Antes da Estante

Casa Nova

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on abril 28, 2015

A partir de agora, o que vinha para este blog vai para: www.tomaschiaverini.com

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Aperitivo

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on julho 26, 2012

“Afinal, se o método científico não é capaz de explicar algo tão abundante e natural como a vida, subitamente me pareceu uma idiotice tentar lançar mão dele para desvendar algo tão raro e incerto como a vida após a morte. E se a boa, velha e simples comunicação verbal nos tem causado tantas tragédias ao longo do tempo, como ser prepotente a ponto de tentar entender a linguagem não dita de ondas cerebrais pescadas no éter dos inconscientes?”

Ode aos burocratas, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on maio 16, 2012

Contraponto

Caro rato de gabinete, homo sapiens de bunda murcha, barriga pochete e pinto encollhido. Caro gestor de recursos humanos, sapato e certezas quadradas, ser de mente obtusa, operador de Excel, comedor de bandejão, cheirador de ar-condicionado. Em suma, caro burocrata. Este texto foi escrito para você.

E pela paciência dos que agonizam na fila do INSS, pela alma dos que sonham com o seguro desemprego, pelo tempo desperdiçado dos que surfam no site da Receita, espero que essas linhas tenham o efeito de uma escarrada no café morno e melado que você ingere em dozes homeopáticas pra alimentar a azia.

Atenção, caro burocrata, tire o olho do jogo de paciência e preste atenção!
Porque a revelação a seguir abalará as estruturas de seu intelecto de ondas curtas, dissolverá a cola de seus post-its, desbotará o azul Royal de suas esferográficas. Pois o fato, caro engravatado analógico, é que o relógio de ponto, esse objeto tão idolatrado por sua raça, esse instrumento de dominação, controle remoto dos assalariados não controla realmente nada.

Leia na íntegra…

Desodorantes, na crônica do mês no Nota de Rodapé

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on abril 19, 2012

Pelas Axilas de Ícaro!

Não é de hoje que o povo da publicidade exagera. É o trabalho deles, afinal. Criam um mundo de fantasia onde o produto em questão, seja ele um carro esporte ou um adesivo para dentaduras, nos tornará mais felizes.

Às vezes a gente até finge que acredita. Até espera que, quando o garçom chegar com a cerveja, o bar será imediatamente tomado por gostosas decotadas, piscando os cílios compridos e mandando beijinhos. Mas, no fim, a gente sabe que vai acabar cercado pelos mesmos amigos barbados e barrigudos de sempre. Até aí tudo bem, há que se ter alguma fantasia na vida, ainda que apenas nos trinta segundos do comercial de cerveja.

Mas tudo tem limite.

E outro dia, enquanto escovava os dentes no meu pequeno e reconfortante banheiro, fui atingido por uma epifania. O limite há muito havia sido rompido.

Leia na íntegra

Um brasileiro no 17º concurso paulista de karaokê – piauí 54

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 15, 2011

Ovelha negra

As agruras de um brasileiro em um concurso nipônico de karaokê

Por Tomás Chiaverini

Avantajados ventiladores giravam sem descanso, mas não deram conta de refrescar a atmosfera saariana do auditório. Centenas de espectadores, em sua maioria senhores de olhos puxados, suavam e se abanavam inutilmente com leques de papel. No palco, os finalistas do 17o Paulistão de Karaokê, que aconteceu em Sorocaba. A situação deles era ainda pior: ao contrário da plateia, não podiam desfrutar do conforto dos bermudões, camisetas sem manga e chinelos.

Luxo e glamour eram pré-requisitos. Mulheres exibiam vestidos longos ou impecáveis trajes de gueixa. Homens envergavam ternos, fraques, casacas, ou se embrulhavam em quimonos ricamente bordados. Flores artificiais, babados e paetês adornavam os cantadores de ambos os sexos. Havia especial predileção por lantejoulas furta-cor. A fim de explorar ao máximo esse brilho todo, luzes coloridas se movimentavam no proscênio e tornavam a temperatura ainda mais escaldante.

Nada disso abalou a calma dos candidatos, quase todos japoneses ou descendentes – segundo estimativas extraoficiais, cerca de 95% dos 604 participantes veem o mundo através de olhos puxados. Um a um eles subiram ao palco, fizeram uma rápida mesura de agradecimento e, com ritmo e afinação impecáveis, entoaram canções populares japonesas. Nada de Roberto, Wandeca ou Bruno & Marrone. A legenda que passa ditando o ritmo também é coisa para amadores. No 17o Paulistão, as canções foram interpretadas de cor, em japonês. Era escassa a presença de não descendentes.

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Fim

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 5, 2010

Pois então, como os argutos leitores deste espaço já terão notado, a viagem acabou, assim como a série de relatos sobre ela. Mais uma vez, este blogue terá de se adaptar a uma nova realidade, mutando-se feito político em campanha. Aguardem.

Promoção: “Festa Infinita” + “Cama de Cimento”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on junho 21, 2010

O site Nota de Rodapé está sorteando quatro exemplares autografados dos livros “Festa Infinita” e “Cama de Cimento”.

Cama de Cimento no IG

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on junho 3, 2010

Pois então, caros leitores, já se vão quase três anos desde o lançamento do livro Cama de Cimento. Mas ele continua atual e dando o que falar, como atesta a entrevista recém publicada pelo Último Segundo, do IG.

Avesso

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on maio 26, 2010

Em setembro, numa livraria perto de você…

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

Festa Infinita em Curitiba

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2009

A convite da Fnac, na próxima quinta-feira, dia 24, estarei em Curitiba para participar de uma mesa redonda sobre o livro “Festa Infinita”. O evento fará parte do 4o Encontro Fnac de Música Eletrônica, e ocorrerá das 20h30 às 21h30.

Debatendo com este que vos escreve, estarão a psiquiatra Vanessa Andrade, e o DJ e produtor Thiago Henrique. Falaremos sobre raves, comportamento, drogas, música, jornalismo, entre outras bizarices.

O vencedor eterno

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 4, 2009

Deu Cristóvão Tezza novamente. Depois de amealhar os principais prêmios literários de 2008 (Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, entre outros), o livro “O filho eterno” levou também o 6o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Em dinheiro, pelos meus cálculos, a somatória de todas as premiações deve dar mais de meio milhão de reais.

Sem lá muita alternativa, li o livro de Tezza, que é, realmente, muito bom. Em pouco mais de duzentas páginas de alto teor dramático, o escritor catarinense conta a relação de um pai com o filho portador síndrome de Down. O livro torna-se ainda mais forte quando se sabe que o autor realmente tem um filho com a mesma doença.

A despeito das inegáveis qualidades do livro, contudo, essa unanimidade na distribuição de prêmios me parece pouco saudável. Afinal, não é possível que em toda a produção literária nacional de 2008 não haja ao menos um outro livro que faça frente ao romance de Tezza.

Além disso, qualquer análise crítica, por mais embasada que seja, é extremamente subjetiva. Será possível que todos os jurados realmente tenham visto em “O filho eterno” algo de inegavelmente superior?

Não sei. A mim, me parece que temos aí um efeito manada. Não é fácil analisar cada exemplar dentre os caminhões de livros que devem chegar de todo o Brasil para um prêmio de destaque. Mais fácil, portanto, acatar a unanimidade, que, como diria Nelson Rodrigues, “é burra”.

De qualquer forma, há algo de positivo nessa concentração toda. Temos um escritor pop-star. Alguém que se tornou capaz de viver (e bem) de literatura, de dedicar-se à escrita acima de tudo, de vender livros a rodo e de criar certa comoção em torno da profissão de escritor. Tomara que Tezza cumpra a missão a contento e faça valer o poder da fama.

E se, uma vez por ano, um novo escritor brasileiro for alçado à condição de pop-star, levando pra casa uma bolada de meio milhão, talvez essa estranha atividade passe a ser levada mais a sério.

Ou não.

Uma estranha realidade

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 3, 2009

Às vezes abro o jornal e me sinto vivendo numa realidade paralela. Tudo bem, sentimento compartilhado, creio eu, pela maioria dos leitores, nenhuma grande novidade. Esse mundo é muito estranho mesmo, e a imprensa faz questão de ressaltar as bizarrices. Mas às vezes as coisas vão além.

Hoje, por exemplo, fui brindado com a notícia de que, por uma sábia medida do governo, em 2014 os carros produzidos aqui terão de poluir 30% menos. Nada de bizarro, ok. Se não fosse por um detalhe: essa meta é inferior àquela que Europa e EUA já adotaram.

Surreal, não?

Sim, mas nada que se compare ao Collor. Pois é, ele de novo. Para quem não sabe, o nosso bicudo caçador de marajás, o boneco assassino do senado, a Fênix do impeachment agora se tornou imortal. Sem nunca ter publicado um livro, o filho do tinhoso conseguiu a proeza de ser escolhido para uma vaga da Academia Alagoana de Letras.

Bizarro o bastante ou querem mais?

Festa Infinita na UM

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on setembro 2, 2009

E continua o espetacular maremoto que Festa Infinita vem causando na mídia brasileira. Este mês, estamos nas bancas em entrevista à revista UM.

Vida saudável

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 27, 2009

Não fume e procure não respirar muito quando caminhar pelas calçadas paulistanas. Pratique ao menos trinta minutos de exercícios aeróbicos todos os dias. Prefira o ciclismo à corrida, a fim de evitar lesões de impacto nas articulações. Muito cuidado ao trafegar de bicicleta pelas ruas de São Paulo, onde atropelamentos e furtos são bastante comuns. Lembre-se de alongar todos os músculos antes e depois das atividades físicas. Não exagere no começo. Nem no final. Respire. Caminhe sempre com um calçado de solado adequado. Caminhe descalço. Faça um chek-up clínico antes de iniciar atividades físicas. Durma de sete a oito horas por noite.

Evite se automedicar. Tome vitaminas regularmente, assim como antioxidantes, estimulantes naturais, antiácidos, pílulas de colágeno, óleos essenciais e vermífugos. Respire, sempre respire.

Escove os dentes três vezes ao dia, após o uso do fio dental. Fita dental, melhor dizendo. Limpar a língua com um objeto projetado para a nobre função também é adequado. Visite o  dentista regularmente. Muito cuidado na higiene dos ouvidos. Cotonetes devem ser usados diariamente, mas não inseridos no duto auditivo. Lave o rosto duas vezes ao dia com um sabonete não-oleoso. Respire. Ao sair à rua, use um filtro solar dermatologicamente testado. Óculos escuros como proteção contra raios ultravioleta também são recomendados. A cada seis meses, visite um dermatologista para averiguar o surgimento de manchar anômalas na pele. Corte as unhas de forma reta, a fim de evitar encravamentos. Não tire as cutículas, apenas empurre.

Use sempre preservativos e tenha um único parceiro sexual. Converse sobre o sexo e procure a satisfação mútua. Respire. Higienize as partes íntimas antes e depois das relações.

Tenha uma alimentação balanceada. Coma uma porção de fibras, frutas e proteínas. Ameixas passas pela manhã, chá branco à tarde e castanhas do Pará após o jantar. Ingira quantidades moderadas de carne vermelha e laticínios. Não coma açúcar, sal em excesso ou pimenta do reino. Evite aditivos químicos, gorduras, frituras, embutidos, queijos amarelos e tudo o mais que lhe apetecer. Prefira alimentos integrais. Procure salivar antes das refeições. Mastigue quarenta vezes antes de engolir. Beba água. Ao menos quatro litros por dia, mas não de uma vez, o que pode ser perigosíssimo. Não beba álcool. Beba ao menos uma taça de vinho tinto antes do jantar. Não coma ovo em hipótese alguma, ou coma ao menos três vezes por semana. Evacue, diária e naturalmente, três porções com formato cilíndrico de dez centímetros de comprimento. Em hipótese alguma use papel higiênico. Visite um nutricionista regularmente.

Trabalhe pouco. Respire profunda e calmamente, com a ajuda dos músculos abdominais. Coluna ereta. Não se estresse. Não passe muito tempo sentado, em pé, deitado ou agachado. Não assista muita televisão, não escute música alta e não passe mais de trinta minutos seguidos diante do computador. Pisque, pisque, pisque. Não fale ao celular e mantenha distância das antenas de transmissão.

Leia. Faça cursos de outros idiomas. Medite, sorria e cultive pensamentos positivos. Viva a vida intensamente e seja feliz.

Woodstock X Universo Paralello

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 20, 2009

Pois é, caro leitor hippie velho, lá se vão quarenta anos desde que, numa fazenda próxima a Nova Iorque, reuniu-se meio milhão dos mais malucos exemplares humanos. É isso, em agosto o lendário festival de Woodstock completou 40 anos.

E para comemorar, coloco abaixo um trecho do “Festa Infinita” que descreve o começo de um outro festival. Os tempos são outros, a música é outra, o público é outro, e a organização do evento nacional é infinitamente superior à do grande marco hippie. Mas não há como negar que há um bom tanto de Woostock no Universo Paralello.

No início da tarde do dia 29, a pista principal ainda está em silêncio, mas uma multidão já se acomoda por ali, sentada embaixo dos imensos triângulos de lycra colorida, esperando que o ritual de êxtase tenha início. Mas ao invés de emanarem das gigantescas pilhas de caixa de som, as primeiras pancadas são ouvidas à distância, e vêm se aproximando,  mas  num ritmo diferente, e então os que estão sentados têm de se levantar e abrir espaço para que o cortejo de estandartes e saias coloridas passe e se posicione no centro da pista.

Tocando tambores, pandeiros, apitos e chocalhos, o grupo pernambucano de maracatu se apresenta com repentes de boas vindas aos ravers. Todos dançam, cantam junto e tiram fotos. No céu azul, já livre de qualquer ameaça de chuva, um ultraleve colorido voa tranqüilo como se fizesse parte da apresentação. Cerca de 20 minutos depois, o grupo se despede, um deles toma o microfone e durante longos instantes faz propaganda de seu estado, e dos grupos de maracatu, até que, numa pausa mais longa, os técnicos de som cortam o seu microfone. Após alguns segundos de suspense silencioso, uma espécie de vendaval marítimo envolve aqueles milhares de pessoas, percorrendo as caixas sonoras de um lado para o outro, deixando a pista suspensa num crescendo de energia potencial, até que lá de trás vem surgindo o bumbo demarcado, que logo se propaga em irresistíveis ondas de choque e aquela euforia contida é liberada de uma vez, junto a gritos, assobios e à dança livre, frenética e incontrolável.

Ao redor, ao longo daquele quilômetro de coqueiral à beira-mar, a festa desabrocha em toda a sua magnitude. Os sanitários funcionam e o problema das fossas foi resolvido com pequenas bombas, que drenam constantemente a água da chuva, por baixo do plástico sobre o qual são depositados os dejetos. A maioria dos hippies já não está mais acampada no centro de Pratigi e, depois de conseguir ingressos a preços promocionais, expõe suas mercadorias em pontos diversos do festival. Além de posto-médico, salva-vidas, guarda-volumes, lan-house, cozinha comunitária, banheiros e duchas, há a praça de alimentação com 40 restaurantes, onde é possível comer faláfels, temakis ou um simples arroz com feijão e frango assado.

A rua de areia fofa que percorre a festa de ponta a ponta, transformou-se num movimentado bulevar em que se escuta conversas em inglês, japonês, hebraico, alemão, espanhol e outras infinitas e irreconhecíveis línguas. Milhares de almas que não param de se movimentar e de interagir em completa harmonia. São  pessoas estranhas, diferentes entre si, mas que respeitam as diferenças porque quase todos carregam mentes abertas, muitas vezes a golpes das mais potentes e diversas drogas conhecidas.

Por que ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2009

São relativamente simples os fatores que me levaram a achar a história que tenho em mãos mais adequada a uma peça de ficção, a um romance, do que à não-ficção, a um livro-reportagem.

É uma questão de adequação da trama ao veículo, ao meio, e às suas idiossincrasias. Explico me arriscando a simplificar demais o assunto, mas vamos lá.

Um livro-reportagem deve ser, sobretudo, um documento histórico-social. Deve registrar algo de relevante que esteja acontecendo no nosso tempo. Em segundo plano, deve trazer personagens que sintam, que vivam dramas e que aproximem a narrativa ao leitor.

Muitas vezes, este segundo plano é posto de lado nos livros-reportagem. Mas, para mim, um texto deve ser atraente, fluido e envolvente, e as comédias e dramas humanos acrescentam prazer à leitura.

No romance, esses dois aspectos se invertem. O mais importante é a humanidade. Fatos e dados historicamente relevantes são desejáveis, mas devem ser postos no segundo plano. Devem ser apresentados apenas para contextualizar e evidenciar a vivência dos personagens.

Pois bem, o que tenho é uma história familiar sobre uma amizade que se desenrola durante a ditadura, uma narrativa cheia de drama e paixão. O período em que ela ocorre e os fatos que a perpassam foram mais do que explorados em livros-reportagem e históricos. O que nos interessa, portanto, é mergulhar na alma dos personagens.

E o instrumento adequado para isso é o romance.

Ou não?

Ou não…

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 17, 2009

A pesquisa avança, entrevistas se acumulam e o tema de nosso próximo projeto adquire contornos mais claros. A nuvem de possibilidades em que se constitui um novo assunto se adensa e se aproxima da realidade. Então, de repente, as certezas tornam-se dúvidas para, no entanto, logo dar lugar a outras certezas.

Tudo isso pra dizer o seguinte: mudamos de ideia, caros leitores.

É uma mudança simples, porém radical. No lugar de um livro-reportagem, teremos um romance histórico. No lugar da não-ficção teremos a ficção baseada em fatos reais. Assim, nos libertaremos das amarras da realidade. O porquê de tão brusca mudança, explicarei amanhã.

Primeiros passos

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2009

Como prometido no último post, coloco abaixo, a introdução do projeto do próximo livro-reportagem. A pesquisa já começou, algumas entrevistas também, mas, como fica claro pelas linhas abaixo, ainda estamos esculpindo em pedra bruta.

O ano é 1964. O Brasil tenta entender o significado do golpe que instaurou uma ditadura no país. Ainda sob a crença geral de que aquela seria uma situação passageira, militares iniciam mudanças que logo resultariam num governo tirânico, onde a tortura e o assassinato seriam práticas recorrentes.

Paralelamente, diversos setores da sociedade iniciam manobras de oposição e resistência. A política torna-se o centro das atenções. Para boa parte da juventude de então, não há como manter distância.

Nesse cenário político caótico e arriscado, dois amigos, criados em famílias intelectuais paulistanas, ingressam na Universidade de São Paulo, onde o clima é semelhante ao das ruas. Quando o assunto é política, não há meio termo. Professores e estudantes são perseguidos e coagidos por esboçar simpatia a teorias socialistas ou comunistas, enquanto outros são taxados de fascistas e reacionários por não aderirem a movimentos de esquerda.

Para os dois calouros, não há escapatória. Pelas famílias onde cresceram é dado que farão parte da oposição ao regime militar, e antes mesmo do golpe, ambos já se envolviam em manifestações, assembléias e passeatas ligadas a setores da esquerda. Com o endurecimento do sistema, contudo, a forma como cada um encara essa situação vai tornando-se diversa. A amizade entre os dois continua, mas enquanto um mergulha de cabeça em organizações de resistência envolvendo-se em atentados contra instituições militares, outro, apesar de ainda se engajar em atividades de oposição pacífica, recusa-se a pegar em armas.

Essa tentativa de preservar o vínculo de amizade separado do posicionamento ideológico, contudo, não se sustenta por muito tempo e ambos acabam se envolvendo e envolvendo as próprias famílias em um turbilhão de acontecimentos que, como tantas outras histórias dessa época, terminará de maneira trágica.

A descrição, que parece saída de um roteiro de ficção, é apenas um esboço da história vivida pelos estudantes André Gouveia, filho da escritora Tatiana Belinky, e Dario Chiaverini, filho do cardiologista Reinaldo Chiaverini e pai do autor.

André engajou-se ativamente na luta-armada através da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), participou do atentado frustrado ao quartel do II exército, em São Paulo, que causou a morte de um militar, fugiu para a Europa e acabou morto de forma misteriosa, na França. Dario nunca se envolveu diretamente na luta-armada, mas acabou involuntariamente ligado às ações de André. Sofreu consequências, foi preso (assim como seus pais) pelo DOI-CODI e ainda hoje não sabe até que ponto suas decisão de se manter afastado da resistência influenciou na morte precoce do colega.

Em homenagem ao amigo, Dario batizou seu primeiro filho com o nome de André.

Romance de não-ficção

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on agosto 11, 2009

Quando lançou “A Sangue Frio”, em 1966, seu afetado autor, Truman Capote, não se satisfez em enquadrá-lo no new-journalism – gênero recém criado pelos americanos, que estava na crista da onda na época (já falamos disso aqui).  Do alto de sua incomparável modéstia, ele dizia estar inaugurando um novo gênero literário: o “romance de não-ficção”.

Quando dizia isso, Capote se referia ao fato de que, para ele, o mais importante não eram os fatos em si. Afinal, o assassinato da família Holcomb, notícia que deu origem ao livro, não ocupou mais do que uma pequena nota nos jornais americanos.

O que interessava a Capote, ia além de detalhes, motivações e sentenças. O que lhe interessava era o material bruto para contar uma história de forma magistral, para investigar o drama da existência humana, para expor a mediocridade da vida dos americanos comuns.

Ao dar as costas ao jornalismo, Capote também se livrava, em parte, do compromisso com a veracidade dos fatos. Podia, por exemplo, gastar páginas e páginas descrevendo o que uma menina pensou e fez sozinha, trancada no quarto, nos instantes imediatamente anteriores à sua morte. Não havia como saber desses detalhes, mas Capote se permitiu imaginar e escrever sem grandes pudores.

Nada disso é muito novo, verdade. Essas denominações todas, romance de não-ficção, new journalism, jornalismo-literário e etc., têm  mais a ver com o bom e velho marketing do que com inovações legítimas. Praticamente tudo o que eles faziam já era feito antes sem tanto estardalhaço. Até por aqui, o brasileiríssimo João do Rio já fazia jornalismo literário desde o começo do século passado.

Mas escrevo tudo isso porque as definições criadas pelos americanos deixaram mais claros os contornos de toda essa confusão. E porque, depois de usar e abusar de técnicas lapidadas pelo new journalism (em Cama de Cimento e Festa Infinita), estou tendendo a guinar para o romance de não-ficção.

Não pretendo de forma alguma deixar de tentar retratar os fatos como eles realmente aconteceram. Mas é certo que, no novo projeto, dados, números e construções jornalísticas perderão espaço para o aprofundamento de questões humanas, para a reconstrução do clima de uma época, e para a lapidação do texto como se ele, por si só, fosse o objetivo de toda a apuração.

Amanhã, mais detalhes sobre o novo “romance de não-ficção”.

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