Antes da Estante

Unhas da imortalidade

Posted in Crônica, Nota de Rodapé by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Durante anos guardei minhas unhas. Não lembro exatamente como tive a ideia. Mas um dia, depois de aparar pés e mãos não joguei tudo fora como faria um humano mentalmente são. Em vez disso, guardei as pequeninas meias-luas de queratina numa caixinha de tic-tac sabor laranja. No começo não havia um motivo específico. Talvez tenha sido preguiça de ir até o lixo, talvez a caixinha estivesse ali, ao alcance, sobre o criado-mudo.

De qualquer forma, isso logo se tornou um hábito. E, com o tempo, passou a me proporcionar um discreto prazer. Pensava naquela música do Chico. No futuro distante, um escafandrista revira uma casa submersa e encontra resquícios de um amor do passado. Pensava que um dia um arqueólogo viria revirar meu criado-mudo, talvez fossilizado após uma hecatombe nuclear ou coisa que o valha, e encontraria ali minha coleção de unhas, acumuladas durante uma vida.

Leia na íntegra…

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Explosões, pancadaria e tédio, no novo Homem de Aço

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 18, 2013

Não existe amor em 3D

por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia…

Leia na íntegra…

Overbooking marroquino

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2010

Um americano esbaforido e cheio de urgência entra no ônibus que, em cerca de oito horas de viagem, nos levará de Essaouira a Casablanca. Com o rosto ruborizado de calor e pressa, ele para ao lado de dois marroquinos já devidamente acomodados e bufa, aspergindo uma nuvem de suor e saliva pelo ambiente. Depois, por alguns longos instantes, ocupa-se em confrontar as informações de seu bilhete de embarque com as exibidas na pequena plaqueta sobre os dois assentos ocupados.

Em inglês, pede licença aos passageiros sentados e explica que aqueles lugares lhe pertencem. Os marroquinos olham pra ele, não sorriem, e dão de ombros. O americano insiste. Em troca, ganha algumas incompreensíveis palavras em árabe ou berbere. Desolado, o sujeito desce na rodoviária suja e caótica, que mais parece o pátio de um ferro-velho só para ônibus.

Volta algum tempo depois, ainda com as passagens na mão. Agora, por sorte, topa com o fiscal da companhia de transporte, que zanza de um lado pro outro no corredor. Feliz e aliviado, mas ainda cheio de urgência, o passageiro vai até o funcionário, aponta para o bilhete de embarque e explica que os lugares marcados ali, os lugares que lhe pertencem, encontram-se ocupados.

O fiscal toma o papel da mão do americano, examina por alguns instantes, depois saca uma caneta esferográfica do bolso, risca o número do assento e devolve ao homem. Problema resolvido, sente-se onde conseguir.

Marcas do Islã

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 25, 2010

No Marrocos, a religião está literalmente estampada no rosto das pessoas. Demorei algum tempo pra perceber, mas aos poucos fui reparando na marca que surge na testa de alguns homens. Primeiro achei que ara um sinal de nascença de um indivíduo em particular, mas aos poucos fui percebendo que ela estava presente em vários marroquinos.

Em geral aparece nos homens mais velhos, que usam barba, vestem-se com túnicas de tecido claro e chapéus que cobrem apenas o alto da cabeça. É uma espécie de mancha escura, rugosa, que se forma bem no meio da testa como um terceiro olho. Demorei um pouco para relacionar as manchas com a religião, mas, no fim, creio que esta seja a única explicação: as marcas são, na verdade, calos provocados pelas orações diárias, feitas com a testa apoiadas sobre um pequeno tapete voltado para Meca.

Ocorrem cinco vezes ao dia, as preces. Começam sempre com uma ladainha em voz masculina, que parte da torre de alguma mesquita e depois vai ecoando, repetida por Imãs espalhados pela medina. É assim. Cinco vezes ao dia Alá se faz presente em incompreensíveis versos árabes. Não importa se quem escuta é muçulmano ou não. A religião está lá, firme, cristalizada, atemporal.

Cerveja, haxixe e formalidades entorpecentes

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 23, 2010

Depois de um longo dia de caminhada sob o ardido sol marroquino, numa temperatura que frequentemente ultrapassa os 45º, respirando um ar de umidade relativa saariana, nada melhor do que sentar ao redor duma mesa na calçada e tomar uma cerveja geladíssima.

Nada melhor e nada mais impossível. Ainda que não seja proibida por lei, a venda e o consumo de bebida alcoólica no Marrocos, um país muçulmano, é extremamente mal vista. Os semi-alcoólatras ocidentais que se derem ao trabalho acabarão encontrando um ou outro restaurante onde é viável comprar uma garrafa de vinho ou de cerveja a preços astronômicos. Mas apenas em locais voltados a turistas e nunca na rua nem em varandas expostas.

Houve um fim de tarde em que chegamos a tentar. Sentados numa mesa na calçada, perguntamos ao garçom se, assim, por obra do acaso, ele não teria uma cervejinha pra acompanhar os sanduíches de cordeiro. O homem (um jovem magrela com os cabelos espetado de gel) sorriu, aproximou-se bastante da mesa e, sussurrando em inglês, perguntou quantas queríamos. Depois, ainda em voz baixa e o tempo todo olhando ao redor, disse que, se tivéssemos mesmo interesse, ele poderia trazer após a refeição, junto da conta. Mas que de forma alguma poderíamos consumir ali.

Agradecemos, e seguimos na monotonia da Coca-Cola. Antes de voltar ao hotel, resolvemos passear mais um pouco pela Djemaa el-Fna, a incrível praça central de Maraquexe. Pela terceira ou quarta vez naquele dia, um sujeito atravessou meu caminho e, ao cruzar comigo, sussurrou ao meu ouvido: haxixe?

Ou seja, no Marrocos, é mais fácil comprar derivados de Cannabis sativa do que de cevada. A constatação pode parecer absurda aos olhos brasileiros, mas, no fim, creio que seja uma questão de formalidade apenas.

E a higiene ficou pra trás

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2010

Vinte cinco dias de viagem. As roupas estão todas duras e encardidas por conta das lavagens com sabonete nas pias de hotéis afora. Mais e mais, os padrões higiênicos vão se tornando flexíveis.

Mateus pendura uma camiseta atrás da porta do banheiro, esperando que a proximidade com a água, de alguma forma, trate de limpá-la. Em Fez, para assombro das hóspedes francesas, pulou de calça na piscina do hotel, achando que uma boa nadada substituiria a máquina de lavar.

Eu dobro bem algumas roupas usadas, mas que não estão sujas demais, e guardo na mochila, pra vestir após alguns dias, fingindo que estão realmente limpas.

Helô se gaba de ainda ter roupas limpas, o que soa levemente irônico, já que sempre que, em nosso caminho, aparece uma escada, uma calçada irregular, ou qualquer obstáculo, sobra para mim ou para o Mateus a tarefa de conduzir Mrs. Dasy, a mala de rodinhas da baroneza.

É noite em Barcelona

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 30, 2010

Barcelona – Levo algum tempo pra conseguir abrir os olhos por conta do sol que castiga minhas pupilas. Olho para um pôster à minha frente, de onde Kurt Cobain me encara com seu olhar suicida. Levanto a cabeça e topo com outro cartaz, colado na parede atrás de mim. Johnny Depp, encarnando Hunther Thompson em “Medo e Delírio em Las Vegas”, deforma-se numa viagem de LSD.

Com algum esforço me sento no colchão onde passei a noite. O mundo ao meu redor oscila qual um navio pirata à deriva. Ignoro a leve dor de cabeça e me apego à realidade. No chão ao meu lado há uma garrafa de uísque vazia, da qual não bebi; um pote de shampoo, que não usei; e um par de meias sujas, que não me pertencem. Estico o pescoço e olho em volta. No sófá, há um sujeito desconhecido dormindo só de cuecas.

Penso que uma retrospectiva da noite anterior se faz necessária.

Tudo começou no fim da tarde, quando nos separamos: Helô vai passar a noite na casa de Eliot, um amigo de longa data que há anos mudou do Brasil para um povoado próximo à Barcelona. Mateus e eu ficamos na cidade. Dormiremos na casa de Dani, uma amiga jornalista, que nos encontra num café, diante da Casa de Pedra (foto), construída por Gaudí.

Acertada a conta no café, nos despedimos de Helô e vamos até um “Pac” pra comprar uma dúzia de cervejas catalãs. “Pac” é o apelido das lojas de conveniência locais, quase sempre comandadas por paquistaneses, incansáveis trabalhadores que não se apegam a tradições do velho mundo, como a siesta, por exemplo. Depois caminhamos até o apartamento de Dani.

“Aqui é a Liga das Nações”, explica ela antes de abrir a pesada porta de madeira de um apartamento amplo, com pé direito incrivelmente alto, anarquicamente decorado com pôsteres na parede e móveis de segunda-mão. O imóvel tem sete quartos, ocupados por nove jovens de nacionalidades diversas. Lembro do filme “Os Sonhadores”, do Bertolucci.

Sentamos num amplo terraço que se estende além da sala, coisa rara nas exíguas cidades européias. Abrimos três cervejas, e aos poucos os habitantes dessa estranha república vão aparecendo.

Sempre que tento falar espanhol, sinto que estou trapaceando, então prefiro me comunicar em Inglês. Em geral recebo respostas em espanhol, mas durante a noite, também pipocam frases em catalão, belga, italiano e não sei dizer o que mais.

Na segunda rodada de cervejas, Co aparece com uma tela, tintas e pincéis. Apóia o quadro no chão, coloca uma fotografia de um busto nu de mulher sobre a coxa, e começa a pintar enquanto me fala de sua terra natal, a Bélgica. Tenho vontade de conhecer Bruges.

A conversa segue animada, e quando nos damos conta já passa da meia-noite. Ainda não me acostumei ao fato de que o pôr-do-sol nessa época não acontece antes das 22h, e sempre acabo perdendo a conta do tempo. Saímos para comer, antes que os restaurantes fechem. Vamos: Co, Dani, Mateus, Robi (uma guria italiana doidinha de tudo) e eu.

Sentamos numa mesa pequena na calçada. Pedimos uma porção variada de tapas, mas antes que a comida chegue, o garçom me trás um pequeno balde de cerveja. Um litro de cevada catalã, servido num copo plástico que requer duas mãos para ser erguido. Bebemos, comemos e conversamos, embolando cada vez mais os idiomas. Robi está particularmente feliz, porque é a noite de seu aniversário. Brindamos a Robi, que, para mim, já se transformou em Robin. Quando o restaurante está fechando, pagamos a conta e saímos caminhando.

Barcelona é uma cidade receptiva, que se abre como um imenso bulevar, ladeado por prédios charmosamente baixos e antigos. Caminhar de madrugada por um beco escuro não traz qualquer sensação de insegurança, por aqui.

Depois de uma meia hora, chegamos ao Harlem, um bar de jazz, escuro e escondido numa ruela estreita. Passa das três da manhã quando entramos, e a música ao vivo já acabou. Mesmo assim, sentamos. Há apenas duas outras mesas ocupadas e Robin faz questão de juntar todas. O casal que estava numa delas, declina do convite, mas os outros, conhecidos de Dani, acatam a sugestão.

Robin, qual uma verdadeira super-heroína, traz bebidas para todos. Tomo uma vodka, pra rebater o cansaço. Puxo conversa com uma garota ao meu lado. Pergunto de onde ela é.

– Daqui – reponde.

– Espanha? – pergunto eu.

– No, Cataluña! – responde orgulhosa.

Robin me traz outra vodka. Depois um uísque. Conversamos mais, e já não me sinto trapaceando quando falo espanhol. Parece muito cedo ainda, mas o garçom traz a conta. Só tenho 50 euros e sou o primeiro a colocar a nota sobre a mesa. Os outros me pagam o que acham que devem. Enfio tudo na carteira, sem me preocupar em contar. O garçom pede que levantemos pra ele poder virar as cadeiras. Vamos para o balcão, mas o barman diz que temos de sair. Pedimos copos descartáveis, ele diz que não tem, então saímos com nossas bebidas nos copos de vidro.

Caminhamos. Passa das cindo da manhã, mas há muita gente nas ruas. Robin reclama do calor e tira a blusa. Caminha só de sutiã. Dani não acha má ideia e faz o mesmo. Nada como caminhar de madrugada no verão de Barcelona, com meu copo de uísque em mãos, escoltado por duas belas garotas seminuas. Tento imaginar a mesma cena em São Paulo.

Voltamos para a varanda, abrimos outra rodada de cerveja. Robin acende um baseado que exala vapores de gás do medo. Passa das seis da manhã. Espanhol, inglês, catalão e português tornam-se igualmente incompreensíveis para mim. Hora de dormir.

***

Mais tarde no dia seguinte, curada a ressaca, Mateus e eu nos despedimos de todos para ir ao encontro de Helô. A cidade em que ela está fica a cerca de uma hora de trem de Barcelona. Antes de sair, acho por bem conferir quanto de dinheiro sobrou na minha carteira. Conto as notas amarfanhadas e a soma dá exatamente 50 euros. O que prova que, também no mundo da boemia, é dando que se recebe.

Quando tudo está perdido…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 27, 2010

É sempre assim: quando as opções parecem ter se esgotado, quando um banco de praça ou a embaixada brasileira parecem ser a única saída, alguém aparece pra ajudar. Foi assim com Camélia e o ônibus quebrado em Roma, foi assim com a brasileira e a greve de ônibus em Ventimiglia, e foi assim com o posto de gasolina em Nice. Mas, comecemos do começo.

O começo é mais um aluguel de carro. Um Spark, modelo novo da Chevrolet que ainda não chegou ao Brasil, uma espécie de Celta com aspirações a Smart. Mas, enfim, alugamos o carrinho, passamos todo o dia percorrendo as bucólicas cidadelas medievais ao redor de Nice, até que resolvemos voltar.

E, como geralmente ocorre nas locadoras, temos de devolver o carro com o tanque cheio. Sem problemas. É só parar ao lado de um taxista, descobrir o posto mais próximo e pronto, certo? Errado. As tarefas mais simples adquirem complexidade inacreditável quando se está em um país desconhecido.

Ninguém parece precisar abastecer o carro nessa cidade e gastamos uma hora até encontrarmos o primeiro posto de gasolina em Nice. Mas, como passa um pouco das 21h de um domingo, o posto está fechado. Mesmo assim pego uma das bombas, enfio no tanque do carro e aperto o gatilho. Evidentemente que não sai nenhuma gota de gasolina. Olhamos em volta. Um leve desespero paira sobre nós.

Helô vai até a loja de conveniência, que, claro, está fechada. Cola bem o rosto no vidro e vê que há alguém lá dentro. Bate na porta. A mulher, uma negra com dentes reluzentes, se aproxima e faz um gesto com as mãos dizendo o óbvio: que a loja está fechada. Helô continua a bater na porta. A mulher segue fazendo gestos em negativa. Helô passa a esmurrar a porta. Lethea finalmente se cansa e abre a porta. Explicamos a situação a ela e pedimos, imploramos, que nos venda gasolina, mas ela diz que não tem como ligar as bombas. Perguntamos por outro posto, e ela leva as mãos à cabeça.

Trazemos o mapa da cidade. Ela olha, diz que não é boa com mapas, mas diante de nossa desolação, toma uma atitude um tanto surpreendente. Propõe-se a nos levar até o posto. Por alguns instantes tentamos dissuadi-la da ideia, dizer que não é necessário, mas logo aceitamos, mesmo por que não há outra saída à vista.

Lethea, que a essa altura já sabermos ser do Senegal, entra no carro e explica o caminho. Não é tarefa fácil seguir suas indicações, que vêm em francês, idioma que não entendo, acompanhadas de gestos, que não enxergo, já que ela vai no banco de trás. Mas depois de uns vinte minutos rodando pelo harmonioso, charmoso e garboso arruamento de Nice, finalmente encontramos um posto aberto.

Depois, como compensação, nos oferecemos para levar Lethea até sua casa, mas ela diz que tomará o trem de superfície no mesmo ponto que a gente. Deixamos o carro no estacionamento, e nos dividimos. Eu vou deixar a chave no “quick-drop” da agência, Mateus e Helô vão com Lethea pegar o trem.

Mas conforme eles caminham, Lethea começa levá-los para uma direção diferente da parada do trem. Mateus e Helô estão em Nice há três dias, e conhecem a cidade o bastante para saber que estão indo no caminho contrário. Lethea fala ao celular pela segunda vez e é o bastante para os dois começarem a desconfiar.

Helô se põe nervosa, não sabe bem como agir. Então, como quem não quer nada, pergunta a Lethea se a parada do trem não é em outra direção. Claro que sim, diz Lethea, só estava levando os dois para conhecerem alguns pontos turísticos da cidade.

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

Uma estranha realidade

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 3, 2009

Às vezes abro o jornal e me sinto vivendo numa realidade paralela. Tudo bem, sentimento compartilhado, creio eu, pela maioria dos leitores, nenhuma grande novidade. Esse mundo é muito estranho mesmo, e a imprensa faz questão de ressaltar as bizarrices. Mas às vezes as coisas vão além.

Hoje, por exemplo, fui brindado com a notícia de que, por uma sábia medida do governo, em 2014 os carros produzidos aqui terão de poluir 30% menos. Nada de bizarro, ok. Se não fosse por um detalhe: essa meta é inferior àquela que Europa e EUA já adotaram.

Surreal, não?

Sim, mas nada que se compare ao Collor. Pois é, ele de novo. Para quem não sabe, o nosso bicudo caçador de marajás, o boneco assassino do senado, a Fênix do impeachment agora se tornou imortal. Sem nunca ter publicado um livro, o filho do tinhoso conseguiu a proeza de ser escolhido para uma vaga da Academia Alagoana de Letras.

Bizarro o bastante ou querem mais?

Festa Infinita na UM

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2009

E continua o espetacular maremoto que Festa Infinita vem causando na mídia brasileira. Este mês, estamos nas bancas em entrevista à revista UM.

Woodstock X Universo Paralello

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2009

Pois é, caro leitor hippie velho, lá se vão quarenta anos desde que, numa fazenda próxima a Nova Iorque, reuniu-se meio milhão dos mais malucos exemplares humanos. É isso, em agosto o lendário festival de Woodstock completou 40 anos.

E para comemorar, coloco abaixo um trecho do “Festa Infinita” que descreve o começo de um outro festival. Os tempos são outros, a música é outra, o público é outro, e a organização do evento nacional é infinitamente superior à do grande marco hippie. Mas não há como negar que há um bom tanto de Woostock no Universo Paralello.

No início da tarde do dia 29, a pista principal ainda está em silêncio, mas uma multidão já se acomoda por ali, sentada embaixo dos imensos triângulos de lycra colorida, esperando que o ritual de êxtase tenha início. Mas ao invés de emanarem das gigantescas pilhas de caixa de som, as primeiras pancadas são ouvidas à distância, e vêm se aproximando,  mas  num ritmo diferente, e então os que estão sentados têm de se levantar e abrir espaço para que o cortejo de estandartes e saias coloridas passe e se posicione no centro da pista.

Tocando tambores, pandeiros, apitos e chocalhos, o grupo pernambucano de maracatu se apresenta com repentes de boas vindas aos ravers. Todos dançam, cantam junto e tiram fotos. No céu azul, já livre de qualquer ameaça de chuva, um ultraleve colorido voa tranqüilo como se fizesse parte da apresentação. Cerca de 20 minutos depois, o grupo se despede, um deles toma o microfone e durante longos instantes faz propaganda de seu estado, e dos grupos de maracatu, até que, numa pausa mais longa, os técnicos de som cortam o seu microfone. Após alguns segundos de suspense silencioso, uma espécie de vendaval marítimo envolve aqueles milhares de pessoas, percorrendo as caixas sonoras de um lado para o outro, deixando a pista suspensa num crescendo de energia potencial, até que lá de trás vem surgindo o bumbo demarcado, que logo se propaga em irresistíveis ondas de choque e aquela euforia contida é liberada de uma vez, junto a gritos, assobios e à dança livre, frenética e incontrolável.

Ao redor, ao longo daquele quilômetro de coqueiral à beira-mar, a festa desabrocha em toda a sua magnitude. Os sanitários funcionam e o problema das fossas foi resolvido com pequenas bombas, que drenam constantemente a água da chuva, por baixo do plástico sobre o qual são depositados os dejetos. A maioria dos hippies já não está mais acampada no centro de Pratigi e, depois de conseguir ingressos a preços promocionais, expõe suas mercadorias em pontos diversos do festival. Além de posto-médico, salva-vidas, guarda-volumes, lan-house, cozinha comunitária, banheiros e duchas, há a praça de alimentação com 40 restaurantes, onde é possível comer faláfels, temakis ou um simples arroz com feijão e frango assado.

A rua de areia fofa que percorre a festa de ponta a ponta, transformou-se num movimentado bulevar em que se escuta conversas em inglês, japonês, hebraico, alemão, espanhol e outras infinitas e irreconhecíveis línguas. Milhares de almas que não param de se movimentar e de interagir em completa harmonia. São  pessoas estranhas, diferentes entre si, mas que respeitam as diferenças porque quase todos carregam mentes abertas, muitas vezes a golpes das mais potentes e diversas drogas conhecidas.

Por que ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2009

São relativamente simples os fatores que me levaram a achar a história que tenho em mãos mais adequada a uma peça de ficção, a um romance, do que à não-ficção, a um livro-reportagem.

É uma questão de adequação da trama ao veículo, ao meio, e às suas idiossincrasias. Explico me arriscando a simplificar demais o assunto, mas vamos lá.

Um livro-reportagem deve ser, sobretudo, um documento histórico-social. Deve registrar algo de relevante que esteja acontecendo no nosso tempo. Em segundo plano, deve trazer personagens que sintam, que vivam dramas e que aproximem a narrativa ao leitor.

Muitas vezes, este segundo plano é posto de lado nos livros-reportagem. Mas, para mim, um texto deve ser atraente, fluido e envolvente, e as comédias e dramas humanos acrescentam prazer à leitura.

No romance, esses dois aspectos se invertem. O mais importante é a humanidade. Fatos e dados historicamente relevantes são desejáveis, mas devem ser postos no segundo plano. Devem ser apresentados apenas para contextualizar e evidenciar a vivência dos personagens.

Pois bem, o que tenho é uma história familiar sobre uma amizade que se desenrola durante a ditadura, uma narrativa cheia de drama e paixão. O período em que ela ocorre e os fatos que a perpassam foram mais do que explorados em livros-reportagem e históricos. O que nos interessa, portanto, é mergulhar na alma dos personagens.

E o instrumento adequado para isso é o romance.

Ou não?

Mais cocô plastificado (desculpem)

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 9, 2009

Pois então, peço desculpas, mas volto ao assunto do cocô de cachorro plastificado. Juro que não é nenhuma obsessão, porém ontem estava assistindo a um episódio do genial Seinfeld, e deparei-me com o comediante fazendo as seguintes considerações sobre o assunto:

“No meu quarteirão muitas pessoas passeiam com seus cachorros, e eu sempre as vejo carregando aqueles saquinhos de cocô – o que, para mim, é a ocupação mais baixa da existência humana.

Se alienígenas observassem isso através de telescópios iriam pensar que os cachorros são os líderes.

Se você visse duas formas de vida, uma delas está fazendo cocô, a outra está carregando para ela, quem você acharia que está no comando?”

Jerry Seinfeld

Ainda sobre a lei anti-fumo

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 7, 2009

Ontem, em homenagem à nicotina, ao alcatrão e às mensagens subliminares no maço de Marlboro, acompanhado de meu grande amigo Arpad, passei algumas horas poluindo de baforadas tóxicas o ar da Vila Madalena.

Sim, pretendo voltar ao assunto da lei antifumo.

Antes, contudo, faz-se necessário falar um pouco de minha relação pessoal com esses deliciosos bastonetes cancerígenos. Desde o final da adolescência, fumo de maneira esparsa e controlada. Meu pai também é assim e creio ter puxado dele a imunidade ao vício. Posso ficar mais de mês sem fumar que não sentirei qualquer reação físico-psíquica. Em geral, fumo nos fins-de-semana e moderadamente. Durante a semana passo sem cigarros e sem vontade de fumar.

Justamente por manter essa postura “aprecie com moderação”, acho que me encontro em uma posição privilegiada para arriscar algumas considerações inúteis sobre a lei. Pois vamos a elas.

Sou a favor de certa restrição ao fumo. Sentar num restaurante e respirar fumaça de cigarro enquanto se come, é mais ou menos como ir a uma praia e ter de ouvir o som alto que algum infeliz ligou no porta-malas do carro. Em outras palavras: a sua liberdade deve ter, como limite, a liberdade do próximo.

Mas do jeito que foi feita, essa lei de nosso querido governador José Serra, parece obtusa, truculenta e irracional. Exemplo. Ontem após a meia-noite, estava meu caro amigo Arpad sentado numa mesa na calçada, tomando garoa sobre a futura calva, quando resolveu acender um cigarro. Imediatamente o garçom pediu que ele apagasse o cetro de satã.

Havia uma porta do bar que dava para a calçada, portanto era proibido fumar ali. Ou melhor, era proibido fumar ali sentado na cadeira do bar. Mas, uma vez que a rua é pública, em pé não havia problema. Então continuamos a conversa assim por um tempo: Arpad, com seus 192 centímetros, em pé, e eu sentado, até que cansamos da palhaçada e simplesmente ignoramos o garçom, que também nos ignorou. Transgredimos a lei, caro governador.

Ou seja, a nova legislação se pretende tão rígida que acaba forçando a transgressão.

Por que não liberar o fumo nas mesas na calçada de uma vez, ou ir além e permitir que estabelecimentos escolham se destinar a fumantes? Façam propaganda contra, caros governantes, demonizem os pobres fumantes, mas não sejam maniqueístas e totalitários. Quem não quer respirar fumaça, que vá a um bar livre de tabagismo. E os estabelecimentos podem até propagandear: “saboreie nossos pratos respirando o mais puro ar paulistano”.

Essa é minha opinião. Queimem depois de ler, que eu vou fumar um cigarro. Sem filtro!

PS: Fora Sarney e Collor!

Sobre o poder da grande imprensa

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 5, 2009

É impressionante, coisa de louco mesmo, o poder de penetração que as grandes corporações jornalísticas possuem nessa nossa enorme republiqueta de bananas. Desde que foi lançado, no início de abril, o Festa Infinita se espalhou feito fogo morro acima por sites e blogues.

Foi muita coisa mesmo. Quem quiser conferir pode clicar nesta página, onde agrupei a maioria dos links. A vida, entretanto, continuou seu rumo normal. Houve, é verdade, uma ou duas pessoas que me disseram ter ouvido sobre o livro no rádio, ou lido em algum lugar, mas pouca gente.

Eis que no domingo passado, a Revista da Folha faz uma matéria sobre os malucões do Fuck For Forest e, gentilmente, cita meu livro como uma das fontes (aqui para assinantes).

Não era uma matéria específica sobre o livro, meu nome foi até grafado errado, com o requintado toque britânico de um “h”. Mesmo assim, a quantidade de gente que veio comentar comigo foi maior do que nos três meses anteriores. Fico imaginando a beleza que não deve ser sair na capa da Ilustrada…

Ar puro e cocô plastificado

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 3, 2009

Ah, que beleza será o ar de São Paulo agora que a corja homicida de fumantes não mais o empestará com suas baforadas mortalmente cancerígenas. Ônibus desregulados, SUVs e a crescente frota de automóveis continuarão, é verdade, causando ligeira piora na pureza atmosférica, mas o importante é que medidas estão sendo tomadas.

O mundo, caros leitores, está ficando mais limpo. E os cidadãos desta metrópole, que é a Big Apple da América Latina, o umbigo emergente do mundo em desenvolvimento, estão se tornando cada vez mais politicamente corretos.

Para comprovar tal cosmopolitismo paulistano basta tomarmos como exemplo os cachorrinhos endinheirados que passeiam pelas calçadas do bairro de Higienópolis (nome que vem ao encontro do tema). Hoje, depois de uma ampla campanha de conscientização, basta que seus intestinos caninos ponham pra fora algumas porçõezinhas de excremento, para que a massa fétida seja rapidamente recolhida em herméticas sacolinhas plásticas.

Daí, ainda morno, o tóxico pacote é dispensado em alguma das várias lixeiras que se espalham por aquelas aprazíveis calçadas. Dela será provavelmente encaminhado a um lixão onde perdurará ad eternum.

A prática, temos de admitir, deve ter criado uma nova característica de lixo, algo que a natureza talvez não aceite de bom grado. Fezes que seriam rapidamente transformadas e biodegradadas tornam-se em algo de potencial poluidor semelhante ao conteúdo dos tonéis radioativos descartados por usinas nucleares.

Mas não sejamos ecochatos. Afinal, se queremos um mundo realmente limpinho e higiênico, temos que arcar com as conseqüências, não é mesmo?

Mijem na sopa!

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on julho 2, 2009

O culto ao materialismo em nossa sociedade chegou a níveis tão altos que, vez ou outra, vemos surgir fatos aberrantes, coisas estranhas mesmo, coisas tão bizarras que não poderiam figurar nem mesmo em um filme de Fellini, ou em um livro de García Márquez. E nós olhamos essas aberrações do mundo contemporâneo, pensamos “nossa, que coisa”, e logo esquecemos, porque em pouco tempo virá outro aborto da natureza.

Mas vamos aos fatos.

Os restaurantes mais caros de São Paulo, onde uma refeição pode facilmente ultrapassar o valor do salário mínimo, se uniram, esta semana, para impedir que as gorjetas, os 10% de serviço, sejam destinados a seus garçons. Repito. Querem impedir que a gorjeta vá para seu destino natural, o bolso de quem realmente trabalha.

Pretendem contratar uma empresa de lobby, para tentar barrar o projeto de lei que obriga restaurantes a destinarem corretamente a taxa de serviço.

É isso mesmo. O engomado Fasano, com seus ternos sob medida, o moderninho e midiático Alex Atala, com suas tatuagens e piercings de mamilo, e o altivo Jun Sakamoto, com toda a sua filosofia oriental até a hora do almoço, estão preocupados porque ficarão podres de rico mais devagar.

O argumento, não só deles, mas de outros empresários endinharados, é o de sempre. Vai haver quebradeira no setor. Imagino. Imagino Alex Atala pobre. O que iria substituir sua cara sorridente na capa dos suplementos gastronômicos?

Mas, enfim, minha sugestão aos garçons: mijem na sopa, meus caros. Levantem o salmão e escarrem no sushi. Se o cliente reclamar, digam que o Vichyssoise leva uma gotinha de aceto balsâmico, que o nigiri é temperado com um tipo especial de raiz forte. Raríssima.

Ah, quantas variações podemos aventar… Cozinhem cuecas sujas no caldo de peixe. Batam o baby beef com o salto das botas. Lavem as endívias no vaso sanitário. Piquem fios de pentelho e misturem à canela do café expresso. Ejaculem no crème brûlée. E o petit gâteau?… bem, deixo à cargo de vossas imaginações. E dito isso, vou almoçar.

Cama de Cimento na Transamérica

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 21, 2009

Pois então, caros leitores, o pessoal da Transamérica gostou do nosso papo sobre o Festa Infinita, que aconteceu há algumas semanas, e pediu que eu voltasse. É hoje (segunda-feira), ao vivo, das 13h às 14h. Dessa vez falarei sobretudo do “Cama de Cimento”. E pra completar a sessão nostalgia, coloco abaixo um trechinho do livro, que foi publicado, vejam só como o tempo passa, em setembro de 2007.

Para quem passa de carro e com pressa, Raimundo parece se vestir com alguns trapos encardidos, roupas velhas, doadas, como a maioria dos “mendigos” da cidade. Um olhar mais cuidadoso, contudo, revela que na verdade suas roupas não têm nada de comuns. São feitas por ele mesmo de sacos de estopa e parecem a reprodução reciclada de uma túnica ou outro tipo de veste cerimonial. Nas costas, ele usa um manto de retalhos de plástico preto costurados com barbante, como escamas, sobre um pedaço maior de lona. Os cabelos grisalhos e espetados são protegidos por um chapéu alto confeccionado a partir de sacos de lixo que um dia foram azuis.

Totalmente concentrado, sem prestar atenção aos automóveis, escrevendo sentado com as costas impecavelmente eretas, um palmo de barba branca roçando o peito, não resta dúvida de que Raimundo é um poeta incompreendido ou um soberano destronado.

A avenida Pedroso de Moraes raramente está congestionada e é bem capaz que muitos motoristas que passam em alta velocidade em suas bolhas de metal nem percebam a presença de Raimundo. À noite, o poeta se recolhe sob uma montanha de lonas pretas ou cor-de-laranja, e ninguém que não o conheça pode imaginar que no meio daquele embrulho tosco, que mais parece um amontoado de lixo, esteja dormindo um homem “condicionado”.

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Fim do diploma, ponto pro Supremo

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 18, 2009

Não é mais necessário ter diploma de jornalismo para trabalhar na imprensa. Foi isso que o Supremo Tribunal Federal (a mais alta corte do país) determinou ontem, pondo fim a uma situação discretamente hipócrita.

Hipócrita porque qualquer um que já atuou nos grandes meios de comunicação sabe que a maioria dos veículos não dava lá muita bola pra exigência de diploma.

E com razão, porque as maiores qualidades de um jornalista ­– tais como amplo conhecimento geral, ética e capacidade de comunicação – não são aprendidas em sala de aula. Os cursos de jornalismo, via de regra, fazem um apanhando geral de matérias desconexas e jogam tudo isso sobre o aluno sem muito critério.

Na faculdade, vejam só, tive um semestre de uma matéria que se chamava “História Geral”. Quatro horas por semana durante quarto meses. E o ilustre docente, um jornalista, pretendia realmente que seus alunos aprendessem toda a história da humanidade nesse período.

Oras, se no exercício da profissão, surgisse a necessidade de aplicar conhecimentos de história, quem se sairia melhor? Um historiador que sabe escrever, ou um jornalista, que é infinitamente mais ignorante no assunto?

Há, sim, algumas técnicas de apuração e redação próprias do jornalismo que são relativamente esclarecidas nas universidades. Nada, contudo, que seis meses de estágio, ou um curso técnico não pudessem resolver com mais eficiência.

Além disso, essa história de exigir curso superior é extremamente conveniente para certas universidades de fundo de quintal que vendem diplomas a prestação. Tramitam, no Congresso Nacional, dezenas de projetos de lei para regulamentação profissional.

Nem todos propõem a exigência de curso universitário, mas todos tornam necessária alguma formação. Há, inclusive, casos bizarros, como os que propõem a regulamentação das ocupações de apicultores, capoeiristas, cabeleireiros, entre outros. Quem quiser saber mais pode acessar essa matéria (apenas assinantes) que escrevi para a Folha de S.Paulo há algum tempo.

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