Antes da Estante

Avesso, no jornal A Gazeta

Posted in Avesso by Tomás Chiaverini on junho 20, 2011

Escritor se equilibra entre ficção e realidade

 Com dois livros-reportagem no currículo, Tomás Chiaverini faz sua estreia na ficção

Tiago Zanoli
tzanoli@redegazeta.com.br

Basta uma olhadela pela história de Tomás Chiaverini para perceber que ele é movido pela necessidade de estar em constante movimento, de descobrir novos lugares e diferentes personagens. Há sete anos, por exemplo, ele mal concluíra o curso de Jornalismo, quando decidiu aventurar-se pelo Norte do país à procura de histórias que lhe rendessem boas reportagens.

Passou cinco meses entre Amazonas, Pará e Roraima e, de lá, escreveu como freelancer para as revistas “Carta Capital” e “Caros Amigos” e a Agência de Notícias Brasil-Árabe.

O melhor fruto dessa experiência, no entanto, chega bem mais tarde, com a publicação do romance “Avesso”, lançado recentemente pela editora Global. Na obra, Chiaverini joga o tempo inteiro com ambiguidades, se equilibrando no tênue limite entre ficção e realidade, entre jornalismo e literatura, ao narrar (em primeira pessoa) a viagem de um jovem jornalista recém-formado pela região amazônica.

Confira matéria na íntegra…

O trabalho dos flanelinhas, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 17, 2011

Se Essa Rua Fosse Minha

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público

Por Tomás Chiaverini

É noite no bairro boêmio da Vila Madalena,em São Paulo. Um“x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.

Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta,em São Paulo. Seudomínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

Continue lendo…

O crack e o trabalho de redução de dano, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 15, 2011

Dos Males o Menor

Por Tomás Chiaverini

Pedestres, Policiais militares e guardas-civis não reparam no garoto de uns oito ou dez anos que fuma crack na esquina da rua dos Gusmões com a avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mesmo assim, ele está sempre atento, pronto para se esconder ou fugir, escapulindo para algum cortiço ocupado da região. Tanto que, quando o redutor de danos Marco Fuentealva se aproxima para conversar, ele se protege feito um avestruz, cobrindo a cabeça com um moletom azul-encardido.

Sorridente e bonachão, Fuentealva não se aflige com a postura arredia do menino e segue adiante. Vestindo a camiseta amarela do Centro de Convivência É de Lei (uma das primeiras ONGs a fazerem redução de danos no Brasil), embrenha-se num grupo com duas dezenas de pessoas maltrapilhas e sujas, cobertas de feridas nos rostos, braços e mãos. Quase todos estão agarrados a pequenos cachimbos de metal e observam o entorno com um olhar de desespero e incompreensão.

Aos poucos vão percebendo a presença de Fuentealva e de sua parceira de trabalho e se aproximam formando um pequeno aglomerado. Não há muito espaço para conversa. Todos já conhecem a rotina, repetida duas a três vezes por semana: avançam, pegam uma piteira de silicone, um batom protetor labial à base de calêndula e logo voltam a se afastar, acomodando-se pelos cantos da calçada suja.

Continue lendo…

Na revista piauí deste mês

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

Continue lendo…

Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Posted in Avesso, literatura by Tomás Chiaverini on março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

Tagged with: , ,

Um brasileiro no 17º concurso paulista de karaokê – piauí 54

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 15, 2011

Ovelha negra

As agruras de um brasileiro em um concurso nipônico de karaokê

Por Tomás Chiaverini

Avantajados ventiladores giravam sem descanso, mas não deram conta de refrescar a atmosfera saariana do auditório. Centenas de espectadores, em sua maioria senhores de olhos puxados, suavam e se abanavam inutilmente com leques de papel. No palco, os finalistas do 17o Paulistão de Karaokê, que aconteceu em Sorocaba. A situação deles era ainda pior: ao contrário da plateia, não podiam desfrutar do conforto dos bermudões, camisetas sem manga e chinelos.

Luxo e glamour eram pré-requisitos. Mulheres exibiam vestidos longos ou impecáveis trajes de gueixa. Homens envergavam ternos, fraques, casacas, ou se embrulhavam em quimonos ricamente bordados. Flores artificiais, babados e paetês adornavam os cantadores de ambos os sexos. Havia especial predileção por lantejoulas furta-cor. A fim de explorar ao máximo esse brilho todo, luzes coloridas se movimentavam no proscênio e tornavam a temperatura ainda mais escaldante.

Nada disso abalou a calma dos candidatos, quase todos japoneses ou descendentes – segundo estimativas extraoficiais, cerca de 95% dos 604 participantes veem o mundo através de olhos puxados. Um a um eles subiram ao palco, fizeram uma rápida mesura de agradecimento e, com ritmo e afinação impecáveis, entoaram canções populares japonesas. Nada de Roberto, Wandeca ou Bruno & Marrone. A legenda que passa ditando o ritmo também é coisa para amadores. No 17o Paulistão, as canções foram interpretadas de cor, em japonês. Era escassa a presença de não descendentes.

Continue lendo…


Conheça o dono da voz brasileira de Al Pacino, na piauí 54

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on março 14, 2011

The Voices

Peripécias do avatar vocal de Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere

Por Tomás Chiaverini

Pressionado de todo lado, o chefe dos detetives deu um anel direto para o coronel, na expectativa de que este lhe adiantasse o que fosse sobre os dois cadáveres recém-desovados no tristemente famoso Vale do Silicone. Teve sorte:

– Sim, já sabemos o principal – informou-lhe o coronel, com a satisfação de quem vive de matar charadas. – Ambos morreram de encontros ruins.

– Tem certeza? É a mesma causa mortis do macaquinho do Indiana Jones!

A vida em versão brasileira não é cor-de-rosa, como bem sabe o ator carioca Ricardo Schnetzer –, e não só pelo risco permanente de ser humilhado pela tradução. Aos 57 anos, e depois de três décadas de atuação em superproduções do cinema mundial, ele mora num quarto e sala no Rio de Janeiro, costuma ter alguma dor de cabeça para pagar as contas do mês e, quando caminha pelas ruas, não precisa se preocupar com o assédio dos fãs, vítima que é do mais perfeito anonimato. Para o distinto público, ele não é um nome e, menos ainda, um rosto. Por outro lado, quando abre a boca… Dono de um timbre grave, modulado por quarenta anos de tabagismo militante, Schnetzer fala por Al Pacino, Tom Cruise, Richard Gere e Nicolas Cage, entre outros mais ou menos famosos que, em versão brasileira, encontraram nele o seu grande porta-voz.

Continue lendo…

Avesso em mãos!

Posted in Amazônia, Avesso by Tomás Chiaverini on fevereiro 24, 2011

Pois então, caros leitores, eis que a grande espera chega ao fim. Avesso saiu do forno e tem data de lançamento marcada: 26 de março, sábado, das 15h às 18h. Vai ser novamente na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, em Pinheiros, SP.

Aos afobados a boa notícia é que o livro já está à venda em algumas livrarias.

Parral na Piauí

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2010

Ágil e destemido, qual um cangaceiro que avança pela caatinga, Yumbad Baguun Parral esgueira-se por entre as mesas e cadeiras dos bares da Lapa, em São Paulo. Dotado da estatura de 1,66 metro, lança mão de um paradoxal chapéu de couro cor-de-rosa e de uma barbicha de trancinha grisalha meticulosamente composta para atrair a atenção da boemia. Já de início a tarefa soa inglória, pois ele atua sobretudo nas calçadas e, nessa sexta-feira glacial de setembro, boa parte de suas presas virtuais parece ter capitulado ao conforto de dvds e cobertores. Por volta das 22 horas, a maioria das mesas ao ar livre está às moscas.

Mas Yumbad Baguun Parral, pseudônimo de Miguel Cavalcante Felix, não se aflige. Aos 47 anos, com segurança e paciência esculpidas ao longo de uma década na função, esse alagoano arretado ergue a cabeça e leva em frente o seu sorriso constante e simpático. Com um andar calmo e alinhado, arrematado pelo blazer escuro sobre o pulôver amarelo, vai oferecendo dois de seus produtos literários mais atraentes: o romance Santa Puta, a Redentora, que, segundo ele, já vendeu cerca de 10 mil exemplares, e a recém-lançada sátira política Senadô Severino, Sua Excrescência.

Nas primeiras abordagens, o escritor é miseravelmente ignorado. Quando não, recebe caretas de desdém que abalariam os brios de Dom Quixote e arrefeceriam os juízos de Policarpo Quaresma. Não os de Parral, que segue de bar em bar, de mesa em mesa, de vítima em vítima.

Continue lendo…

Ao vivo

Posted in Reprise by Tomás Chiaverini on outubro 7, 2010

Atendendo a pedidos, republico um texto escrito logo após o lançamento do livro Festa Infinta, que narra a experiência de ser entrevistado pela MTV. O vídeo pode ser conferido aqui, mas o áudio está um pouco baixo. É preciso aumentar bem o volume pra ouvir. O volume do texto parece bom.

A rua Afonso Bovero começa numa curva. É difícil fazer baliza em ruas curvas. Me atrapalho, raspo a roda no meio-fio. Modéstia à parte, não costumo fazer esse tipo de barbeiragem. Mas estou um pouco tenso. Ansioso, certamente. E não consigo que meu cérebro se ocupe com nada além de uma elucubração inútil sobre o que irão me perguntar e como responderei.

Desligo o motor. Viro o espelho retrovisor interno na minha direção e, feito uma madame que retoca a maquiagem antes de ir às compras, dou uma última conferida no meu rosto. Olhos, boca, nariz, orelhas, olheiras, está tudo lá. Tranco o carro e caminho devagar, pra não correr o risco de chegar ao estúdio com a camisa empapada de suor. O tempo não está muito quente, a rua é arborizada, então meu temor não se concretiza.

Na recepção, me identifico. Tentando dar a entender que aquela é uma situação rotineira para mim, digo o nome do produtor que a assessoria de imprensa me passou. Vou participar do “Controle”, exclamo errando o nome do programa. “Acesso”, a recepcionista responde paciente, enquanto me fotografa e estende o crachá de visitante. Pede que eu espere. Passa das 15h30, constato no celular. Meia hora pra entrar no ar. Obediente, sento e espero.

Moderninhos entram e saem o tempo todo. Tênis All-star, calças jeans largas demais em certas partes e justas demais em outras, camisetas apertadas ressaltando magreza, e cabelos meticulosamente despenteados.

Vez ou outra, algum rosto conhecido passa pela catraca. Estranho. Não sou um telespectador assíduo da MTV, então essas pessoas me são familiares, mas não figuram como realmente famosas. Num primeiro momento, soam mais como colegas da faculdade que não vejo faz tempo, do que como celebridades da televisão. Tenho de me controlar para não cumprimentá-los.

Às 15h48, levanto impaciente. Faltam doze minutos para entrar no ar e estou ali, plantado na sala de espera.  Mas estou calmo. Me sinto calmo. Seguro. Já dei entrevistas para a televisão antes, penso comigo mesmo pra me acalmar mais. Mas o cérebro responde num jab rápido: foi na TV Mackenzie, não na MTV. Depois encaixa um upper, certeiro no queixo: e não foi ao vivo.

Certo. Agora estou um pouco nervoso. Confiro novamente o celular. 15h52. Oito minutos para entrar no ar. Olho para a recepção. As duas mocinhas conversam despreocupadas, sem dar bola pra minha angústia.

Às 15h55, cinco minutos antes do programa começar, a recepcionista me chama. Pede que eu passe a catraca, tome o elevador, e vá até o quinto andar.

Plin!

Quinto andar, o elevador desemboca numa espécie de redação: várias bancadas com computadores, separados por divisórias baixas. O produtor logo me vê e vem me cumprimentar. É um moleque, mais novo do que eu. Veste bermuda, camiseta e um enorme boné branco, meio de lado. Pede que eu o siga. Desce escadas. No caminho, pára, volta-se para mim, e diz que esqueceu de me avisar, mas que no fim da entrevista terei de pedir um clipe.

Branco.

Não sou grande fã de videoclipes. Não consigo pensar em nada a não ser nas eventuais perguntas sobre o “Festa Infinita” e nas possibilidades de resposta. Ele sugere alguns, todos de música eletrônica. Não acho boas as sugestões. A essas alturas, quero dissociar o livro da música eletrônica, mostrar que ele vai além de retratar o mundo raver. Tento lembrar de algum clipe.

Lembro.

Keith Richards, balões coloridos, um cara sobe correndo no palco, Keith para de tocar, tira a guitarra do pescoço e, como um rebatedor de beisebol, acerta em cheio o infeliz que ainda leva uns sopapos dos seguranças, antes de ser devolvido para a platéia. “Satisfaction”, lembro a música e informo o produtor da minha escolha.

Ufa.

Ele parece meio decepcionado porque não pedi nada de música eletrônica, que teria a ver com o assunto do livro. Abre uma pesada porta de metal. Continuo atrás dele. Uma sala pequena, escura, forrada de botões e monitores, com alguns técnicos sentados atentos às telas.

No monitor que parece receber mais atenção de todos, reconheço o cenário do programa em que eu deveria estar. O apresentador Leo Madeira e duas garotas que não conheço, falam sobre o disco “Cê”, do Caetano Veloso. “Você vai entrar no segundo bloco”, exclama o produtor. Pessoas entram e saem da sala carregando grandes e antiquadas caixas plásticas de vídeo-tapes. Tento não atrapalhar.

O produtor sai da sala. Uma garota entra com uma pilha de fitas em formato beta, desvia de mim como se na verdade houvesse me transpassado. Ninguém parece notar que há um desconhecido na sala. O produtor volta. Pede que eu o siga. Descemos mais escadas. Ou subimos.

Ele abre outra porta pesada, eu continuo atrás dele, e de repente, diante de mim, está o cenário que eu havia visto algumas vezes na televisão. Mas não estou nele. Estou sobre um carpete preto vagabundo que cobre a faixa estreita do chão atrás das câmeras. É uma faixa bem estreita mesmo. Isso me surpreende. Quando assisto a um programa gravado em estúdio, tenho a impressão de que o espaço atrás das câmeras é bem amplo. Mas aquele é pequeno, apertado, meio claustrofóbico até.

O produtor me deixa ali e sai por onde entrou.

Ao meu lado há uma mesa pequena com uma jarra d’água e o um exemplar do meu livro. Incrível como ele se espalha, penso comigo mesmo. Oferecem-me água. Não aceito, apesar da boca um pouco seca. Assisto ao programa. Leo Madeira e as duas meninas – uma em embalagem de boneca, outra milimetricamente desleixada ­– entrevistam MV Bill por telefone. O repper não fala coisa com coisa, e pra piorar o áudio de retorno está tão ruim que metade das frases desencontradas se perde em meio ao chiado.

Mas Leo é um apresentador experiente, faz algumas perguntas simples e logo encerra a entrevista com uma colocação genericamente simpática.

Passo a mão na testa pra ver se não estou suando muito. Um pozinho viria a calhar. Mas pelo jeito não vai ter nada dessas frescuras. Lembro das outras vezes que apareci na TV. Uma em um exercício durante a faculdade de jornalismo, outra em uma entrevista sobre o “Cama de Cimento” (nenhuma ao vivo). O pó pra tirar o brilho sempre fizera parte do ritual. O pó e o microfone de lapela.

“Microfone”, falo pra um sujeito que está ao meu lado. “Eu não deveria ter um microfone?”. Ele me olha com cara de “quem é você”, depois aponta para outro sujeito, o responsável pelos microfones. Pelo menos fiz a minha parte, penso comigo mesmo. E eles devem saber o que estão fazendo.

Entra um videoclipe, Leo sai da frente das câmeras, vai até a mesa, enche um copo d’água e pára ao meu lado. É sempre engraçado encontrar pessoalmente essa gente da TV. Eu conheço ele, mas ele não me conhece. Gosto de um programa que ele apresenta com a Marina Person.  Se bem que, neste caso, ele deveria me conhecer. Afinal vai me entrevistar em alguns instantes.

O microfone. O responsável vem com ele na minha direção e Leo percebe quem eu sou. Volta-se para falar comigo, dá os parabéns pelo livro, bebe mais um pouco de água e volta para finalizar o bloco. É bastante simpático. Simples como sua imagem na TV da a entender. Microfone instalado.

Comerciais.

Leo me chama. Entro no espaço delimitado pelo chão diferenciado, e sinto que meus sapatos, com a sujeira da rua e toda aquela vida real grudada nas solas, poderia contaminar aquele ambiente televisivo.

As meninas me cumprimentam. Estou calmo. Levam-me até o fundo do estúdio e me convidam para sentar. Não há lugar para sentar, concluo, ainda calmo. Uma das garotas se senta. Incrível, há um lugar para sentar. Um balcão, que se torna invisível na parede de listras coloridas. Eu me sento entre os três. O câmera pede que fiquemos mais próximos. Obedeço, pernas cruzadas. Estou calmo. Botão da camisa aberto, informal, MTV, mas sem excessos, ninguém precisa ver os pelos do peito do autor, do autor que está calmo como se tivesse nascido para a televisão. É ao vivo, mas estou calmo.

Leo segura o meu livro. Folheia. O câmera gira à nossa volta como uma mosca varejeira. Continuo calmo, calmo… Homem-maracujina, tranqüilo, relax como funcionário público em repartição do interior.

Jogamos conversa fora. As meninas me olham com uma expressão que eu diria ser de uma curiosidade que beira a incompreensão. Não parece haver hierarquia oficial entre os apresentadores do programa, mas fica claro que Leo é quem está à frente. Ele me pergunta sobre o livro. Respondo. Depois ele me olha por algum tempo, e toma emprestada aquela expressão das suas colegas. “Você é moleque né?”.

Fico na dúvida sobre a pergunta e ele repete: “Você é bem moleque né, quantos anos você tem?”. Respondo com meus 28 e Leo parece impressionado. “A minha idade”, pondera ele, tirando o sentindo da sua aparente surpresa. Pois é, sorrio, calmo, sereno. Afinal, estou conversando com um moleque da mesma idade. Somos só dois molequeles levando um blá, trocando um proceder descontraído. Na moral.

Continuando na sua posição de liderança, Leo volta-se para mim e lança uma pergunta sobre o por quê de eu ter escolhido escrever sobre raves. A calma permanece. Já respondi isso uma centena de vezes, e não está valendo ainda. Respondo bem, sem gaguejar. Ele emenda outra pergunta. Eu olho para o lado, e lá está o câmera, indiscretamente agachado à minha frente, com aquela bazuca apontada direto pra minha cabeça. Calmo. Continuo calmo. Mas… Estamos no ar?

Ele está me perguntando, está me entrevistando, a entrevista começou, estamos no ar, esse cara agachado aí na minha frente está levando minha imagem para milhares de lares, milhões talvez, e agora estou fazendo cara de bobo, cara de bobo para milhares de lares, a pergunta, qual era a pergunta, a resposta, a resposta já se foi, uma gaguejada e encerramos o assunto, pronto pode mandar a outra que essa foi assim mesmo, do jeito que deu e…

“Trinta minutos para entrar no ar”, exclama uma voz do além.

Ufa. Não valeu. Não estávamos no ar.

E agora, estamos no ar. Agora sim. O botão da camisa, o suor da testa, certo, vamos lá. Leo pega o livro, fala sobre ele, mostra para a câmera e manda a primeira pergunta, uma que ele já tinha feito no aquecimento. Estou um pouco afobado. Normal, um pouco de adrenalina, mas ela sai bem, a resposta, sai satisfatória e tudo bem. Estou aqui, estou na televisão, ao vivo, e continuo vivo, continuo respirando. Tenho vontade de levar a mão ao pescoço e disfarçadamente conferir o andamento de meus batimentos cardíacos, mas me controlo. Não sou hipocondríaco.

As perguntas se seguem. Previsíveis. Já dei várias entrevistas sobre o “Festa Infinita”. Nenhuma na televisão, mas as perguntas variam pouco. Então, subitamente, estou calmo novamente. Calmo. Respondo sem gaguejar quase nada, articulando bem as idéias, e de repente Leo pega o livro novamente, levanta em direção à câmera, pede que eu fale o clipe escolhido e me agradece pela presença. Acabou.

Nossa foi rápido.

Na saída, tropeço no carpete preto vagabundo. Certo, estou um pouco nervoso. O produtor aparece para se despedir de mim, aperto a mão do Leo, beijo o rosto maquiado das meninas, e tomo o elevador. Saio na rua com os pulmões carentes.

Caminho até meu velho Corsinha, entro, dou a partida. Faz sol, a temperatura está agradável, e o trânsito até que flui bem.

Fim

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 5, 2010

Pois então, como os argutos leitores deste espaço já terão notado, a viagem acabou, assim como a série de relatos sobre ela. Mais uma vez, este blogue terá de se adaptar a uma nova realidade, mutando-se feito político em campanha. Aguardem.

Essaouira – Casablanca II: a vingança do Saara

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 14, 2010

Todos suam, chacoalham, respiram poeira do deserto, mas ninguém reclama. Afinal, de que adiantaria? Dificilmente o motorista seria capaz de materializar uma autorizada de ares condicionados ali, no meio do nada. Então seguimos em silêncio, pensando em cachoeiras, sorvetes, caipirinhas, cervejas geladas.

Por duas horas vamos assim, sobrevivendo naquela atmosfera viciada e inóspita, até que o ônibus finalmente faz uma primeira parada. No instante em que os freios lançam sua flatulência mecânica na pequena rodoviária de uma cidadela ressecada qualquer, todos os passageiros se levantam, sedentos por encher os pulmões com algum ar renovado, mesmo que ele venha a uma escaldante temperatura de 40º.

Sem demora, o motorista golpeia o botão do painel para abrir as duas portas, uma dianteira, e outra posicionada no centro do veículo. Todos ouvem o som característico do ar comprimido correndo pelos ductos secretos do ônibus, mas, para surpresa geral, as portas permanecem fechadas. Outro golpe, outra bufada, e nada das portas abrirem. Outro e outro e outro. Pfscht, pfscht, pfscht. Nada. As portas seguem hermeticamente fechadas.

A temperatura interna, que com o ônibus em movimento já estava próxima do insuportável, sobe infernalmente rápido. Olhares de desespero contido se cruzam por sobre as poltronas aveludadas. Pfscht, pfscht. Nada.

Espio o martelinho de metal sobre uma janela bem ao meu lado:

“Em caso de emergência, use o martelo para quebrar o vidro”, diz o aviso.

“Não seria aquele um caso de emergência?”, penso comigo mesmo. Mas controlo meus impulsos de sobrevivência e aguardo. O desodorante da mulher ao meu lado não foi capaz de fazer frente às camadas e mais camadas de tecido que a cobrem dos pés a cabeça. Faz parte. Imagino que minha situação não deve ser muito diferente. Pfscht, pfscht, pfscht. Pfscht, pfscht. Nada.

Foram cerca de 20 minutos, contados no relógio, mas que soaram como uma eternidade. Por fim, diante de ineficácia dos automatismos e ares comprimidos, três sujeitos tratam de arrombar a porta dianteira pelo lado de fora. Mais do que depressa, os passageiros descem todos, enquanto dois marroquinos mantém a porta aberta com o auxilio arquimediano de uma barra metálica.

Piso no chão emporcalhado de concreto da rodoviária. Respiro fundo o ar que, apenas na primeira tragada, me parece incrivelmente fresco e perfumado. Ergo os olhos e, diante de mim,  numa banca improvisada em frente ao local onde param os ônibus, um sujeito usa um enorme facão para partir ao meio a carcaça avermelhada de um carneiro.

Marrakech, na Piauí de setembro

Posted in Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 13, 2010

Para inglês ver

Cobras marroquinas são fonte de raro prazer

Tomás Chiaverini

Reza a prudência que não se deve flanar na ruidosa, calorenta e colorida praça central de Marrakech. Os lúcidos caminharão firme e com propósito, não exageradamente rápidos, para não revelar medo ou insegurança, nem lentos em demasia, para não excitar os predadores. A esse andar construidamente senhor de si é necessário apor um olhar específico, fluido, desinteressado. O semblante deve exibir uns fumos de mau humor, porém necessariamente tênues, vaporosos, de maneira a não produzir o efeito contrário, pois são legião os comerciantes que se sentem atraídos por desafios.

O essencial, de todo modo, é jamais, em hipótese alguma, fazer contato direto com os olhos de um vendedor marroquino, os quais devem ser considerados translúcidos?– pela simples e boa razão de que, assim, em vez de encará-los, será possível olhar através deles. Quem não se achar capaz de dominar essa complexa arte de olhar atravessado não vá a Marrakech. Ou então compre óculos escuros. Quanto maiores, melhor.

A praça onde não se deve passear gostosamente leva o nome de Djemaa el-Fna, ou “Assembleia dos Mortos”. No passado, era ali que ocorriam as execuções capitais. Sobre aquelas pedras rolavam cabeças de condenados, imagem que convinha ter sempre fresca na mente, como lição. Hoje, contudo, nesse lugar historicamente perigoso, o transeunte pode se despreocupar quanto ao destino de sua cabeça, o que é uma vantagem, pois o libera para se preocupar integralmente com o bolso.

Continue lendo…

Tagged with:

Essaouira – Casablanca: voltando pra casa

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 3, 2010

O americano se senta, triste, separado da mulher. As portas se fecham num suspiro de ar comprimido e a viagem tem início. O Marrocos, como é do conhecimento do arguto leitor, é um país desértico. Temperaturas de 45º não são nada de incomum por lá. Além disso, as estradas geralmente cortam longas e monótonas planícies, onde a passagem de veículos levanta espessas nuvens de areia.

Por isso, nosso ônibus, assim como a maioria, tem as janelas lacradas e o interior climatizado, artificialmente refrigerado por aparelhos que, imagino eu, devem ser bastante potentes para vencer tanto calor. Pensando nisso, assim, só por desencargo de consciência, aproximo as costas da mão da gradinha redonda, de plástico, por onde deveria sair o fluxo de ar gelado.

Estranhamente, o ar sai bastante quente, como se viesse direto do deserto, como se a refrigeração estivesse desligada ou com defeito. Mas, não, besteira. Claro que não. Claro que não deixariam um ônibus, com todos os assentos ocupados, fazer uma viagem de oito horas pelo deserto sem ar-condicionado. Concluo que deve ser uma questão de tempo até o gás começar a fazer efeito produzindo a mágica da refrigeração.

Mas os minutos passam, os quilômetros se acumulam e o suor começa a porejar nas cerca de 40 têmporas que sacolejam ao meu redor. Então, quando cruzamos o primeiro caminhão, uma nuvem de areia suficiente pra aterrar o Flamengo entra pela estreita abertura de ventilação no teto do ônibus. A súbita constatação de que o respiro foi propositadamente deixado aberto não me parece bom agouro.

Olho ao redor, e percebo que vários outros passageiros se inquietam e repetem meu gesto de conferir a vazão do ar-refrigerado. Mulheres muçulmanas, metidas em vestidos de tecido sintético, com a cabeça enrolada em camadas de pano colorido, parecem prestes a desmanchar nas próprias células derretidas. Um leve desespero percorre os passageiros. É isso. Não há dúvida. A verdade aterradora está clara. O ar-condicionado não funciona. Já não funcionava quando deixamos Essaouira e é pouco provável que se cure milagrosamente antes de Casablanca.

As janelas não abrem. Estamos presos naquela estufa móvel, recheada com um ar quente, abafado, saturado de respirações e de poeira do deserto. Lá fora, conforme as horas da manhã avançam, o sol vai se tornando apino e a temperatura sobe.

Continua…

Overbooking marroquino

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2010

Um americano esbaforido e cheio de urgência entra no ônibus que, em cerca de oito horas de viagem, nos levará de Essaouira a Casablanca. Com o rosto ruborizado de calor e pressa, ele para ao lado de dois marroquinos já devidamente acomodados e bufa, aspergindo uma nuvem de suor e saliva pelo ambiente. Depois, por alguns longos instantes, ocupa-se em confrontar as informações de seu bilhete de embarque com as exibidas na pequena plaqueta sobre os dois assentos ocupados.

Em inglês, pede licença aos passageiros sentados e explica que aqueles lugares lhe pertencem. Os marroquinos olham pra ele, não sorriem, e dão de ombros. O americano insiste. Em troca, ganha algumas incompreensíveis palavras em árabe ou berbere. Desolado, o sujeito desce na rodoviária suja e caótica, que mais parece o pátio de um ferro-velho só para ônibus.

Volta algum tempo depois, ainda com as passagens na mão. Agora, por sorte, topa com o fiscal da companhia de transporte, que zanza de um lado pro outro no corredor. Feliz e aliviado, mas ainda cheio de urgência, o passageiro vai até o funcionário, aponta para o bilhete de embarque e explica que os lugares marcados ali, os lugares que lhe pertencem, encontram-se ocupados.

O fiscal toma o papel da mão do americano, examina por alguns instantes, depois saca uma caneta esferográfica do bolso, risca o número do assento e devolve ao homem. Problema resolvido, sente-se onde conseguir.

Janelas

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on setembro 1, 2010

Essaouira

Essaouira, windsurf e capacetes

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 31, 2010

O nome Essaouira significa algo como “bem desenhada”, e foi uma homenagem ao arquiteto que projetou a cidade, sob encomenda de um sultão, na segunda metade do século 18. Mas o vilarejo é bem mais antigo do que isso, foi fundado pelos Fenícios, no século 7. Depois, no século 15, nosso patrícios portugueses dominaram o local e o utilizaram como um importante porto de abastecimento para as navegações. Nessa época, durante o domínio lusitano, a cidade era conhecida como Mogador.

Essaouira ainda é bastante pitoresca. A pequena medina que forma o centro velho é toda cercada por muros de pedra guarnecidos por antigos canhões de metal, as construções são quase todas pintadas de branco, e as ruelas estreitas são tomadas pelo comércio de artesanato, que, no entanto, ocorre de maneira bem menos intensa e violenta do que em Marraquexe.

A temperatura é muito mais amena do que no restante do país, e em pleno verão marroquino, somos obrigados a nos proteger com casacos leves, mesmo durante o dia. Em parte, isso se deve ao vento que sopra constantemente e que coloca a cidade em posição de destaque no roteiro mundial dos praticantes de windsurf.

Quando recebo essa informação, antes mesmo de dar uma olhada na praia, já sinto uma excitação leve no estômago, pensando na possibilidade de alugar uma vela e me misturar um pouco no vento, depois de uns dois anos com os pés cravados em terra firme.

Deixo as malas no hotel e vou dar uma espiada na praia. Está lotada de marroquinos, que parecem não se incomodar com o vento constante ou com a música árabe ambiente, ininterruptamente vertida por auto-falantes presos aos postes. Por alguns instantes me divirto observado as mulheres vestidas dos pés à cabeça, protagonizando atividades corriqueiramente praianas como jogar frescobol ou pular ondas pra dar um mergulho desengonçado.

Então olho mais pro horizonte e eles estão lá, com suas velas coloridas, deslizando como se impulsionados por propulsores a jato. Observo por alguns instantes. Longos instantes. Fico na dúvida se já encarei uma ventania daquelas. Creio que não. Caminho mais um pouco pela praia, até a escola de vela, onde alugam equipamentos de windsurf. Pergunto o preço. Não é muito caro. E o aluguel inclui seguro de vida e capacete, ressalta um rapaz de rosto bronzeado.

Lembro do Seinfeld dizendo que os capacetes são a prova cabal da idiotice humana. Se precisamos usar um negócio daqueles na cabeça é porque estamos fazendo algo estupidamente perigoso.

Agradeço e volto a caminhar. Penso que talvez a experiência de velejar em Essaouira seja um tanto dolorosa. Mas não desisto. Deixo a decisão para a manhã seguinte, afinal já passa das quatro horas da tarde

O destino, contudo, trata de me livrar do apuro. Quando acordo no segundo e último dia que passarei na cidade, não há um mísero nó de vento, e o mundo está completamente envolta numa bruma esbranquiçada, que torna tudo romanticamente misterioso e calmo.

Humpf!

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on agosto 27, 2010

Algum escritor consagrado cujo nome não faço questão de lembrar, disse a seguinte máxima, que é constantemente repetida como conselho a jovens escritores: “se pode viver sem escrever, não escreva”. Não sei se eram exatamente essas as palavras, mas o sentido é basicamente esse; ou seja, se conseguir fugir dessa carreira maldita, faça-o rápido, vá ser engenheiro ou médico, construir paredes, consertar ossos quebrados, vá fazer alguma coisa útil, que realmente sirva pra alguma coisa.

Pois é, caros leitores, às vezes me arrependo de não ter escutado o tal sujeito. Porque não é nada fácil avançar nesse mundo das letras. Não é bolinho passar um ano inteiro escrevendo um livro, um único livro, vertendo sangue e suor em Times New Roman, pra depois ler, num blog qualquer, as críticas demolidoras de um sujeito que nem sequer folheou o maldito livro, e que não consegue nem escrever o subtítulo sem assustadores erros de português: “o intorpecente mundo das raves”.

Não é fácil. Não é fácil ler o conselho de outro leitor, que recomenda o seu livro ao amigo, e sugere que, quando for percorrer aquelas páginas que você esculpiu com tanto esmero e carinho, o outro tenha sempre um iPod cravado nos ouvidos, bombardeando-lhe com faixas de psytrance.

Não é mole ter de encarar olhares de desconfiança e incredulidade quando, numa rodinha de desconhecidos na festa de sábado à noite, você se arrisca a confessar que até se diz jornalista, mas, na verdade, sua profissão é ser escritor mesmo.

Não tem graça nenhuma estar permanentemente torcendo para que mais alguns exemplares sejam vendidos, o que lhe garantirá alguns trocados de direitos autorais, que pingarão na sua conta dali a seis meses.

Não é nada animador ver que, em se tratando de resenhas, geralmente uma boa rede de contatos e amizades influentes vale muito mais do que um livro realmente bom. Pior ainda é ter consciência de que, ser um bom profissional apenas, não significa nada no mundo das letras. Afinal, um bom médico tem o trabalho dele garantido, e viverá uma vida próspera e feliz, com casa em condomínio, carro do ano e cachorro abobalhado; enquanto que um escritor apenas bom terá uma vida medíocre, recheada de desilusões e decepções.

Por fim, não é nada fácil encarar o longo, penoso e burocrático processo que leva um livro da nossa cabeça até as livrarias.

Mas, enfim, me desculpo pelo desabafo que, no entanto, não ocorre sem motivos. Acabo de saber que meu romance, Avesso, que tinha lançamento inicialmente previsto para este mês de agosto, depois adiado para outubro, vai ter de esperar no forno mais alguns meses. Deve sair só no início do ano que vem. Nada a fazer senão escutar os conselhos de meu estimado editor e ter paciência, muita paciência.

Tagged with: , ,

Djemaa el-Fnaa

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 26, 2010

A praça Djemaa el-Fna, ou Assembléia dos Mortos, está localizada no centro da medina de Marraquexe. Originalmente, era o local de execução de criminosos, onde as cabeças dos decapitados ficavam expostas a título de exemplo.

Hoje é um gigantesco e lotado mercado a céu aberto, onde é possível assistir a shows de macacos amestrados, músicos tradicionais e encantadores de serpentes, que ganham dinheiro pendurando cobras no pescoço alheio.

Também é o lugar ideal pra provar especiarias bizarras, como o cérebro de cordeiro, a torta doce de pombo com nozes, ou uma cumbuca com moluscos terrestres de nome impronunciável.

Marcas do Islã

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 25, 2010

No Marrocos, a religião está literalmente estampada no rosto das pessoas. Demorei algum tempo pra perceber, mas aos poucos fui reparando na marca que surge na testa de alguns homens. Primeiro achei que ara um sinal de nascença de um indivíduo em particular, mas aos poucos fui percebendo que ela estava presente em vários marroquinos.

Em geral aparece nos homens mais velhos, que usam barba, vestem-se com túnicas de tecido claro e chapéus que cobrem apenas o alto da cabeça. É uma espécie de mancha escura, rugosa, que se forma bem no meio da testa como um terceiro olho. Demorei um pouco para relacionar as manchas com a religião, mas, no fim, creio que esta seja a única explicação: as marcas são, na verdade, calos provocados pelas orações diárias, feitas com a testa apoiadas sobre um pequeno tapete voltado para Meca.

Ocorrem cinco vezes ao dia, as preces. Começam sempre com uma ladainha em voz masculina, que parte da torre de alguma mesquita e depois vai ecoando, repetida por Imãs espalhados pela medina. É assim. Cinco vezes ao dia Alá se faz presente em incompreensíveis versos árabes. Não importa se quem escuta é muçulmano ou não. A religião está lá, firme, cristalizada, atemporal.

%d blogueiros gostam disto: