Antes da Estante

Primeiros passos

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2009

Como prometido no último post, coloco abaixo, a introdução do projeto do próximo livro-reportagem. A pesquisa já começou, algumas entrevistas também, mas, como fica claro pelas linhas abaixo, ainda estamos esculpindo em pedra bruta.

O ano é 1964. O Brasil tenta entender o significado do golpe que instaurou uma ditadura no país. Ainda sob a crença geral de que aquela seria uma situação passageira, militares iniciam mudanças que logo resultariam num governo tirânico, onde a tortura e o assassinato seriam práticas recorrentes.

Paralelamente, diversos setores da sociedade iniciam manobras de oposição e resistência. A política torna-se o centro das atenções. Para boa parte da juventude de então, não há como manter distância.

Nesse cenário político caótico e arriscado, dois amigos, criados em famílias intelectuais paulistanas, ingressam na Universidade de São Paulo, onde o clima é semelhante ao das ruas. Quando o assunto é política, não há meio termo. Professores e estudantes são perseguidos e coagidos por esboçar simpatia a teorias socialistas ou comunistas, enquanto outros são taxados de fascistas e reacionários por não aderirem a movimentos de esquerda.

Para os dois calouros, não há escapatória. Pelas famílias onde cresceram é dado que farão parte da oposição ao regime militar, e antes mesmo do golpe, ambos já se envolviam em manifestações, assembléias e passeatas ligadas a setores da esquerda. Com o endurecimento do sistema, contudo, a forma como cada um encara essa situação vai tornando-se diversa. A amizade entre os dois continua, mas enquanto um mergulha de cabeça em organizações de resistência envolvendo-se em atentados contra instituições militares, outro, apesar de ainda se engajar em atividades de oposição pacífica, recusa-se a pegar em armas.

Essa tentativa de preservar o vínculo de amizade separado do posicionamento ideológico, contudo, não se sustenta por muito tempo e ambos acabam se envolvendo e envolvendo as próprias famílias em um turbilhão de acontecimentos que, como tantas outras histórias dessa época, terminará de maneira trágica.

A descrição, que parece saída de um roteiro de ficção, é apenas um esboço da história vivida pelos estudantes André Gouveia, filho da escritora Tatiana Belinky, e Dario Chiaverini, filho do cardiologista Reinaldo Chiaverini e pai do autor.

André engajou-se ativamente na luta-armada através da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), participou do atentado frustrado ao quartel do II exército, em São Paulo, que causou a morte de um militar, fugiu para a Europa e acabou morto de forma misteriosa, na França. Dario nunca se envolveu diretamente na luta-armada, mas acabou involuntariamente ligado às ações de André. Sofreu consequências, foi preso (assim como seus pais) pelo DOI-CODI e ainda hoje não sabe até que ponto suas decisão de se manter afastado da resistência influenciou na morte precoce do colega.

Em homenagem ao amigo, Dario batizou seu primeiro filho com o nome de André.

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Ossos do ofício

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on abril 3, 2008

Como disse no post anterior, uma das maiores vantagens do processo de elaboração de um livro-reportagem é a possibilidade de ir a fundo nos assuntos abordados, o que permite oferecer resultados de qualidade superior ao de outros meios.

Encontrei um ótimo exemplo prático dessa teoria em minhas recentes investigações sobre o ecstasy.

Os primeiros passos da apuração foram semelhantes àqueles que eu daria se estivesse trabalhando em uma matéria para algum jornal diário.

Fiz uma ampla pesquisa na internet e procurei fontes confiáveis pelos caminhos normais. A primeira foi o chefe dos investigadores de uma divisão da polícia civil que coíbe o tráfico de drogas sintéticas, e a segunda foi um psiquiatra do Hospital das Clínicas, especialista em ecstasy.

O policial me ofereceu um bom quadro histórico da droga no Brasil enquanto que o psiquiatra, além de confirmar a versão histórica do investigador, me explicou de forma precisa como a droga age no organismo.

Se eu estivesse apurando uma matéria para um veículo qualquer, a maior dificuldade provavelmente seria encontrar um personagem, um usuário de ecstasy para ilustrar a matéria.

Mas, como já estou mergulhado nesse universo há uns bons três meses, já havia entrevistado um rapaz que acabara de tomar três comprimidos, numa festa rave.

Assim, com os dados colhidos até aqui, eu me daria por satisfeito e aposto que qualquer editor também. Para o livro, contudo, achei que a parte histórica estava um pouco fraca. Os dois especialistas haviam me confirmado a versão da internet de que o ecstasy havia sido patenteado pela Merck, em 1912 como um inibidor de apetite.

Mas eu sentia que faltava um pouco de sal na história. Depois de alguns telefonemas por diversas unidades da USP, cheguei a uma professora da Farmácia que, por telefone, desmentiu de cara a versão dada pelos dois especialistas de que o ecstasy havia sido um remédio para emagrecer.

Ela estava um tanto atarefada e não pôde conversar muito, mas me enviou uma série de artigos em PDF, sobre a história do ecstasy.

Um deles, em particular, tinha material suficiente para fazer o roteiro de um épico de Hollywood. Contava de onde vinham todos os boatos referentes à droga, que incluíam teorias sobre uso da substância por soldados na Primeira Guerra Mundial, elucubrações sobre a possibilidade da droga ter sido descoberta por um vencedor do prêmio Nobel de química, entre outros causos bizarros.

Vou deixar a parte mais divertida para quem comprar o livro, mas o mais surpreendente do processo de apuração é que o artigo desmentia categoricamente a teoria de que o ecstasy havia sido patenteado como um inibidor de apetite.

Na verdade, a droga estava presente na formulação de um outro medicamento, para conter hemorragias. Como no início do século passado era comum se patentear fórmulas e não substâncias, o MDMA foi patenteado por tabela e não chegou a ser usado comercialmente.

Portanto, diria que nunca se pode pecar por excesso de apuração. A não ser quando o livro já parece pronto e não há jeito de desapegar do bicho. Lembro de uma frase de alguma personalidade, trazida a meus ouvidos por meu estimado editor:

“Um autor nunca termina um livro, apenas o abandona”.

E se a rainha não deixa seus súditos se divertirem…

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 7, 2008

No início da década de 1980, cansados das leis britânicas que obrigavam os Pubs a fecharem às onze da noite, os jovens ingleses começaram a produzir suas próprias festas que, para manter distância segura das autoridades, aconteciam sempre em sítios, afastados da cidade ou nos Squats — prédios abandonados tomados por grupos de jovens que construíam espécies de cortiço, às vezes até com apoio do governo.

Quando começaram a ganhar algum dinheiro com esses estranhos eventos, os DJs e os produtores da Inglaterra passaram a viajar para o estado indiano de Goa que, décadas antes, havia sido a meca do movimento hippie, com festas na praia movidas a maconha, LSD, rock progressivo e reggae.

Quando a tribo da música eletrônica colocou os coturnos londrinos nas areias de Goa, o clima hippie lembrado com nostalgia pelos participantes de woodstock transmutados em yuppies e sentados atrás de alguma escrivaninha em Wall Street , continuava lá, quase intacto. As festas na praia, a psicodelia, o LSD, a liberdade sexual, a filosofia paz e amor de influência budista, os gurus e as cítaras.

E a primeira coisa que os DJs urbanóides fizeram foi ligar os gravadores, os notebooks e começar a capturar tudo aquilo, a transferir os sons da índia para as DAT tapes. Sim, antes do MP3, dos gravadores de CD e da Internet de banda-larga, os meios utilizado pelos DJs viajantes limitavam-se às Digital Áudio Tapes (DAT), umas fitinhas cinzas, parecidas com as Mini-DVs mas usadas para gravar som com alta qualidade.

Eles gravavam tudo. Cítaras, mantras e crianças falando hindi, e depois mixavam, remixavam e misturavam às bases eletrônicas, dando início a um estilo de música que ficaria conhecido como o Goa-Trance.

As festas de Goa, com essa nova vertente do som eletrônico e embaladas naquele clima nostálgico do Verão do Amor, passaram a atrair cada vez mais adeptos de diversas partes do mundo.

To be continued…

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