isso não deveria ser parâmetro, eu sei, mas não pude resistir.

Já li histórias do alemão Günter Wallraff, que se disfarçou de turco e trabalhou como um imigrante, para escrever o livro “Cabeça de Turco”; acompanhei o consagrado Gay Talese em suas aventuras por casas de suingue e massagens eróticas, na elaboração de “A mulher do próximo”; e devorei os relatos de George Orwell vivendo como mendigo em “Na pior em Paris e em Londres”.

Como leitor, sempre achei fascinante repórteres que têm a disposição de realmente mergulhar no objeto de estudo. E como jornalista, cheguei a utilizar a técnica na apuração do “Cama de Cimento”: entre outros desatinos, me disfarcei de desabrigado e fui recolhido a um albergue municipal.

Assim, quando comprei Gomorra, achei que o autor tinha realmente se infiltrado na máfia, arrumado algum trabalho que lhe permitisse contar detalhes saborosos a partir de uma perspectiva privilegiada. Convenhamos, as palavras “infiltrar” e “máfia” juntas, parecem prometer algo explosivo.

Para minha surpresa, contudo, a narrativa não deixa claro como, quando ou onde o jornalista se infiltrou, sendo que nos livros que utilizam a técnica, essa costuma ser a parte mais instigante.

Pelo que entendi, Saviano trabalhou numa indústria têxtil que se constituía num braço da máfia. Ou seja, é como se eu passasse algum tempo trabalhando numa escola de samba carioca suspeita de receber dinheiro de drogas, e dissesse que me infiltrei no tráfico.

Além disso, o autor de “Gomorra”, que foi ameaçado de morte e está sob proteção do governo italiano, nasceu numa das cidades sedes da organização criminosa em questão, a camorra.

A maior parte das informações que ele trás foram colhidas no curso de uma vida, e também em incursões jornalísticas tradicionais (acompanhar investigações policiais, por exemplo). Voltando à comparação anterior: ter nascido no morro do Vidigal, não é a mesma coisa do que se infiltrar nas organizações criminosas que atuam por ali.

Portanto, achei um tremendo exagero vender o livro como o trabalho de um jornalista infiltrado. Vale dizer que essa chamada certamente não foi uma opção do repórter, portanto volto minha decepção literária à editora, que adotou essa postura marqueteira e oportunista.

Mas meu descontentamento com o livro foi além, e chegou ao cerne da obra, ao conteúdo do texto. Há, sim, algumas informações extremamente interessantes, como a simbiose entre a máfia e as marcas de roupa mais elegantes do planeta. Mas para ter acesso a essas histórias, somos obrigados a encarar um emaranhado de nomes, dados, e números que, para quem vive essa guerra civil no dia-a-dia deve ser relativamente interessante, mas para nós, brasileiros, não têm lá muita relevância.

Pra completar, identifiquei um erro feio, uma escorregadela brava, que provavelmente não será notada por muitos outros leitores. Eu só percebi o problema porque, na apuração do “Festa Infinita” pesquisei muito o assunto do deslize: ecstasy.

Na página 130 da segunda edição nacional o autor faz a seguinte afirmação: “Cabe comentar que a MDMA, a anfetamina, foi patenteada pelo laboratório alemão Merck para ser administrada a soldados entrincheirados na Primeira Guerra.” Mais pra frente ele continua: “Depois foi usada também pelos americanos em operações de espionagem.”

O único fato correto em tudo isso, é que a MDMA, princípio ativo do ecstasy, foi elaborada pela Merck. O resto não passa de boataria. A anfetamina foi criada em 1912, antes do início da guerra, e patenteada em 1914, ano em que o conflito começou. A droga era um resíduo que sobrava na produção de um hemostático, medicamento para estancar hemorragias, e seus efeitos só foram descobertos muito mais tarde, na década de 1960.

Ou seja, o erro é feio, mesmo porque há diversos estudos científicos sérios que detalham a história da MDMA. E quando encontramos uma informação dessas, um boato transformado em verdade, todo o resto do texto perde um bom tanto de credibilidade.

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Errar é jornalístico

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 29, 2009

Errar. Talvez este seja o verbo mais temido pelos jornalistas. Mas não há com escapar.  O erro é inerente à profissão. Tanto que as publicações jornalísticas mais sérias mantém seções destinadas apenas à correção de deslizes.

Errar num livro, contudo, é certamente mais grave do que errar num jornal diário, num blog, ou mesmo numa transmissão de telejornal. Um livro, por mais obscuro que seja, tem incrível longevidade. Daqui a décadas alguém pode desencavar um volume num sebo qualquer e o erro estará lá, perpetuado quase eternamente.

Além disso, os livros geralmente possuem autoridade maior do que qualquer jornal. São frequentemente considerados fontes mais confiáveis, onde a informação foi checada e rechecada antes de ser finalmente impressa.

Tenho horror a erros. Sou realmente assombrado por eles. E não falo de erros de português, de vírgula ou de grafia, estes são banais e não assustam muito, apenas dão um calor na face quando apontados por um leitor amigo. O que realmente assusta são os erros de apuração. A possibilidade de publicar algo inverídico sobre a vida de alguém, algo que chegue a prejudicar uma pessoa injustamente. Disso eu tenho horror.

E quando digo que tenho horror, não estou exagerando.

Agora que o texto está pronto, às vezes eu acordo no meio da noite, lembro de uma determinada passagem, e sinto uma espécie de frio no estômago quando alguma dúvida paira sobre a precisão ou a veracidade de determinada informação.

Então passo longos minutos lembrando de onde veio aquele dado, com ele foi conferido e, caso a possibilidade de estar errado se mostre provável, penso também nas consequências do deslize.

O pior é que sei que haverá pencas de erros, imprecisões e aproximações no “Festa Infinita”. Não há livro que não os contenha. Muitos deles passarão despercebidos para a maior parte dos leitores, alguns não serão sequer identificados. E espero que nenhum seja realmente sério.

Tendo essa consciência, como leitor-jornalista costumo perdoar erros alheios. Mas não posso negar que, em alguns casos, eles podem demolir a credibilidade de um autor. No próximo post, apontarei um erro bem caprichado, que quase fez com que eu lançasse o best-seller mundial “Gomorra”, pela janela.

Dias de Universo Paralello

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on janeiro 26, 2009

Pois então, lá estava eu, metido em um quartinho espartano e mal-acabado, no distante povoado de Pratigi, em algum lugar entre Ilhéus e Salvador. A uns três quilômetros de distância, numa praia vasta e deserta, desenrolava-se o Universo Paralello, talvez a mais famosa festa rave do Brasil, que, por sinal, rejeita o título de rave. Diz-se um festival de cultura alternativa.

Pois lá estava eu, instalado só no quartinho. Dormia pouco naqueles dias. Acordava sempre cedo, antes das oito da manhã. Depois não conseguia voltar a dormir. Acordava pensando no que faltava para terminar a apuração, a última etapa da apuração de um livro que levou um ano para ser escrito.

Um ano de trabalho pensado e repensado, que agora tinha que ser arrematado em cerca de 15 dias. (O festival terminou no dia 4 e o texto final foi entregue no dia 19 de janeiro). Isso me tirava o sono, me deixava ansioso.

Eu acordava, ia até um dos poucos restaurantes locais, pedia um pão com ovo e um copo de leite quente grande. O café baiano é muito fraco para paladares paulistas, então eu levava um saquinho de Nescafé e dissolvia eu mesmo, com pouco açúcar. Tomava café em silêncio, pensando na apuração.

Depois voltava pro muquifo, ligava o ventiladorzinho e passava a manhã e o começo da tarde escrevendo o que havia visto e vivido nos dias anteriores. Antes das três da tarde, tomava um banho frio (não havia outra opção), colocava uma bermuda, amarrava uma canga na cintura, e caminhava uns 40 minutos até o Universo Paralello.

Na véspera do ano novo, fui conversar com Valney, o sujeito que alugava o quartinho.

Era sempre uma aventura falar com o homem, porque ele tinha um sotaque tão forte, e as palavras saíam tão atropeladas que eu entedia, digamos, apenas uns 40 por cento.

Mas eu fui até ele, disse que estava precisando me barbear, e perguntei se, assim, por acaso, ele não teria um espelho pra me arrumar. Não havia nada no quarto além do beliche de alvenaria. Era tão espartano, que o simples ato de pedir o espelho me fez parecer meio ridículo. Um almofadinha da cidade que precisa de um espelho para se barbear.

Se pensou assim, contudo, Valney não o demonstrou. Voltou depois de dez minutos com um daqueles espelhinhos cor-de-laranja na mão:

­­­- Tá aqui o espelho ­- exclamou me esticando o braço. – Peguei emprestado com a menina da venda. Você usa, depois devolve lá pra ela.

Ainda sobre o título

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 22, 2009

A primeira ideia era simples, objetiva e impactante: “rave”. Não há nada que descreva melhor esse fenômeno, e nada que chame mais atenção para o assunto.

Além disso, escolher título é uma das tarefas mais ingratas na elaboração de um livro e este estava fácil, à mão. O “Cama de Cimento”, por exemplo, só veio à luz após semanas de trabalho de parto. O título original, “Incômodos”, não agradou a meu editor, que pediu uma segunda possibilidade. Na época não foi fácil, mas creio que, no final, tenha ficado melhor mesmo.

O título “rave”, pelo contrário, foi bem recebido. A iniciativa de mudá-lo foi minha e ocorreu por dois motivos.

Primeiro, os mais aficionados por este universo já não usam o termo que, com a proliferação de manchetes policialescas, acabou adquirindo conotação negativa. Agora, “rave” se transformou em “festa open-air”. Eu, particularmente, acho uma babaquice ficar criando termos politicamente corretos, quando o preconceito não é voltado contra palavra, e sim contra o objeto.

O termo “mendigo”, por exemplo, foi substituído por “morador de rua”, depois, novamente, por “pessoa em situação de rua”, e a realidade desse pessoal não melhorou nada por isso.

De qualquer forma, achei que utilizar a palavra “rave” no título seria um ato de agressividade gratuita contra aqueles que colaboraram na elaboração do livro (no corpo do texto, contudo, o termo é usado sem pudores).

Essa foi uma das motivações para a mudança, mas não a única.

A palavra “rave” é um termo estrangeiro, o fenômeno não começou aqui, e eu sou um jornalista brasileiro. Assim, achei uma boa escolher um título em claro e atualizado português.

Além disso, acredito que o “Festa Inifnita” acabe por criar uma aura de mistério e curiosidade, que o assunto escancarado no título não propiciaria.

Reta final

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 12, 2009

Pois então, cá estamos nós, de volta à calorenta, fedorenta, modorrenta e amada cidade de São Paulo, depois de um longo e psicodélico mergulho no Universo Paralello. O texto está todo escrito, totalizando um orgulhoso calhamaço de 212 páginas A4, o equivalente a pouco mais de 300 páginas no formato de livro.

Agora os prazos urgem e começa a correria para conseguir publicar ainda no mês de março. Estou fazendo uma última leitura para as correções finais, e pretendo entregar a cópia definitiva entre o fim desta semana e o início da próxima.

As alterações são apenas detalhes: uma virgulhinha aqui, outra ali, mesmo porque, depois de tanto ler e reler, é impossível ter algum discernimento que permita efetuar grandes mudanças no texto. Numa leitura, determinada passagem pode parecer maravilhosa, e logo depois, figurar como a maior bosta já diagramada em Times New Roman.

De qualquer forma, quando passar às mãos da Ediouro, o texto ainda será submetido a uma revisão e será devolvido para mim, para que eu aprove ou rejeite as correções. Após este último OK, ainda é preciso encaixar tudo num projeto gráfico bacaninha, diagramar as fotos, escolher a melhor capa e só então, ufa!, encaminhar o livro para a gráfica.

Aí começa a outra etapa, de lançamentos, releases, entrevistas e o escambau.

Por enquanto, ainda estou quebrando a cabeça para escolher, vejam só, o título de nossa querida narrativa. Mais detalhes no post de quinta.

Em busca do Universo Paralello

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 18, 2008

Amanhã, sexta-feira, 19 de dezembro, meu laptop (Mr. Black) e eu embarcamos para o último grande desafio na elaboração de nosso livro-reportagem. Pouco depois das 10h deixaremos o aeroporto de Congonhas rumo à cidade de Ilhéus, onde teremos de descobrir uma maneira apropriada para chegar à praia de Pratigi, local em que já ocorrem os preparativos para o Universo Paralello, a mãe de todas as raves.

Mr. Black tem a difícil tarefa de agüentar a longa viagem em plena terceira idade e de lidar com elementos tecnologicamente desagradáveis como areia, sol e água salgada.

Eu, por minha vez, tenho a missão de encontrar uma forma de falar sobre o festival sem deixar o texto repetitivo. E de fazer isso em tempo recorde.

Pelo fato de ocorrer sempre durante o reveillon, o Universo Paralello acabou tendo de ficar para a última hora na ordem de apuração, o que, evidentemente não é o ideal. E, com o lançamento previsto para março de 2009, tenho de entregar o texto antes do fim de janeiro, para revisões, projetos gráficos e etc. Considerando que o festival termina no dia 4 de janeiro, concluímos que o tempo é justo e curto.

De qualquer forma, o restante do texto está pronto, redondo e no ponto, e já tenho inclusive um local esperando pelos capítulos sobre o festival baiano. Já tenho também alguma idéia da maneira que pretendo abordar a festa a fim de fugir das demais narrativas do livro. Pretendo explorar a relação entre a população de uma cidadela perdida no sul da Bahia e toda a loucura cosmopolita dos participantes do Universo Paralello.

Mas apesar da pauta pré-definida, tudo pode mudar, porque, infelizmente, não há como ir contra os caprichos e surpresas do mundo real. Está aí uma das partes mais emocionantes da profissão: as coisas nunca acontecem exatamente como o previsto.

PS: Devido a acidentes de percurso, os posts podem ocorrer com certa irregularidade daqui pra frente. Mas fiquem atentos porque certamente haverá notícias saborosas diretamente do front.

Das críticas e outros demônios (continuação)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 17, 2008

boxe_caras Uma das dicas dos manuais para tornar-se escritor (eles existem!) é não deixar que outros leiam seu texto antes que esteja finalizado. Pois eu, como não acredito em manuais (exceto aqueles que ficam no porta-luvas do carro ou que ensinam a manusear o microondas) ignorei o conselho, como conta o post anterior.

E agora que as críticas vêm chegando, sou obrigado a, apenas por um momento, dar o braço a torcer e ver algo de sensato na manutenção do texto em segredo.

Primeiro há o fato de que as críticas negativas têm muito mais peso do que as positivas. Afinal, é muito mais fácil elogiar do que apontar defeitos. Para alguém olhar nos olhos de um escritor e dizer que seu trabalho não é bom, é preciso que o livro tenha realmente desagradado. Mas quando uma pessoa encontra o autor na rua e diz que o texto é bom, ela  pode muito bem estar apenas sendo simpática e educada.

Assim, é óbvio que as críticas negativas têm mais peso. Também é óbvio que elas machucam o orgulho do autor, abalam a auto-estima e às vezes chegam até a tirar o ânimo para continuar o trabalho. Este é o primeiro fator que, ao meu ver, justifica o segredo até a publicação.

Mas há outros. Um dos principais, acho eu, deve-se ao fato de que aqueles que criticam são, assim como aqueles que escrevem, seres humanos. E seres humanos são  incrivelmente diferentes entre si. Nas críticas de leitores diversos que recebi há momentos de completa contradição. A passagem do texto que um apontou como o auge do livro, foi apontada por outro como um ponto falho. E garanto que é difícil imaginar a confusão mental que esse choque de opiniões vem provocando na cabeça deste autor.

Mas, como disse lá em cima, concordo apenas por um momento com a manutenção texto em segredo. Creio que há um ponto do trabalho em que as críticas são, sim, necessárias, e que, com elas, a qualidade da obra será superior. Vários erros e pequenas contradições do texto foram pescados por meus estimados leitores críticos.

Quanto à confusão na cabeça do repórter, bem, ela faz parte de um processo tão longo como a elaboração de um livro. Ainda mais de um livro que usa elementos artísticos (portanto subjetivos), para falar sobre fatos reais (portanto imutáveis).

E quanto à auto-estima do pobre repórter, bom, ela tem que ser suficientemente sólida para resistir às pancadas. Tem que saber se esquivar daquelas que não são merecidas e receber as que são sem ir à lona.

Agradecimentos, portanto, a Adriana Yazbek, Arpad Spalding, Bruno Bartaquini, Dario Chiaverini e João Carlos Magalhães.

Das críticas e outros demônios

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 13, 2008

O texto está pronto. Há ainda um ou alguns capítulos sobre o Universo Paralello, que serão inseridos mais pra frente, já que o festival ocorre durante o reveillon. Essa última parte terá que ser composta meio como aqueles quadros dos pintores impressionistas, que colocavam o cavalete de frente pro mar e pintavam desesperadamente rápido um único e passageiro momento.

Verdade que há sempre um pouco de imediato no jornalismo: há urgência em tornar texto os pensamentos antes que eles sejam filtrados pela memória e se tornem por demais pessoais. Muito da apuração do nosso livro foi assim. Voltar de uma rave, acordar na segunda-feira, ainda com o relógio biológico meio abobado por conta da noite em claro, e despejar todo o fluxo de informações no HD do moribundo Mr. Black (meu laptop, de tão velho, ganhou direito a nome próprio).

Mas, apesar de ser composto dessa forma passional, o grosso do texto (no caso 174 páginas no formato A4, o que equivale a umas 200 e poucas no tamanho livro) vem sendo trabalhado por meses a fio.

As informações são apuradas e reapuradas, checadas e rechecadas. O texto é lido, relido, modificado, relido de novo, invertido, cortado, expandido e relido mais uma vez, infinitas vezes. Ele é tão relido, que chega quase a ser decorado, e há momentos em que acreditamos estar fazendo uma revisão, mas, na verdade, uma boa parte daquilo que estamos lendo é automaticamente preenchida pelo nosso cérebro.

Essa proximidade simbiôntica com o texto torna imperceptíveis não apenas os detalhes gramaticais, de forma, coesão e etc, como também a própria qualidade da obra no geral. Chega uma hora que já não é possível afirmar se aquilo é bom, ruim ou apenas medíocre. O “que merda” e o “do caralho” viram irmãos, e passeiam pelos nossos neurônios ao sabor de fatores externos como humor, cansaço, ou unha encravada.

Nessas horas, há duas coisas a fazer. Colocar o texto pra descansar, e distribuir para amigos que tenham bom senso e sejam capazes de elaborar críticas construtivas.

Foi o que eu fiz. Há mais de 15 dias tenho me controlado pra não olhar para o texto, como um viciado que mantém distância das agulhas. E começo a receber as dolorosas críticas construtivas.

Continua na segunda…

Ser ou não ser: esta é uma questão

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 25, 2008

No divertido último post, Bruno e JC sugeriram que eu inserisse, no livro, a história do roubo da cerveja no puteiro.[1] Pois eu, de minha parte, tenho certas dúvidas sobre até que ponto o repórter/narrador deve se colocar também como personagem.

Através da história do tal “jornalismo-literário” há diversos exemplos de autores que se retratam como parte do enredo e de outros, que se arvoram do posto de narrador oculto. A grande graça dos textos em que o repórter se coloca como personagem, na minha opinião, é que o leitor comum, geralmente, está muito mais próximo do autor do livro, do que do objeto retratado.

É mais fácil, para o cidadão médio, se identificar com um jornalista do que: com freqüentadores de clubes swing (Gay Talese em “A mulher do próximo”), com produtores de Hollywood (Lillian Ross em “Filme”), ou com bandoleiros motorizados (Hunter S. Thompson em “Hell´s Angels”)

No “Cama de Cimento”, em momentos diversos, me coloquei como personagem. Não havia como deixar de fora as impressões de um jovem repórter de classe média que se embrenha entre os desabrigados de São Paulo.

E acredito que um dos maiores trunfos do livro é justamente fazer com que o leitor se sinta na pele de um sujeito (relativamente) normal, que passa uma noite tentando dormir ao lado de traficantes de crack, ou que se disfarça de mendigo para ser recolhido a um albergue municipal.

No “Projeto Rave”, entretanto, tenho mantido o personagem repórter um pouco mais distanciado, a não ser em algumas circunstâncias específicas, como no capítulo em que narro as sensações que tive depois de tomar um ecstasy na pista de dança de uma rave.

Acho que, como o livro será muito focado em perfis dos personagens, a interferência do narrador desviaria a atenção. No caso da história do puteiro, por exemplo. Gasto duas ou três páginas para descrever as ações de Dmitri naquele ambiente, o que deve fornecer ao leitor pistas sobre a personalidade do DJ.

E por mais que a referida narrativa agregue informações sobre o mundo do personagem, será que não seria exagero encaixar duas páginas descrevendo meus contratempos com a cerveja?


[1] Com a nova, feia e confusa diagramação da página (feita pelo WordPress, mas já posta de lado), Bruno e JC se atrapalharam, e colocaram o comentário no post anterior, mas entendi que se referiam à história do roubo da cerveja

Ossos do ofício: roubado duas vezes num puteiro do centrão

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2008

Pois então, sexta passada, lá estava eu em um puteiro do centro da cidade, na companhia de Dmitri Rugiero, fundador do núcleo de festas Mega-Avonts e importante personagem do nosso livro.

Já vou avisando, para os leitores mais conservadores do Antes da Estante, que a referida casa de tolerância, encontrava-se desativada para sediar uma espécie de rave indoor.

Ainda havia luzes de neon roxo e palcos com aqueles postes prateados, onde uma ou outra garota de biquíni se exibiu durante algum tempo, mas, para fins libidinosos tradicionais, o estabelecimento estava mesmo desativado.

Mas, enfim, vamos ao primeiro roubo: paguei 5 reais por uma lata de Skol quase na temperatura ambiente. Aliás, paguei 5 reais por várias latas de Skol quase na temperatura ambiente, porque cheguei ao local por volta das onze da noite de sexta, hora em que Dmitri abriu a pista, e não saí antes das cinco da manhã. O primeiro roubo, portanto, repetiu-se algumas vezes.

O segundo roubo aconteceu quando a madrugada já ia mais do que alta. Novamente paguei os cinco reais por uma cerveja, apoiei a lata no balcão do bar enquanto guardava a carteira no bolso e quando virei para apanhar novamente a cerveja, ela havia evaporado. Não apenas a cerveja, mas a lata também.

Olhei em volta em busca do precioso líquido dourado e, bem ao meu lado, havia um rapaz magro, baixo, usando uma camisa ridiculamente florida e com a expressão do rosto posta numa inacreditável cara de paisagem. E na sua mão, evidentemente, havia uma lata de cerveja que não estava lá antes, e que se parecia incrivelmente com aquela que eu havia acabado de comprar.

Eu me aproximei do sujeito, e com a boca quase colada na sua orelha repulsiva, perguntei polidamente:

– Você roubou minha cerveja?

Ele deu de ombros e continuou com aquela cara abobada de paisagem. Eu me aproximei mais, até quase sentir o cheiro de desodorante barato, e perguntei de novo, agora já quase afirmando:

– Você roubou minha cerveja?!

Ele então se virou com uma careta retorcida, balançou um pouco de bêbado, e esticou a lata em minha direção, simplesmente devolvendo o produto do roubo. Eu, da minha parte, lembrei dos conselhos que minha mãe sempre me dá quando freqüento puteiros: “Vê lá onde põe a boca, meu filho”.

Então simplesmente fiz um gesto de desprezo e me virei para o outro lado, apenas para topar com uma amiga do sujeito que, vendo que eu conversava com ele, achou-se no direito de também conversar comigo:

­- Você é amigo do fulaninho? – (desculpem esqueci o nome da figura)

– Não, ele só acabou de roubar minha cerveja.

– Ai, putz – exclamou a menina meio sem jeito – Ai, dá um desconto pra ele, porque, ai putz, ele é supermeuamigo, mas é que as drogas tipo comeram o cérebro dele.

Degustação: Rica Amaral toca na rave Xxxperience

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 18, 2008

Foram horas e mais horas de conversa, leituras e mais leituras de tudo o que já foi publicado sobre o DJ,  noites e mais noites apenas circulando por seu restaurante (o Chácara Santa Cecília), e uma viagem a Ribeirão Preto.

Mas, por fim, creio que temos um perfil caprichado do DJ Rica Amaral, que se espalhará por três capítulos do livro, amarrando e sendo amarrado pela história das raves no Brasil.

Abaixo, coloco três parágrafos que estarão na porção final do perfil, uma espécie de clímax da história de Rica. Os fatos narrados abaixo foram colhidos na madrugada do último dia 7, pouco depois de quase passarmos dessa para melhor, como contei aqui há duas semanas.

Depois de cruzar a aquela multidão sendo agarrado, apalpado e cumprimentado, Rica Amaral sobe pela lateral do palco e pontualmente às cinco horas da manhã, dez minutos depois de ter acordado no banco de trás do taxi de seu Zé, ele está pronto, e pergunta para uma moça da produção se já é hora de começar o set. Mas o line-up atrasou um pouco, e Rica ainda espera uns trinta minutos antes de entrar no palco, diante de um telão de uns quatro metros de altura.

Antes de assumir a CDJ, ele pede que a produção apague as luzes voltadas para a mesa de equipamentos. Explica que o DJ não pode ser um pop-star, que ele não está ali protagonizando um show de rock e que seu objetivo é fazer as pessoas dançaram, transcenderem pela música. Para isso, quanto menos aparecer, melhor.

Às cinco e trinta e três da manhã, vestindo uma jaqueta camuflada fechada até o pescoço, Rica coloca o fone de ouvido, insere um CD, ajusta alguns botões, e marca o ritmo das pancadas suaves que se iniciam, pac, pac, pac, como se seu dedo indicador fosse a baqueta do baterista virtual, pac, pac, pac e outras batidas descompassadas vão aparecendo e o pac, pac, pac continua, e a pista parece suspensa apenas esperando pelo que virá, e então, como se aplicasse um golpe de karatê, com a outra mão, o DJ anuncia a entrada do bumbo e tum, tum, tum, pronto, já era, todos estão pulando, gritando e assobiando como se fizessem parte daquela máquina musical comandada por Rica.

O repórter e o raver

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 15, 2008

Uns sete ou oito meses atrás, sentado numa daquelas mesinhas de mármore do bar do Genésio, eu conversava com meu amigo JC sobre uma idéia que começava a tomar forma na minha cabeça, uma idéia maluca e despropositada, de escrever um livro-reportagem sobre raves.

Engessado pelo esquemão quadrado da grande imprensa, onde ainda hoje está atuando, meu estimado colega se empolgou de cara e, antes mesmo que eu fosse capaz de pronunciar a palavra psytrance, pegou no meu braço, se inclinou para frente e abriu um sorriso levemente assustador:

– Cara, se torne um raver – exclamou articulando bem as palavras. – Mergulhe de cabeça nesse mundo que vai ser um livro docaralho!

Desde então, venho tentando seguir os sábios conselhos de JC. Fui a um punhado de festas e até me descambei para o interior de Goiás num ônibus fretado, em companhia de 40 malucos, para participar dos cinco dias de música ininterrupta do festival Trancendence.

Mas acho que foi só neste último fim-de-semana, mais precisamente no sábado, dia 13, que, ao menos por algumas horas, realmente me tornei um raver. Pela primeira vez fui a uma festa sem o intuito de atuar como repórter.

Até levei minha bolsa, com bloco de anotações, caneta e gravador (vai saber), mas não usei nada disso. A fim de me ajudar a manter distância segura da reportagem, consegui arrastar minha namorada e um amigo – ambos virgens no mundo das raves -, para debaixo das tendas flúor da Earth Dance. Ainda encontrei outro colega da época da faculdade por lá, este um raver ocasional.

Assim, como simples amigos num sábado à noite, participamos do ritual de abertura que aconteceu ao mesmo tempo em 300 cidades de 80 países ao redor do mundo, dançamos por umas boas horas ao som do psytrance, comemos hambúrguer de soja, fizemos compra na lojinha de roupas raver, tomamos chuva e quase atolamos o carro na volta pra casa (com o doloroso prejuízo de uma lanterna traseira, esmigalhada contra o tronco duma árvore).

Já durante o percurso de volta, contudo, o repórter voltou a dominar a situação. E enquanto tentava enxergar a estrada debaixo de uma chuva grossa que não dava trégua, tratei de cobrir meus dois acompanhantes com uma avalanche de perguntas sobre suas primeiras impressões a respeito daquele barulhento fenômeno dançante.

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