Antes da Estante

Primeiro capítulo do livro Cama de Cimento – Uma reportagem sobre o povo das ruas

 

Santa Sé *

Os pedestres que passam apressados pela praça da Sé não percebem quando dois dos moleques que fumam ao lado do chafariz saem andando rápido atrás de uma bolsa dando sopa, não reparam no sujeito bem-vestido que se agacha ao lado de um mocó feito de cobertores velhos para dar uns pegas num baseado, desviam dos catadores de papelão que dormem sob as carroças toscas, não atendem aos pedintes nem vêem os desabrigados anestesiados e embriagados de cachaça. Não param para ler a mão nas ciganas de roupas coloridas, dentes de ouro e olhar malicioso, nem dão atenção aos vendedores ambulantes que oferecem todo o tipo de badulaques a preços promocionais. Não ouvem as pregações amplificadas do pastor evangélico que se misturam aos milagres curativos da pomada de banha de peixe-elétrico. Não percebem que a praça é uma festa.

Uma festa em que as atrações centrais acontecem ao redor de um pequeno totem, o marco zero de São Paulo, bem em frente à catedral de agudas e esverdeadas torres góticas. Ali, enquanto subempregados desfilam com cartazes de compra e venda de ouro ou de atestados médicos, não-empregados se deixam ficar ao sol, à espera de que algum serviço, qualquer um, lhes venha cair no colo. É ali também que rodas de pedestres menos apressados e mais curiosos formam-se em volta dos performáticos do dia.

Uma mão morta de plástico se mexe com um cigarro aceso entre os dedos enquanto Baiano, um mulato forte, de camisa regata e calça de cetim brilhante, destrói a marretadas o relógio de um dos espectadores.

Enquanto o sujeito sorri sem graça, esperando que seu relógio reapareça, Baiano abre uma pequena lata redonda e, com a unha crescida do polegar, pega uma porção da pasta verde-amarelada. Passa um pouco na nuca, em seguida esfrega as mãos, passa mais um pouco na região lombar e se estica, depois se dobra e segura os tornozelos com as mãos. Torna a pôr as costas eretas, dá um pulo e se deixa cair no chão de pernas abertas como um compasso quebrado.

Ninguém tira os olhos de Baiano, que logo está de pé novamente e cutuca um saco de estopa no qual diz ter guardada sua cobra de estimação, depois enumera as qualidades da pomada de banha
de peixe-elétrico. Cura dor de cabeça, reumatismo, luxação, torção e estiramento muscular. Frieira, micoses, calos e unhas encravadas. Todos na roda obedecem Baiano e estendem a mão espalmada para que ele deposite, com a unha suja, um pouco da milagrosa substância. Amostra grátis! O homem do relógio se impacienta.

A alguns metros, há outra roda, menos populosa do que a que cerca Baiano, onde a atração fica por conta de uma série de cartazes gastos e descoloridos, arranjados no calçamento de granito. Um homem baixinho, enrugado e queimado de sol aponta para as imagens bizarras e berra no microfone forrado com um pano encardido.

– …É por isso que nasce criança assim, ó, com três nariz, outro nasce com duas bocas, outro nasce com focinho de porco. Essa família nasceu todo mundo assim, com quatro pé, dois pé em cada pé, e esse aqui, nasceu assustado, parecendo o capeta. Já esse aqui, nasceu com quatro braço, duas cabeça e dois corpo. Olha que coisa mais triste e mais dolorosa isso aqui…

E anuncia seu produto à base de ervas medicinais da floresta Amazônica.

– …Tontura, fraqueza, moleza, gastrite, úlcera. Quem ainda não tomou a dose do produto e quiser experimentar, a dose é de graça, não paga nada. Para diabete, insônia, pedra no rim, pedra na vesícula, inflamações da próstata, da bexiga, das vias urinárias… Você que almoça e não janta, você que janta, mas não consegue dormir, o homem que vai urinar e a urina sai amarela, de gota em gota, de pingo em pingo… Quem quer tomar mais uma dosinha?

Ninguém se habilita, e o sujeito finge se irritar com a falta de voluntários que queiram experimentar seu bálsamo, servido num copo grande de vidro, que mais parece lama.

– Eu tô falando de homem, não tô falando de veado, não. Quem quiser tomar pode chegar pra cá porque isso daqui amarga, não é gostoso de beber, não. Tem homem que tá fraco, que não consegue trepar nem em pé de grama, tem camarada que catuca, futuca, belisca, a mulher oferece e ele agradece…

Longe das rodas performáticas e por toda a praça da Sé, ambulantes vendem rádios, CDs e DVDs piratas, pilhas, brinquedos, pentes, potes de cola, antenas de televisão, guarda-chuvas, barbeadores, capas para celular, passes de metrô, óculos escuros, revistas pornográficas, bonecos, bonecas, azulejos pintados, canecas personalizadas, chaveiros, bijuterias e toda a sorte de badulaques.

De vez em quando, uma viatura da Guarda Civil Metropolitana entra na praça e, num piscar de olhos, os ambulantes juntam as mercadorias e desaparecem. Pior é quando algum engraçadinho berra escondido:

– Ó o rapa!

E todos saem correndo com os enormes sacos plásticos nas costas e voltam depois de alguns instantes, quando percebem a brincadeira e tornam a espalhar todos os artigos na calçada. Rapa é o apelido dado a um serviço da prefeitura, mais comum na subprefeitura da Sé, que passa recolhendo mercadorias de ambulantes, colchões e trastes de moradores de rua.

William não se preocupa com o rapa nem presta atenção nos ambulantes. Tem 12 anos, mas não aparenta mais de 8, enxerga mal, é estrábico, está descalço, sem camisa, só de bermuda. Mesmo assim anda rápido, com as costas eretas, desviando como um gato dos pedestres apressados. Atravessa a rua esperto, sem ligar para o sinal, mas de olho nos carros nervosos que fazem a curva em alta velocidade. Anda mais umas quadras até a rua 15 de novembro, perto do Pátio do Colégio. Entra numa viela calçada de lajotas portuguesas e pára embaixo da marquise de um edifício revestido de mármore preto lustroso.

– É aqui que eu durmo – explica.

Depois, orgulhoso, levanta uma grade de ferro fundido que cobre um buraco no meio da ruela e aponta para uma porção de pedaços de papel e latinhas acomodados no esconderijo.

– E aqui é onde eu guardo minhas coisas.

Na volta à praça, com os olhos estrábicos me encarando sérios, William pergunta se não ganharia um sanduíche ou um salgado e aponta para o boteco que exibe, em rotação, um enorme cilindro gorduroso de pedaços de porco tingidos de tempero cor-de-laranja. Mal-humorado, o dono da birosca pergunta quem vai pagar, depois avisa que é pra pegar e sair andando, ir comer longe dali. William obedece sem se importar. Volta para perto do chafariz e dos amigos que fumam cigarro e que também se interessam pelo sanduíche de churrasco grego.

Estão todos só de cueca e aproveitam o dia de sol para tomar banho no chafariz que, na verdade, mais parece uma enorme piscina esverdeada.

Caio tem 13 anos, vive na rua porque a mãe morreu e o pai está na cadeia. Paulo e Fernando têm 12 e 15 anos e fugiram porque sofriam maus-tratos em casa.

– Minha mãe é ruim que é o capeta – conta Fernando.

William, como Caio, foi para a rua depois que a mãe morreu. Com a diferença de que seu pai, em vez de ir para a cadeia, arrumou uma outra mulher que vivia dando surras no garoto e o havia batizado com outro nome. Foi então que ele fugiu para a praça da Sé, de ônibus com um colega. No começo teve medo, mas agora gosta de morar na rua porque “é da hora”.

Enquanto exibe o sanduíche para os amigos, William conta que, vira e mexe, assistentes sociais da prefeitura aparecem na praça da Sé e convencem a criançada a ir para um abrigo ou casa de acolhida. Todos os moleques que tomam banho no chafariz passaram por pelo menos uma dessas espécies de orfanato disfarçado e improvisado.

– Ontem mesmo nós fomo pro abrigo, mas saimo, porque é chato – conta Paulo.

– As tia ficam reclamando e não dá cigarro – completa Fernando e pula de novo no chafariz, depois levanta com a água pelos joelhos, limpa os olhos com as costas das mãos e chama os colegas.

Mas nem só de piscina serve o chafariz. Quando é dia de sol, principalmente se for depois de uma semana chuvosa, todos os moradores da praça aproveitam para lavar roupas, colchões, lençóis e cobertores e estendem tudo para secar nos arbustos bem aparados do jardim, e a festa fica mais colorida.

Ao redor do chafariz-lavanderia-piscina, a praça da Sé se estende em vários patamares ornados de plantas baixas que também servem de depósito para os moradores do local e para os traficantes pés-de-chinelo que passam droga mal disfarçadamente à luz do dia.1

Os bancos de madeira pintados de verde, quase todos meio apodrecidos, estão sempre ocupados por homens, mulheres e meninos de rua. Alguns são cobertos por mantas de lã vagabunda ou lonas coloridas e se transformam em abrigos, mocós, onde é normal ver crianças e adultos cheirando cola e fumando crack ou maconha. Os mocós são mais comuns nos locais distantes do marco zero da cidade, nos patamares baixos, encostados nas paredes com mais vegetação em volta, nos pontos invisíveis aos pedestres apressados.

Os habitantes daquelas calçadas não se importam ou preferem nem se lembrar da série de crimes que começou nos arredores da praça da Sé e, em uma semana de 2004, deixou oito moradores de rua gravemente feridos e sete mortos. Todos com pancadas na cabeça, todas do mesmo lado, com a mesma arma. Uns dizem que foram policiais, outros, seguranças das lojas da região, outros, traficantes de drogas. Mas o extermínio do povo das ruas sempre ocorreu e nunca ninguém se incomodou com isso.

Nos arredores da praça, que formam o subdistrito da Sé, está a área de maior concentração de pessoas que moram na rua, mais de 800.2

Eles preferem a região central, que oferece maiores possibilidades de bicos, facilidade de transporte, tem um comércio intenso com seu valioso lixo – que sempre rende papelão e latinhas – tem albergues e casas de convivência por perto e o tempo todo passam instituições religiosas ou bons samaritanos civis a distribuir comida nas quentinhas brilhantes, as cascudas, de papel laminado. E, nessas horas, todos se sentam para comer nas escadarias da catedral e dobram a tampa metálica em colheres improvisadas.

O povo das ruas, em todo o município de São Paulo – que em 1991 era composto por cerca de 3 mil pessoas3 -, hoje chega a mais de 10 mil. A quantidade simboliza menos de 0,1% da população paulistana, mas é uma minoria que incomoda. Tanto que em 1986 a então Secretaria Estadual de Promoção Social estimava que havia 100 mil pessoas vivendo embaixo de pontes e viadutos da cidade, segundo reportagem do Jornal da Tarde.

* * *

Depois de mais de quatro horas de espera numa tarde de verão, Bob, um cachorro vira-lata, vem cheirar meus tênis encardidos na escadaria em frente à catedral. Já é noite na Sé, o movimento diminui e as luzes amareladas dos postes de estilo neoclássico estão acesas. Logo em seguida, João – um negro forte e alto, camisa suja, rasgada, peito à mostra, dentes corroídos de fumo e cachaça – senta-se ao meu lado. Outros se juntam em volta da garrafa de pinga de João: um homem bem vestido, de camisa branca e calça preta, outro completamente embriagado e uma mulher magra, metida numa jaqueta puída de couro falso fechada até o pescoço.

Até aquele momento, eu não havia dirigido a palavra a nenhum dos habitantes da praça nem feito perguntas, com medo de estragar meu disfarce – um par de tênis velhos, camisa de algodão cinza furada, calça jeans encardida e suja de tinta, gorro enterrado até as sobrancelhas, barba rala mal feita, dois dias sem banho.

Decididamente, não eram roupas de quem estava na rua havia muito, mas eram suficientes para ajudar na aproximação mais discreta do povo das ruas. E, mais do que isso, eram um artifício que me fazia sentir seguro. No metrô, a caminho da praça, eu já havia percebido o poder de andar maltrapilho: as pessoas não se aproximavam e mesmo no vagão lotado não levei um esbarrão sequer.

Alguns meses antes, eu já havia feito uma tentativa semelhante de imersão nas ruas. Combinara de passar a noite perambulando pelo centro da cidade com um morador de um albergue que havia se disposto a ser meu guia. Por volta de oito e meia da noite, também meio esfarrapado com um gorro enterrado na testa, postei-me na escadaria em frente ao Teatro Municipal. Um homem em situação de rua, deitado no chão a alguns metros, parecia dormir. Pouco tempo depois, um outro sujeito se aproximou rapidamente do desabrigado que levantou em alerta, segurando uma mala de nylon azul. O segundo homem se aproximou mais, até quase tocar o rosto do outro com o nariz, e gritou sem se importar em chamar atenção.

– Seu filho-da-puta! Você tá louco, eu podia te matar aqui mesmo. Você sabe que eu sou traficante, quem você pensa que é pra tirar onda comigo? – E continuou a gritar palavrões e ameaças por algum tempo enquanto o outro permanecia imóvel.

Depois, o auto-intitulado traficante agarrou a mala azul e deu um puxão tão violento que lançou o outro ao chão. Apesar do tombo, o homem ainda conseguiu segurar a mala e foi sendo arrastado pela alça por cima do calçamento acinzentado, como um cadáver com rigidez post mortem, até que não agüentou mais e largou a bolsa. O agressor ainda deu uma cuspida no chão antes de sair andando, calmamente, olhando para os lados, a mala azul a tiracolo como prêmio.

O outro ficou largado por um tempo, depois se levantou, estapeou as roupas para limpar a poeira, caminhou até o meu lado e sentou-se novamente na escadaria, como se nada houvesse acontecido, como
se eu nem sequer estivesse ali.

Meu guia não apareceu e, depois de umas duas horas, tomei o metrô novamente e fiquei me divertindo com o medo que as outras pessoas tinham de se aproximar.

Assim como na noite do Teatro Municipal, na praça da Sé eu tenho só uns dez reais escondidos no bolso para uma emergência, e me sinto seguro por estar vestido como uma pessoa em situação
de rua. Mesmo assim, tenho receio de dirigir a palavra ao grupo de maltrapilhos, até que o cachorro Bob se aproxima e me oferece a deixa para travar contato com as pessoas que me cercam, esparramadas nos degraus.

– Quem é o dono do cachorro? – pergunto, arriscando um sotaque caipira.

– Agora sou eu – responde João, e conta que o cachorro tinha surgido do nada para viver com ele, mas, passado algum tempo, o verdadeiro dono aparecera e levara o bicho embora. Dois dias depois, João tinha tomado todas e estava dormindo ali mesmo, naquela escadaria, quando acordou com umas lambidas na boca. Era Bob, que tinha escapado de novo e voltado para a vida de rua.

– Agora não deixo ninguém mais levar ele embora, nem que eu tenha que sair na mão. Quer dizer, na lampiana, no aço,4 que eu trago aqui comigo na sacola, porque na mão eu já tô fora que eu já me fodi.

E João mostra um cotovelo quebrado e torto de mal consertado, depois um dedo, depois outro cotovelo. Conta que tinha tomado umas e estava dormindo tranqüilo quando acordou com um sujeito tentando queimar sua boca com um cigarro acesso. João levantou, correu atrás do homem e o agarrou, mas estava tão bêbado que, num giro de corpo do outro, foi jogado no chão e quebrou o cotovelo e o dedo. Na hora não sentiu dor, colocou-se novamente de pé e saiu correndo atrás do sujeito de novo, mas não conseguiu alcançá-lo.

O segundo cotovelo quebrado também foi resultado de uma briga de rua, mas ele não se dispõe a contar.

A conversa na escadaria é interrompida lá pelas nove horas da noite, quando quatro peruas Kombi, da Central de Atendimento Permanente e Emergências (Cape), sobem as calçadas da praça da Sé com o pisca-alerta ligado. Imediatamente forma-se um pequeno aglomerado de moradores de rua. Muitos deles ficam na região apenas à espera do serviço que os leva para os albergues da rede municipal.

Os quatro veículos permanecem com os motores roncando baixo enquanto um funcionário da prefeitura desce e olha em volta, como que procurando algo que não está diante de seus olhos. Um dos moradores da Sé se aproxima e pergunta para qual instituição irão aquelas peruas.

– Ermelino Matarazzo – responde o funcionário – mas estão todas lotadas. Eu só preciso de mais uma mulher. Tem mais alguma mulher que queira ir?

A mulher aparece logo e se enfia dentro da Kombi, no meio de mais uns sete ou oito desabrigados. O funcionário dá mais uma olhada em volta, avisa que em seguida mais uma equipe virá recolher os que ficaram e bate a porta de lata oca da perua.

Uma hora depois, lá pelas dez e pouco da noite, os ambulantes já foram embora, os pedestres rareiam e outra perua sobe no calçamento de granito da Sé. Novamente me aproximo junto dos outros moradores de rua que se interessam pela possibilidade de dormir uma noite na cama, quem sabe depois de um banho e um bom prato de arroz, feijão e uma mistura qualquer.

Quando vejo o funcionário da prefeitura descer da Kombi, tenho certeza de que meu disfarce está prestes a ir por água abaixo. Bernardo. Cinco meses antes, eu havia passado uma noite inteira acompanhando o serviço de recolhimento de pessoas em situação de rua. A noite inteira espremido na perua ao lado de um funcionário da prefeitura: Bernardo.

Ele desce, olha em volta, abre a porta de correr do veículo e começa a colocar os desabrigados pra dentro. Eu me encosto na lataria branca, costas curvadas, mão na boca como se roesse unhas, gorro enterrado na cabeça.

– Mais alguém vai querer ir? – Bernardo pergunta me olhando no olho.

João e o outro sujeito da escadaria espiam pra dentro da perua, mas preferem ficar na rua. Começo a achar que Bernardo não irá mesmo me reconhecer e resolvo arriscar.

– Eu vou – falo meio que em sussurro, já me enfiando no banco de trás da Kombi, com a cabeça baixa.

A perua está cheia. Quatro no banco de trás e quatro no da frente, contando com um bebê que viaja no colo da mãe. Bernardo passa um rádio para a central em busca de vagas para mãe e filha, que logo são encontradas no Instituto Lygia Jardim. O motorista engata a primeira e o barulhento motor Volkswagen nos põe em marcha. O Lygia Jardim é só para mulheres e crianças. O destino dos homens, portanto, continua desconhecido. Não sabemos em que canto da cidade vamos acabar despejados e nem o nível de qualidade de nossa hospedaria.

– Agora nós vamos pro céu – comenta um dos recolhidos.

– Tomara que não seja o Ermelino. Lá é longe que só o diabo, é duas hora de ônibus pra voltar pra Sé. Duas hora no mínimo, hein.

– O Glicério também é dureza, só marginal.

– Nããããão, mas o Ermelino é bom.

– É bom, mas é longe. Eu prefiro o Cireneu, lá é ajeitadinho também.

Um dos sujeitos do último banco resolve cantar algo que lembra de longe um samba de Adoniran Barbosa (ou vários sambas misturados). Um outro ri das letras embaralhadas de cachaça:

– Vixe, esse daí tá parecendo o Quincas Pau D’Água.

Meia hora depois de despejar mãe e filha no Lygia, chegamos ao nosso destino que, por sinal, não estava nas especulações dos recolhidos: avenida Paes de Barros, Vila Prudente. Bernardo abre a porta de correr, me encara, sério, e mais uma vez acho que fui descoberto. Nada. Ele ordena que todos desembarquem e, num gesto automático, pega uma prancheta em cima do painel. Pede nome e data de nascimento dos quatro que iam ficar naquele albergue. Eu sou um deles. Não me parece uma boa idéia dizer o meu nome e cutucar aquele pedaço adormecido do cérebro de Bernardo em que estão as informações sobre um repórter que passou uma noite inteira entrevistando os recolhidos pela cidade afora.

– Nome? – Bernardo pergunta me olhando nos olhos.

– Edson de Souza Fernandes – minto, carregando naquele sotaque ensaiado na escadaria da Sé.

Antes da perua arrancar novamente com os três últimos desabrigados, um funcionário baixinho e gentil, metido num jaleco branco vagabundo, abre o portão de grade de ferro pintado de bege. O albergue é um sobrado, também bege, simples, quadrado e limpo. Parece vazio. Só uma meia dúzia de usuários fuma cigarros no pátio de entrada e conversa em voz baixa.

O funcionário entra numa sala branca, brilhante, azulejada até o teto, cheia de quadros horríveis nas paredes, iluminada com luz fluorescente esverdeada. Os quatro desabrigados apertam os olhos, que custam a se adaptar à luminosidade. O homenzinho de jaleco senta-se atrás de uma das várias mesas brancas de fórmica reluzente, pega uma prancheta e pede a cada um de nós que lhe entregue um documento de identificação, qualquer um. Não posso voltar a meu nome verdadeiro. Os outros três recolhidos presenciaram minha primeira mentira, que tem de ser mantida e estendida.

– Fui roubado e não tenho nenhum documento – minto novamente. Sem problema. Nome e data de nascimento são suficientes. Não consigo deixar de pensar na quantidade de foragidos e criminosos que, adotando a mesma tática, poderiam ter conseguido uma vaga no beliche ao meu lado.

Depois de anotar tudo com certa dificuldade, o funcionário entrega uma toalha e um sabonete para cada um de nós. Luiz, um dos recolhidos, agradece e diz que já havia tomado banho. Lembro das histórias de banheiros de albergues com chuveiros gelados e azulejos cobertos de excremento e dou a mesma desculpa. Arrependo-me logo depois, quando vejo o banheiro bem limpo. Mas, de qualquer forma, meu disfarce certamente seria afetado por um bom banho quente.

O jantar é servido em pratos de plástico azul – arroz, feijão, lingüiça frita, suco e um docinho de sobremesa com gosto de sabão de coco. Os três desabrigados já tinham devorado boa parte do bem-vindo jantar quando uma mulher coloca o rosto pra dentro da porta:

– Ele tá pulando aqui, ó. E tá bêbado, vai cair, hein? – ela grita com voz esganiçada.

O funcionário, que estava numa repartição nos fundos da sala de jantar, levanta-se e anda apressado até a frente do albergue, toda cercada de grades de ferro até uns cinco metros de altura. O sujeito se pendura no alto das grades, balança de um lado para o outro por longos instantes de suspense até que se joga para dentro. Cai, meio de pé meio sentado, levanta, balança mais um pouco de bêbado e desacredita quando vê que o funcionário de jaleco branco já abriu o portão e está parado, uma das mãos na cintura, a outra esticada a apontar o caminho da rua.

O homem, vestido com camisa da seleção brasileira e uma bermuda encardida e encharcada de urina, continua a cambalear. Abre os braços, depois relaxa e bate as mãos nas pernas. Pára por um instante, como que para se concentrar e colocar a mente em ordem. Depois anda até o armário de metal no pátio em frente às grades, agacha, agarra num dos cadeados fechados e o chacoalha como se tivesse força para arrombá-lo. Desiste logo. Atônito, levanta-se e olha novamente para o homenzinho de branco, que continua estático, na mesma posição, a apontar a rua.

– Ôôôôô… – balbucia o invasor – ooooocê vai ter que me dar minhas coisas.

– Fora – ordena o funcionário de jaleco branco.

– Ôôôô… Ooooocê vai deixar eu dormir na rua… Mas deixa eu pegar minhas roupas.

– Fora.

– Ôôôôaaahhhrrrggg – impacienta-se o homem. – As roupas são minhas. Eu não posso dormir assim, ô. Ôôôôôeeeeu tô todo molhado aqui, ó – E mostra a bermuda encharcada e grudada no corpo.

O funcionário de branco finalmente aceita o argumento do sujeito. Tranca o portão, abre o cadeado, espera que o homem pegue as roupas, deixa ele se trocar no banheiro e depois o põe de novo para fora. (Em alguns albergues os usuários não podem entrar alcoolizados – ou, pelo menos, muito alcoolizados.)

Depois do jantar ainda há tempo para um cigarro e um dedo de prosa nos bancos de concreto separados da Paes de Barros pelas grades pintadas de bege.

Luiz deve ter uns 50 anos, veio de Minas Gerais montar uma lavanderia em São Paulo, mas perdeu tudo, afastou-se da família e foi parar na rua. Sapatos pretos engraxados, calça social cinza, blusa de lã azul-marinho, cavanhaque bem aparado, não parece um desabrigado. Mas já esteve em quase todos os albergues e também morou no parque da Aclimação. Conhecia os vigias, que o deixavam entrar, e ele varria as folhas, deixava os colchões e cobertores bem dobrados e meio escondidos para não incomodar os visitantes. Morou ainda um tempo na Sé e embaixo do viaduto do Glicério, mas hoje prefere os albergues.

– Na Sé e no Glicério, de cada 200, 190 é ladrão – explica.

De vez em quando, Luiz faz uns bicos em uma ou outra lavanderia, mas o dinheiro não é suficiente pra alugar nem um quartinho, então ele vive de albergue em albergue. E come na rua também. Sabe dia, horário e local de todas as “bocas de rango” da cidade.

– Domingo passado, na Sé, passou cinco refeição. Dos crente. Tinha arroz, feijão, frango, carne, tinha macarrão e suco e sobremesa. Chegou na última, a sopa, que já era de noite, e eu nem consegui comer. Peguei só pra dar depois, que eu tava que tava quase arrebentando.

Já passa da meia-noite quando o funcionário nos leva até os quartos, no primeiro andar. Não consigo contar quantos cômodos são; pelo menos quatro masculinos, mas sei que há uma ala feminina também. Dezenas de desconhecidos dormem lado a lado. O homenzinho me leva até um quarto com quatro beliches onde só há um colchão vazio. Mesmo na penumbra é possível perceber que a maioria dos meus companheiros esfarrapados de quarto já dorme.

O colchão é firme, os lençóis cheiram a sabão. Ainda assim, dormir não é tarefa fácil. O ar é adensado de suor azedo, misturado ao cheiro enjoativo de respiração carregada de cachaça. Não há porta entre os quartos, e a noite é pontilhada por tosses de alcatrão, idas ao banheiro, sonhos falados, roncos intermitentes e movimentos bruscos acompanhados de rangidos de metal dos beliches mal aparafusados.

Por volta das sete horas da manhã, outro funcionário, sem jaleco, de camiseta vermelha, chama para o desjejum – um pão francês murcho com margarina e um café com leite melado de doce. No pátio da frente, um dos usuários fala sozinho, palavras desconexas e balança o corpo pra frente e pra trás.

Luiz me acompanha até o ponto de ônibus. Vai tomar um para a praça da Sé.

– Eu chego lá e logo mais já vem o pessoal trazer o almoço – explica antes de se despedir.

* O texto acima é o primeiro capítulo do livro “Cama de Cimento”(Ediouro/2007), que traça um amplo panorama da população de rua e dos desabrigados na cidade de São Paulo. Temas: “população de rua”, “povo das ruas”, “desabrigados”, “pessoas em situação de rua”, “moradores de rua”, “mendigos.

 

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  1. […] Apesar do atraso no Chill-out, o espaço estava muito bonito, agradável, e, mesmo com o vento frio de fim-de-tarde, este repórter até sentiu-se confortado com a possibilidade de uma noite agradável e de ter pela frente alguns meses de trabalho em ambientes muito mais saudáveis do que o baixo do viaduto do Glicério. […]

  2. […] um ano depois da publicação de “Cama de Cimento”, recebi da Ediouro os originais do texto final, revisado, em formato Word. Aproveitando a deixa, […]


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