Antes da Estante

Boicote ao dia dos namorados

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 11, 2009

Boicote o dia dos namorados. Não vá àquele restaurante caro e metido que te atenderá mal como em nenhum outro dia do ano. Não passe horas rodando pelo estacionamento do shopping procurando uma vaga pra se muvucar na fila do cinema, ou pra comprar um presentinho que ela(e) não vai amar de paixão, apesar de dizer o contrário. E não, pelo amor de Deus, não, não e não. Não pense em pegar a rodovia Raposo Tavares e, não. Não gosto nem de cogitar a hipótese, mas é assim. Todo o dia dos namorados ocorre o mesmo fenômeno absurdo. Mas não. Não faça parte disso. Não entre no seu carro e não pegue a rodovia Raposo Tavares para fazer fila, isso mesmo, é isso que acontece, fila na porta do motel. Por favor, não. Se quiser comemorar, se quiser ir jantar fora, ir ao motel, ótimo. Mas escolha um outro dia. E vá com toda a calma do mundo. Aposto que será melhor.

Enfim, essa é minha opinião. Mas se você achar que não pode mesmo deixar este dia passar em branco, tudo bem. Aproveite o desconto do Submarino e dê um livro Festa Infinita para ele, ou para ela. É unissex.

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Rave na pré-história

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2008

Quando escrevia o post anterior, falando sobre as origens tribais das raves, lembrei de uma matéria que li na Folha de S.Paulo e pode ser acessada aqui.

Lá o repórter e colunista Thiago Ney, especialista em música pop, desencava uma pesquisa de um certo sociólogo britânico sobre o comportamento musical dos homens de Neandertal.

Fazendo um paralelo com o mundo moderno, o sociólogo afirma que nossos ancestrais* promoviam algo muito parecido com uma rave, em suas cavernas situadas onde hoje se encontra a França.

*ERRO MEU: conforme bem apontou o leitor Ádrio Inveriach nos comentários abaixo, os Neandertais não são nosssos ancestrais.

Projeto “rave” estréia na imprensa especializada.

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2008

Segue abaixo a abertura da entrevista que dei para o site Essential, do Limão:

FALAMOS COM… Tomás Chiaverini. Jornalista. 27 anos. Autor do “Cama de Cimento”, livro que narra a vida dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Por hora está trabalhando no seu segundo livro, ainda sem título, que explora o fenômeno da cultura trance.

Rapaz de rosto simpático e perguntas curiosas. Um belo ouvinte. Aquele tipo de pessoa que você pode ficar por horas conversando que o assunto nunca acaba. Ele observa tudo. Participa em silêncio. Não entra na dança. É profissional, diria.

O conheci por acaso na viagem para o Festival Trancendence, em que estávamos no mesmo ônibus participando da rota de 25 horas até Alto Paraíso, em Goiás. Tomás colhia material para o seu livro. Era novato no mundo das festas eletrônicas, e já encarava um festival como o Trancendence.

Tomás se sentava no banco atrás do meu. Nas paradas dividíamos um dedo de prosa e um cigarro a tira colo. Mas seu maior companheiro era um bloco de folhas amarelas e uma caneta bic. Ele sempre anotava algo. Isso intrigava a mim e a todos que estavam naquele ônibus. A pergunta que corria entre os acentos: Como será que vai ficar esse livro?

Em entrevista ao Essential, ele conta como está sendo a elaboração do livro, que despertou a curiosidade da galera. Explica também o que o levou a ser jornalista, e como chegou até os livros. E, claro, quais suas pretensões com o seu novo título e como está sendo essa novidade em sua vida, afinal, ele está passando por tudo que um bom raver passa, ou já passou…

Confira, vale a pena!

Divagações: amigos ou personagens

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2008

Rica Amaral é um dos nomes mais importantes do universo raver brasileiro. Foi um dos primeiros a tocar (e a mixar) psytrance por aqui, atualmente é um dos DJs mais requisitados e bem-pagos do mercado nacional, e foi o fundador do núcleo de festas Xxxperience, que hoje promove as maiores raves do país.

Conversei com Rica pessoalmente duas vezes até o momento, sem contar trocas de e-mails e telefonemas. Somadas, as entrevistas devem totalizar umas seis horas de áudio gravado e estamos combinando outros encontros, provavelmente para que eu o acompanhe no trabalho.

Nas duas ocasiões em que conversamos ao vivo, o DJ me recebeu em sua casa, me ofereceu um caprichado café expresso com leite, me apresentou para seu filho pequeno e para sua mãe (que estava por lá cuidando do neto), e me emprestou livros e DVDs sobre mundo das raves.

Rica Amaral será um dos principais personagens da nossa narrativa. A partir de sua história de vida, irei abordar o universo das festas visto do ponto de vista dos organizadores dos eventos.

O casal que aparece junto comigo na foto acima (tirada durante o festival Trancendence, em Goiás), cujos nomes provavelmente não estarão no texto final, irá emprestar suas histórias para que eu mostre o mundo das raves a partir do ponto de vista inverso, daqueles que participam, que curtem as festas.

Convivi com eles durante dez dias. Saí de São Paulo no ônibus da excursão em que os dois viajavam, passei cinco dias acampado ao lado deles durante o Trancendence, e depois ainda me hospedei na mesma pousada, e gastei alguns dias grudado nos dois, percorrendo trilhas e cachoeiras da Chapada dos Veadeiros.

Durante as horas que estive com Rica e os dias que passei com o casal, colhi histórias fantásticas, curiosas, divertidas e até dramáticas. Posso dizer, que conheço relativamente bem essas pessoas e que sou capaz de descrever detalhes de suas vidas particulares com certa propriedade.

Ao mesmo tempo, um outro fenômeno acabou ocorrendo: me tornei amigo deles.

E quando estou escrevendo, por mais que tente esquecer o fato de que eles irão ler aquilo tudo, não há como disfarçar a existência de uma pontinha de preocupação. Será que estou sendo canalha com esse caras? Será que determinada frase vai deixá-los ofendidos ou magoados? E, principalmente, se há essa possibilidade, será que aquela frase é essencial, tem que estar no texto final?

A já combalida imparcialidade, acaba sofrendo duros golpes diante dessa proximidade toda.

Por outro lado, em alguns momentos, confrontando os primeiros rascunhos do texto sobre Rica, escrito após nosso primeiro encontro, com o outro, elaborado depois do segundo contato, percebi que o último está muito melhor. Não só pelo fato de que a apuração está mais completa, mas também porque algumas frases daquelas que poderiam deixá-lo chateado, foram deletadas.

E olhando para elas agora, percebo que não foram apagadas apenas por um receio quanto ao que Rica acharia delas. Foram limadas do texto porque eram preconceituosas, apegavam-se a um estereótipo que talvez a imagem do DJ passasse a mim num primeiro momento, e que, após um contato mais profundo, se mostrou infundado.

Portanto, lembrando do que sempre diz meu amigo que deixou de ser jornalista para trabalhar com índios isolados no interior da Amazônia: “foda-se a imparcialidade. O que realmente importa é o compromisso com os fatos” e, no caso, com a essência humana dos personagens.

Voltando ao Mago

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 28, 2008

Há quase um mês, postei um texto sobre a incrível história de vida do mais bem sucedido autor nacional, senhor Paulo Coelho de Souza. Na época, estava lendo a biografia escrita por Fernando Morais e fiz algumas considerações, principalmente sobre as vivências do escritor, o que acabou gerando uma breve discussão a respeito dos motivos que o levaram a se tornar o mais traduzido autor de nosso tempo.

Terminei de ler “O Mago” (Planeta/2008 ) há uns vinte dias e fiquei ligeiramente decepcionado com o final do livro, com uma carta, um tanto insossa, escrita por Paulo Coelho, destinada a Fernando Morais.

Outro elemento que pode decepcionar alguns leitores decorre do fato de que Morais não gasta muito tempo buscando explicar os misteriosos fatores que transformaram Paulo Coelho em fenômeno planetário.

De qualquer forma, é possível notar certos ingredientes que vão além de alguma suposta qualidade místico-literária-mercadológica no texto do mago imortal.

Quando lançou seu primeiro livro, Paulo Coelho já era um milionário, devido às letras compostas em parceria com Raul Seixas. Isso permitiu que ele injetasse um bom tanto de dinheiro na divulgação de seus livros. O autor chegou, por exemplo, a pagar a diversas rádios para que inserissem comentários positivos sobre sua obra na programação. Uma espécie de “jabá” literário.

Paulo também não economizava esforços na divulgação nem se furtava a desempenhar papéis pouco convencionais, dando entrevistas sobre seus poderes sobrenaturais e deixando-se fotografar de capa, espada e óculos escuros ­- o que fazia a alegria de entediados editores dos cadernos de cultura.

Além das performances bizarras para a imprensa, Paulo fazia e ainda faz de tudo para vender livros. Quando era desconhecido, passava noites distribuindo panfletos em filas de cinema. Agora que é mundialmente famoso, se auto-promove em seções de autógrafo surpresa, principalmente no exterior, onde é um verdadeiro pop-star.

Nessas ocasiões, entra em uma livraria qualquer, chama o gerente, apresenta-se como o escritor Paulo Coelho e se oferece para autografar seus livros. Enquanto isso, um sem número de admiradores já começa a se aglomerar ao seu redor , esteja ele na França, na Turquia ou no Egito

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Trancendence

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 21, 2008

Cinco dias de festa e aproximadamente quatro mil pessoas (número a ser averiguado) acampadas em barracas espalhadas em meio àquela poeira fina do cerrado, numa semana em que a região completava mais de dois meses sem ver um único pingo de chuva.

Banho só com água fria e em geral, após enfrentar um bom tanto de fila. Demais necessidades fisiológicas deveriam ser administradas em um cubículo de cimento, com uma porta de madeira compensada, sem trinco. E a música, cinco dias de música sem parar um único minuto, pancadas eletrônicas ininterruptas, provenientes das mais modernas caixas de som que o homem foi capaz de criar.

Olhando de longe para aquelas barracas perdidas na poeira, num terreno distante cerca de duas horas de qualquer sinal de civilização, olhando aqueles malucos envergando cabeleiras dreadlock e fumando cones de maconha ou haxixe, um homem civilizado qualquer poderia afirmar que ali se vivia um clima de caos e anarquia.

Estaria certo, sem dúvida nenhuma, com um único detalhe. Durante aqueles cinco dias, não só por conta da bem organizada produção de evento, mas principalmente pela postura dos participantes, não tive o desprazer de assistir nada que realmente ameaçasse aquela estranha ordem vigente.

Não há brigas nas filas, mulheres dormem semi-nuas no chill-out sem serem incomodadas e crianças, várias crianças, brincam soltas na poeira, como se estivessem em um grande parque de diversões. As pessoas se ajudam, se preocupam umas com as outras e é quase impossível alguém comer, fumar ou beber algo do seu lado sem lhe oferecer um pedaço, uma tragada ou um gole.

Curiosamente, essa atmosfera de caos ordenado só foi quebrada quando a polícia, mais especificamente o DENARC de Goiânia, resolveu fazer valer a lei do mundo exterior naquele pedaço barulhento de cerrado.

Mais detalhes na quinta-feira, que ainda temos horas e horas de entrevista para transcrever e páginas e páginas de bloquinho para decifrar.

Trancendence

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 10, 2008

Pois bem, caros leitores do Antes da Estante, se vocês estão lendo este post é porque eu não consegui arrumar um computador com conexão à Internet aqui onde devo estar, em pleno festival Trancendence, Alto Paraíso, Goiás.

Este post foi escrito na segunda feira à noite, em meio às derradeiras preparações para esta epopéia eletro-hippie em que devo estar mergulhado. Foi postado pelo meu prestativo e caridoso irmão caçula (que também não teria mais muito que fazer, pois está de férias).

Se tudo deu certo, portanto, no início da noite da terça-feira última, devo ter embarcado em um ônibus ­fretado, pitorescamente batizado de Spaceship, para enfrentar uma jornada de 18 horas ou mais. Junto comigo, estarão mais uns quarenta ravers desconhecidos que, tenho fé, dividirão suas fantásticas histórias com os futuros leitores de nossa humilde narrativa.

Se tudo deu certo, enquanto vocês estão lendo este post, eu estou perdido num enorme descampado ao lado da chapada dos Veadeiros, com os ouvidos já castigados pelas pancadas do psytrance.

Se tudo deu certo, estou acampado sobre uma camada subterrânea de místicos cristais, em meio a 5 mil desconhecidos, com acesso a confortáveis banheiros que não passam de buracos no chão, e a chuveiros, que, na verdade, tratam-se de bicas de água gelada, desviada do rio.

Os posts talvez se tornem irregulares daqui pra diante. Irregulares para mais ou para menos, conforme acesso ao mundo virtual.

Assim, aguardem cenas dos próximos capítulos e torçam para que tudo continue dando certo. Ouvi dizer que as mentalizações positivas chegam muito rápido àquela região específica da crosta terrestre.

Os Fatos?!*

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 7, 2008

– E quantas pessoas havia na primeira rave Madagascar? – pergunto.

– Umas três mil – responde Júlio, antes de cravar os dentes num hambúrguer de uma lanchonete modernosa.

– Três mil, você está louco – contesta Raquel, a outra “sócia” do evento. – Não chegou nem a duas mil.

– Que duas mil nada! Só de convite vip a gente distribuiu quase mil – insiste Júlio.

– Ai, você é muito sem noção. Não tem a menor, noção das coisas!

– Ah, eu sou sem noção então? Você está contando errado.

– Ai, Júlio… Não acredito. Você é muito sem noção. Você vai insistir que tinha mais que duas mil pessoas?

– Que eu lembre tinha.

– Mas como “que eu lembre”, Júlio? Ele precisa da informação correta!

– Certo, certo, calma gente. Vamos à outra pergunta. Quanto custou a primeira edição da rave Madagascar?

– Putz, uns dez mil – responde Júlio.

– Que dez mil, Jú-li-ô!? – contesta Raquel, já indignada, com o rosto todo salpicado de maionese.

– Lógico que foi, se você for contar tudo que a gente gastou desde o começo…

– Ai, Júlio, assim não vai dar. Você é muuuuuuito sem noção!

– Certo, outra pergunta – intervenho novamente. – Vocês, por acaso, são namorados?

– Ex-namorados – explica Raquel, sorrindo sem graça e tentando limpar a maionese do cabelo…

* Sim, a conversa acima realmente aconteceu. Os dois ex-namorados são os sócios da rave Madagascar e parece que a história é quase como coloquei no post anterior mesmo. Foi preciso assistir a muita discussão, mas eles conseguiram chegar a um acordo sobre quase tudo. O único exagero da primeira fonte (do post anterior) foi a página falsa no Orkut, que nunca existiu. Detalhes, daqui a alguns meses, numa livraria perto de você.

O boato*

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 3, 2008

Era uma vez alguns amigos ravers que foram assistir ao longa de animação “Madagascar”, da DreamWorks. Em determinado momento do filme, numa suposta menção ao ecstasy, os bichos do desenho tentam arrumar algumas “balinhas” antes de ir para uma festa.

A cena gerou alguma polêmica na época e, aproveitando a deixa, aqueles amigos resolveram fazer uma rave batizada de Madagascar. Com o boca-a-boca impulsionado pela polêmica do filme, a festa, programada para 400 pessoas, recebeu mais de 2 mil.

Houve até um certo caos na hora, tiveram de sair no meio da rave para comprar mais bebidas, mas no fim deu tudo certo e os produtores, empolgados, resolveram fazer logo uma segunda edição do evento.

Com o vultuoso lucro de primeira festa, eles investiram pesado e se programaram para receber nada menos que 8 mil pessoas.

Cerca de duas semanas antes da festa, no entanto, um espertalhão oportunista, sem nenhuma ligação com os organizadores, criou uma comunidade da Madagascar no Orkut. Quando faltavam uns três dias para a rave, ele postou uma mensagem dizendo que a festa havia sido cancelada.

Paralelamente, o mesmo indivíduo alugou um sítio situado apenas 500 metros antes do local onde a rave Madagascar – que não havia realmente sido cancelada – iria ocorrer. Quando chegou na hora da festa, boa parte dos ravers confusos paravam no primeiro sítio, desciam do carro meio em dúvida e procuravam alguma placa que identificasse a rave como Madagascar.

Quando perguntavam sobre o nome da festa na portaria ouviam sempre a mesma resposta:

– Ora, você não soube? A Madagascar foi cancelada. Mas, se você tiver o convite estamos aceitando. Senão você pode comprar um convite para a nossa rave.

O golpe era trazer os convidados da outra festa e lucrar com a venda de bebida tudo o que não era ganho com os ingressos.

Resultado. A Madagascar, programada para um público de 8 mil pessoas, recebeu 2 mil convidados e teve um prejuízo de R$ 50 mil. A outra rave foi um sucesso total, com um público de cerca de 5 mil pessoas.

* A história acima me foi narrada por um raver, amigo de uma amiga de uma amiga, há alguns meses. Depois de muito escarafunchar na internet, finalmente consegui o celular de uma das organizadoras da rave Madagascar, com quem irei conversar no fim da tarde de hoje. Segunda-feira, colocarei outro post, contando se o boato acima é vero ou apenas bene trovato.

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O Mago!?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 30, 2008

Comprei e estou lendo a biografia de Paulo Coelho.

Dito isso, já vou me justificando para a hora de odiadores do escritor mais traduzido da atualidade, que vendeu nada menos do que 100 milhões de livros ao redor do planeta. Apesar de nunca ter lido nada além de alguns trechos dos livros de Paulo Coelho – os quais não me agradaram -, não posso negar que tinha um bom tanto de curiosidade sobre como ele passou de repórter de revistas de satanismo a parceiro de Raul Seixas e, por fim, best seller mundial.

Além disso, “O Mago” (Planeta/2008 ) foi escrito por Fernando Morais. Sim, também há ressalvas quanto a Morais, principalmente quando se fala em política. Mas ele é um excelente biógrafo e, como ando construindo uma porção de perfis – espécies de mini-biografias – achei que não faria mal buscar inspiração e técnicas nessa nova e extensa obra (630 páginas).

E Fernando Morais não decepcionou. Tem um texto conciso, fluido e cativante, e traz histórias pra lá de fantásticas.

Quanto a Paulo Coelho, muitos dos preconceitos que temos a respeito de sua figura, se confirmam. Desde que era coelhinho, ele já se mostrava um mitômano de caráter um tanto duvidoso.

Mas uma coisa é certa. Estou mais ou menos na metade do livro e já vi Paulo Coelho passar por experiências de vida que lhe gabaritariam para ser um grande escritor. Ou seja, graças a Fernando Morais, vou ter que me render a curiosidade e ler pelo menos um dos achincalhados romances do bruxo carioca.

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Rascunhos

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 16, 2008

Os quatro parágrafos abaixo têm grandes chances de, após alguns ajustes, ganharem a honra de abrir o livro:

Carros novos, carros brilhantes, limpos e polidos vão sofrendo e arfando, vencendo pedregulhos e avançando numa fila indiana que serpenteia por entre a poeira misturada à neblina de uma noite de junho. Lentamente, eles sacolejam adiante pela estradinha cada vez mais estreita, que logo se transforma em picada, uma trilha sinuosa aberta no meio da mata, com largura suficiente apenas para que os automóveis passem raspando os retrovisores nos galhos e gravetos caídos.

A luz amarelada dos faróis ilumina o caminho coberto de mato baixo e o tronco esbranquiçado das árvores que se erguem ao redor, e parecem sempre prestes a avançar para o centro da estrada. Um cachorro vira-latas preto, grande, caminha despreocupadamente no sentido contrário e os estafados automóveis têm de parar por um momento para que ele passe trotando sossegado.

Alguns metros adiante, a picada desemboca subitamente numa grande clareira, um pedaço de pasto esburacado e úmido com tufos de capim despontando por todo o lado. Estacas finas de madeira sustentam fitas plásticas listradas de amarelo e preto que delimitam as baias de estacionamento. Um sujeito magro de boné, parado no final da trilha, cobra R$ 20 para aqueles que queiram largar seus carros modernos e bem tratados ali, no meio do nada, sob o sereno de uma noite de outono.

Ao desligar o motor, é possível ouvir, ao longe e por todos os lados, o som insistente e profundo de um bumbo eletrônico que se repetirá até a noite do dia seguinte, embalando milhares de ravers num moderno ritual de êxtase coletivo

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Conclusão – Sentindo na pele

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on junho 11, 2008

5h28

Bebo água. Não sinto vontade, mas bebo porque sei que tenho. Maxilar sem chiclete seria insuportável.

DJ ruim atrapalha. Estou calmo. Mente a mil, mas calmo.

Murilo fica lá em cima como uma santidade hindu. [um dos organizadores da festa, já entrevistado]

Putz, esses barulhinhos. Parecem insetos brilhantes.

5h32

Tenho que oferecer essas anotações para pesquisa.

Cara tenta arrumar briga tirou um pouco meu êxtase e carregou energia da pista.

Nada mais agradável do que música eletrônica. Labareda. [show de pirofagia]

5h36

DJ ruim atrapalha muito, mesmo assim é bom.

5h43

Bebo mais água sem vontade. Desse estranho, espessa.

5h55

Acendem a Respect. [letreiro com nome da festa pega fogo]

Efeitos do Ecstasy começando a baixar. Estou um pouco surdo. Efeitos colaterais. Chill Out parece um cemitério, gente deitada jogada no chão. [outra saída da pista para conferir andamento da festa]

Pista bombando. Perna pesada, mas preciso voltar para pista. Nunca tive tanta lucidez e noção do meu físico.

Quando me aproximo da pista os efeitos parecem aumentar.

06h02

Muita gente entrando, barracas lotadas, fila para tudo, pra comprar ficha, pra comprar cerveja, pra comprar água.

Ficar aqui sem ter tomado nada não deve ser coisa boa.

Passa muito rápido. Assim como bate, passa muito rápido.

Vista de cima a pista parece um formigueiro.

Deitar descansar um  pouco. Um pouco de calor, suando bastante. [me deito no gramado, perto da pista]

06h06

Sem sono nenhum, o dia começa a amanhecer. Eu estou deitado no chão, olhando o céu, o sol nascendo iluminando as nuvens. A música continua.

Não está me incomodando, pelo contrário. Agradável. Muito cheio. Poderia me incomodar se eu estivesse sóbrio, eu sei disso, mas não me incomoda agora.

06h11

As pessoas passam e quase pisam na minha cabeça e eu não ligo. A festa em si parece não importar muito sob efeito do  ecstasy. Experiência individual. Música é tudo o que importa.

Mas agora que estou aqui, deitado no chão, olhando par ao céu, parece bem melhor do que se eu estivesse num clube na cidade.

Poderia dormir se quisesse. Mas não parece necessário.

Efeito do maxilar passou. Mas ainda tem um bom tanto de ecstasy. Me sentido muito bem. Apesar de não ter vontade de dançar, música continua agradável.

06h15

Mente continua muito acurada, mais do que nunca. Não existe nóia. Posso ficar deitado na grama sem me preocupar com o que os outros estão pensando.

Se tivesse outro ecstasy eu tomava agora.

Amanhã: efeitos colaterais…

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Sentindo na pele – continuação

Posted in Extra by Tomás Chiaverini on junho 10, 2008

– 4h52

Luzes lazer voam. Parece divertido. Mas nada se compara ao som. Baixos.

Cabeça a mil, não consigo parar de pensar. Otimismo. Sucesso. Preocupação apologia. Vai tudo dar certo.[pensamentos e sentimentos eram em relação ao livro]

4h53

Esses barulhinhos!

Não consigo parar de anotar. Quero dançar.

Clareza mental, mente muito mais ágil. Focada na experiência, no livro. Quero baixos, graves.

5h01

Não sinto o tempo passar. Não vou mais guardar o bloco. Posso ficar aqui sendo espancando pelo resto da vida. Esses Barulinhos! Anoto no escuro cada vez mais.

5h03

Não quero pular, mas meu corpo se move, principalmente cabeça. Esses barulinhos. Entendo porque alguém pode morrer desidratado.

Mais perto. 10 metros. [distância das caixas de som] Prejudicial, sem dúvida, mas muito melhor. Minha calça vibra e massageia pelos das pernas.

Boca seca. Chiclete bom. Esses barulhinhos. Me desequilibro. Não estou tonto, mas música me levanta. Se pulasse cairia.

5h05

Deviam distribuir ecstasy no pescoção. [pescoção é gíria jornalísica para a jornada extra feita na sexta-feira para terminar o jornal de domingo, geralmente acaba por volta das 5h de sábado]

5h08

Maxilar incontrolável. Chiclete bom. Música me comanda. Foda-se o Dj. Música. [considerações sobre importância do DJ, que me pareceu muito pequena]

5h10

Me seguro para não anotar tanto. Viver. Mas quero anotar. Mente a mil. Sinto a textura do papel na ponta da caneta. Maxilar enche o saco.

Esses barulhinhos. Me preocupo se bloco não vai acabar. Anoto letra menor. Pirulito não parece má idéia.

Encontro amiga. Sem vontade conversar.

5h14

É feito para E, sem dúvida. [música eletrônica]. Enxergo no escuro.

Pista muito cheia. Fora, multidão. Meninas e meninos brincam com elástico, muita gente. [Saí da pista para conferir como a festa progredia]

5h20

Há fila para tudo, mas não me importo porque não preciso de nada. Talvez outro bloco.

Me afasto da pista. Barulinhos me perseguem. Maxilar. Mordo bochecha. Banheiro mulheres fila impossível. Visão meio embaralhada. [no claro]

Fora da pista é impossível. Ah, que beleza é a pista e suas luzes roxas. Menina do encontrão pára e me olha.

QUERO MAIS . Fim do livro. [foi uma idéia de como terminar o livro, dizendo precisar de mais festa]

Se a festa acabasse agora seria horrível.

Continua amanhã…

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Sentindo na pele

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 9, 2008

Nem os mais ferrenhos defensores das raves podem negar que o Ecstasy está intimamente ligado com a cultura das festas desde seu início até hoje. Portanto, creio que um livro sobre o assunto deve tratar o tema de forma profunda.

Assim, li vários artigos e teses sobre a droga, colhi depoimentos de quem usou, e conversei com especialistas diversos. Mesmo assim, achei que nada poderia se comparar à vivência da experiência na pele. E estava certo. Precisamente às 3h30 da manhã deste sábado, tomei uma pílula verde com um smiles gravado em baixo relevo e, meia hora depois, fui para a pista de dança de uma rave próxima a São Paulo.

Como já mencionei outras vezes nesse espaço, não sou grande fã de música eletrônica e, por volta das 4h, a música ainda parecia um tanto desagradável e alta demais. Então, às 4h 20, tudo mudou. Permaneci por cerca de 3 horas na pista, dançando suavemente.

Enquanto isso, mesmo no escuro e cercado de gente, anotei cerca de 70 páginas no meu bloquinho. As anotações são precisas e, creio eu, preciosas. E achei que seria interessante colocá-las aqui sem filtro, do jeito que anotei, o que faço a seguir.

Como há muita coisa, vou colocar aos poucos ao longo da semana. Nos pontos que achei necessário, fiz anotações posteriores, que estão entre colchetes. O resto está como anotei, exceto pela pontuação que inseri posterioremente.

Segue, portanto, a transcrição do que anotei:

– 4h20 ! [ ponto de exclamação foi tudo que consegui anotar quando efeitos começaram]

Enjôo, náusea, vazio na boca do estômago, bom.

Se você não entendeu a mensagem não é pra você. [essa frase era repetida na música]

Ruiva me olha. Não ligo.

Som me envolve, chão vibra junto com meus órgãos. Efeitos sonoros me envolvem, me cercam, me levantam do chão e me fecham. Não quero estar em nenhum outro lugar. Quero que todos os meus entes queridos estejam aqui, suspensos pela música junto comigo.

Chega de anotar, tenho que voltar a sentir.

Pausa. [na música, coisa rara de acontecer na pista].

Gotas me cercam [efeitos sonoros], baixo faz meus ossos vibrarem. E voltam aqueles efeitos que me levantam do chão.

Não há música eletrônica sem E!

Ela veio falar comigo. [a ruiva] Não queria conversar, mas também não me importei.

– 4h40

Pista lotada, barranco muito cheio. [barranco ao lado da pista] Não me importo. Espaço garantido.

Outra menina vem perguntar o que eu estou escrevendo. Não me importo, mas gosto de encostar no ombro dela e no rosto, de leve, sentir o hálito de cigarro.

Estômago oco.

-4h42

Estou dançando. Outros me olham, dançam comigo, eu olho de volta. Danço com eles. Vou precisar mudar tudo, isso não pode estar no começo. Final. [pensando em onde encaixar essa narrativa no livro]

– 4h44

Pista muito cheia. Menina pisa em mim. Não ligo. Posso ficar aqui para sempre. Tenho medo que o efeito passe. Estou louco, parado no meio da pista feito um ET, mas não me importo.

Continua amanhã…

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Morte na rave

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on maio 13, 2008

A Tribe é uma das maiores raves do Brasil, ocorre em cidades diversas, em várias edições por ano. O público sempre passa da casa dos quatro mil participantes. Houve edições em que mais de 20 mil pessoas estiveram presentes.

Controlar vinte mil pessoas não é bolinho. E a coisa fica ainda mais complicada quando essa multidão se reúne em algum sítio distante e, pelo menos parte dela, se entope de balinhas, ácidos, álcool e outras substâncias que abalam a razão.

Na última Tribe, um rapaz desapareceu e, quatro dias depois, foi encontrado morto no fundo de um penhasco na área da festa. As causas da morte só devem ser divulgadas daqui a mais de um mês, mas diversas versões pipocam em fóruns de bate-papo da comunidade psytrace na net.

Fanáticos dos dois lados se agridem. Opositores das raves alegam que eventos desse tipo são apenas desculpa para tráfico e consumo de drogas. Organizadores se dizem competentes e afirmam ter tomado todas as precauções necessárias.

Mas a maior das alegações usada por aqueles que defendem as raves talvez esteja no carnaval. Afinal, parece difícil encontrar alguma festa que incentive mais o tráfico e o consumo de drogas do que o carnaval. Quanta gente não morre por esse brasilzão a fora por conta de acidentes de trânsito, brigas de rua e outras insanidades carnavalescas?

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Degustação

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on maio 8, 2008

Centenas de milhares de leitores do Antes da Estante não param de me importunar, pedindo que eu coloque mais trechos do livro-reportagem. Eles me mandam Zé-meios, me ligam no meio da madrugada e teve um que me agarrou na rua e até rasgou o punho de uma das minhas camisas prediletas.

Assim, apenas no intuito de terminar com esse tenebroso assédio, segue abaixo um micro extrato retirado direto dos esboços do livro, que vão tomando forma. Como disse é um pedaço de esboço. Ainda não foi lido, relido, corrigido amadurecido, relido de novo e corrigido de novo.

O primeiro evento que uniu o “gueto” eletrônico urbano ao fenômeno das raves no Brasil foi uma festa que aconteceu no fim de 1995 na faculdade de química da USP. E a união ocorreu provavelmente porque um dos responsáveis pela festa, o DJ e jornalista Camilo Rocha, tocava no submundo eletrônico urbano havia anos.

Um pouco decepcionado com a lenta evolução dos clubes no Brasil, Camilo havia se mudado para a Inglaterra, onde teve contato com o fenômeno das festas clandestinas que, por lá, faziam parte da contracultura e eram quase que um ato político contra a rigidez das leis britânicas.

A festa de Camilo foi uma novidade bem vinda por aqui, com cerveja barata, quatro DJs que tocaram diversos estilos e um terraço de onde era possível enxergar o horizonte da cidade que dormia, alheia aos primeiros passos do embrião eletrônico que se espalharia pelo país e se tornaria uma febre, um universo paralelo para onde fugiriam jovens dos mais diversos estilos. E os pais que dormiam tranqüilos no final daquele ano de 1995 nem poderiam imaginar que, quando seus filhos ainda crianças chegassem à adolescência, no ano de 2007, eles teriam 1.400 raves para tentar satisfazer sua busca inútil por formas cada vez mais intensas de diversão.

Mas, afinal, por que um livro-reportagem sobre raves?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on maio 5, 2008

Além do interesse por toda e qualquer manifestação humana que saia do lugar-comum, cito abaixo alguns fatores culturais e mercadológicos para justificar a elaboração de um livro-reportagem sobre raves.

1) O Brasil é o país com o maior número de festas rave por ano – 1.400 – e é onde há maior crescimento deste tipo de evento.

2) Em seu recém lançado livro “1968 – O que fizemos de nós” (Planeta/2008), o jornalista e escritor Zuenir Ventura dedica todo um capítulo às festas rave. Para ele, o fenômeno é o maior emblema da juventude atual.

3) O cineasta José Padilha, de Tropa de Elite, irá produzir um longa-metragem sobre raves. As filmagens devem ter início no final do ano, e a estréia deve ocorrer após o lançamento do livro.

4)Existem apenas dois livros sobre o universo da música eletrônica no Brasil, ambos esgotados.

5)O primeiro é “Babado Forte”, de Érika Palomino. Trata do universo dos clubes de música eletrônica em São Paulo e esgotou-se rapidamente. Aborda apenas superficialmente o universo das raves.

6) O segundo é “Todo DJ já sambou”, de Cláudia Assef, que traça um histórico da música eletrônica no país. Os 5 mil exemplares da primeira tiragem se esgotaram em um ano e ele deve ser relançado pela Rocco no segundo semestre. O fenômeno das raves não é abordado.

7) O livro mais importante sobre raves, que elabora um amplo panorama da cena internacional, foi escrito por autores ingleses, está esgotado e também deve ser reeditado, mas apenas em inglês.

Rave gay comunista em Cuba!

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on maio 1, 2008

Sem idéia para o post de hoje, resolvi escarafunchar em minha pasta com recortes para o livro e achei uma matéria divertidíssima sobre uma rave comunista gay em Cuba.

O autor da matéria é o senhor Paulo Sampaio, repórter de comportamento do Cotidiano da Folha, temido por sua língua mais ácida que a baba do demo. Língua esta que fez, por exemplo, a doce e polida Maitê Proença sair do sério e mandar um e-mail ao jornal desancando senhor Sampaio, que havia escrito uma matéria pouco elogiosa sobre uma peça da atriz.

Na ocasião Paulo me mostrou o dito e-mail, mas só me lembro da parte em que ela o chamava de “moleque recalcado”, apesar dos seus quarenta anos vencidos. E acho que dentre todos os insultos este foi dos menores. A íntegra da matéria sobre a rave gay em Cuba pode ser lida por assinantes na Folha Online. Um trecho divertido segue abaixo.

Finalmente, depois de uma trilha onde a terra avançava Lada adentro, chegamos à rave comunista. Consiste em um grupo de cerca de mil homens -não há uma única mulher- em uma espécie de campo de futebol acidentado, cheio de mato, conversando ao som de música eletrônica “básica”. Até a house music em Cuba é racionada. Nada de DJs-convidados ou estrelas: um só resolve.


O bar é feito de tábuas de compensado, tosco como uma barraca de quermesse de festa de São João, e serve rum e cerveja a US$ 1. Levando-se em conta que um médico como o que me abordou ganha cerca de US$ 30 ao mês, sobra pouco do salário para beber.
Por isso, na rave gay comunista as pessoas não buscam apenas sexo (ou droga). Os advogados, médicos e engenheiros querem “plata” também. Em dólar, de preferência.
O médico pediu uma ajuda para pagar o táxi em uma visita que me faria no dia seguinte. Um economista perguntou se eu não queria oferecer uma bebida. Meu amigo brasileiro disse que cobiçaram sua camisa de seda azul tipo “social”.
Fora esse detalhe do donativo, percebe-se (até mesmo em Cuba) que gay é como Mc Donalds: igual em toda parte do mundo. Na maioria das vezes, a apresentação é a mesma: corpão musculoso, camiseta muito justa , boné, calça de grife, frenesi na pista de dança.

Tipos (conclusão)

Posted in Tipos by Tomás Chiaverini on março 14, 2008

Para André, aquele movimento das raves era uma onda romântica, de alguns amigos que queriam viver a vida de uma forma diferente, alternativa, e, de repente, se surgisse a oportunidade, podiam até mudar o mundo.

Participar de uma festa dessas era muito diferente de ir a um clube, na cidade, de onde você sairia bêbado lá pelas duas ou três da manhã, depois cambalearia até cair desabado na cama de algum apartamento espremido no meio da cidade.

Nas festas, o pessoal dançava a noite inteira no meio do mato, da natureza. E depois todos assistiam juntos ao nascer do sol.

internaca41.jpgMuitos nem se conheciam e se viam pela primeira vez naquele momento mágico.

Só que esse romantismo todo foi atraindo cada vez mais gente, as festas se tornaram grandes demais, rentáveis demais e, para André, perderam parte do seu charme. Hoje ninguém mais sabe o que é espiritualidade, ninguém mais se conhece, e as drogas sintéticas, que já existiam e estavam lá nas primeiras festas, ganharam uma força exagerada, acabaram virando o maior pretexto para as festas.

Por isso, há dez anos André não freqüenta mais as festas. Deixou de ir às raves depois que seu carro e seu sistema de som foram roubados numa delas.

Mas continua participando de outros tipos de festivais. Já participou de festas indígenas, reuniões de fetiche e até do maior festival de contracultura do planeta, que reúne cinqüenta mil pessoas no deserto de Black Rock – Nevada – EUA.

No Burning Man, há 2.500 palcos onde todos têm de participar de alguma forma:  cantando, dançando, tirando a roupa ou o que for. Lá, no meio do deserto, é comum ocorrerem tempestades de areia durante as quais, por alguns minutos, é impossível abrir os olhos e respirar sem uma máscara ou um pano na boca. São tempestades tão fortes que, numa dessas, André teve sua barraca semi-destruída e passou o resto do festival dormindo coberto de areia.

No Burning Man, o dinheiro é proibido. Ou quase, já que o único produto comercializado é gelo. O resto tem de ser levado por cada um dos participantes, que também são responsáveis por trazer todo o lixo de volta. Depois daquela semana de isolamento coletivo, aquele ponto do deserto tem de estar como antes: só areia, sem uma bituca de  cigarro.

Além desse, houve muitos outros festivais e festas, algumas até mais surreais do que um evento nos EUA onde o comércio é proibido. André participou, por exemplo, de um casamento suspenso.

Os noivos e o padre – na verdade uma amiga da turma – tinham a pele transpassada por ganchos presos em cordas que passavam por um sistema de roldanas numa traquitana a céu aberto e iam acabar em outros anzóis, presos nas costas dos padrinhos. Conforme os padrinhos andavam para trás, se afastando do altar, os noivos e o padre eram erguidos e o casamento foi realizado assim, todo mundo suspenso por ganchos cravados na pele.

Os pobres mortais podem até se perguntar por que, afinal, alguém resolve ser içado por anzóis cravados na pele. Isso sem falar que, no caso do casamento, a lua-de-mel talvez tenha ficado um tanto prejudicada. Mas para André, a pergunta soa até estranha. Como assim por que? Para não ficar parado, para superar limites, sei lá.

Ou também para poder pegar pelo braço a patricinha que foi na loja e está com medo do furinho do piercing, mostrar a foto e dizer que se alguém pode se pendurar daquele jeito, o que vai ser uma picadinha no umbigo, no nariz ou no clitóris.

André foi um dos primeiros a se submeter a um ritual como esse no Brasil, numa época em que a performance ainda não era usada em comerciais de banco. Esteve sempre na vanguarda, mesmo depois de se afastar das raves.

Foi o responsável por levar a body art para além do mundo underground. Viajou o mundo em busca de inspiração para linhas de jóias. Suas pesquisas de campo incluem viagens ao México, Suíça, Índia, Malásia, Tailândia e EUA.

Atualmente é um dos mais conceituados piercers do país, o que lhe permite, por exemplo, manter uma loja nos Jardins onde, de vez em quando, alguns curiosos param apenas pra olhar sua Harley Davidson parada na calçada.

Se houvesse continuado no universo das raves, André talvez estivesse ainda mais rico e famoso, como alguns colegas dos tempos de Goa, que hoje promovem festas para 30 mil pessoas.

Mas isso não tem grande importância para ele. Casado, tem uma filhinha que havia nascido quarenta dias antes de nossa primeira entrevista. Gosta do seu dia-a-dia e acredita que a vida se desenrola em esferas cármicas de acontecimentos.

internaca41.jpg

Tipos

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 12, 2008

André Meyer tem uma lojinha térrea decorada em tons de roxo e com imagens tribais, encravada numa vila da alameda Franca, coração dos Jardins. Ali, numa das paredes pretas, a poucos metros de alguma butique de longos e paetês, André colocou uma foto numa moldura que também abriga oito ganchos de uns quatro centímetros cada, afiados, como anzóis pra pescar tubarão.

Na foto, os mesmos ganchos estão cravados na pele das costas e das pernas de André que, içado no ar pelos anzóis, parece até sorrir. No local onde os ganchos estão espetados é possível notar os filetes do sangue que escorre. A pele parece um trapo esticado quase a ponto de rasgar, mas ele não aparenta sentir dor, e flutua feito um Super-Homem masoquista.

A alguns metros da lojinha fashion, no segundo andar de um prédio de escritórios fuleiros na rua Augusta, André também é sócio de uma oficina: três salinhas contíguas com as paredes pintadas de cinza sujo onde funciona uma espécie de cooperativa de joalheria.

Há quatro bancadas bem equipadas, com maçaricos, alicates, tesouras, pinças, cadinhos, tripulés e chapas de amianto. Os joalheiros, três fixos mais agregados, fazem de tudo. Piercings, anéis de ouro e brilhante, brincos de prata, aparelhos dentários e até um redundante e coerente boneco de prata do Surfista Prateado.

É numa das salinhas da oficina, sob o som daquele motorzinho igual ao dos dentistas, que André se ajeita para dar entrevista, numa mesa cinza de fórmica com alguns catálogos de joalheria, um globo terrestre e um aparelho de fax, aparentemente quebrado.

Antes da popularização dos gravadores de CDs e da Internet de banda larga, André foi um dos pioneiros das festas rave no Brasil. O som vinha das Digital Áudio Tapes, ou DAT tapes, umas fitinhas parecidas com as Mini-DVs de hoje, mas usadas para gravar som com alta qualidade.

Talvez seja por conta dessa distância das tecnologias atuais que às vezes, aos 38 anos de idade, André até se ache velho.

Já vai uma década desde que ele esteve pendurado nos ganchos, voando feito uma barracuda presa no anzol e foi mais ou menos nessa época que se afastou do universo das raves.

Mas os únicos sinais de idade que podem ser notados são alguns poucos fios brancos disfarçados em meio à cabeleira preta e quase dreadlock que esconde os dois pesados piercings de orelha. As jóias fazem parte do que André chama de kit “clássico” de piercings: orelhas e mamilos. Os braços são quase totalmente cobertos por tatuagem que não se destacam muito da camiseta marrom coberta por um avental verde comprido.

Apesar das intervenções a que tem submetido seu corpo, André é um sujeito boa pinta. Fala com empolgação e as frases vêm sempre permeadas por alguma ironia, que a qualquer momento pode se transformar numa gargalhada aberta, evidenciando um incisivo de platina cravado com um belo e reluzente brilhante.

Continua amanhã

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