Antes da Estante

Cerveja, haxixe e formalidades entorpecentes

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 23, 2010

Depois de um longo dia de caminhada sob o ardido sol marroquino, numa temperatura que frequentemente ultrapassa os 45º, respirando um ar de umidade relativa saariana, nada melhor do que sentar ao redor duma mesa na calçada e tomar uma cerveja geladíssima.

Nada melhor e nada mais impossível. Ainda que não seja proibida por lei, a venda e o consumo de bebida alcoólica no Marrocos, um país muçulmano, é extremamente mal vista. Os semi-alcoólatras ocidentais que se derem ao trabalho acabarão encontrando um ou outro restaurante onde é viável comprar uma garrafa de vinho ou de cerveja a preços astronômicos. Mas apenas em locais voltados a turistas e nunca na rua nem em varandas expostas.

Houve um fim de tarde em que chegamos a tentar. Sentados numa mesa na calçada, perguntamos ao garçom se, assim, por obra do acaso, ele não teria uma cervejinha pra acompanhar os sanduíches de cordeiro. O homem (um jovem magrela com os cabelos espetado de gel) sorriu, aproximou-se bastante da mesa e, sussurrando em inglês, perguntou quantas queríamos. Depois, ainda em voz baixa e o tempo todo olhando ao redor, disse que, se tivéssemos mesmo interesse, ele poderia trazer após a refeição, junto da conta. Mas que de forma alguma poderíamos consumir ali.

Agradecemos, e seguimos na monotonia da Coca-Cola. Antes de voltar ao hotel, resolvemos passear mais um pouco pela Djemaa el-Fna, a incrível praça central de Maraquexe. Pela terceira ou quarta vez naquele dia, um sujeito atravessou meu caminho e, ao cruzar comigo, sussurrou ao meu ouvido: haxixe?

Ou seja, no Marrocos, é mais fácil comprar derivados de Cannabis sativa do que de cevada. A constatação pode parecer absurda aos olhos brasileiros, mas, no fim, creio que seja uma questão de formalidade apenas.

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