Antes da Estante

Unhas da imortalidade

Posted in Crônica, Nota de Rodapé by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Durante anos guardei minhas unhas. Não lembro exatamente como tive a ideia. Mas um dia, depois de aparar pés e mãos não joguei tudo fora como faria um humano mentalmente são. Em vez disso, guardei as pequeninas meias-luas de queratina numa caixinha de tic-tac sabor laranja. No começo não havia um motivo específico. Talvez tenha sido preguiça de ir até o lixo, talvez a caixinha estivesse ali, ao alcance, sobre o criado-mudo.

De qualquer forma, isso logo se tornou um hábito. E, com o tempo, passou a me proporcionar um discreto prazer. Pensava naquela música do Chico. No futuro distante, um escafandrista revira uma casa submersa e encontra resquícios de um amor do passado. Pensava que um dia um arqueólogo viria revirar meu criado-mudo, talvez fossilizado após uma hecatombe nuclear ou coisa que o valha, e encontraria ali minha coleção de unhas, acumuladas durante uma vida.

Leia na íntegra…

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Explosões, pancadaria e tédio, no novo Homem de Aço

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 18, 2013

Não existe amor em 3D

por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia…

Leia na íntegra…

Overbooking marroquino

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2010

Um americano esbaforido e cheio de urgência entra no ônibus que, em cerca de oito horas de viagem, nos levará de Essaouira a Casablanca. Com o rosto ruborizado de calor e pressa, ele para ao lado de dois marroquinos já devidamente acomodados e bufa, aspergindo uma nuvem de suor e saliva pelo ambiente. Depois, por alguns longos instantes, ocupa-se em confrontar as informações de seu bilhete de embarque com as exibidas na pequena plaqueta sobre os dois assentos ocupados.

Em inglês, pede licença aos passageiros sentados e explica que aqueles lugares lhe pertencem. Os marroquinos olham pra ele, não sorriem, e dão de ombros. O americano insiste. Em troca, ganha algumas incompreensíveis palavras em árabe ou berbere. Desolado, o sujeito desce na rodoviária suja e caótica, que mais parece o pátio de um ferro-velho só para ônibus.

Volta algum tempo depois, ainda com as passagens na mão. Agora, por sorte, topa com o fiscal da companhia de transporte, que zanza de um lado pro outro no corredor. Feliz e aliviado, mas ainda cheio de urgência, o passageiro vai até o funcionário, aponta para o bilhete de embarque e explica que os lugares marcados ali, os lugares que lhe pertencem, encontram-se ocupados.

O fiscal toma o papel da mão do americano, examina por alguns instantes, depois saca uma caneta esferográfica do bolso, risca o número do assento e devolve ao homem. Problema resolvido, sente-se onde conseguir.

Essaouira, windsurf e capacetes

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 31, 2010

O nome Essaouira significa algo como “bem desenhada”, e foi uma homenagem ao arquiteto que projetou a cidade, sob encomenda de um sultão, na segunda metade do século 18. Mas o vilarejo é bem mais antigo do que isso, foi fundado pelos Fenícios, no século 7. Depois, no século 15, nosso patrícios portugueses dominaram o local e o utilizaram como um importante porto de abastecimento para as navegações. Nessa época, durante o domínio lusitano, a cidade era conhecida como Mogador.

Essaouira ainda é bastante pitoresca. A pequena medina que forma o centro velho é toda cercada por muros de pedra guarnecidos por antigos canhões de metal, as construções são quase todas pintadas de branco, e as ruelas estreitas são tomadas pelo comércio de artesanato, que, no entanto, ocorre de maneira bem menos intensa e violenta do que em Marraquexe.

A temperatura é muito mais amena do que no restante do país, e em pleno verão marroquino, somos obrigados a nos proteger com casacos leves, mesmo durante o dia. Em parte, isso se deve ao vento que sopra constantemente e que coloca a cidade em posição de destaque no roteiro mundial dos praticantes de windsurf.

Quando recebo essa informação, antes mesmo de dar uma olhada na praia, já sinto uma excitação leve no estômago, pensando na possibilidade de alugar uma vela e me misturar um pouco no vento, depois de uns dois anos com os pés cravados em terra firme.

Deixo as malas no hotel e vou dar uma espiada na praia. Está lotada de marroquinos, que parecem não se incomodar com o vento constante ou com a música árabe ambiente, ininterruptamente vertida por auto-falantes presos aos postes. Por alguns instantes me divirto observado as mulheres vestidas dos pés à cabeça, protagonizando atividades corriqueiramente praianas como jogar frescobol ou pular ondas pra dar um mergulho desengonçado.

Então olho mais pro horizonte e eles estão lá, com suas velas coloridas, deslizando como se impulsionados por propulsores a jato. Observo por alguns instantes. Longos instantes. Fico na dúvida se já encarei uma ventania daquelas. Creio que não. Caminho mais um pouco pela praia, até a escola de vela, onde alugam equipamentos de windsurf. Pergunto o preço. Não é muito caro. E o aluguel inclui seguro de vida e capacete, ressalta um rapaz de rosto bronzeado.

Lembro do Seinfeld dizendo que os capacetes são a prova cabal da idiotice humana. Se precisamos usar um negócio daqueles na cabeça é porque estamos fazendo algo estupidamente perigoso.

Agradeço e volto a caminhar. Penso que talvez a experiência de velejar em Essaouira seja um tanto dolorosa. Mas não desisto. Deixo a decisão para a manhã seguinte, afinal já passa das quatro horas da tarde

O destino, contudo, trata de me livrar do apuro. Quando acordo no segundo e último dia que passarei na cidade, não há um mísero nó de vento, e o mundo está completamente envolta numa bruma esbranquiçada, que torna tudo romanticamente misterioso e calmo.

Humpf!

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on agosto 27, 2010

Algum escritor consagrado cujo nome não faço questão de lembrar, disse a seguinte máxima, que é constantemente repetida como conselho a jovens escritores: “se pode viver sem escrever, não escreva”. Não sei se eram exatamente essas as palavras, mas o sentido é basicamente esse; ou seja, se conseguir fugir dessa carreira maldita, faça-o rápido, vá ser engenheiro ou médico, construir paredes, consertar ossos quebrados, vá fazer alguma coisa útil, que realmente sirva pra alguma coisa.

Pois é, caros leitores, às vezes me arrependo de não ter escutado o tal sujeito. Porque não é nada fácil avançar nesse mundo das letras. Não é bolinho passar um ano inteiro escrevendo um livro, um único livro, vertendo sangue e suor em Times New Roman, pra depois ler, num blog qualquer, as críticas demolidoras de um sujeito que nem sequer folheou o maldito livro, e que não consegue nem escrever o subtítulo sem assustadores erros de português: “o intorpecente mundo das raves”.

Não é fácil. Não é fácil ler o conselho de outro leitor, que recomenda o seu livro ao amigo, e sugere que, quando for percorrer aquelas páginas que você esculpiu com tanto esmero e carinho, o outro tenha sempre um iPod cravado nos ouvidos, bombardeando-lhe com faixas de psytrance.

Não é mole ter de encarar olhares de desconfiança e incredulidade quando, numa rodinha de desconhecidos na festa de sábado à noite, você se arrisca a confessar que até se diz jornalista, mas, na verdade, sua profissão é ser escritor mesmo.

Não tem graça nenhuma estar permanentemente torcendo para que mais alguns exemplares sejam vendidos, o que lhe garantirá alguns trocados de direitos autorais, que pingarão na sua conta dali a seis meses.

Não é nada animador ver que, em se tratando de resenhas, geralmente uma boa rede de contatos e amizades influentes vale muito mais do que um livro realmente bom. Pior ainda é ter consciência de que, ser um bom profissional apenas, não significa nada no mundo das letras. Afinal, um bom médico tem o trabalho dele garantido, e viverá uma vida próspera e feliz, com casa em condomínio, carro do ano e cachorro abobalhado; enquanto que um escritor apenas bom terá uma vida medíocre, recheada de desilusões e decepções.

Por fim, não é nada fácil encarar o longo, penoso e burocrático processo que leva um livro da nossa cabeça até as livrarias.

Mas, enfim, me desculpo pelo desabafo que, no entanto, não ocorre sem motivos. Acabo de saber que meu romance, Avesso, que tinha lançamento inicialmente previsto para este mês de agosto, depois adiado para outubro, vai ter de esperar no forno mais alguns meses. Deve sair só no início do ano que vem. Nada a fazer senão escutar os conselhos de meu estimado editor e ter paciência, muita paciência.

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Djemaa el-Fnaa

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 26, 2010

A praça Djemaa el-Fna, ou Assembléia dos Mortos, está localizada no centro da medina de Marraquexe. Originalmente, era o local de execução de criminosos, onde as cabeças dos decapitados ficavam expostas a título de exemplo.

Hoje é um gigantesco e lotado mercado a céu aberto, onde é possível assistir a shows de macacos amestrados, músicos tradicionais e encantadores de serpentes, que ganham dinheiro pendurando cobras no pescoço alheio.

Também é o lugar ideal pra provar especiarias bizarras, como o cérebro de cordeiro, a torta doce de pombo com nozes, ou uma cumbuca com moluscos terrestres de nome impronunciável.

Marcas do Islã

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 25, 2010

No Marrocos, a religião está literalmente estampada no rosto das pessoas. Demorei algum tempo pra perceber, mas aos poucos fui reparando na marca que surge na testa de alguns homens. Primeiro achei que ara um sinal de nascença de um indivíduo em particular, mas aos poucos fui percebendo que ela estava presente em vários marroquinos.

Em geral aparece nos homens mais velhos, que usam barba, vestem-se com túnicas de tecido claro e chapéus que cobrem apenas o alto da cabeça. É uma espécie de mancha escura, rugosa, que se forma bem no meio da testa como um terceiro olho. Demorei um pouco para relacionar as manchas com a religião, mas, no fim, creio que esta seja a única explicação: as marcas são, na verdade, calos provocados pelas orações diárias, feitas com a testa apoiadas sobre um pequeno tapete voltado para Meca.

Ocorrem cinco vezes ao dia, as preces. Começam sempre com uma ladainha em voz masculina, que parte da torre de alguma mesquita e depois vai ecoando, repetida por Imãs espalhados pela medina. É assim. Cinco vezes ao dia Alá se faz presente em incompreensíveis versos árabes. Não importa se quem escuta é muçulmano ou não. A religião está lá, firme, cristalizada, atemporal.

Tanques de tingimento do curtume de fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 13, 2010

Na parte branca o couro é curtido, com excremento de pombo; na vermelha, é tingido com pigmentos naturais. Visitantes recebem raminhos de hortelã para segurar embaixo do nariz, o que ajuda a mascarar o cheiro insuportavelmente fétido.

Turismo sem compras em Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2010

O guia que nos conduz pelas velhas e estreitas ruelas de fez é um homem baixo e levemente calvo, usa roupas brancas de algodão e umas pantufas amarelas, modelo Aladim. Tem um bigodinho fino que, junto com a barriga proeminente, o obriga a forçar um pouco os ombros pra trás, lhe conferindo um ar bonachão e malandro, qual um político do interior.

Momo fala um inglês pausado, engessado pelo sotaque árabe, mas fluente. Caminha rápido e o tempo todo faz pausas para comprar velharias das mais variadas. Antiguidades. Diz que é apaixonado por antiguidades. Um dia pretende montar seu próprio museu.

Explica que a cidade de Fez é feia por fora, as fachadas são simples, cor de terra. É por dentro que está a beleza da cidade, na decoração interna de palacetes, mesquitas e escolas. Segundo ele, isso é uma prova de que o povo fassi preocupa-se mais com a beleza interior do que com a aparência externa. Orgulhosos, Momo explica também que por muito tempo a cidade foi o centro cultural e político do Marrocos, ­e que ali foi criada a primeira universidade do mundo.

Antes de sairmos para o passeio, Cecília e James, o casal que havíamos conhecido no trem, tinham sido claros dizendo que não queriam, de forma alguma, fazer compras. Estavam traumatizados depois dos passeios em Marraquexe, onde em cada pausa tentavam lhes vender algo. James comprara um tapete que não queria, por um preço que não gostaria de pagar.

Momo, concorda, claro, o cliente é que manda. Dito isso, após algum tempo de caminhada, lá estamos nós, sentados numa loja de tapetes, tomando chá de hortelã, enquanto dois ou três vendedores nos mostram as peças feitas à mão. Não é para comprar, explica Momo, mas para conhecer a loja e o ritual de venda.

O interior do prédio é realmente fantástico, as paredes completamente cobertas de confusos e elaborados arabescos. A qualidade dos tapetes, descobrimos, é medida pela quantidade de nós. Uma peça de nível intermediário custa a bagatela de U$ 4 mil, e leva um ano para ser feita por um mesmo artesão. Diante das somas estratosféricas, passamos incólume pela primeira provação consumista.

Seguimos para o curtume, tido como o maior do Marrocos. Antes de entrar, um homem nos presenteia com raminhos de hortelã, para segurarmos sob o nariz. É a única forma de suportar o cheiro terrivelmente ácido e putrefato que exala de todo o lugar. Subimos quatro lances de escada até o alto de um prédio, onde uma infinidade de bolsas, cintos, sapatos e outros artigos variados de couro ficam expostos.

Dali é possível avistar os tanques redondos, onde o couro é curtido. Uma parte deles é branca como gesso, devido ao excremento de pombo, usado como uma espécie de amoníaco natural, para limpar o couro. Nos demais tanques, avermelhados, a pele de animais diversos é tingida.

Dessa vez já não somos capazes de passar incólumes. Alguém tem de comprar uma charmosa sapatilha de couro branco, bordada de vermelho. E seguimos assim. Paramos para conhecer uma cooperativa de óleo de argan, uma típica loja de túnicas marroquinas, e, na hora do almoço, um tradicional restaurante Fassi.

No fim, o simpático e levemente malandro Momo garantiu sua comissão. E nós, acabamos com alguns dirhams a menos, e alguns quilos a mais na bagagem. De qualquer forma, o passeio pela labiríntica medina de Fez foi bastante instrutivo.

Quando estamos chegando de volta ao hotel, reparo que há uma grande quantidade de gatos nas ruas de Fez. Mas não vi nenhum cachorro. Penso que pode haver influência coreana na culinária marroquina.

Loja de tapetes em Fez

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Um padeiro e nada mais

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 10, 2010

Este velho padeiro, que alimenta o fogo na foto abaixo, não está fantasiado. Ele não se veste com esta túnica branca para ganhar alguns trocados turísticos em um parque temático. Também não é uma relíquia histórica, nem representa o último exemplar de uma espécie extinta.

O forno que ele alimenta tampouco é um monumento histórico; não é raridade, nem se ergue como um tributo às antigas e tradicionais técnicas de panificação. Não. O que se vê na foto é um padeiro de Fez, alimentando seu forno numa cena corriqueira do cotidiano atual.

Depois de assados, os pães, redondos e massudos, serão acondicionados em caixas de papelão sem grandes preocupações fitossanitárias, e distribuído em vendas, pensões e restaurantes do entorno.

O romantismo da cena, o mistério da penumbra, a beleza das labaredas refletindo na túnica branca do velho padeiro, tudo isso está apenas nos olhos de quem vê. E é justamente isso que torna a imagem realmente interessante.

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Os adocicados germes marroquinos

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 9, 2010

Ainda levemente estupefato e zonzo diante do exotismo da media de Fez, paro diante de uma pequena vitrina de vidro, erguida diante de uma biboca do tamanho de uma porta de garagem. Lá dentro, iluminadas por uma lâmpada amarelada, há duas ou três montanhas de docinhos árabes, pequenas porções de massa folhada envoltas em copiosa calda dourada de caramelo.

Paro e olho por algum tempo. E, mais tarde descobriria, parar e olhar no Marrocos significa: “eu quero comprar”. Notando meu interesse, portanto, o velho detrás da vitrina me estendeu um docinho para que eu experimentasse. Desconfiei um pouco do dedão e polegar do sujeito, mas acabei provando o folhado recheado com amêndoas moídas ­– uma delícia ­– o que me levou a aceitar a oferta do sujeito, pedindo uma porção d 5 dirham, cerca de R$ 1.

O velho fez uma careta de felicidade e creio que este sentimento tenha lhe provocado uma ligeira reação alérgica, que culminou em um sonoro e espalhafatoso espirro. Com aqueles mesmos dedos que haviam me oferecido o doce, o homem tratou de limpar devidamente o muco nasal excedente e, sem qualquer cerimônia, voltou ao trabalho de servir o cliente (eu no caso).

Eis que, ao indicador e polegar, juntaram-se os outros dedos e se afundaram na montanha de docinhos caramelizados. Uma, duas mãozadas, e o velho me esticou um pequeno saco de papel recheado com as guloseimas. Paguei com uma nota de cinco e o troco veio em moedas, trazidas, claro, pelos caramelizados dedos protagonistas. Com alguma dificuldade desgrudei os 15 dirham da palma da mão, meti no bolso e agradeci pela mercadoria.

Como se carregasse os dejetos tóxicos de Angra 2, levei o saquinho, intocado, até o quarto do hotel. O primeiro impulso foi jogar tudo fora, mas os docinhos eram realmente saborosos e, por via das dúvidas, achei por bem deixá-los descansar até o dia seguinte no criado-mudo.

No fim, a quarentena se mostrou uma decisão acertada. Porque logo perceberia que se fosse me apegar a questões higiênicas, acabaria por morrer de fome. É assim no Marrocos: o sujeito que faz panquecas leva o lixo pra fora, o troco e o pão passam pelos mesmos dedos, e os copos são lavados numa mesma bacia, com um único e rápido mergulho na água levemente turva.

Na segunda noite, faminto à espera do jantar, tratei de devorar uns quatro ou cinco daqueles docinhos. Tinham um leve sabor de unha suja, o que talvez os tornasse ainda mais saborosos.

O primeiro mergulho na medina de Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 6, 2010

Nosso hotel em Fez fica bem ao lado da medina. Pra quem não sabe, medina, é o nome que se dá às cidades medievais muçulmanas. A de Fez é a mais fantástica delas. Além de ser a mais bem preservada, é também a maior área urbana livre de carros do mundo. Há cerca de 14 mil ruas, vielas e becos estreitos, que se retorcem ao redor das construções antigas, mergulham em túneis escuros e fazem com que seja impossível andar por ali sem o auxílio de um guia local.

Dizem que mapas são igualmente inúteis, ainda que uma bússola possa ajudar num momento de desespero. De qualquer forma, não são poucas as histórias de gente que entrou lá sozinho e teve de pagar algum guri marroquino pra mostrar a saída.

Mesmo assim, pouco depois das 21h, resolvemos dar uma espiada no interior da medina. Andamos uma centena de metros e passamos por um arco cor de areia, uma das portas da cidade velha.

Desculpem pela sentença aclichezada, mas entrar naquele lugar é como viajar no tempo. Eu já experimentara essa sensação antes, como contei aqui. Na verdade, o Marrocos como um todo parece estar posicionado sobre uma fenda temporal. A modernidade, com a intensidade que conhecemos, ainda não chegou por ali. Dentro da medina, contudo, essa sensação é mais radical.

Naquele trecho em que entramos, as ruelas estreitas, com calçamento de pedras lisas são cobertas por uma treliça de madeira que, durante o dia, protege os pedestres do sol. Durante a noite, serve de suporte para lâmpadas amareladas que se somam às do comércio pra conferir uma iluminação difusa e onírica ao ambiente.

Já é noite fechada, mas o movimento segue intenso na medina. Pedestres zanzam de um lado para o outro, apressados. Homens e mulheres voltam pra casa, ou fazem compras nas várias barracas espalhadas por ali; mulheres vestidas com panos coloridos até a cabeça, ou, mais raramente, completamente cobertas de preto, com longas burcas que escondem até o olho e as transformam em sombras fantasmagóricas.

Nas casas que ladeiam as ruelas ou em bancas sobre o calçamento está o comércio. Lojas que vendem de um tudo: frutas e vegetais frescos; itens de primeira necessidade como água, biscoitos e pão; doces típicos, amontoados em pequenas montanhas caramelizadas; ervas e especiarias coloridas; amêndoas, nozes, tâmaras e pistache; e suco de laranja espremido na hora.

Após alguns metros de caminhada um rapaz mais jovem do que eu se aproxima andando devagar, cola boca no meu ouvido e sussurra: “haxixe?”, antes de continuar andando. Nós também seguimos adiante. À minha frente, um galo zanza pelo chão sem se atentar ao fato de que, atrás dele, numa dessas churrasqueiras giratórias com porta de vidro, vários parentes seus são lenta e sadicamente assados.

Um pouco à frente, frangos passeiam pelo chão de uma pequena loja, também sem notar o perigo do cutelo que, nas mãos de um sujeito de macacão encardido, se ocupa em decapitar um alongado e pálido pescoço galináceo.

Ao que tudo indica, estamos na área dos açougues, que termina apoteoticamente, numa banca a exibir, espalhadas sobre um balcão tosco de tábuas, cinco ou seis cabeças cruas de carneiro, com pele, pelo e olhos ternos e pacatos que parecem ainda espiar os passantes.

Alguém está gritando atrás de nós. Abrimos passagem e nos voltamos para conferir o que está acontecendo. É o tempo certo de vermos um garoto de uns doze ou treze anos, todo vestido de prateado, abrir caminho entre a multidão colorida e passar trotando com seu cavalo branco.

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Sobre trens e malandragem

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2010

Deixamos Casablanca há cerca de três horas, e em mais uma devemos chegar à cidade de Fez. Durante todo esse tempo viajamos meditativos, numa cabine com mais três pessoas. Em determinado momento, uma moça loira que sentava à minha direita se levanta e vai até o corredor onde, por alguns instantes, fica em pé, admirando o pôr-do-sol. Pouco tempo depois um homem se junta a ela e puxa assunto. Por conta da divisória de vidro e do barulho do trem, não consigo ouvir o que dizem.

Mesmo assim, sigo observando. O homem, um marroquino alto e corpulento, veste uma blusa branca levemente encardida; fala gesticulando com as mãos, e é todo sorrisos pra cima da moça. Usando uma camisa clara de linho, jeans e uns óculos Ray Ban ela parece não se incomodar com a conversa do estranho, e até se diverte sorrindo com dentes perfeitamente alinhados. Para mim não resta dúvida de que aquele sujeito é um aproveitador, um malandro em busca de presas fáceis, um representante do lado negro da força.

Em pouco tempo, contudo, a loira se desvencilha do homem e desembarca. O sujeito, por sua vez, entra na nossa cabine e senta-se no lugar dela. Estica um pouco as pernas, se espreguiça e recosta novamente. Alguns instantes se passam até que ele inclina-se um pouco pra frente, apóia os cotovelos nos joelhos, estampa um meio sorriso simpático no rosto e passa a observar os demais viajantes.

– Estão viajando juntos? – pergunta em inglês.

O homem loiro de óculos escuros que senta diante de mim responde laconicamente que não e volta ao silêncio. O outro recosta novamente e permanece pensativo por algum tempo.

­– São americanos? – pergunta ao homem voltando a inclinar-se para frente. O outro responde que é, americano filho de cubanos, viaja com a namorada espanhola, que também vive nos EUA. O estranho sorri satisfeito. Depois se volta para nós e já não precisa dizer mais nada. Somos tacitamente obrigados a nos apresentar. Impressionante como a palavra “Brasil” é capaz de produzir sorrisos e descontrair ambientes.

O marroquino passa a alternar frases em espanhol e inglês. Fala também francês e italiano, além do árabe em variantes diversas. Pergunta se estamos indo pra Fez e diante da afirmativa, nos bombardeia com uma série de informações extremamente úteis. Diz que trabalha na secretaria de turismo de Rabat, cidade onde acabamos de passar.

Entre as várias recomendações e dados detalhados sobre preços de taxis, hotéis e restaurantes, enfatiza que não devemos, em hipótese alguma, aceitar guias que não sejam credenciados. Os oferecidos pelos hotéis, diz, também não são muito indicados, pois estão preocupados apenas com comissões e fazem roteiros voltados às compras.

Dany, apelido que usa para facilitar a vida dos turistas, é um cara simpático, envolvente e em pouco tempo estamos todos conversando alegremente. O casal, James e Cecília, também são gente muito boa e já estão viajando pelo Marrocos há alguns dias. Quando todos parecem ter se tornando grandes amigos, Dany pergunta onde ficaremos hospedados. Há um breve silêncio, desconversamos, dizemos não lembrar bem o nome dos hotéis.

– É no sul ou no norte? – ele pergunta, sempre sorridente.

Óbvio que ninguém sabe a localização geográfica de hotel nenhum. Mas ele insiste, chuta alguns nomes, e não há jeito de escapar. Logo ele já sabe o nome e o endereço de nossos hotéis. Diz conhecê-los e faz comentários pontuais sobre cada um deles. Depois volta a se recostar, aparentemente feliz por ajudar aquele grupo de estrangeiros.

Alguns instantes se passam e ele volta à questão dos guias. Explica pormenores, diz que seria interessante pegarmos guias durante dois dias. Em um conheceríamos a cidade, em outro iríamos para o deserto, no entorno. Dá detalhes de quanto devemos pagar. Depois tem um estalo. Claro, deveríamos nos juntar todos e pegar um guia só. Sairia mais barato.

E mais, Dany conhece o homem que é simplesmente o melhor guia de Fez e que, evidentemente, tem todas as credencias da secretaria de turismo. Pode ligar pra ele nesse instante, caso tenhamos interesse. Então passa a enumerar as qualidades do guia, os lugares fantásticos que iremos conhecer e a economia que faremos se passearmos juntos. Eu, de minha parte, já estou vencido. Entregaria meu cartão de crédito na mão do desconhecido com total confiança.

Por sorte, James está no Marrocos há algum tempo. Diz que a proposta parece interessante, mas que gostaríamos de conversar um pouco sobre o assunto. Dany concorda, claro, sem problemas, e recosta na poltrona. Demonstrando firmeza louvável, James diz uma frase que até então eu nunca tinha visto ninguém usar fora das telas: “gostaríamos de conversar a sós”.  Pela primeira vez, o marroquino se mostra levemente contrariado, mas concorda em deixar a cabine.

E basta ele sair para que o encanto se quebre. É evidente que não podemos confiar nesse sujeito, que provavelmente vai nos arrumar o pior guia do mundo e talvez bater nossas carteiras assim que entrarmos nos becos escuros da medina de Fez. Chegamos a essa conclusão rapidamente, mas trocamos endereços de email entre nós. Quando Dany volta, pedimos que eles nos deixe um número de telefone, que ligaremos se houver interesse. Ele segue ligeiramente contrariado, mas concorda.

Ironicamente a suposta tentativa de golpe nos ajudou a conhecer um casal muito simpático e bacana, e no dia seguinte saímos para passear juntos. Sem que perguntássemos, o guia contratado no hotel dos dois avisou que era preciso tomar muito cuidado com pessoas que abordam turistas nos trens. Eles vivem viajando de cidade em cidade, e sempre se dizem funcionários de órgãos públicos. Depois vendem um passeio pro deserto onde os turistas têm seus bolsos devidamente esvaziados.

Dany se encaixa perfeitamente nessa descrição, mas por alguns instantes ele me pareceu tão gente boa que até hoje tenho dificuldade em acreditar que era tudo teatro.

É noite em Barcelona

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 30, 2010

Barcelona – Levo algum tempo pra conseguir abrir os olhos por conta do sol que castiga minhas pupilas. Olho para um pôster à minha frente, de onde Kurt Cobain me encara com seu olhar suicida. Levanto a cabeça e topo com outro cartaz, colado na parede atrás de mim. Johnny Depp, encarnando Hunther Thompson em “Medo e Delírio em Las Vegas”, deforma-se numa viagem de LSD.

Com algum esforço me sento no colchão onde passei a noite. O mundo ao meu redor oscila qual um navio pirata à deriva. Ignoro a leve dor de cabeça e me apego à realidade. No chão ao meu lado há uma garrafa de uísque vazia, da qual não bebi; um pote de shampoo, que não usei; e um par de meias sujas, que não me pertencem. Estico o pescoço e olho em volta. No sófá, há um sujeito desconhecido dormindo só de cuecas.

Penso que uma retrospectiva da noite anterior se faz necessária.

Tudo começou no fim da tarde, quando nos separamos: Helô vai passar a noite na casa de Eliot, um amigo de longa data que há anos mudou do Brasil para um povoado próximo à Barcelona. Mateus e eu ficamos na cidade. Dormiremos na casa de Dani, uma amiga jornalista, que nos encontra num café, diante da Casa de Pedra (foto), construída por Gaudí.

Acertada a conta no café, nos despedimos de Helô e vamos até um “Pac” pra comprar uma dúzia de cervejas catalãs. “Pac” é o apelido das lojas de conveniência locais, quase sempre comandadas por paquistaneses, incansáveis trabalhadores que não se apegam a tradições do velho mundo, como a siesta, por exemplo. Depois caminhamos até o apartamento de Dani.

“Aqui é a Liga das Nações”, explica ela antes de abrir a pesada porta de madeira de um apartamento amplo, com pé direito incrivelmente alto, anarquicamente decorado com pôsteres na parede e móveis de segunda-mão. O imóvel tem sete quartos, ocupados por nove jovens de nacionalidades diversas. Lembro do filme “Os Sonhadores”, do Bertolucci.

Sentamos num amplo terraço que se estende além da sala, coisa rara nas exíguas cidades européias. Abrimos três cervejas, e aos poucos os habitantes dessa estranha república vão aparecendo.

Sempre que tento falar espanhol, sinto que estou trapaceando, então prefiro me comunicar em Inglês. Em geral recebo respostas em espanhol, mas durante a noite, também pipocam frases em catalão, belga, italiano e não sei dizer o que mais.

Na segunda rodada de cervejas, Co aparece com uma tela, tintas e pincéis. Apóia o quadro no chão, coloca uma fotografia de um busto nu de mulher sobre a coxa, e começa a pintar enquanto me fala de sua terra natal, a Bélgica. Tenho vontade de conhecer Bruges.

A conversa segue animada, e quando nos damos conta já passa da meia-noite. Ainda não me acostumei ao fato de que o pôr-do-sol nessa época não acontece antes das 22h, e sempre acabo perdendo a conta do tempo. Saímos para comer, antes que os restaurantes fechem. Vamos: Co, Dani, Mateus, Robi (uma guria italiana doidinha de tudo) e eu.

Sentamos numa mesa pequena na calçada. Pedimos uma porção variada de tapas, mas antes que a comida chegue, o garçom me trás um pequeno balde de cerveja. Um litro de cevada catalã, servido num copo plástico que requer duas mãos para ser erguido. Bebemos, comemos e conversamos, embolando cada vez mais os idiomas. Robi está particularmente feliz, porque é a noite de seu aniversário. Brindamos a Robi, que, para mim, já se transformou em Robin. Quando o restaurante está fechando, pagamos a conta e saímos caminhando.

Barcelona é uma cidade receptiva, que se abre como um imenso bulevar, ladeado por prédios charmosamente baixos e antigos. Caminhar de madrugada por um beco escuro não traz qualquer sensação de insegurança, por aqui.

Depois de uma meia hora, chegamos ao Harlem, um bar de jazz, escuro e escondido numa ruela estreita. Passa das três da manhã quando entramos, e a música ao vivo já acabou. Mesmo assim, sentamos. Há apenas duas outras mesas ocupadas e Robin faz questão de juntar todas. O casal que estava numa delas, declina do convite, mas os outros, conhecidos de Dani, acatam a sugestão.

Robin, qual uma verdadeira super-heroína, traz bebidas para todos. Tomo uma vodka, pra rebater o cansaço. Puxo conversa com uma garota ao meu lado. Pergunto de onde ela é.

– Daqui – reponde.

– Espanha? – pergunto eu.

– No, Cataluña! – responde orgulhosa.

Robin me traz outra vodka. Depois um uísque. Conversamos mais, e já não me sinto trapaceando quando falo espanhol. Parece muito cedo ainda, mas o garçom traz a conta. Só tenho 50 euros e sou o primeiro a colocar a nota sobre a mesa. Os outros me pagam o que acham que devem. Enfio tudo na carteira, sem me preocupar em contar. O garçom pede que levantemos pra ele poder virar as cadeiras. Vamos para o balcão, mas o barman diz que temos de sair. Pedimos copos descartáveis, ele diz que não tem, então saímos com nossas bebidas nos copos de vidro.

Caminhamos. Passa das cindo da manhã, mas há muita gente nas ruas. Robin reclama do calor e tira a blusa. Caminha só de sutiã. Dani não acha má ideia e faz o mesmo. Nada como caminhar de madrugada no verão de Barcelona, com meu copo de uísque em mãos, escoltado por duas belas garotas seminuas. Tento imaginar a mesma cena em São Paulo.

Voltamos para a varanda, abrimos outra rodada de cerveja. Robin acende um baseado que exala vapores de gás do medo. Passa das seis da manhã. Espanhol, inglês, catalão e português tornam-se igualmente incompreensíveis para mim. Hora de dormir.

***

Mais tarde no dia seguinte, curada a ressaca, Mateus e eu nos despedimos de todos para ir ao encontro de Helô. A cidade em que ela está fica a cerca de uma hora de trem de Barcelona. Antes de sair, acho por bem conferir quanto de dinheiro sobrou na minha carteira. Conto as notas amarfanhadas e a soma dá exatamente 50 euros. O que prova que, também no mundo da boemia, é dando que se recebe.

Quando tudo está perdido…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 27, 2010

É sempre assim: quando as opções parecem ter se esgotado, quando um banco de praça ou a embaixada brasileira parecem ser a única saída, alguém aparece pra ajudar. Foi assim com Camélia e o ônibus quebrado em Roma, foi assim com a brasileira e a greve de ônibus em Ventimiglia, e foi assim com o posto de gasolina em Nice. Mas, comecemos do começo.

O começo é mais um aluguel de carro. Um Spark, modelo novo da Chevrolet que ainda não chegou ao Brasil, uma espécie de Celta com aspirações a Smart. Mas, enfim, alugamos o carrinho, passamos todo o dia percorrendo as bucólicas cidadelas medievais ao redor de Nice, até que resolvemos voltar.

E, como geralmente ocorre nas locadoras, temos de devolver o carro com o tanque cheio. Sem problemas. É só parar ao lado de um taxista, descobrir o posto mais próximo e pronto, certo? Errado. As tarefas mais simples adquirem complexidade inacreditável quando se está em um país desconhecido.

Ninguém parece precisar abastecer o carro nessa cidade e gastamos uma hora até encontrarmos o primeiro posto de gasolina em Nice. Mas, como passa um pouco das 21h de um domingo, o posto está fechado. Mesmo assim pego uma das bombas, enfio no tanque do carro e aperto o gatilho. Evidentemente que não sai nenhuma gota de gasolina. Olhamos em volta. Um leve desespero paira sobre nós.

Helô vai até a loja de conveniência, que, claro, está fechada. Cola bem o rosto no vidro e vê que há alguém lá dentro. Bate na porta. A mulher, uma negra com dentes reluzentes, se aproxima e faz um gesto com as mãos dizendo o óbvio: que a loja está fechada. Helô continua a bater na porta. A mulher segue fazendo gestos em negativa. Helô passa a esmurrar a porta. Lethea finalmente se cansa e abre a porta. Explicamos a situação a ela e pedimos, imploramos, que nos venda gasolina, mas ela diz que não tem como ligar as bombas. Perguntamos por outro posto, e ela leva as mãos à cabeça.

Trazemos o mapa da cidade. Ela olha, diz que não é boa com mapas, mas diante de nossa desolação, toma uma atitude um tanto surpreendente. Propõe-se a nos levar até o posto. Por alguns instantes tentamos dissuadi-la da ideia, dizer que não é necessário, mas logo aceitamos, mesmo por que não há outra saída à vista.

Lethea, que a essa altura já sabermos ser do Senegal, entra no carro e explica o caminho. Não é tarefa fácil seguir suas indicações, que vêm em francês, idioma que não entendo, acompanhadas de gestos, que não enxergo, já que ela vai no banco de trás. Mas depois de uns vinte minutos rodando pelo harmonioso, charmoso e garboso arruamento de Nice, finalmente encontramos um posto aberto.

Depois, como compensação, nos oferecemos para levar Lethea até sua casa, mas ela diz que tomará o trem de superfície no mesmo ponto que a gente. Deixamos o carro no estacionamento, e nos dividimos. Eu vou deixar a chave no “quick-drop” da agência, Mateus e Helô vão com Lethea pegar o trem.

Mas conforme eles caminham, Lethea começa levá-los para uma direção diferente da parada do trem. Mateus e Helô estão em Nice há três dias, e conhecem a cidade o bastante para saber que estão indo no caminho contrário. Lethea fala ao celular pela segunda vez e é o bastante para os dois começarem a desconfiar.

Helô se põe nervosa, não sabe bem como agir. Então, como quem não quer nada, pergunta a Lethea se a parada do trem não é em outra direção. Claro que sim, diz Lethea, só estava levando os dois para conhecerem alguns pontos turísticos da cidade.

Quando a esmola é pouca…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 16, 2010

Veneza ­– Em frente à Basílica di Santa Maria della Salute há uma velha pedinte. Ela fica sempre ajoelhada, com a cabeça encostada no chão e as mãos juntas implorando, numa posição bastante impressionante.

Quando as pessoas passam diante dela para visitar a igreja, decorada com telas do Ticiano, ela geme alto, como se sentisse dor.

Passando diante dessa figura, Helô enfiou a mão no bolso e contou as moedas que tinha. Era pouco, algo como cinquenta centavos de euro, mas o único dinheiro trocado às mãos. Helô juntou as moedas e colocou no chapéu de esmolas.

A mulher ergueu-se, contou o valor, depois se levantou, pegou uma moeda de um euro e ofereceu para Helô, com o rosto irônico e sorridente. Parecia realmente feliz ao desdenhar o baixo valor da esmola.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 8, 2010

Roma – Um indiano vem andando depressa lá do fundo do ônibus, esbarrando em todo mundo que está de pé. Veste uma camisa branca de um tecido rústico, amarronzada de encardido ao redor do pescoço e axilas.  Aproxima-se do motorista e despeja sobre ele uma avalanche de palavras completamente incompreensíveis para mim.

O motorista volta-se para ele, ergue a mão e chacoalha os cinco dedos fechados voltados para o queixo, num gesto teatral tipicamente italiano. Depois cospe uma ou duas frases num tom que, de tão agressivo, acaba por acalmar o indiano. Ele diminui a intensidade de suas reclamações, mas resmunga mais um pouco antes de voltar contrariado ao seu lugar.

Mateus me diz que, pelo que entendeu, o homem havia deixado uma bolsa sobre o assento e outro passageiro se apossara dela. Queria que o motorista intervisse a seu favor.

Quando a discussão termina, passo algum tempo observando o motorista. A maneira como usou de violência e agressividade para desarmar seu oponente me causa um fascínio desconfortável, semelhante ao que tinha quando via o Tyson lutar, por exemplo. E conforme o observo, percebo que essa agressividade parece permear aquele sujeito por inteiro.

A forma como dirige, numa velocidade ligeiramente superior à que parece segura; a forma como fala ao celular, acompanhando as palavras com gestos da mão direita; a forma como se veste, com a calça de microfibra azul arregaçada até o joelho por conta do calor.

Quando olho para o relógio exagerado que o sujeito usa, levo um susto. O sol brilha forte lá fora, mas já são quase nove horas da noite. O fato de ser tão tarde traz alguma preocupação, que se desdobra em outras: Não temos clareza de como faremos para chegar ao nosso destino, por exemplo. Sabemos que em algum momento teremos de tomar o metrô, mas quase nada além disso.

Lançando mão de um idioma que imagino assemelhar-se ao Esperanto Helô conversa com a mulher que viaja ao seu lado. Em poucas frases descobre que ela terá de passar perto do nosso destino, e que se dispõe a nos guiar.

A boa samaritana chama-se Camélia, é natural da romena, e mora na Itália há sete anos. Parece sentir-se desconfortável quando perguntamos sua profissão e explica superficialmente. Ficamos em dúvida se é empregada doméstica, governanta ou secretária.

Camélia fala um italiano carregado de sotaque, o que torna suas frases ainda mais incompreensíveis para mim. Ela, por sua vez, não entende que minha tacanhice mental limita-se ao idioma. Acha que sou completamente estúpido e faz questão de me explicar tudo detalhadamente, com direito a mímicas: como devo colocar o bilhete na catraca, como devo me deslocar pelas escadas rolantes, como funciona o metrô, e assim por diante.

Diz que já ouviu falar do Brasil, por conta do carnaval e eu preconceituosamente imagino que ela tenha bastante preconceito para com os brasileiros. Deve achar curioso o fato de não nos vestirmos com tangas e penas.

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Baldeações, decepções e fascinações (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 7, 2010

Madri/Roma – Cada vez que sento em uma poltrona de avião tenho a impressão de que minhas pernas cresceram. E acho que, se continuar assim, não vou caber no próximo vôo. Imaginava que na Ibéria, uma companhia européia, a situação fosse melhor do que nos teco-tecos nacionais. Doce ilusão. Uma vez sentado e enlatado, qualquer movimento torna-se praticamente impossível. A comida, por outro lado, até que não é má.

E eu fico um pouco fascinado ao imaginar a logística que está por trás desta cozinha que alimenta cerca de duzentas pessoas simultaneamente, numa situação um tanto singular. Verdade que há apenas duas opções de menú, mas estamos voando a 900 quilômetros por hora, a oito quilômetros de altura e minha carne cozida ao molho madeira nem se dá conta disso.

Em nove horas chegamos a Madri, num aeroporto que parece uma cidade de porte médio. Os terminais têm dimensões sobre-humanas e um simples par de pernas não é suficiente para caminhar do desembarque até os guichês de imigração, por exemplo. Por isso boa parte da circulação interna é feita por esteiras rolantes de metal, que fazem os maravilhados turistas do terceiro mundo se sentirem num filme de ficção científica.

Apesar do tamanho descomunal, as indicações são precisas e em nenhum momento tenho o prazer de me sentir perdido. Além disso, o espanhol que se fala por aqui me é cristalinamente compreensível, quase como um sotaque do português.

Em pouco tempo estou voando novamente, num avião menor, mais apertado e aparentemente mais antigo do que o primeiro. Meu corpo inteiro reclama da noite em claro, mas é impossível dormir num avião recheado de italianos e espanhóis. Parece que o idioma deles não funciona se não for gritado em Dolby Surround Sound. Duas horas de feira livre e um copo d’água depois, Roma.

Enquanto espero que minha mochila apareça na esteira de bagagens, sinto uma leve empolgação por estar prestes a pisar no velho mundo pela primeira vez na vida (aeroportos não contam; são todos iguais e deveriam ser considerados espaço internacional).

Por outro lado, aos poucos vou percebendo que não sei falar italiano. E, pior ainda, que não entendo nada do que esse povo fala. Achava que meu sobrenome, que sempre fiz questão de pronunciar corretamente (o “ch” com som de “k”), e minha ascendência 50% italiana, de alguma forma, me dotassem de certo conhecimento do idioma de Berlusconi.

“Até os cachorros entendem italiano por aqui, e você nada”, provoca Mateus, que, com alguns meses de curso, se vira bastante bem.

E já que ele consegue se comunicar, nos sentimos seguros para trocar o táxi pelo ônibus e economizar alguns euros. Motorista simpático, ar-condicionado e nenhum outro passageiro. Groove!

Mas alegria de brasileiro na Europa dura pouco. No primeiro ponto o ônibus já é tomado de assalto por uma horda de homens sujos e mal-trapilhos, que poderiam muito bem estar voltando de um dia de trabalho na construção da Torre de Babel. Subitamente, fala-se uma infinidade de línguas à nossa volta. Dialetos aparentemente africanos e hindús se misturam em conversações incompreensíveis. A partir daí, a cada parada, mais gente se espreme à nossa volta. Italianos são artigo raro por aqui.

Nossa bagagem, que estava espalhada em três bancos, agora se amontoa no corredor e a todo momento tem de ser rearranjada devido ao entra e sai de passageiros. Então, uns vinte minutos depois de deixarmos o aeroporto de Roma, o semáforo abre, o motorista engata a primeira marcha, acelera, mas o ônibus se nega a obedecer. Ele repete a operação. Nada. Ele insiste. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera.

Por uns cinco minutos, ele se desdobra em esforços, brigando com a máquina xucra. Depois desiste. Levanta, volta-se para os seus cerca de cinquenta passageiros multiétnicos e diz o óbvio. O ônibus quebrou. Todos devem descer e esperar pelo próximo.

Sem alternativa, obedecemos. Saltamos em meio àquela horda de trabalhadores que, assim como nós, encontram-se consideravelmente cansados, suados e mau-humorados. Mas apesar de estarmos, por assim dizer, “todos no mesmo ônibus”, os olhares que eles nos dirigem não parecem nada amigáveis.

Não fazemos a mínima ideia de onde nos encontramos realmente. Só sabemos que é longe. Tanto do aeroporto, quanto do centro histórico, onde ficaremos hospedados. Esperamos. Tentamos descolar uma carona com um passageiro que ligou para a mulher buscá-lo. Gentil ele diz que é possível, mas não pode garantir se caberemos no carro com a bagagem.

Assim, após cerca de uma hora de espera, quando o próximo ônibus passa, resolvemos embarcar, junto com nossos companheiros mau-encarados.

Acomodo-me ao lado do motorista, meio em pé meio sentado, com a mochila apoiada sobre o painel do ônibus. O cansaço percorre minhas pernas numa espécie de formigamento que parece emanar de dentro dos ossos.

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

O vencedor eterno

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2009

Deu Cristóvão Tezza novamente. Depois de amealhar os principais prêmios literários de 2008 (Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, entre outros), o livro “O filho eterno” levou também o 6o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Em dinheiro, pelos meus cálculos, a somatória de todas as premiações deve dar mais de meio milhão de reais.

Sem lá muita alternativa, li o livro de Tezza, que é, realmente, muito bom. Em pouco mais de duzentas páginas de alto teor dramático, o escritor catarinense conta a relação de um pai com o filho portador síndrome de Down. O livro torna-se ainda mais forte quando se sabe que o autor realmente tem um filho com a mesma doença.

A despeito das inegáveis qualidades do livro, contudo, essa unanimidade na distribuição de prêmios me parece pouco saudável. Afinal, não é possível que em toda a produção literária nacional de 2008 não haja ao menos um outro livro que faça frente ao romance de Tezza.

Além disso, qualquer análise crítica, por mais embasada que seja, é extremamente subjetiva. Será possível que todos os jurados realmente tenham visto em “O filho eterno” algo de inegavelmente superior?

Não sei. A mim, me parece que temos aí um efeito manada. Não é fácil analisar cada exemplar dentre os caminhões de livros que devem chegar de todo o Brasil para um prêmio de destaque. Mais fácil, portanto, acatar a unanimidade, que, como diria Nelson Rodrigues, “é burra”.

De qualquer forma, há algo de positivo nessa concentração toda. Temos um escritor pop-star. Alguém que se tornou capaz de viver (e bem) de literatura, de dedicar-se à escrita acima de tudo, de vender livros a rodo e de criar certa comoção em torno da profissão de escritor. Tomara que Tezza cumpra a missão a contento e faça valer o poder da fama.

E se, uma vez por ano, um novo escritor brasileiro for alçado à condição de pop-star, levando pra casa uma bolada de meio milhão, talvez essa estranha atividade passe a ser levada mais a sério.

Ou não.

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