Antes da Estante

Bate-e-volta na Áustria (final)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 21, 2010

Veneza – O policial se aproxima e eu vou despejando documentos sobre ele: contrato de aluguel do carro, passaporte, habilitação brasileira e habilitação traduzida para o italiano. Ele recolhe tudo, vai até a viatura, fica lá por alguns instantes, depois volta e pede que eu desça do veículo.

Obedeço, e caminho atrás dele até o carro de polícia. Ele então se vira para mim com um estranho dispositivo na mão e pergunta: “no álcool?”

Tentando convencer meu próprio organismo de que aquele meio litro de cerveja austríaca não existiu, juro solenemente que não bebi nada. O policial, como bom homem da lei, não acredita em mim, espeta o equipamento a um palmo do meu rosto e manda que eu assopre com força, a uma distância de alguns centímetros.

Trago uma boa quantidade de ar, enquanto considerações sobre a possibilidade de ser deportado, de ter de pagar uma multa milionária ou de acabar conhecendo as masmorras venezianas se multiplicam entre meus pensamentos. Depois assopro bem de leve, rezando pro bafômetro me dar uma colher de chá. Mas o aparelhinho, que devia ter algum parentesco com a maldita máquina do pedágio, apita todo irritado, piscando luzes coloridas.

Aparentemente compreensivo, o policial manda que eu assopre com mais força. Eu obedeço e dessa vez a maquininha fica em silêncio por algum tempo. Por um longo tempo. Depois pisca uma luz laranja, e por fim, verde. Verde me parece um bom resultado. Melhor só se fosse azul, imagino eu.

O policial também parece pensar assim. Mais relaxado, faz uma piada sobre a eliminação do Brasil na copa. Não compreendo completamente e ele dá de ombros. Anota alguma coisa num formulário preso a uma prancheta e me devolve os documentos.

Com os joelhos levemente amolecidos, reassumo o comando do veículo que, só de birra, apita porque esqueci de colocar o cinto de segurança. Passa um pouco das dez horas da noite, a temperatura beira os 30º e ainda não escureceu completamente em Veneza.

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Bate-e-volta na Áustria (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 20, 2010

Silian – O posto de fronteira entre a Itália e a Áustria não passa de um guichê de metal enferrujado, vazio e abandonado. Provavelmente está sem uso desde o estabelecimento da União Européia. Depois da fronteira, onde não temos de parar ou mostrar qualquer documento, seguimos por uma série de pequenos povoados, bucólicas cidadezinhas espalhadas por verdes pradarias, cercadas por montanhas que, no inverno, atraem esquiadores de todo o Velho Mundo.

Passa um pouco das cinco da tarde, os sanduichinhos e cerejas já não passam de uma remota lembrança, por isso encosto o carro ao lado do que, para meus olhos brasileiros, se parece com uma típica estalagem austríaca. Atrás do restaurante e pousada, encarapitado no alto de um morro não muito alto, há um imponente castelo medieval.

Helô e Mateus esperam no carro enquanto saio para explorar o ambiente. Vou me esgueirando devagar pela entrada ampla do casarão. As tábuas antigas do assoalho rangem a cada passo e não há ninguém no primeiro salão. Entrepidamente sigo adiante.

No segundo salão também não há clientes nas mesas. Mas no final do balcão do bar, ao lado de uma imponente máquina de cerveja, um senhor magro e comprido me fita com ar de curiosidade. Descansa o braço direito sobre o tampo de madeira escura, a mão acariciando de leve um avantajado copo de cerveja. Entre os dedos médio e indicador, um cigarro queima preguiçosamente, liberando uma fita esbranquiçada de fumaça.

Quando paro diante do balcão ele levanta-se solenemente e me saúda com um sorriso cordialmente simpático. Peço para olhar o menú, e ele diz que a cozinha só abrirá em meia hora. Mas, ao contrário do que provavelmente aconteceria se estivéssemos na Itália, o estalajadeiro me diz isso de forma extremamente cortês e acolhedora. Tanto que me sinto à vontade para arriscar algumas frases em alemão (idioma que, diga-se de passagem, não sei falar). Para minha surpresa elas são compreendidas.

Quando pergunto se podemos tomar uma cerveja enquanto esperamos, ele me responde como um sorriso afirmativo de cumplicidade. Sinto que acabei de firmar uma amizade genuína. Vou até o carro, chamo Mateus e Helô e pouco tempo depois estamos refestelados nas cadeiras acolchoadas, cada um diante de uma caneca com meio litro de cerveja austríaca.

O estalajadeiro, cujo nome vergonhosamente esqueci, informa que estamos no povoado de Silian e, com um misto de orgulho e tristeza, conta que o castelo no topo do morro pertenceu a sua família, mas foi vendido há alguns anos.

Depois pacientemente nos ajuda a decifrar o cardápio. Pedimos um prato para duas pessoas, que serve a nós três com folga: bisteca de porco, frango empanado, linguiça, bacon, legumes cozidos, batata, bolinhos variados, arroz e frutas.

Simples e saborosa, a refeição é uma bênção diante das frustrações gastronomicas dos últimos dias. Em pouco mais de uma semana, a melhor comida que comi na Itália, foi na Áustria (voltarei ao assunto em breve).

Pra completar o banquete, café e um strudel de mação com nozes que vem fumegando, direto do forno, acompanhado de uma generosa porção de chantili. Massa aveludada de manteiga, pedaços de maçã envoltos numa calda não muito doce, pontuados por minúsculos grãozinhos de nozes moídas.

No final do cardápio há detalhes sobre a hospedaria que funciona naquela mesma casa. Um quarto de 70 metros quadrados, com direito a cozinha e lavanderia, sai mais barato do que a espelunca que nos aguarda em Veneza. Por alguns instantes consideramos a hipótese de passar mais alguns dias naquela cidadela perdida entre as pradarias austríacas, mas temos um planejamento a seguir.

Duzentos quilômetros e algumas horas depois estamos novamente nas imediações de Veneza. Quando faltam cerca de 20 minutos para chegarmos ao local de devolução do carro, paro num pedágio e passo alguns longos instantes brigando com a máquina de cobrança. Marrenta e mal-educada, ela cospe meus cartões de crédito e desdenha de nossas cédulas amarfanhadas. Só se dá por satisfeita quando lhe alimentamos com uma interminável coleção de moedas, a muito custo garimpadas nos bolsos, bolsas e pochetes.

Ando alguns metros depois que a cancela se abre, mas logo sou obrigado a parar novamente, diante dos acenos de um Carabinieri que certamente desconfiou de tanta dificuldade com o pedágio. Lembro do meio litro de cerveja que, há algumas horas, desceu despreocupadamente por minha goela abaixo.

Continua …

Bate-e-volta na Áustria (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Veneza – Alugamos um carro. Pedimos o mais simples que tinha e levamos um Citroên C3 com ar, direção e computador de bordo. Ainda acho que não há forma tão divertida de viajar quanto de carro (de moto, talvez, mas creio que em pouco tempo eu acabaria me estropiando). São raros os meios de transporte que propiciam tanta liberdade e interação com o mundo.

Vamos ainda mais para o norte da Itália, até Cortina D’Ampezzo, uma cidadezinha conto-de-fadas com casas de telhado pontudo, cercada por montanhas de dolomita ­– formação rochosa com enormes escarpas cor de areia, que mudam a tonalidade ao longo do dia.

Caminhamos um pouco por trilhas no entorno da cidade, comemos uns sanduíches surrupiados mais cedo do café da manhã no hotel, e compramos cerejas e amoras numa venda onde tudo parece pedir uma dentada.

Depois voltamos para o carro e vou dirigindo meio sem rumo, por uma estradinha sinuosa que se espreme entre as montanhas, cantando aquela canção tradicional dos viajantes italianos: la donna è mobile, con vostro automòbile!

A temperatura vai caindo conforme a altitude aumenta, o que é extremamente agradável para nós, que passamos os últimos dias derretendo num calor de mais de 30º. No alto das montanhas, além do verde claro das copas dos pinheiros, é possível avistar manchas brancas de neves eternas. A estrada é tão bonita que continuamos em frente, meio sem rumo até que começamos a notar certas peculiaridades à nossa volta. A primeira delas: “Pizzaria Hans”. Depois, as placas de trânsito passam a apresentar-se em italiano e alemão.

Encafifado com a situação, paro no acostamento, diante de um lago de pacatas águas azuladas. Me aproximo de um senhor de idade que, vestindo um chapéu de feltro verte, recolhe seu equipamento de pescaria. Usando todos os meus recursos linguisticos (que, necessário deixar claro, não são tantos) pergunto que país é aquele afinal.

Ele parece um tanto surpreso com a pergunta, o que é bastante compreensível. Mas por fim, misturando italiano, alemão e inglês, me explica que estamos na parte sul da região conhecida como Tirol. Ainda na Itália, mas muito perto da fronteira com a Áustria. Mudo meu repertório lírico de la donna è mòbile para aquela velha canção tiroleza: tira o lei-í-ti, e vou adiante.

Antes de dar a partida novamente no nosso levemente afeminado C3 branco, nos entreolhamos os três com a mesma ideia em mente: vamos para a Áustria.

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