Antes da Estante

O alter ego feminino de Chiaverini, na revista Piauí 65

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on fevereiro 14, 2012

O segredo de Paulinha

Como uma garota do outro mundo fez mil amigos em dois meses

por Tomás Chiaverini

Paula Merkell é moderna, descolada e sutilmente misteriosa. Formada em moda, está no auge dos 28 anos e é muito popular. Em seu perfil do Facebook, solicitações de amizade pululam como flashes num show do Restart. Em dois meses foram cerca de 100, acompanhadas por flores virtuais, poemas e saudações enviados por amigos pixelizados de todo o país. Para os mais próximos, a notícia a seguir será um tanto dolorosa: sim, Paula Merkell não existe.

A musa não passa de uma marionete eletrônica de breve existência. Diferentemente de outros perfis falsos que se multiplicam pela rede, o de Paulinha não pretendia promover marcas, xeretar a vida alheia, buscar alvos para crimes ou colher dados para campanhas promocionais. Foi criado com o propósito único de amealhar mil amigos, meta que cumpriu em 56 dias.

Aos marmanjos que insistiram para a jovem postar fotos pessoais, causará mais aflição saber que a pessoa no comando de Paulinha é homem. Mas que não se martirizem. O avatar da jovem foi criado para figurar como um pires de mel ofertado aos súditos de Mark Zuckerberg. As pequenas armadilhas começaram já na escolha do nome. Brasileiro, simples e despojado, secundado por um sobrenome forte, emprestado da chanceler alemã Angela Merkel, com um “L” a mais no final, para minimizar o risco dos homônimos.

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As surreais lições de Zé do Caixão, na Piauí 61

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 17, 2011

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

por Tomás Chiaverini

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

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Campeonato de cubo mágico, na polêmica Piauí 59

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on agosto 15, 2011

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

por Tomás Chiaverini

ara os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

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Na revista piauí deste mês

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

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Conheça o dono da voz brasileira de Al Pacino, na piauí 54

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on março 14, 2011

The Voices

Peripécias do avatar vocal de Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere

Por Tomás Chiaverini

Pressionado de todo lado, o chefe dos detetives deu um anel direto para o coronel, na expectativa de que este lhe adiantasse o que fosse sobre os dois cadáveres recém-desovados no tristemente famoso Vale do Silicone. Teve sorte:

– Sim, já sabemos o principal – informou-lhe o coronel, com a satisfação de quem vive de matar charadas. – Ambos morreram de encontros ruins.

– Tem certeza? É a mesma causa mortis do macaquinho do Indiana Jones!

A vida em versão brasileira não é cor-de-rosa, como bem sabe o ator carioca Ricardo Schnetzer –, e não só pelo risco permanente de ser humilhado pela tradução. Aos 57 anos, e depois de três décadas de atuação em superproduções do cinema mundial, ele mora num quarto e sala no Rio de Janeiro, costuma ter alguma dor de cabeça para pagar as contas do mês e, quando caminha pelas ruas, não precisa se preocupar com o assédio dos fãs, vítima que é do mais perfeito anonimato. Para o distinto público, ele não é um nome e, menos ainda, um rosto. Por outro lado, quando abre a boca… Dono de um timbre grave, modulado por quarenta anos de tabagismo militante, Schnetzer fala por Al Pacino, Tom Cruise, Richard Gere e Nicolas Cage, entre outros mais ou menos famosos que, em versão brasileira, encontraram nele o seu grande porta-voz.

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Parral na Piauí

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2010

Ágil e destemido, qual um cangaceiro que avança pela caatinga, Yumbad Baguun Parral esgueira-se por entre as mesas e cadeiras dos bares da Lapa, em São Paulo. Dotado da estatura de 1,66 metro, lança mão de um paradoxal chapéu de couro cor-de-rosa e de uma barbicha de trancinha grisalha meticulosamente composta para atrair a atenção da boemia. Já de início a tarefa soa inglória, pois ele atua sobretudo nas calçadas e, nessa sexta-feira glacial de setembro, boa parte de suas presas virtuais parece ter capitulado ao conforto de dvds e cobertores. Por volta das 22 horas, a maioria das mesas ao ar livre está às moscas.

Mas Yumbad Baguun Parral, pseudônimo de Miguel Cavalcante Felix, não se aflige. Aos 47 anos, com segurança e paciência esculpidas ao longo de uma década na função, esse alagoano arretado ergue a cabeça e leva em frente o seu sorriso constante e simpático. Com um andar calmo e alinhado, arrematado pelo blazer escuro sobre o pulôver amarelo, vai oferecendo dois de seus produtos literários mais atraentes: o romance Santa Puta, a Redentora, que, segundo ele, já vendeu cerca de 10 mil exemplares, e a recém-lançada sátira política Senadô Severino, Sua Excrescência.

Nas primeiras abordagens, o escritor é miseravelmente ignorado. Quando não, recebe caretas de desdém que abalariam os brios de Dom Quixote e arrefeceriam os juízos de Policarpo Quaresma. Não os de Parral, que segue de bar em bar, de mesa em mesa, de vítima em vítima.

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Marrakech, na Piauí de setembro

Posted in Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 13, 2010

Para inglês ver

Cobras marroquinas são fonte de raro prazer

Tomás Chiaverini

Reza a prudência que não se deve flanar na ruidosa, calorenta e colorida praça central de Marrakech. Os lúcidos caminharão firme e com propósito, não exageradamente rápidos, para não revelar medo ou insegurança, nem lentos em demasia, para não excitar os predadores. A esse andar construidamente senhor de si é necessário apor um olhar específico, fluido, desinteressado. O semblante deve exibir uns fumos de mau humor, porém necessariamente tênues, vaporosos, de maneira a não produzir o efeito contrário, pois são legião os comerciantes que se sentem atraídos por desafios.

O essencial, de todo modo, é jamais, em hipótese alguma, fazer contato direto com os olhos de um vendedor marroquino, os quais devem ser considerados translúcidos?– pela simples e boa razão de que, assim, em vez de encará-los, será possível olhar através deles. Quem não se achar capaz de dominar essa complexa arte de olhar atravessado não vá a Marrakech. Ou então compre óculos escuros. Quanto maiores, melhor.

A praça onde não se deve passear gostosamente leva o nome de Djemaa el-Fna, ou “Assembleia dos Mortos”. No passado, era ali que ocorriam as execuções capitais. Sobre aquelas pedras rolavam cabeças de condenados, imagem que convinha ter sempre fresca na mente, como lição. Hoje, contudo, nesse lugar historicamente perigoso, o transeunte pode se despreocupar quanto ao destino de sua cabeça, o que é uma vantagem, pois o libera para se preocupar integralmente com o bolso.

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Na Revista Piauí deste mês…

Posted in Piauí by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Vai uma prece aí, freguesa?

Neste enregelado anoitecer de junho, ao volante de seu moribundo Fiat Uno, Maria Lopes, de 57 anos, é só desolação. As bijuterias que vende para garantir o sustento foram furtadas de sua casa, ela acaba de sair da delegacia, não tem esperanças de que a justiça terrena interceda a seu favor e, perfeitamente derrotada, se vê presa num congestionamento descomunal na Vila Mariana, em São Paulo?- especificamente, no trecho mais largo da Domingos de Morais.

De repente, nesse mar vermelho de luzes de freio, lá vem coisa. Um rapaz parece caminhar bem em direção a Maria. Como um Moisés pós-industrial que partisse o oceano de carros, ele ergue um cartaz acima da cabeça: “Nunca diga não para uma oração.” Frequentadora ocasional de templos evangélicos, Maria não poderia estar mais de acordo. Jamais recusaria um tête-à-tête com o Criador, ainda mais na atual conjuntura.

Cem arrastados metros adiante e o seu agonizante Unozinho é cercado por um coletivo de jovens evangélicos que agitam os braços e distribuem panfletos. Outros tantos metros e já não resta dúvida: o Senhor chama. Apenas que, enjoado de se fazer anunciar por arbustos em chamas, pombas alvíssimas ou trovões tonitruantes, dessa vez Ele optou por uma singela faixa que duas belas jovens fiéis seguram com circunspecção: drive-thru de oração?- receba uma oração sem sair do carro.

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Estréia na revista Piauí

Posted in Piauí by Tomás Chiaverini on maio 15, 2010

Morrer em São Paulo

Praguejando e bufando, com gestos apressados de jovem, meu avô vestia o último terno de sua vida. Cabelos brancos, baixo e encurvado, já quase não tinha carne nos músculos. Era osso e pele apenas. Uma pele branca, seca e enrugada. Uma pele de papel. Mas naquela tarde ensolarada de inverno, tomado pela irritação, não parecia ter 92 anos e se movia como um garoto marrento.

Começara pela manhã o impasse. Ele se queixara à minha mãe, dizendo sentir dor nos ombros e estranhar que suas fezes estivessem escuras, pretas como piche. Ao telefone, o sobrinho médico foi categórico. A aparência de piche sinalizava um sangramento grave. Uma hemorragia no estômago provavelmente. Se não fosse internado imediatamente, meu avô morreria em algumas horas.

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