Antes da Estante

Os adocicados germes marroquinos

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 9, 2010

Ainda levemente estupefato e zonzo diante do exotismo da media de Fez, paro diante de uma pequena vitrina de vidro, erguida diante de uma biboca do tamanho de uma porta de garagem. Lá dentro, iluminadas por uma lâmpada amarelada, há duas ou três montanhas de docinhos árabes, pequenas porções de massa folhada envoltas em copiosa calda dourada de caramelo.

Paro e olho por algum tempo. E, mais tarde descobriria, parar e olhar no Marrocos significa: “eu quero comprar”. Notando meu interesse, portanto, o velho detrás da vitrina me estendeu um docinho para que eu experimentasse. Desconfiei um pouco do dedão e polegar do sujeito, mas acabei provando o folhado recheado com amêndoas moídas ­– uma delícia ­– o que me levou a aceitar a oferta do sujeito, pedindo uma porção d 5 dirham, cerca de R$ 1.

O velho fez uma careta de felicidade e creio que este sentimento tenha lhe provocado uma ligeira reação alérgica, que culminou em um sonoro e espalhafatoso espirro. Com aqueles mesmos dedos que haviam me oferecido o doce, o homem tratou de limpar devidamente o muco nasal excedente e, sem qualquer cerimônia, voltou ao trabalho de servir o cliente (eu no caso).

Eis que, ao indicador e polegar, juntaram-se os outros dedos e se afundaram na montanha de docinhos caramelizados. Uma, duas mãozadas, e o velho me esticou um pequeno saco de papel recheado com as guloseimas. Paguei com uma nota de cinco e o troco veio em moedas, trazidas, claro, pelos caramelizados dedos protagonistas. Com alguma dificuldade desgrudei os 15 dirham da palma da mão, meti no bolso e agradeci pela mercadoria.

Como se carregasse os dejetos tóxicos de Angra 2, levei o saquinho, intocado, até o quarto do hotel. O primeiro impulso foi jogar tudo fora, mas os docinhos eram realmente saborosos e, por via das dúvidas, achei por bem deixá-los descansar até o dia seguinte no criado-mudo.

No fim, a quarentena se mostrou uma decisão acertada. Porque logo perceberia que se fosse me apegar a questões higiênicas, acabaria por morrer de fome. É assim no Marrocos: o sujeito que faz panquecas leva o lixo pra fora, o troco e o pão passam pelos mesmos dedos, e os copos são lavados numa mesma bacia, com um único e rápido mergulho na água levemente turva.

Na segunda noite, faminto à espera do jantar, tratei de devorar uns quatro ou cinco daqueles docinhos. Tinham um leve sabor de unha suja, o que talvez os tornasse ainda mais saborosos.

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