Antes da Estante

Quer moleza, senta no pudim

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 25, 2010

Nice – Deixamos Florença no meio da manhã, rumo a Nice, no Sul da França. Vamos de trem até uma pequena cidade próxima à fronteira, Ventimiglia, onde faríamos uma baldeação. Chegamos lá por volta das 17h, quando somos brindados com a soberba notícia de que, por conta de uma greve, não haverá mais trens. A estação está fechada. Simples assim.

Pra piorar, não somos os únicos. Deve haver uns 500 turistas na mesma situação, e a cidade não chega nem perto de ter infra-estrutura pra abrigar toda essa gente.

Em alguns minutos os hotéis no entorno da estação estão lotados. Taxis cobram no mínimo 100 euros (pouco de mais de R$ 200) por uma corrida até Nice, que fica a algumas dezenas de quilômetros.

Sem grandes aflições, saio em busca de alguém que me explique como chegar ao balneário de Nice. Entro num primeiro hotel e pergunto se a recepcionista fala inglês. “Français”, é a resposta. Agradeço e vou para o próximo, onde sou consideravelmente melhor recebido. Troco algumas palavras em inglês rudimentar, até que a atendente me pergunta de onde eu sou afinal. Quando respondo, ela sugere que, para facilitar as coisas, falemos português. É de Bragança Paulista, a guria.

Prestativa, ela se dispõe a me levar até o ponto onde passa o ônibus que nos levará até a fronteira. Antes, vai comigo a uma banca de jornal, e me ajuda a comprar os bilhetes. Depois vamos ao encontro de Helô e Mateus, que esperam na estação com as malas.

Chego todo empolgado e apresento nossa salvadora. Conversamos alegremente em português. Enquanto isso, parado ao nosso lado, há um garoto magro e branquelo, espiando tudo com o canto dos olhões grandes. Quando percebe que a curiosidade do moleque é ligeiramente maior do que a usual, Helô volta-se para o lado e pergunta para onde ele está indo, em português mesmo.

– Pra Nice ­­– ele responde se colocando tímido.

– Está com seus pais?

– Estão lá na estação, tentando descobrir de onde sai o ônibus.

– Então vai lá, diz pra eles que a gente sabe.

Era só a deixa que o garoto estava esperando pra sair correndo no meio dos turistas. Um pouco depois, todo orgulhoso por ter achado a solução e salvado o dia da família, Ian volta correndo seguido pelos pais carregados de malas. Durante as horas que se seguiram, viajamos juntos.

Tomamos um ônibus até Menton, onde atravessamos a fronteira a pé, cada um com sua mochila nas costas ou arrastando as malas de rodinhas feito um exército de retirantes. Já na França, tomamos outro ônibus que vai serpenteando pelas encostas da Côte D’Azur, um caminho que me lembra muito a Ilha Bela. Passamos por Monte Carlo, Mônaco e outros lugarejos endinheirados, onde tudo parece ter sido herdado de alguém.

Cinco horas depois de termos desembarcado em Vintemiglia finalmente largamos as malas na recepção do nosso hotel. As boas novas continuam. Estamos num quarto sem ar-condicionado (sendo que a temperatura beira os 40º) e sem café da manhã. Bufamos exaustos, mas falta energia pra discutir. Apenas aceitamos a situação. Subimos de elevador e quando entramos na pequena estufa onde teremos de passar a noite, topamos com uma imensa e jocosa cama de casal.

Volto à recepção. Digo ao velho senhor atendente que reservamos um quarto com três camas de solteiro, não com uma cama de casal e uma sobressalente. O homem pede desculpas, mas diz que o hotel está lotado e não há o que fazer. Tento me pôr nervoso, mas novamente não tenho energia. Subo, entro no quarto, dou uma conferida na cama. Mais uma surpresa. Há apenas um lençol forrando o colchão e um grosso edredom.

Por Napoleão, quem dorme com edredom num forno como aquele!

Desço novamente e posto-me diante do senhor da recepção. Espero ele acabar de falar ao telefone. Depois peço que ele me arrume três lençóis. Ele entra por uma porta, volta algum tempo depois, e diz que não há lençóis. Sente muito, mas não pode fazer nada. Baixo a cabeça em sinal de completa derrota. O recepcionista dá dois ou três tapinhas nas minhas costas a título de consolo. Ao menos é simpático. Não resolve nada, mas é simpático.

Depois de instalados, carregamos o que restou de nós mesmos até o restaurante mais próximo. Então vem a recompensa. Não há alegria maior do que algo dar certo depois de tudo ter dado errado. Acabamos num bistrozinho charmoso, com mesas ao ar livre, espalhadas por um simpático bulevar.

O dono e garçom, um sujeito baixo, careca e hiperativo, fala uma porção de línguas e em pouco tempo nos traz um vinho branco que desce como veludo gelado. Pedimos o prato do dia: cordeiro, batatas e legumes. Tudo fresco, temperado com sotaque francês.

Infelizmente não tenho nenhuma metade francesa na minha ascendência. Mas se tivesse, ela certamente estaria rindo da metade italiana. (ver dois post antes)

Anúncios
Tagged with: , , , ,

Outro lado

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 23, 2010

Florença – Depois de falar tão mal da comida italiana no post anterior, e sabendo que em breve farei mais críticas ao italian way of life, sinto-me na obrigação de ressaltar alguns pontos positivos.

O sorvete fez valer a fama. Provei vários, e nenhum decepcionou. Houve alguns casos de considerável deleite, como quando nos arriscamos a um engodo turístico, no Café Vivoli, tido por certos críticos como a melhor sorveteria do mundo. Sempre que topo com dizeres como “o melhor do mundo”, tendo à desconfiança. Mas nesse caso o pé atrás felizmente não se justificou. O sorvete de pistache (que não tem corantes nem aditivos por isso é bege e não verde) talvez tenha sido realmente o melhor que comi na vida.

Presunto cru e mussarela fresca também não fizeram feio. As frutas, em especial pêssegos e cerejas, expostas em vendas na calçada – onde é pecado dar aquela apalpadela tão dona-de-casa-brasileira – são baratas, graúdas e suculentas.

Além disso, tive surpresas agradáveis em algumas bibocas e botecos. Num deles, uma portinha de garagem em Roma, comi um enroladinho de linguíça, batata e espinafre que talvez tenha sido o melhor da Itália em termos gastronômicos.

Por último, mas certamente não menos importante, temos o vinho. Em todos os restaurantes em que chegávamos, a primeira coisa era pedir um vinho da casa, geralmente branco por conta do calor. E nunca, nem nos locais mais turísticos, me serviram algo que não fizesse frente aos chilenos e argentinos vagabundos com os quais estou acostumado.

Isso me faz pensar que talvez haja salvação para este país.

Três vivas para a pizza paulistana!

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 22, 2010

Florença – Em honra a meus ancestrais, quando o assunto era pizza, sempre fiz questão de me apegar às tradições. Até me arrisquei, às vezes com certo prazer, a experimentar bordas recheadas de cheddar, coberturas de frango com catupiry, calabresa com ovo, e tomate seco com rúcula. Também abusei, confesso, de pizzas entregues na calada da noite por motoboys que não traziam nem uma lembrança de sotaque mooquense.

Mas, diante de tão terríveis distorções, minha porção italiana sempre fazia questão de tomar uma posição clara: pizza, só em três ou quatro endereços de São Paulo, servidas em não mais do que dez sabores. A massa tem de ser grossa, mas não em demasia, com borda crocante por fora, macia e aerada por dentro. Deve haver porções generosas de molho de tomate, colocado cru sobre a massa, o que lhe confere uma aparência rosada após o forno, sempre à lenha. A cobertura, não deve ser exagerada, de forma que porções de molho sejam visíveis a olho nu.

O restante, pode até ter gosto bom, mas não é pizza. Panqueca assada, talvez.

Uma das primeira coisas que fiz quando cheguei à Itália, portanto, foi ir atrás de uma pizza que satisfizesse minha metade italiana. Que decepção! Sem dúvida uma das maiores da minha vida.

Na verdade, tudo levava a crer que seria assim, pois desde que chegamos só comemos mal na Itália (com exceção de lanches rápidos, frutas e do restaurante onde Gina trabalha, que não serve comida italiana). Lasanha com massa mole coberta de molho branco com gosto de farinha crua, nhoque massudo, bisteca fiorentina sem gosto e muito mal-passada, molho de salmão rançoso carregado no creme de leite e assim por diante.

Importante ressaltar, contudo, que em todas essas ocasiões, eu e minha porção italiana tentamos nos convencer de que a tosquice devia-se ao fato de estarmos em lugares turísticos. Não é preciso cativar clientes no centro histórico de Veneza. Por pior que seja a comida, no dia seguinte haverá outro turista trouxa, pronto pra pagar 12 euros por uma lasanha de microondas.

De qualquer forma, apesar das baixas probabilidades, tinha fé de que, com a pizza, as coisas seriam diferente. E isso só aumentou minha dor diante da realidade desoladora.

Primeiro, os eleitores de Berlusconi não têm o mínimo respeito pelo sagrado manjar. Em qualquer boteco vendem pedaços de pão achatado com o que tiver em cima, e chamam aquilo de pizza, na cara dura. Esses infiéis chegaram, inclusive, ao descaramento de inventar uma máquina de pizza. Como se fosse comprar uma Coca Cola, o sujeito insere uma moeda de dois euros, e sai mastigando pelas ruas, completamente alheio à tradição.

Mas minha decepção foi maior diante do que me serviram em estabelecimentos que se diziam tradicionais. Um deles se arvorava do título de restaurante mais antigo do mundo, imputando-se mais de 500 anos de existência. Leonardo da Vinci reunia-se ali com os amigos, jactava-se um texto na primeira página do cardápio.

Pois bem, sentei-me nas ilustres cadeiras e nem tive de pensar para me decidir sobre o que comeria – diferentemente do Brasil, a pizza na Itália é individual e um pouco menor. Em busca da harmonia que só existe na simplicidade, pedi uma marguerita, sem dúvida uma das maiores invenções da humanidade.

Que desgosto! A massa era fina como uma panqueca. Queimada de um lado, crua do outro. O molho, apesar de abundante, tinha gosto de extrato de tomate. O queijo estava borrachento e gorduroso. E, que pasmem meus ancestrais, não havia nem sinal de manjericão.

Portanto, caros compatriotas paulistanos, vida longa a Speranza, Bráz, e Castelões!

Bate-e-volta na Áustria (final)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 21, 2010

Veneza – O policial se aproxima e eu vou despejando documentos sobre ele: contrato de aluguel do carro, passaporte, habilitação brasileira e habilitação traduzida para o italiano. Ele recolhe tudo, vai até a viatura, fica lá por alguns instantes, depois volta e pede que eu desça do veículo.

Obedeço, e caminho atrás dele até o carro de polícia. Ele então se vira para mim com um estranho dispositivo na mão e pergunta: “no álcool?”

Tentando convencer meu próprio organismo de que aquele meio litro de cerveja austríaca não existiu, juro solenemente que não bebi nada. O policial, como bom homem da lei, não acredita em mim, espeta o equipamento a um palmo do meu rosto e manda que eu assopre com força, a uma distância de alguns centímetros.

Trago uma boa quantidade de ar, enquanto considerações sobre a possibilidade de ser deportado, de ter de pagar uma multa milionária ou de acabar conhecendo as masmorras venezianas se multiplicam entre meus pensamentos. Depois assopro bem de leve, rezando pro bafômetro me dar uma colher de chá. Mas o aparelhinho, que devia ter algum parentesco com a maldita máquina do pedágio, apita todo irritado, piscando luzes coloridas.

Aparentemente compreensivo, o policial manda que eu assopre com mais força. Eu obedeço e dessa vez a maquininha fica em silêncio por algum tempo. Por um longo tempo. Depois pisca uma luz laranja, e por fim, verde. Verde me parece um bom resultado. Melhor só se fosse azul, imagino eu.

O policial também parece pensar assim. Mais relaxado, faz uma piada sobre a eliminação do Brasil na copa. Não compreendo completamente e ele dá de ombros. Anota alguma coisa num formulário preso a uma prancheta e me devolve os documentos.

Com os joelhos levemente amolecidos, reassumo o comando do veículo que, só de birra, apita porque esqueci de colocar o cinto de segurança. Passa um pouco das dez horas da noite, a temperatura beira os 30º e ainda não escureceu completamente em Veneza.

Tagged with: , , ,

Bate-e-volta na Áustria (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Veneza – Alugamos um carro. Pedimos o mais simples que tinha e levamos um Citroên C3 com ar, direção e computador de bordo. Ainda acho que não há forma tão divertida de viajar quanto de carro (de moto, talvez, mas creio que em pouco tempo eu acabaria me estropiando). São raros os meios de transporte que propiciam tanta liberdade e interação com o mundo.

Vamos ainda mais para o norte da Itália, até Cortina D’Ampezzo, uma cidadezinha conto-de-fadas com casas de telhado pontudo, cercada por montanhas de dolomita ­– formação rochosa com enormes escarpas cor de areia, que mudam a tonalidade ao longo do dia.

Caminhamos um pouco por trilhas no entorno da cidade, comemos uns sanduíches surrupiados mais cedo do café da manhã no hotel, e compramos cerejas e amoras numa venda onde tudo parece pedir uma dentada.

Depois voltamos para o carro e vou dirigindo meio sem rumo, por uma estradinha sinuosa que se espreme entre as montanhas, cantando aquela canção tradicional dos viajantes italianos: la donna è mobile, con vostro automòbile!

A temperatura vai caindo conforme a altitude aumenta, o que é extremamente agradável para nós, que passamos os últimos dias derretendo num calor de mais de 30º. No alto das montanhas, além do verde claro das copas dos pinheiros, é possível avistar manchas brancas de neves eternas. A estrada é tão bonita que continuamos em frente, meio sem rumo até que começamos a notar certas peculiaridades à nossa volta. A primeira delas: “Pizzaria Hans”. Depois, as placas de trânsito passam a apresentar-se em italiano e alemão.

Encafifado com a situação, paro no acostamento, diante de um lago de pacatas águas azuladas. Me aproximo de um senhor de idade que, vestindo um chapéu de feltro verte, recolhe seu equipamento de pescaria. Usando todos os meus recursos linguisticos (que, necessário deixar claro, não são tantos) pergunto que país é aquele afinal.

Ele parece um tanto surpreso com a pergunta, o que é bastante compreensível. Mas por fim, misturando italiano, alemão e inglês, me explica que estamos na parte sul da região conhecida como Tirol. Ainda na Itália, mas muito perto da fronteira com a Áustria. Mudo meu repertório lírico de la donna è mòbile para aquela velha canção tiroleza: tira o lei-í-ti, e vou adiante.

Antes de dar a partida novamente no nosso levemente afeminado C3 branco, nos entreolhamos os três com a mesma ideia em mente: vamos para a Áustria.

Veneza

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 15, 2010

Veneza ­– Nunca estive numa cidade tão bonita como Veneza. As ruas de pedra são ladeadas pelas fachadas antigas das casas, hotéis e restaurantes que se emendam uns nos outras formando uma espécie de muro cheio de becos e esquinas. Algumas dessas vielas medem apenas meio de largura, outras têm passagens em túneis por debaixo de prédios de tijolo aparente.

Eu, que já sou naturalmente perdido, só ando por aqui com o mapa na mão. Mas turistas andando assim, com o mapa aberto a um palmo do rosto, estão por toda a parte em Veneza. E mesmo quando o mapa não é suficiente, não há grandes problemas. É um prazer estar perdido em Veneza.

Ao contrário do que se fala, a cidade não fede a esgoto, pelo menos não nessa época. Os canais de água esverdeada parecem consideravelmente limpos, e cheguei a ver peixes num deles.

As ruas também são quase todas impecavelmente asseadas. Há vasos de flores nas janelas, e, nos canais, os postes para amarrar barcos são pintados em espirais coloridas, como pirulitos gigantes.

Às vezes tenho a impressão que estou numa cidade cenográfica. Sentimento parecido ao que experimentei nas vezes em que estive, por exemplo, em Parati ou em Tiradentes; de que há uma porção da cidade conservada e maquiada, com função exclusivamente turística.

Mas em Veneza é diferente. Primeiro porque o centro histórico é enorme em comparação com as outras cidades. Não sei dizer se é possível percorrer todo ele a pé. Além disso, a cidade realmente acontece por aqui. Há pessoas morando, donas de casa pendurando a roupa no varal, jovens ragazzas levando o cachorro pra passear e funcionários públicos fazendo a leitura de água e gás.

%d blogueiros gostam disto: