Antes da Estante

O charme retrô dos bigodes de Levy Fidelix, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 3, 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro – com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on junho 22, 2012

Daqui a pouco você volta pro Face

Um gordinho me ultrapassou na fila do quilo. E o pior é que eu não estava empacado na área de saladas, lutando com um ovo de codorna, impedindo que ele chegasse logo ao Penne Alfredo. Se fosse assim, haveria alguma licitude. Mas não. Meu prato já estava montado, salada temperada, no caminho diagonal da balança, quando o gordinho, de repente, me ultrapassou.

Incrédulo diante de tamanho descaso para com as convenções gastronômicas, parei e encarei ostensivamente o sujeito, que aparentemente nem se deu conta. Era um baixote atarracado, flácido e suado, o que me alimentava a vontade de aplicar-lhe um tabefe ao pé da orelha. Claro que não fiz nada, nem sequer lhe cutuquei o ombro reclamando, e o almoço transcorreu burocrático e insosso como sempre.

Mas o fato é que tive vontade. Principalmente porque senti minha masculinidade, meus direitos, meu espaço vital sendo conspurcados pela pressa do gordinho. Diante de sua rotunda circunferência eu poderia me acalmar pensando que era gula, algum desequilíbrio hormonal, compulsão alimentar. Mas não creio que tenha sido fome o motivo do homenzinho ter se prestado a tão desprezível papel social. Ele queria ganhar tempo, isso sim.

Queria pesar logo o prato, ir logo pra mesa, comer logo, pagar logo, voltar logo pro trabalho, pegar logo o carro, ir logo pra casa, tomar banho logo, jantar logo, trepar logo na mulher, gozar logo, dormir logo, acordar logo, tomar café logo, ir logo pro trabalho no dia seguinte, sair pra almoçar logo…

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O alter ego feminino de Chiaverini, na revista Piauí 65

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on fevereiro 14, 2012

O segredo de Paulinha

Como uma garota do outro mundo fez mil amigos em dois meses

por Tomás Chiaverini

Paula Merkell é moderna, descolada e sutilmente misteriosa. Formada em moda, está no auge dos 28 anos e é muito popular. Em seu perfil do Facebook, solicitações de amizade pululam como flashes num show do Restart. Em dois meses foram cerca de 100, acompanhadas por flores virtuais, poemas e saudações enviados por amigos pixelizados de todo o país. Para os mais próximos, a notícia a seguir será um tanto dolorosa: sim, Paula Merkell não existe.

A musa não passa de uma marionete eletrônica de breve existência. Diferentemente de outros perfis falsos que se multiplicam pela rede, o de Paulinha não pretendia promover marcas, xeretar a vida alheia, buscar alvos para crimes ou colher dados para campanhas promocionais. Foi criado com o propósito único de amealhar mil amigos, meta que cumpriu em 56 dias.

Aos marmanjos que insistiram para a jovem postar fotos pessoais, causará mais aflição saber que a pessoa no comando de Paulinha é homem. Mas que não se martirizem. O avatar da jovem foi criado para figurar como um pires de mel ofertado aos súditos de Mark Zuckerberg. As pequenas armadilhas começaram já na escolha do nome. Brasileiro, simples e despojado, secundado por um sobrenome forte, emprestado da chanceler alemã Angela Merkel, com um “L” a mais no final, para minimizar o risco dos homônimos.

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As surreais lições de Zé do Caixão, na Piauí 61

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 17, 2011

O doce mais doce que o doce

As lições gasosas de Zé do Caixão para aprendizes de detetive

por Tomás Chiaverini

Apertados em carteiras de fórmica bege, os 38 aspirantes a detetive particular silenciaram assim que Zé do Caixão adentrou a sala de aula. Passava um pouco das 10 horas de um sábado. O sol entrava pelos janelões e diminuía a aura macabra do cineasta, levemente encurvado aos 75 anos. As unhas longuíssimas, encardidas e retorcidas – seu traço distintivo mais marcante – haviam sido cortadas duas semanas antes. Ele tampouco trajava a característica capa preta sobre a camisa. Mas isso não impediu que, ao lado do quadro-negro, José Mojica Marins atraísse total atenção dos alunos do Instituto Universal dos Detetives Particulares, no Centro de São Paulo.

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Loyola, Verissimo e Zuenir, na revista piauí 60

Posted in Jornalismo, literatura, Piauí by Tomás Chiaverini on setembro 19, 2011

Os feirantes

No novo cenário das letras nacionais, Loyola Brandão, Verissimo e Zuenir Ventura dão autógrafos, apertam mãos, sorriem e tiram fotos

por Tomás Chiaverini

gnácio de Loyola Brandão subiu nas asas da fama aos 8 anos de idade, quando matou os sete anões e libertou Branca de Neve da escravidão doméstica. O crime ocorreu num exercício de redação no qual a criançada imaginava finais alternativos para as histórias que lia. No de Loyola, a heroínaliquidou os baixotes com uma sopa de cogumelos venenosos e viveu feliz para sempre.

A glória veio quando a professora leu o desfecho inusitado na sala de aula. Bastou Dunga, Zangado e companhia caírem mortos para que, com uma gargalhada em uníssono, todos voltassem os olhos de admiração para a última fileira, onde o introvertido autor costumava se sentar.

“Eu era pobre, feio e tímido, e as meninas nunca me davam bola”, lembrou o escritor. “Mas naquele momento me senti olhado e, inconscientemente, decidi que a literatura seria o meu caminho. Foi também meu primeiro momento de celebridade, quando a classe saiu no recreio espalhando: ‘O Ignácio matou os anões! O Ignácio matou os anões!’”

Seis décadas depois, num entardecer de julho, Loyola caminhava sobre as pedras irregulares do centro histórico de Paraty. Em meia hora, subiria ao palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o festival de Cannes da literatura brasileira. Aos 74 anos, quase cinquenta como escritor, garantiu que estava tão nervoso quanto naquela manhã em Araraquara, quando a professora leu sua redação em voz alta para os colegas. “Eu sempre fico tenso antes de me apresentar”, gesticulou com os óculos na mão. “E se não fico, sai uma merda.”

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Conheça a rede de TV árabe Al Jazeera, na edição 49 de Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo by Tomás Chiaverini on agosto 16, 2011

 As Batalhas da Al Jazeera

A emissora árabe, que ficou famosa após divulgar vídeos de Osama bin Laden, foi bombardeada pelos EUA, teve um cinegrafista preso em Guantánamo por sete anos, desempenhou papel determinante nas recentes revoltas do Oriente Médio e recebeu elogios de Hillary Clinton

por Tomás Chiaverini

NO INÍCIO DE  2003, a Guerra do Iraque monopolizava o noticiário internacional. Sob o argumento de que o ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, o governo de George W. Bush iniciara uma pesada ofensiva contra o país árabe. A operação avançou rapidamente e 20 dias após o início do conflito tropas norteamericanas cobriam a cidade de Bagdá com uma intensa chuva de mísseis.

No escritório da rede de TV Al Jazeera na capital iraquiana, ouvia-se uma interminável sequência de explosões e disparos, como se a guerra fosse invadir o local a qualquer momento. Enquanto parte da equipe da emissora queria subir ao telhado do prédio para registrar a troca de tiros, o produtor sênior Samir Khader continha os ânimos, pedindo que esperassem o combate se afastar. Durante algum tempo, técnicos, produtores e repórteres apenas ouviram os estrondos e estampidos. Quando o conflito pareceu arrefecer, Khader ordenou que o correspondente Tarek Ayub e um operador de câmera subissem à cobertura.

Minutos mais tarde a transmissão teve início, mas tudo que se via na sala de edição era a imagem do correspondente sentado no chão, com as costas apoiadas contra uma barricada de sacos de areia. Usava um pesado capacete de combate e um colete à prova de balas azul-escuro, que lhe cobria o tronco até o pescoço. Trazia no rosto uma expressão tensa, mistura de medo, incompreensão e ansiedade.

Da sala de controle, o editor ordenou ao cinegrafista que deixasse de filmar o repórter, voltasse as lentes para a rua e procurasse mostrar cenas do bombardeio que destruía a cidade. O técnico obedeceu e passou a procurar imagens aleatoriamente.

Enquanto isso, outro corresponde da Al Jazeera na cidade, ao telefone com um editor, avisou que um caça norte-americano se aproximava da emissora com o nariz baixo, numa manobra característica de ataque. O cinegrafista que estava com este segundo correspondente acompanhou o voo rasante da aeronave e registrou o momento em que três pequenos pontos incandescentes se desprenderam do caça. Três mísseis lançados simultaneamente. Um deles atingiu em cheio o telhado do escritório da Al Jazeera, matando na hora o correspondente Tarek Ayub e ferindo o operador de câmera.

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Confira o site da Retrato 

Campeonato de cubo mágico, na polêmica Piauí 59

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on agosto 15, 2011

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

por Tomás Chiaverini

ara os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

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O trabalho dos flanelinhas, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 17, 2011

Se Essa Rua Fosse Minha

À margem da lei, os flanelinhas atuam nas grandes cidades sob o olhar desconfiado dos motoristas e sem o respaldo do poder público

Por Tomás Chiaverini

É noite no bairro boêmio da Vila Madalena,em São Paulo. Um“x” de fita reflexiva laranja sobre a camiseta pólo veste Alemão, 21 anos, que se posta ao lado de uma vaga vazia e espera. Quando percebe algum motorista à procura de vaga, assobia e depois gesticula, ajudando na baliza. Assim que o motorista sai, informa que zelará pelo automóvel até às 2h. Mais tarde, quando o “cliente” volta, corre até perto do carro e espera pelos trocados que lhe garantem o sustento.

À primeira vista, o trabalho de Alemão parece bastante simples. Tão simples que, muitas vezes, nem sequer é visto como uma profissão. Foi esse argumento, por exemplo, que fez com que a prefeitura de Porto Alegre (RS) interrompesse, no início de 2010, um projeto de regulamentação da função de guardadores de carro, iniciado em 2009.

A baixa adesão dos flanelinhas – apenas 70 se cadastraram – foi um dos motivos para a interrupção do projeto. Mas o fator determinante, de acordo com o governo municipal, foi o fato de que os guardadores não colaboram para o aumento da segurança e não há demanda real pelo trabalho que oferecem. Para a Prefeitura de Porto Alegre, portanto, não faz sentido legalizar e fiscalizar um serviço que não deveria existir.

Essa aparente simplicidade esconde, contudo, um sistema complexo e intrincado de um fenômeno presente na maioria das metrópoles do país. Grande parte dos flanelinhas atua sempre na mesma área. Ao longo do tempo, eles descobrem os hábitos dos moradores e do comércio local, tornam-se conhecidos e ganham confiança. Apoiam e recebem apoio dos demais trabalhadores. Inserem-se no ecossistema urbano e frequentemente acabam dominando regiões inteiras da cidade.

Alemão, por exemplo, é praticamente dono da quadra onde trabalha, na rua Mourato Coelho, entre a Inácio Pereira da Rocha e a Aspicuelta,em São Paulo. Seudomínio sobre aquela área específica foi construído ao longo de onze anos. Hoje, ele sabe de cor a rotina de cada morador e conhece bem todos os outros guardadores de carro da região, o que lhe permite atuar com calma e segurança. Numa sexta-feira de fevereiro, a Retrato do Brasil acompanhou o flanelinha durante as cerca de 8 horas que sua noite de trabalho durou.

A jornada começou pouco depois das seis da tarde. Antes disso, ele havia levado cerca de 50 minutos para viajar de ônibus do Taboão da Serra (região metropolitana de São Paulo) a Pinheiros. Veio acompanhado da mãe, Simone, 34 anos, e de dois irmãos – H., de nove anos, e T., um bebê de um ano e meio. Simone faz questão de acompanhar o trabalho do filho mais velho.

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O crack e o trabalho de redução de dano, na revista Retrato do Brasil

Posted in Jornalismo, Retrato do Brasil by Tomás Chiaverini on junho 15, 2011

Dos Males o Menor

Por Tomás Chiaverini

Pedestres, Policiais militares e guardas-civis não reparam no garoto de uns oito ou dez anos que fuma crack na esquina da rua dos Gusmões com a avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mesmo assim, ele está sempre atento, pronto para se esconder ou fugir, escapulindo para algum cortiço ocupado da região. Tanto que, quando o redutor de danos Marco Fuentealva se aproxima para conversar, ele se protege feito um avestruz, cobrindo a cabeça com um moletom azul-encardido.

Sorridente e bonachão, Fuentealva não se aflige com a postura arredia do menino e segue adiante. Vestindo a camiseta amarela do Centro de Convivência É de Lei (uma das primeiras ONGs a fazerem redução de danos no Brasil), embrenha-se num grupo com duas dezenas de pessoas maltrapilhas e sujas, cobertas de feridas nos rostos, braços e mãos. Quase todos estão agarrados a pequenos cachimbos de metal e observam o entorno com um olhar de desespero e incompreensão.

Aos poucos vão percebendo a presença de Fuentealva e de sua parceira de trabalho e se aproximam formando um pequeno aglomerado. Não há muito espaço para conversa. Todos já conhecem a rotina, repetida duas a três vezes por semana: avançam, pegam uma piteira de silicone, um batom protetor labial à base de calêndula e logo voltam a se afastar, acomodando-se pelos cantos da calçada suja.

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Na revista piauí deste mês

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on junho 13, 2011

As aves que aqui não gorjeiam

Um ornitólogo holandês busca algo que cante em São Paulo

por Tomás Chiaverini

O sábado amanheceu nublado como num conto de Edgar Alan Poe. No Parque Villa-Lobos, às margens da Marginal Pinheiros, apenas dois ou três valentes paulistanos desafiavam o frio e trotavam, orgulhosos, com o peito estufado de saúde. Às sete da manhã, o silêncio só é cortado pelo ronco distante dos aviões, que a cada dez ou quinze minutos cruzam o céu a caminho do Aeroporto de Congonhas.

Como nenhum pássaro se dá ao trabalho de cantar em homenagem ao dia cinzento, o desânimo abate o grupo de aficionados por aves que perambula pelo parque. Metidos em calças cáqui e botas de trilha, os catorze caminham devagar, em silêncio, olhos e ouvidos atentos. Alguns levam pequenos binóculos pendurados no pescoço, outros carregam gravadores de última linha, como os usados nos filmes de espionagem.

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Conheça o dono da voz brasileira de Al Pacino, na piauí 54

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on março 14, 2011

The Voices

Peripécias do avatar vocal de Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere

Por Tomás Chiaverini

Pressionado de todo lado, o chefe dos detetives deu um anel direto para o coronel, na expectativa de que este lhe adiantasse o que fosse sobre os dois cadáveres recém-desovados no tristemente famoso Vale do Silicone. Teve sorte:

– Sim, já sabemos o principal – informou-lhe o coronel, com a satisfação de quem vive de matar charadas. – Ambos morreram de encontros ruins.

– Tem certeza? É a mesma causa mortis do macaquinho do Indiana Jones!

A vida em versão brasileira não é cor-de-rosa, como bem sabe o ator carioca Ricardo Schnetzer –, e não só pelo risco permanente de ser humilhado pela tradução. Aos 57 anos, e depois de três décadas de atuação em superproduções do cinema mundial, ele mora num quarto e sala no Rio de Janeiro, costuma ter alguma dor de cabeça para pagar as contas do mês e, quando caminha pelas ruas, não precisa se preocupar com o assédio dos fãs, vítima que é do mais perfeito anonimato. Para o distinto público, ele não é um nome e, menos ainda, um rosto. Por outro lado, quando abre a boca… Dono de um timbre grave, modulado por quarenta anos de tabagismo militante, Schnetzer fala por Al Pacino, Tom Cruise, Richard Gere e Nicolas Cage, entre outros mais ou menos famosos que, em versão brasileira, encontraram nele o seu grande porta-voz.

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Parral na Piauí

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2010

Ágil e destemido, qual um cangaceiro que avança pela caatinga, Yumbad Baguun Parral esgueira-se por entre as mesas e cadeiras dos bares da Lapa, em São Paulo. Dotado da estatura de 1,66 metro, lança mão de um paradoxal chapéu de couro cor-de-rosa e de uma barbicha de trancinha grisalha meticulosamente composta para atrair a atenção da boemia. Já de início a tarefa soa inglória, pois ele atua sobretudo nas calçadas e, nessa sexta-feira glacial de setembro, boa parte de suas presas virtuais parece ter capitulado ao conforto de dvds e cobertores. Por volta das 22 horas, a maioria das mesas ao ar livre está às moscas.

Mas Yumbad Baguun Parral, pseudônimo de Miguel Cavalcante Felix, não se aflige. Aos 47 anos, com segurança e paciência esculpidas ao longo de uma década na função, esse alagoano arretado ergue a cabeça e leva em frente o seu sorriso constante e simpático. Com um andar calmo e alinhado, arrematado pelo blazer escuro sobre o pulôver amarelo, vai oferecendo dois de seus produtos literários mais atraentes: o romance Santa Puta, a Redentora, que, segundo ele, já vendeu cerca de 10 mil exemplares, e a recém-lançada sátira política Senadô Severino, Sua Excrescência.

Nas primeiras abordagens, o escritor é miseravelmente ignorado. Quando não, recebe caretas de desdém que abalariam os brios de Dom Quixote e arrefeceriam os juízos de Policarpo Quaresma. Não os de Parral, que segue de bar em bar, de mesa em mesa, de vítima em vítima.

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O papel dos papéis

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 5, 2009

Finalização do Festa Infinita e andamos às voltas com imagens. Sim, o livro terá fotos. E coloridas, como não podia deixar de ser. Um caderno em papel  especial, com 16 páginas onde haverá, basicamente, dois tipos de foto. As primeiras são imagens de arquivo pessoal, que os personagens do livro juntaram ao longo dos anos.

As segundas, serão registros das mais diversas festas, feitos pelo fotógrafo e raver convicto, Murilo Ganesh.

Mas quando se fala em imagem – ah, a imagem, coisa mais valiosa! – a Ediouro  tem algumas restrições. Fotos onde se reconheça qualquer rosto, só são publicadas se o dono deste qualquer rosto assinar uma autorização.

Nos últimos dias, portanto, junto com Murilo, ando atrás de assinaturas. Ontem fiz uma visita a Dmitri (dono de todo um capítulo do Festa Infinita e conhecido dos freqüentadores do Antes da Estante) para que ele me autorizasse a usar as fotos que ele mesmo me emprestara para escanear.

No ano passado, durante a apuração do livro, encontrei Dmitri várias vezes. Fui à casa dele, gravei horas a fio de conversas abordando assuntos pessoais, íntimos até. Caí com ele na noite paulistana, conheci ex-namoradas e futuras namoradas(?), conheci até a mãe e os cachorros dele. Em nenhum momento Dmitri titubeou antes de abrir sua vida.

Mas ontem, quando saquei a alva folha A4 recheada de termos jurídicos, os cabelos da nuca do DJ semi-aposentado se arrepiaram. Ele leu, releu, olhou pra mim, leu novamente, depois lançou a pergunta:

–    Você não vai colocar nada que me prejudique no livro, não é?

­Eu, de minha parte, usando da mais imbecil honestidade, rebati com a seguinte resposta:

–    Espero que não.

– Espero que não!? – Dmitri exclamou com um misto de surpresa e indignação nos olhos.

Tentando concertar a frase abobalhada, me corrigi afirmando que não, não haverá nada que o prejudique no texto, e mais do que isso, que acredito que ele achará bacana o capítulo sobre sua vida. Tudo verdade, diga-se de passagem.

Ele pensou mais um  pouco, respirou fundo, e assinou com uma canetada rápida antes de me entregar o papel:

– Tá aí, vai – exclamou um pouco contrariado.

E antes que eu entrasse no carro para ir embora, ainda lançou um último aviso.

– Vê lá que eu te mato, hein – e sorriu pra tirar um pouco o peso da frase.

A camorra e o marketing editorial

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 2, 2009

gomorra1Acabei agora a pouco de ler o livro Gomorra, do jornalista Roberto Saviano. E antes mesmo de terminar as últimas linhas já comecei a me sentir ligeiramente tapeado. Caí numa armadilha mercadológica.

Para quem não sabe, o livro é uma reportagem investigativa sobre a máfia napolitana, tornou-se um fenômeno de vendas na Itália, depois best-seller mundial. O fato de ter sido adaptado para o cinema num filme homônimo, provavelmente ajudou a superar a marca de 2 milhões de livros vendidos ao redor do planeta.

Porém, o que mais me atraiu na obra, exposta com destaque em tudo que é livraria, foi a chamada de capa: “A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”. Isso não deveria ser parâmetro, eu sei, mas não pude resistir.

Já li histórias do alemão Günter Wallraff, que se disfarçou de turco e trabalhou como um imigrante, para escrever o livro “Cabeça de Turco”; acompanhei o consagrado Gay Talese em suas aventuras por casas de suingue e massagens eróticas, na elaboração de “A mulher do próximo”; e devorei os relatos de George Orwell vivendo como mendigo em “Na pior em Paris e em Londres”.

Como leitor, sempre achei fascinante repórteres que têm a disposição de realmente mergulhar no objeto de estudo. E como jornalista, cheguei a utilizar a técnica na apuração do “Cama de Cimento”: entre outros desatinos, me disfarcei de desabrigado e fui recolhido a um albergue municipal.

Assim, quando comprei Gomorra, achei que o autor tinha realmente se infiltrado na máfia, arrumado algum trabalho que lhe permitisse contar detalhes saborosos a partir de uma perspectiva privilegiada. Convenhamos, as palavras “infiltrar” e “máfia” juntas, parecem prometer algo explosivo.

Para minha surpresa, contudo, a narrativa não deixa claro como, quando ou onde o jornalista se infiltrou, sendo que nos livros que utilizam a técnica, essa costuma ser a parte mais instigante.

Pelo que entendi, Saviano trabalhou numa indústria têxtil que se constituía num braço da máfia. Ou seja, é como se eu passasse algum tempo trabalhando numa escola de samba carioca suspeita de receber dinheiro de drogas, e dissesse que me infiltrei no tráfico.

Além disso, o autor de “Gomorra”, que foi ameaçado de morte e está sob proteção do governo italiano, nasceu numa das cidades sedes da organização criminosa em questão, a camorra.

A maior parte das informações que ele trás foram colhidas no curso de uma vida, e também em incursões jornalísticas tradicionais (acompanhar investigações policiais, por exemplo). Voltando à comparação anterior: ter nascido no morro do Vidigal, não é a mesma coisa do que se infiltrar nas organizações criminosas que atuam por ali.

Portanto, achei um tremendo exagero vender o livro como o trabalho de um jornalista infiltrado. Vale dizer que essa chamada certamente não foi uma opção do repórter, portanto volto minha decepção literária à editora, que adotou essa postura marqueteira e oportunista.

Mas meu descontentamento com o livro foi além, e chegou ao cerne da obra, ao conteúdo do texto. Há, sim, algumas informações extremamente interessantes, como a simbiose entre a máfia e as marcas de roupa mais elegantes do planeta. Mas para ter acesso a essas histórias, somos obrigados a encarar um emaranhado de nomes, dados, e números que, para quem vive essa guerra civil no dia-a-dia deve ser relativamente interessante, mas para nós, brasileiros, não têm lá muita relevância.

Pra completar, identifiquei um erro feio, uma escorregadela brava, que provavelmente não será notada por muitos outros leitores. Eu só percebi o problema porque, na apuração do “Festa Infinita” pesquisei muito o assunto do deslize: ecstasy.

Na página 130 da segunda edição nacional o autor faz a seguinte afirmação: “Cabe comentar que a MDMA, a anfetamina, foi patenteada pelo laboratório alemão Merck para ser administrada a soldados entrincheirados na Primeira Guerra.” Mais pra frente ele continua: “Depois foi usada também pelos americanos em operações de espionagem.”

O único fato correto em tudo isso, é que a MDMA, princípio ativo do ecstasy, foi elaborada pela Merck. O resto não passa de boataria. A anfetamina foi criada em 1912, antes do início da guerra, e patenteada em 1914, ano em que o conflito começou. A droga era um resíduo que sobrava na produção de um hemostático, medicamento para estancar hemorragias, e seus efeitos só foram descobertos muito mais tarde, na década de 1960.

Ou seja, o erro é feio, mesmo porque há diversos estudos científicos sérios que detalham a história da MDMA. E quando encontramos uma informação dessas, um boato transformado em verdade, todo o resto do texto perde um bom tanto de credibilidade.

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Errar é jornalístico

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 29, 2009

Errar. Talvez este seja o verbo mais temido pelos jornalistas. Mas não há com escapar.  O erro é inerente à profissão. Tanto que as publicações jornalísticas mais sérias mantém seções destinadas apenas à correção de deslizes.

Errar num livro, contudo, é certamente mais grave do que errar num jornal diário, num blog, ou mesmo numa transmissão de telejornal. Um livro, por mais obscuro que seja, tem incrível longevidade. Daqui a décadas alguém pode desencavar um volume num sebo qualquer e o erro estará lá, perpetuado quase eternamente.

Além disso, os livros geralmente possuem autoridade maior do que qualquer jornal. São frequentemente considerados fontes mais confiáveis, onde a informação foi checada e rechecada antes de ser finalmente impressa.

Tenho horror a erros. Sou realmente assombrado por eles. E não falo de erros de português, de vírgula ou de grafia, estes são banais e não assustam muito, apenas dão um calor na face quando apontados por um leitor amigo. O que realmente assusta são os erros de apuração. A possibilidade de publicar algo inverídico sobre a vida de alguém, algo que chegue a prejudicar uma pessoa injustamente. Disso eu tenho horror.

E quando digo que tenho horror, não estou exagerando.

Agora que o texto está pronto, às vezes eu acordo no meio da noite, lembro de uma determinada passagem, e sinto uma espécie de frio no estômago quando alguma dúvida paira sobre a precisão ou a veracidade de determinada informação.

Então passo longos minutos lembrando de onde veio aquele dado, com ele foi conferido e, caso a possibilidade de estar errado se mostre provável, penso também nas consequências do deslize.

O pior é que sei que haverá pencas de erros, imprecisões e aproximações no “Festa Infinita”. Não há livro que não os contenha. Muitos deles passarão despercebidos para a maior parte dos leitores, alguns não serão sequer identificados. E espero que nenhum seja realmente sério.

Tendo essa consciência, como leitor-jornalista costumo perdoar erros alheios. Mas não posso negar que, em alguns casos, eles podem demolir a credibilidade de um autor. No próximo post, apontarei um erro bem caprichado, que quase fez com que eu lançasse o best-seller mundial “Gomorra”, pela janela.

Ainda sobre o título

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 22, 2009

A primeira ideia era simples, objetiva e impactante: “rave”. Não há nada que descreva melhor esse fenômeno, e nada que chame mais atenção para o assunto.

Além disso, escolher título é uma das tarefas mais ingratas na elaboração de um livro e este estava fácil, à mão. O “Cama de Cimento”, por exemplo, só veio à luz após semanas de trabalho de parto. O título original, “Incômodos”, não agradou a meu editor, que pediu uma segunda possibilidade. Na época não foi fácil, mas creio que, no final, tenha ficado melhor mesmo.

O título “rave”, pelo contrário, foi bem recebido. A iniciativa de mudá-lo foi minha e ocorreu por dois motivos.

Primeiro, os mais aficionados por este universo já não usam o termo que, com a proliferação de manchetes policialescas, acabou adquirindo conotação negativa. Agora, “rave” se transformou em “festa open-air”. Eu, particularmente, acho uma babaquice ficar criando termos politicamente corretos, quando o preconceito não é voltado contra palavra, e sim contra o objeto.

O termo “mendigo”, por exemplo, foi substituído por “morador de rua”, depois, novamente, por “pessoa em situação de rua”, e a realidade desse pessoal não melhorou nada por isso.

De qualquer forma, achei que utilizar a palavra “rave” no título seria um ato de agressividade gratuita contra aqueles que colaboraram na elaboração do livro (no corpo do texto, contudo, o termo é usado sem pudores).

Essa foi uma das motivações para a mudança, mas não a única.

A palavra “rave” é um termo estrangeiro, o fenômeno não começou aqui, e eu sou um jornalista brasileiro. Assim, achei uma boa escolher um título em claro e atualizado português.

Além disso, acredito que o “Festa Inifnita” acabe por criar uma aura de mistério e curiosidade, que o assunto escancarado no título não propiciaria.

O título:

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 15, 2009

Festa Infinita

O entorpecente mundo das raves

Reta final

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 12, 2009

Pois então, cá estamos nós, de volta à calorenta, fedorenta, modorrenta e amada cidade de São Paulo, depois de um longo e psicodélico mergulho no Universo Paralello. O texto está todo escrito, totalizando um orgulhoso calhamaço de 212 páginas A4, o equivalente a pouco mais de 300 páginas no formato de livro.

Agora os prazos urgem e começa a correria para conseguir publicar ainda no mês de março. Estou fazendo uma última leitura para as correções finais, e pretendo entregar a cópia definitiva entre o fim desta semana e o início da próxima.

As alterações são apenas detalhes: uma virgulhinha aqui, outra ali, mesmo porque, depois de tanto ler e reler, é impossível ter algum discernimento que permita efetuar grandes mudanças no texto. Numa leitura, determinada passagem pode parecer maravilhosa, e logo depois, figurar como a maior bosta já diagramada em Times New Roman.

De qualquer forma, quando passar às mãos da Ediouro, o texto ainda será submetido a uma revisão e será devolvido para mim, para que eu aprove ou rejeite as correções. Após este último OK, ainda é preciso encaixar tudo num projeto gráfico bacaninha, diagramar as fotos, escolher a melhor capa e só então, ufa!, encaminhar o livro para a gráfica.

Aí começa a outra etapa, de lançamentos, releases, entrevistas e o escambau.

Por enquanto, ainda estou quebrando a cabeça para escolher, vejam só, o título de nossa querida narrativa. Mais detalhes no post de quinta.

Degustação: vista de Ituberá

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 8, 2009

Em meio a toda essa confusão de ciclistas, pedintes e carros estacionados de qualquer maneira atrapalhando o tráfego há uma construção do tamanho de um campo de futebol, com teto de zinco, que abriga o mercado municipal, onde é possível encontrar, expostos em bancas de madeira apodrecida, artigos como peixe e carne seca, miúdos de boi, temperos, legumes, roupas e frutas nativas.

Num dos extremos do mercado, atrás de um balcão de azulejos brancos, o açougueiro careca e barrigudo, vestindo uma camiseta branca respingada de sangue, faz o troco de um cliente para logo depois, com os mesmos dedos cobertos de sebo, voltar a desbastar nacos de gordura. Atrás dele, um homem de bermudas e regata, usando um boné preto e com um cigarro meio-apagado embaixo do bigode, se vale de uma faca curta e afiada para destrinchar todo um quarto de boi, que descansa com as costelas à mostra, pendurado num gancho de metal. Com precisão cirúrgica ele passa a faca por regiões precisas, onde as fibras esbranquiçadas que separam os músculos abrem espaço ao simples toque da lâmina, formando grandes peças de músculo e gordura. Ele vai jogando os toletes avermelhados sobre o balcão, e o outro, usando uma faca um pouco maior, continua a aparar porções de uma gordura amarela, que vão sendo lançadas no canto do balcão, formando um grande pudim abjeto. Em pouco mais de cinco minutos, todo aquele quarto de boi encontra-se separado em peças, e só o que restou foi o osso esbranquinçado da perna que, pendurado no gancho de metal, ainda arrisca um último coice involuntário.

Ao longo do dia, principalmente aos sábados, a operação se repete em vários outros boxes azulejados e o cheiro enjoativo de sangue toma conta do mercado. Cabeças degoladas de boi são descarnadas no chão, sobre pedaços de papelão empapados de sangue. Depois, quando tudo o que restou foi o esqueleto sorridente do bicho, elas são expostas no contra-piso de cimento, para alegria e deleite das moscas.

Ossos do ofício (?!)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on janeiro 5, 2009

Eis que se encerra a última etapa da apuração, junto com o Universo Paralello, o maior festival de cultura trance do país. A decisão de me hospedar numa pousada ao invés de ficar acampado em meio a dez mil ravers, permitiu que eu escrevesse bastante durante a festa, e o texto está relativamente avançado, já com 30 páginas no formato A4.

Mas antes de entrar nesses pormenores, não posso deixar de dividir com os leitores do Antes da Estante a história daquilo de mais estranho que já fiz na vida. E provavelmente que farei até morrer.

Fui o tradutor de um show de sexo explícito ambiental.

Depois de passar todo o festival fazendo propaganda de seu projeto, o pessoal do “Fuck for Forest” (que já foi apresentado aqui) finalmente estava pronto para sua performance ao vivo, na madrugada do dia 3.

Mas, como muita gente não fala inglês, eles resolveram arrumar alguém que traduzisse o texto de abertura, em que um dos integrantes apresenta o projeto e pede colaborações. Como eu havia entrevistado o grupo diversas vezes, sobrou para mim a bizarra tarefa.

À uma da manhã, o local demarcado para a performance abrigava uma verdadeira multidão ensandecida, curiosa e excitada. Num pequeno palco iluminado com luzes vermelhas, as meninas do grupo tiraram a roupa e a multidão veio abaixo, numa energia raivosa de gritos e assobios.

Vestindo uma camisola de voal preto com estampas floridas, o líder do grupo despejou pepinos, cenouras e bananas no palco, depois se apoderou de um microfone, e se abaixou atrás do palco. Tomando cuidado para não trombar com nenhuma intimidade alheia, me abaixei ao seu lado e, com outro microfone, fui traduzindo o manifesto pela liberação da sexualidade e pela proteção do ambiente.

Para minha sorte, ninguém estava muito interessado em palavras, e o texto foi bastante breve. Depois Tommy se enroscou em meio a três garotas estrangeiras, e dois rapazes brasileiros, agregados ao projeto.

A partir daí, graças a Dionísio, a tradução não se fez mais necessária.

O resto do show, caros leitores, poderá ser conferido no livro, que sai em pouco mais de dois meses. Mas só para mostrar como sou caridoso, prometo colocar, na quinta-feira, uma degustação do texto que vai tomando vida.

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