Antes da Estante

Ossos do ofício

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 26, 2008

Já me arrisquei bastante pela profissão. Dormi ao lado de traficantes de crack embaixo dum viaduto, cobri conflitos entre índios e arrozeiros em Roraima, voei em monomotor com teto baixo na Amazônia, entre outras excentricidades. Mas nunca havia passado tão perto de realmente morrer no cumprimento do dever do que nesta última semana.

E o mais irônico é que tudo aconteceu numa praia paradisíaca, enquanto eu cobria uma festa de paz-e-amor. Pois bem, antes que meus leitores fiquem por demais preocupados, vamos aos detalhes.

Estava eu parado na areia da praia de Pratigi, diante do acampamento base dos funcionários do Universo Paralello. A chuva dos últimos dias havia dado uma trégua e eu aproveitava o momento de calma para terminar de ver o pôr-do-sol.

Quando já estava anoitecendo, percebi que um caminhão baú, com faróis acesos, vinha trafegando em alta velocidade na faixa dura da areia, paralelamente ao mar. Eu percebi o que ele estava fazendo. Vinha pegando embalo para conseguir vencer uma faixa de areia fofa e entrar no acampamento, uma manobra comum por ali.

O problema é que ele estava muito rápido. Rápido mesmo. Eu calculei que ele iria fazer a curva perto de onde eu estava, mas não adiantava me mover antes de saber quando e onde ele daria a guinada para sair da praia. Também calculei que ele me veria, já que eu estava de pé, e ele estava com os faróis ligados.

Qual o que. Ele veio passando e fez uma curva fechada sem diminuir a velocidade, acelerando, caros leitores, e vindo direto na minha direção, mas vindo de um jeito como se tivesse feito pontaria e quisesse me acertar em cheio.

Não deu tempo de andar, nem de correr, não deu tempo nem de pensar. A única coisa que consegui fazer foi me jogar no chão, como um goleiro que tenta pegar um pênalti cobrado no canto. Caí na areia fofa e ainda tive tempo de ver o caminhão seguindo em frente, um caminhão, vejam só, da peixaria. Imaginem que terrível seria morrer atropelado pelo caminhão da peixaria?

Quando levantei atordoado, um sujeito que olhava a cena de longe veio correndo, pensando que eu tinha sido atingido. Eu disse que estava bem, agradeci a atenção e fui recolher minhas sandálias havaianas.

Elas estavam bem no meio do sulco cavado pelas duas rodas na areia.

PS: os leitores do antes da estante devem lembrar-se que esta não foi a primeira vez que um veículo desgovernado atentou contra a apuração do livro. Coincidência? Sei não, hein…

Gastando a sola das havaianas

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 22, 2008

Escrevo este post direto da lan house Giga-net, no coração barulhento e abafado da cidade de Ituberá. E, como havia previsto no post anterior, a apuração não está saindo exatamente como o esperado.

A cidade de Ituberá encontra-se a 26 quilômetros da vila de Pratigi (onde estou hospedado), que está a cerca de três quilômetros do local onde a equipe de produção do Universo Paralello está acampada que, por sua vez, está a cerca de um quilômetro do local onde ocorrerá a festa.

Os meios de transportes são irregulares a ponto de o motorista do ônibus não saber informar os horários do dia seguinte. O jeito tem sido resolver com caronas e gastando a sola das sandálias havaianas.

E os contratempos vão além das dificuldades de transporte. Os organizadores do Universo Paralello, que haviam se mostrado extremamente abertos e dispostos a participar do projeto alguns meses atrás, encontram-se agora à beira de um ataque de nervos. Nesse ambiente tenso de produção, desnecessário dizer que a presença de um repórter se torna no mínimo indesejada.

Pra completar, vejam só, o paraíso baiano de sol e coqueiros amanheceu embaixo de chuva. E pelo jeito dessa garoa fina, parece que o clima vai continuar nojento por alguns dias.

Mas nem tudo são espinhos. Já colhi algumas histórias e cenas interessantes e, inclusive, tenho algumas páginas rascunhadas sobre três ativistas gringos do projeto Fuck for Forest, algo como Foder para a Floresta, num português claro.

O cerne do projeto é, basicamente, um site de pornografia com conteúdo pago e com recursos destinados à preservação da natureza. O divertido é que as fotos são deles mesmos (duas garotas e um rapaz), e de outras pessoas ao redor do mundo, que mandam suas performances sexuais em fotos e vídeos, como forma de contribuir com o projeto.

Além de manter o site, o trabalho dos três fundadores é, basicamente, recrutar pessoas que achem interessantes e que estejam dispostas a transar com eles, ser fotografados e ter as fotos expostas na internet.

Quem tiver curiosidade ou quiser participar, pode conferir aqui o site deles.

Adri, não se preocupe que eu, evidentemente, declinei do convite.

Em busca do Universo Paralello

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 18, 2008

Amanhã, sexta-feira, 19 de dezembro, meu laptop (Mr. Black) e eu embarcamos para o último grande desafio na elaboração de nosso livro-reportagem. Pouco depois das 10h deixaremos o aeroporto de Congonhas rumo à cidade de Ilhéus, onde teremos de descobrir uma maneira apropriada para chegar à praia de Pratigi, local em que já ocorrem os preparativos para o Universo Paralello, a mãe de todas as raves.

Mr. Black tem a difícil tarefa de agüentar a longa viagem em plena terceira idade e de lidar com elementos tecnologicamente desagradáveis como areia, sol e água salgada.

Eu, por minha vez, tenho a missão de encontrar uma forma de falar sobre o festival sem deixar o texto repetitivo. E de fazer isso em tempo recorde.

Pelo fato de ocorrer sempre durante o reveillon, o Universo Paralello acabou tendo de ficar para a última hora na ordem de apuração, o que, evidentemente não é o ideal. E, com o lançamento previsto para março de 2009, tenho de entregar o texto antes do fim de janeiro, para revisões, projetos gráficos e etc. Considerando que o festival termina no dia 4 de janeiro, concluímos que o tempo é justo e curto.

De qualquer forma, o restante do texto está pronto, redondo e no ponto, e já tenho inclusive um local esperando pelos capítulos sobre o festival baiano. Já tenho também alguma idéia da maneira que pretendo abordar a festa a fim de fugir das demais narrativas do livro. Pretendo explorar a relação entre a população de uma cidadela perdida no sul da Bahia e toda a loucura cosmopolita dos participantes do Universo Paralello.

Mas apesar da pauta pré-definida, tudo pode mudar, porque, infelizmente, não há como ir contra os caprichos e surpresas do mundo real. Está aí uma das partes mais emocionantes da profissão: as coisas nunca acontecem exatamente como o previsto.

PS: Devido a acidentes de percurso, os posts podem ocorrer com certa irregularidade daqui pra frente. Mas fiquem atentos porque certamente haverá notícias saborosas diretamente do front.

AAAaaarrrrrrrggg!

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on dezembro 16, 2008

Pois bem, eruditos leitores do Antes da Estante, podem espantar o cinza de suas vidas pois estamos de volta. Esses poucos dias em que seguimos afastados, certamente devem ter figurado como toda uma era geológica para os senhores. E digo que, para este que vos escreve, o tempo também tem custado a passar.

Primeiro porque, evidentemente, esse tempo afastado não foi algo assim como férias, visto que é comprovadamente impossível manter uma distância mental mínima desta obra em andamento. Segundo, porque essa impossibilidade de distanciamento vem trazendo um desagradável sentimento de saturação.

Não posso mais olhar para o texto que meus olhos se reviram para acabar se juntando, emburrados, num ponto indefinido entre meu nariz e a cansada tela de meu notebook, o já famoso Mr. Black.

Depois, porque não aguento mais me deparar com dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs, marombados dançando na lama, destinos paradisíacos, e garotas de saias indianas fazendo malabares ao nascer do sol.

Não quero mais saber, não quero mais ouvir histórias, não quero entrevistar mais ninguém, nem quero encontrar com aquele amigo que não vejo há alguns meses e ter de responder à encantadora pergunta: “e o livro, sai quando?”.

Cansei do mesmo assunto, cansei e quero esquecer a palavra “rave” para todo o sempre.

Ufa!

Desabafo desabafado e informo aos estimados leitores que na próxima sexta, dia 19, deixo São Paulo rumo a uma paradisíaca praia ao sul da Bahia, onde passarei 20 dias cobrindo o Universo Paralello, desde a montagem até o apagar das luzes. Vinte dias de dreadlocks, psytrances, ecstasys, DJs e etc.

Humpf!

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 24, 2008

Pensando na capa…

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… e brincando no Photoshop

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Foto de Murilo Ganesh

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Das críticas e outros demônios (continuação)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 17, 2008

boxe_caras Uma das dicas dos manuais para tornar-se escritor (eles existem!) é não deixar que outros leiam seu texto antes que esteja finalizado. Pois eu, como não acredito em manuais (exceto aqueles que ficam no porta-luvas do carro ou que ensinam a manusear o microondas) ignorei o conselho, como conta o post anterior.

E agora que as críticas vêm chegando, sou obrigado a, apenas por um momento, dar o braço a torcer e ver algo de sensato na manutenção do texto em segredo.

Primeiro há o fato de que as críticas negativas têm muito mais peso do que as positivas. Afinal, é muito mais fácil elogiar do que apontar defeitos. Para alguém olhar nos olhos de um escritor e dizer que seu trabalho não é bom, é preciso que o livro tenha realmente desagradado. Mas quando uma pessoa encontra o autor na rua e diz que o texto é bom, ela  pode muito bem estar apenas sendo simpática e educada.

Assim, é óbvio que as críticas negativas têm mais peso. Também é óbvio que elas machucam o orgulho do autor, abalam a auto-estima e às vezes chegam até a tirar o ânimo para continuar o trabalho. Este é o primeiro fator que, ao meu ver, justifica o segredo até a publicação.

Mas há outros. Um dos principais, acho eu, deve-se ao fato de que aqueles que criticam são, assim como aqueles que escrevem, seres humanos. E seres humanos são  incrivelmente diferentes entre si. Nas críticas de leitores diversos que recebi há momentos de completa contradição. A passagem do texto que um apontou como o auge do livro, foi apontada por outro como um ponto falho. E garanto que é difícil imaginar a confusão mental que esse choque de opiniões vem provocando na cabeça deste autor.

Mas, como disse lá em cima, concordo apenas por um momento com a manutenção texto em segredo. Creio que há um ponto do trabalho em que as críticas são, sim, necessárias, e que, com elas, a qualidade da obra será superior. Vários erros e pequenas contradições do texto foram pescados por meus estimados leitores críticos.

Quanto à confusão na cabeça do repórter, bem, ela faz parte de um processo tão longo como a elaboração de um livro. Ainda mais de um livro que usa elementos artísticos (portanto subjetivos), para falar sobre fatos reais (portanto imutáveis).

E quanto à auto-estima do pobre repórter, bom, ela tem que ser suficientemente sólida para resistir às pancadas. Tem que saber se esquivar daquelas que não são merecidas e receber as que são sem ir à lona.

Agradecimentos, portanto, a Adriana Yazbek, Arpad Spalding, Bruno Bartaquini, Dario Chiaverini e João Carlos Magalhães.

Das críticas e outros demônios

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 13, 2008

O texto está pronto. Há ainda um ou alguns capítulos sobre o Universo Paralello, que serão inseridos mais pra frente, já que o festival ocorre durante o reveillon. Essa última parte terá que ser composta meio como aqueles quadros dos pintores impressionistas, que colocavam o cavalete de frente pro mar e pintavam desesperadamente rápido um único e passageiro momento.

Verdade que há sempre um pouco de imediato no jornalismo: há urgência em tornar texto os pensamentos antes que eles sejam filtrados pela memória e se tornem por demais pessoais. Muito da apuração do nosso livro foi assim. Voltar de uma rave, acordar na segunda-feira, ainda com o relógio biológico meio abobado por conta da noite em claro, e despejar todo o fluxo de informações no HD do moribundo Mr. Black (meu laptop, de tão velho, ganhou direito a nome próprio).

Mas, apesar de ser composto dessa forma passional, o grosso do texto (no caso 174 páginas no formato A4, o que equivale a umas 200 e poucas no tamanho livro) vem sendo trabalhado por meses a fio.

As informações são apuradas e reapuradas, checadas e rechecadas. O texto é lido, relido, modificado, relido de novo, invertido, cortado, expandido e relido mais uma vez, infinitas vezes. Ele é tão relido, que chega quase a ser decorado, e há momentos em que acreditamos estar fazendo uma revisão, mas, na verdade, uma boa parte daquilo que estamos lendo é automaticamente preenchida pelo nosso cérebro.

Essa proximidade simbiôntica com o texto torna imperceptíveis não apenas os detalhes gramaticais, de forma, coesão e etc, como também a própria qualidade da obra no geral. Chega uma hora que já não é possível afirmar se aquilo é bom, ruim ou apenas medíocre. O “que merda” e o “do caralho” viram irmãos, e passeiam pelos nossos neurônios ao sabor de fatores externos como humor, cansaço, ou unha encravada.

Nessas horas, há duas coisas a fazer. Colocar o texto pra descansar, e distribuir para amigos que tenham bom senso e sejam capazes de elaborar críticas construtivas.

Foi o que eu fiz. Há mais de 15 dias tenho me controlado pra não olhar para o texto, como um viciado que mantém distância das agulhas. E começo a receber as dolorosas críticas construtivas.

Continua na segunda…

Ossos do ofício

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 6, 2008

Nessa fase final da apuração, ando concentrado em checar as informações do texto. A conduta é vital para o jornalismo sério, e há diversos meios de comunicação que mantém profissionais cuja única e exclusiva função é conferir os dados apurados pelo repórter.

Aliás, a Piauí deste mês publicou o perfil de Adam Sun, um desses checadores, colaborador da revista, falecido recentemente. Quem tiver curiosidade sobre o ofício pode acessar a matéria por aqui.

No caso de um livro-reportagem, geralmente essa checagem também é feita, mas o foco está mais nas questões gramaticais do que nas informações propriamente ditas. E quando as informações tornam-se por demais especializadas, fica ainda mais complicado comprovar sua acurácia (que linda palavra esta, me senti o próprio Mino Carta!).

Assim, procuro eu mesmo conferir ao máximo os dados do texto, de preferência confrontando fontes diversas. Erros sempre passam, mas nosso objetivo é torná-los raros ao extremo.

Nesse processo, o que vem me dando mais trabalho é a história da música eletrônica, seus gêneros, subgêneros e nomenclaturas. Há muita gente apaixonada pelo assunto, e “nativos” desse universo costumam fornecer informações de acordo com suas preferências musicais, o que acaba por embananar de vez a mente deste pobre repórter.

Pois na tentativa de dirimir as dúvidas remanescentes, marquei uma entrevista com o editor da revista DJ Mag, especializada em música eletrônica.

Piti Vieira me recebeu ontem, de bom grado, mas pareceu um pouco encafifado quando tirei meu bloquinho e comecei a desfiar uma série de cabulosas e cabeludas perguntas. Ele respondeu algumas, foi prestativo, consultou arquivos em seu laptop, e me indicou outros especialistas. Mas aquele estranhamento inicial continuou até o término da entrevista.

Só quando estava indo embora, Piti esclareceu a situação. Ele achava que eu tinha ido até ele para dar uma entrevista sobre o livro, não para entrevistá-lo. Essa nunca tinha me acontecido antes.

A boa notícia é que, além de me ajudar com algumas dúvidas, Piti deixou a porta aberta para uma possível matéria, por ocasião do lançamento.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como. (Última Parte)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 3, 2008

Depois de muita insistência e de uma vasta coleção de respostas padrão negativas, finalmente uma editora havia se interessando em publicar Cama de Cimento (ver posts anteriores). Mas então, quando já era possível pensar em detalhes como capa e estratégias de venda, Quartim, o dono da editora Conex, me deu a perturbadora notícia de que a sociedade com o grupo Nobel estava sendo desfeita.

Ele mesmo não sabia fazer prognósticos precisos sobre seu futuro como editor. Todos os projetos iniciados estavam em suspenso até segunda ordem, Cama de Cimento incluso. Mais uma vez, não havia nada que apontasse para a possibilidade de publicação, a não ser o otimismo de Quartim, que, durante os meses em que fiquei a importuná-lo, não cansava de repetir.

– Calma rapaz…. As coisas acabam se ajeitando.

E, apesar da minha falta de calma, após uns quatro ou cinco meses de agonia, as coisas realmente começaram a se ajeitar. Quartim abandonou a marca Conex com o grupo Nobel e, depois de um longo período de incerteza, tornou-se um editor associado da Ediouro, um mega-grupo, dono de selos diversos (Nova Fronteira, Agir, Prestígio, etc.) e que disputa a liderança do mercado editorial brasileiro com o grupo Record.

A notícia era excelente. A simples possibilidade de ter o primeiro livro publicado por uma das maiores editoras do país, tirou o sono deste repórter por noites a fio. Mas ainda não era certeza. Para ser publicado pela Ediouro, qualquer livro tem de ser aprovado por um exigente conselho editorial, que, via de regra, rejeita a maior parte dos títulos.

Então, em uma tarde qualquer do mês de abril de 2007, atendi o meu ramal provisório na redação da Folha de S.Paulo, e do outro lado da linha ouvi a voz sempre calma e otimista de Mr. Q.

– Pode soltar os rojões, rapaz. Seu livro acaba de ser aprovado pelo conselho editorial.

Alguns meses mais tarde, lá estava eu, na refinada Livraria da Vila da alameda Lorena, autografando livros que eu mesmo havia escrito, e ainda sem acreditar em toda a montanha russa que havia me levado até lá.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como.

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 27, 2008

Quando comecei a escrever “Cama de Cimento”, no início de 2005, nada indicava que o livro seria publicado. Um ano depois, nos primeiros meses de 2006, com o trabalho pronto, a situação era sensivelmente diversa. Tudo me dizia que ele nunca seria publicado. Um livro de um autor desconhecido, recém formado, que trata do espinhento cotidiano dos moradores de rua?

Ora, convenhamos, não há apelo comercial nenhum num material destes!

Na época, claro, eu procurava afastar pensamentos deste tipo da minha cabeça e, com meus parcos recursos, batalhava pela publicação de todas as formas possíveis.

Primeiro enviei cópias para editoras com as quais eu tinha algum contato. Sempre existe um amigo de um amigo, que conhece alguém que trabalha em alguma dessas herméticas companhias de impressão.

As respostas, em geral, vieram na forma de cartas padrão de recusa. Seu projeto é muito interessante, blá, blá, blá, mas, infelizmente, blá, blá, blá. Agradecemos por blá, blá, blá e esperamos blá, blá, humpf!

O mais próximo que cheguei da publicação nessa época foi um e-mail escrito pessoalmente pelo dono da Panda Books, editora da Bruna Surfistinha. Um e-mail de recusa. Ele me encorajava, dizia que o texto era muito bom, muito bem escrito, mas que o assunto era de doer. E gentilmente deixava a porta aberta para projetos futuros.

Na época, a Panda Books era a última das editoras indiretamente conhecidas para quem eu havia mandado os originais. As chances haviam acabado.

Mas evidente que não cheguei a aventar a idéia de desistir…

…Continua na quinta

Inércia…

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 23, 2008

… condição mortal para quem pretende escrever um livro, mas velha conhecida dos escritores em geral. Nessa estranha profissão, não há patrões, não há cartão de ponto, não há metas de produção nem avaliações trimestrais. Os deadlines parecem intermináveis.

E a inércia está lá, sempre à espreita, nos convidado a acordar às 11h30, a tomar café assistindo a Liga da Justiça e a embarcar numa produtiva tarde de Cinema em Casa, gelatinosamente emendado na Sessão da Tarde.

E basta uma escorregadela para que essa doce e tediosa rotina nos agarre, como um polvo grudento, e só nos largue quando arranjarmos um patrão daqueles bem tradicionais e pró-ativos.

Para evitar a maldita, o jeito é se impor uma rotina minimamente rígida, levar o trabalho a sério e lhe dar prioridade, acordar cedo (dentro da escala humana), criar metas de produção e investir constantemente na apuração. E a apuração, a busca por dados e informações, está sempre nos respondendo de formas diversas. Às vezes ela é fluida como manteiga no óleo quente, às vezes mais dura do que o bíceps do diabo.

No início do trabalho, em geral, ela está mais arisca, e nos manda direto para o caramelado abraço da inércia. É tudo tão complexo, as informações são infindáveis, não há por onde começar, tudo parece desconexo. Então é preciso trabalhar, quebrar pedra, socar a marreta no granito, até as coisas irem aparecendo, tomando alguma forma.

Eis que, de repente, o inverso acontece. A apuração se volta contra inércia, que fica pequena, humilhada como um controle remoto sem pilha embaixo do sofá. A marreta parece o martelo do Thor e o granito se molda gentilmente, feito pedra-sabão. Os caminhos se abrem. Tudo passa a fazer sentido, tudo se encaixa e uma informação vai levando à outra, as coisas vão se desdobrando, o texto fui e aquele deadline infinito parece pequeno, o que nos enche ainda mais de energia.

A mágica acontece. Um livro ganha contorno. Algum tempo (talvez muito) depois, as informações estão todas encaixadas, parecem formar um bloco coeso, um corpo uno, com começo meio e fim. É nesse estágio que me encontro atualmente. Com 174 páginas redigidas. Páginas que parecem satisfatoriamente prontas.

Atualmente, a inércia saiu debaixo do sofá e se insinua com o controle remoto numa mão e a caixa da oitava temporada do Seinfeld, que a Ingrid me emprestou, na outra. Ela se insinua, sorri com dentes brilhantes e me garante que está tudo pronto.

Argumenta que estou sendo perfeccionista. Para ela, os detalhes que na minha opinião precisam de retoque são irrelevantes e imperceptíveis. Nessas horas, a solução é pegar novamente a marreta e sentar bem no meio da testa da infeliz.

Com cuidado para não acertar os DVDs da Ingrid, claro.

Ética II – o retorno

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 16, 2008

Voltado à questão ética do post passado: o repórter deve ou não atender ao personagem, que pediu para ocultar o fato de que este fumava maconha.

No comentário do texto anterior, Ádrio argumentou que, se o personagem fumou diante do repórter, ele estava assumindo o risco. A informação, portanto,  tinha de estar no texto, ainda mais se considerando o fato de que ela é relevante para a elaboração do perfil completo.

Eu, entretanto, continuo com minhas dúvidas.

A prática de não publicar informações é recorrente no jornalismo. Sistematicamente repórteres recebem dados, ouvem conversas e vêem coisas que precisam ser deixadas fora das páginas dos jornais. Ou porque a informação não é realmente relevante (uma fofoca sobre um político que não afete seu trabalho, por exemplo), ou porque a fonte da informação pediu para que o fato fosse ocultado.

Neste último caso, que é onde nos encontramos, geralmente há uma relação de confiança entre repórter e fonte. Se essa relação é quebrada, o repórter não só perde a fonte como tem sua reputação prejudicada diante de outras fontes em potencial.

No nosso caso, se eu tivesse visto o sujeito fumar maconha e registrado no livro, seria uma situação delicada, mas de nenhuma forma questionável. Acontece que, quando acendeu seu baseado, o personagem, que sabia estar diante de um repórter, pediu, explicitamente, que aquilo fosse deixado de fora da narrativa.

Isso nos leva a um segundo problema.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos – onde qualquer um pode escrever o que quiser sobre qualquer pessoa -, no Brasil, as leis são muito mais rígidas para com os jornalistas. Temos aí o caso de Paulo Cesar de Araújo e Roberto Carlos.

A biografia do “rei” era das mais elogiosas, mas mesmo assim o cantor entrou com um processo na justiça e simplesmente tirou o livro de circulação. Nada impede, portanto, que um personagem que se sinta traído pelo registro de parte de sua vida, entre na justiça e consiga embargar a venda do nosso livro.

Para precaver ações do tipo, tenho entrevistas gravadas com todos os personagens, onde eles são explicitamente comunicados de que estão diante de um repórter, e de que os dados ali colhidos serão utilizados na elaboração de um livro-reportagem.

Infelizmente, contudo, os vapores de THC não são resgistrados nem pelos modernos gravadores digitais.

A questão, portanto, continua no ar.

A ética dos baseados ocultos

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2008

Todo mundo fuma maconha. Traduzindo “todo mundo” em números, temos algo como 160 milhões ao redor do planeta, de acordo com estimativa da Onu de 2006. Mas se eu fosse fazer um levantamento de acordo com os meus dados empíricos, diria que 160 milhões é pouco.

Conheço muita gente que fuma maconha. Conheço maconheiros de idades variadas e de classes sociais diversas. Conheço mães da família que não vivem sem doses regulares de THC no sangue. Uma delas ocupa um importante cargo executivo, e pelo menos três vezes por dia encontra um cantinho discreto das instalações de uma mega-corporação pra dar seus peguinhas.

Nem preciso dizer, portanto, que entre os organizadores de rave e seus asseclas, a boa e velha Cannabis sativa é consideravelmente popular.

Pois não é que o tão comum e disseminado cigarrinho do capeta acabou por me colocar num desagradável dilema ético.

A questão é que um dos personagens do livro é desses que consomem três, quatro, cinco, vários baseados por dia. Mas logo na primeira vez em que fumou durante uma de nossas entrevista, ele pediu que eu deixasse a substância, digamos assim, em “off”.

Eu concordei na hora, mas sem muita convicção.

Em encontros posteriores, os baseados continuaram e fui percebendo que o ato de fumar funcionava, para o personagem em questão, como uma espécie de ritual. Era algo que fazia parte da essência desse indivíduo.

Então, depois de várias entrevistas e inúmeros baseados, voltei ao assunto. Pedi permissão para citar o uso da droga no texto, argumentei que um perfil sobre ele ficaria incompleto sem citar a maconha, que havia inúmeras personalidades assumidamente maconheiras, evoquei Bob Marley, e assim por diante.

Na hora ele concordou, um pouco contrariado. Mas depois de algum tempo, em uma de nossas últimas entrevistas, voltou atrás. Explicou que não queria levantar bandeira de nada, que as raves já sofrem muito nas mãos da imprensa, e pediu que eu tirasse defintivamente os baseados do texto.

E o que fazemos numa situação dessas?

Quinta-feira, a resposta. Ou mais perguntas…

Proibição das raves: quando o legislativo age de forma clara

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 9, 2008

O deputado Fernando Capez (PSDB) é o responsável por um projeto de lei que, se aprovado, inviabilizará a produção de raves no estado de São Paulo. Ele, obviamente nem pensou em me conceder uma entrevista pessoalmente. Apenas concordou em responder algumas perguntas por e-mail (trabalho que deve ter sido feito por assessores).

De qualquer forma, ali ele afirma que seu intuito com a lei é apenas regulamentar as raves, nada de proibição.

A verdade, contudo, é que se o projeto passar, o que, acredito, não deve acontecer, a vida dos organizadores de festa ficará pra lá de complicada.

Entre as cláusulas mais absurdas da lei, está uma que estipula a obrigatoriedade de um seguraça para cada vinte pessoas, enquanto a Polícia Federal, recomenda uma média de um para cada 80 participantes.

Ou seja, do jeito que está, a regulamentação mais parece uma proibição disfarçada. Mas talvez o próprio deputado careça de certeza quanto a seus propóstios. Ouçam as sinuosas palavra do nobre Fernando Capez. Vale a pena.

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Ossos do ofício: isto é USP

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 6, 2008

As paredes descascadas, as lages com infiltração e as divisórias improvisadas dos prédios, moldados numa retrógrada arquitetura moderna, já sugerem haver algo emperrado nas engrenagens da maior universidade do país.

E quem já freqüentou aquelas salas moribundas sabe que, além do descaso evidente para com as edificações há uma série de outros: para com as lousas arranhadas, as carteiras manquitolas e os professores desiludidos, transformados em gravadores empoeirados tocando fitas de rolo mofadas.

Mas nada disso se compara à quantidade de ferrugem que  se acumula nos mecanismos da assessoria de imprensa. O órgão, que deveria ser responsável, ente outras coisas, por lançar toda a pesquisa de ponta que é feita na USP (e há muita pesquisa de qualidade) para as manchetes nacionais, é uma espécie de polvo sem cabeça.

Repórteres que ligam para certas unidades em busca, por exemplo, de indicação de especialistas para comentar algum assunto específico, são atendidos, vejam só, pela secretária do diretor, que, com aquele mau-humor típico de funcionário público, olha para uma lista de ramais pregada sobre sua mesa e indica um nome de forma aleatória.

Portanto, assim como a maioria dos meus colegas, sempre que preciso falar com alguém da USP, tento contornar a assessoria de imprensa de qualquer forma.

Foi o que fiz semana passada. Depois de ler a excelente tese de doutorado da antropóloga Rita Amaral, fucei por algum tempo na internet e encontrei um contato de e-mail da pesquisadora. Escrevi me apresentando, apresentando meu trabalho e pedindo que ela dispusesse algo como uma hora de seu tempo para me conceder uma entrevista.

A resposta:

“Caro Tomás,
Tudo que tenho a dizer sobre festas está na tese. Não tenho nada de muito novo pra dizer e como meu tempo é curto, não dá para aprofundar , ainda menos pessoalmente, questões com todos que me pedem isso. Por isso coloquei a tese na Internet.
Boa sorte com seu livro.
Abraço
Rita”

E o mais incrível, caros leitores do Antes da Estante, é que todo esse eficiente e azeitado organismo é financiado com o seu, com o meu, com o nosso rico dinheirinho!

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