Antes da Estante

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 24, 2008

Pensando na capa…

01e1

… e brincando no Photoshop

011

Foto de Murilo Ganesh

Anúncios
Tagged with: ,

Das críticas e outros demônios (continuação)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 17, 2008

boxe_caras Uma das dicas dos manuais para tornar-se escritor (eles existem!) é não deixar que outros leiam seu texto antes que esteja finalizado. Pois eu, como não acredito em manuais (exceto aqueles que ficam no porta-luvas do carro ou que ensinam a manusear o microondas) ignorei o conselho, como conta o post anterior.

E agora que as críticas vêm chegando, sou obrigado a, apenas por um momento, dar o braço a torcer e ver algo de sensato na manutenção do texto em segredo.

Primeiro há o fato de que as críticas negativas têm muito mais peso do que as positivas. Afinal, é muito mais fácil elogiar do que apontar defeitos. Para alguém olhar nos olhos de um escritor e dizer que seu trabalho não é bom, é preciso que o livro tenha realmente desagradado. Mas quando uma pessoa encontra o autor na rua e diz que o texto é bom, ela  pode muito bem estar apenas sendo simpática e educada.

Assim, é óbvio que as críticas negativas têm mais peso. Também é óbvio que elas machucam o orgulho do autor, abalam a auto-estima e às vezes chegam até a tirar o ânimo para continuar o trabalho. Este é o primeiro fator que, ao meu ver, justifica o segredo até a publicação.

Mas há outros. Um dos principais, acho eu, deve-se ao fato de que aqueles que criticam são, assim como aqueles que escrevem, seres humanos. E seres humanos são  incrivelmente diferentes entre si. Nas críticas de leitores diversos que recebi há momentos de completa contradição. A passagem do texto que um apontou como o auge do livro, foi apontada por outro como um ponto falho. E garanto que é difícil imaginar a confusão mental que esse choque de opiniões vem provocando na cabeça deste autor.

Mas, como disse lá em cima, concordo apenas por um momento com a manutenção texto em segredo. Creio que há um ponto do trabalho em que as críticas são, sim, necessárias, e que, com elas, a qualidade da obra será superior. Vários erros e pequenas contradições do texto foram pescados por meus estimados leitores críticos.

Quanto à confusão na cabeça do repórter, bem, ela faz parte de um processo tão longo como a elaboração de um livro. Ainda mais de um livro que usa elementos artísticos (portanto subjetivos), para falar sobre fatos reais (portanto imutáveis).

E quanto à auto-estima do pobre repórter, bom, ela tem que ser suficientemente sólida para resistir às pancadas. Tem que saber se esquivar daquelas que não são merecidas e receber as que são sem ir à lona.

Agradecimentos, portanto, a Adriana Yazbek, Arpad Spalding, Bruno Bartaquini, Dario Chiaverini e João Carlos Magalhães.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como. (Última Parte)

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on novembro 3, 2008

Depois de muita insistência e de uma vasta coleção de respostas padrão negativas, finalmente uma editora havia se interessando em publicar Cama de Cimento (ver posts anteriores). Mas então, quando já era possível pensar em detalhes como capa e estratégias de venda, Quartim, o dono da editora Conex, me deu a perturbadora notícia de que a sociedade com o grupo Nobel estava sendo desfeita.

Ele mesmo não sabia fazer prognósticos precisos sobre seu futuro como editor. Todos os projetos iniciados estavam em suspenso até segunda ordem, Cama de Cimento incluso. Mais uma vez, não havia nada que apontasse para a possibilidade de publicação, a não ser o otimismo de Quartim, que, durante os meses em que fiquei a importuná-lo, não cansava de repetir.

– Calma rapaz…. As coisas acabam se ajeitando.

E, apesar da minha falta de calma, após uns quatro ou cinco meses de agonia, as coisas realmente começaram a se ajeitar. Quartim abandonou a marca Conex com o grupo Nobel e, depois de um longo período de incerteza, tornou-se um editor associado da Ediouro, um mega-grupo, dono de selos diversos (Nova Fronteira, Agir, Prestígio, etc.) e que disputa a liderança do mercado editorial brasileiro com o grupo Record.

A notícia era excelente. A simples possibilidade de ter o primeiro livro publicado por uma das maiores editoras do país, tirou o sono deste repórter por noites a fio. Mas ainda não era certeza. Para ser publicado pela Ediouro, qualquer livro tem de ser aprovado por um exigente conselho editorial, que, via de regra, rejeita a maior parte dos títulos.

Então, em uma tarde qualquer do mês de abril de 2007, atendi o meu ramal provisório na redação da Folha de S.Paulo, e do outro lado da linha ouvi a voz sempre calma e otimista de Mr. Q.

– Pode soltar os rojões, rapaz. Seu livro acaba de ser aprovado pelo conselho editorial.

Alguns meses mais tarde, lá estava eu, na refinada Livraria da Vila da alameda Lorena, autografando livros que eu mesmo havia escrito, e ainda sem acreditar em toda a montanha russa que havia me levado até lá.

Publique seu livro agora. Pergunte-me como.

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 27, 2008

Quando comecei a escrever “Cama de Cimento”, no início de 2005, nada indicava que o livro seria publicado. Um ano depois, nos primeiros meses de 2006, com o trabalho pronto, a situação era sensivelmente diversa. Tudo me dizia que ele nunca seria publicado. Um livro de um autor desconhecido, recém formado, que trata do espinhento cotidiano dos moradores de rua?

Ora, convenhamos, não há apelo comercial nenhum num material destes!

Na época, claro, eu procurava afastar pensamentos deste tipo da minha cabeça e, com meus parcos recursos, batalhava pela publicação de todas as formas possíveis.

Primeiro enviei cópias para editoras com as quais eu tinha algum contato. Sempre existe um amigo de um amigo, que conhece alguém que trabalha em alguma dessas herméticas companhias de impressão.

As respostas, em geral, vieram na forma de cartas padrão de recusa. Seu projeto é muito interessante, blá, blá, blá, mas, infelizmente, blá, blá, blá. Agradecemos por blá, blá, blá e esperamos blá, blá, humpf!

O mais próximo que cheguei da publicação nessa época foi um e-mail escrito pessoalmente pelo dono da Panda Books, editora da Bruna Surfistinha. Um e-mail de recusa. Ele me encorajava, dizia que o texto era muito bom, muito bem escrito, mas que o assunto era de doer. E gentilmente deixava a porta aberta para projetos futuros.

Na época, a Panda Books era a última das editoras indiretamente conhecidas para quem eu havia mandado os originais. As chances haviam acabado.

Mas evidente que não cheguei a aventar a idéia de desistir…

…Continua na quinta

A ética dos baseados ocultos

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2008

Todo mundo fuma maconha. Traduzindo “todo mundo” em números, temos algo como 160 milhões ao redor do planeta, de acordo com estimativa da Onu de 2006. Mas se eu fosse fazer um levantamento de acordo com os meus dados empíricos, diria que 160 milhões é pouco.

Conheço muita gente que fuma maconha. Conheço maconheiros de idades variadas e de classes sociais diversas. Conheço mães da família que não vivem sem doses regulares de THC no sangue. Uma delas ocupa um importante cargo executivo, e pelo menos três vezes por dia encontra um cantinho discreto das instalações de uma mega-corporação pra dar seus peguinhas.

Nem preciso dizer, portanto, que entre os organizadores de rave e seus asseclas, a boa e velha Cannabis sativa é consideravelmente popular.

Pois não é que o tão comum e disseminado cigarrinho do capeta acabou por me colocar num desagradável dilema ético.

A questão é que um dos personagens do livro é desses que consomem três, quatro, cinco, vários baseados por dia. Mas logo na primeira vez em que fumou durante uma de nossas entrevista, ele pediu que eu deixasse a substância, digamos assim, em “off”.

Eu concordei na hora, mas sem muita convicção.

Em encontros posteriores, os baseados continuaram e fui percebendo que o ato de fumar funcionava, para o personagem em questão, como uma espécie de ritual. Era algo que fazia parte da essência desse indivíduo.

Então, depois de várias entrevistas e inúmeros baseados, voltei ao assunto. Pedi permissão para citar o uso da droga no texto, argumentei que um perfil sobre ele ficaria incompleto sem citar a maconha, que havia inúmeras personalidades assumidamente maconheiras, evoquei Bob Marley, e assim por diante.

Na hora ele concordou, um pouco contrariado. Mas depois de algum tempo, em uma de nossas últimas entrevistas, voltou atrás. Explicou que não queria levantar bandeira de nada, que as raves já sofrem muito nas mãos da imprensa, e pediu que eu tirasse defintivamente os baseados do texto.

E o que fazemos numa situação dessas?

Quinta-feira, a resposta. Ou mais perguntas…

Ossos do ofício: isto é USP

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 6, 2008

As paredes descascadas, as lages com infiltração e as divisórias improvisadas dos prédios, moldados numa retrógrada arquitetura moderna, já sugerem haver algo emperrado nas engrenagens da maior universidade do país.

E quem já freqüentou aquelas salas moribundas sabe que, além do descaso evidente para com as edificações há uma série de outros: para com as lousas arranhadas, as carteiras manquitolas e os professores desiludidos, transformados em gravadores empoeirados tocando fitas de rolo mofadas.

Mas nada disso se compara à quantidade de ferrugem que  se acumula nos mecanismos da assessoria de imprensa. O órgão, que deveria ser responsável, ente outras coisas, por lançar toda a pesquisa de ponta que é feita na USP (e há muita pesquisa de qualidade) para as manchetes nacionais, é uma espécie de polvo sem cabeça.

Repórteres que ligam para certas unidades em busca, por exemplo, de indicação de especialistas para comentar algum assunto específico, são atendidos, vejam só, pela secretária do diretor, que, com aquele mau-humor típico de funcionário público, olha para uma lista de ramais pregada sobre sua mesa e indica um nome de forma aleatória.

Portanto, assim como a maioria dos meus colegas, sempre que preciso falar com alguém da USP, tento contornar a assessoria de imprensa de qualquer forma.

Foi o que fiz semana passada. Depois de ler a excelente tese de doutorado da antropóloga Rita Amaral, fucei por algum tempo na internet e encontrei um contato de e-mail da pesquisadora. Escrevi me apresentando, apresentando meu trabalho e pedindo que ela dispusesse algo como uma hora de seu tempo para me conceder uma entrevista.

A resposta:

“Caro Tomás,
Tudo que tenho a dizer sobre festas está na tese. Não tenho nada de muito novo pra dizer e como meu tempo é curto, não dá para aprofundar , ainda menos pessoalmente, questões com todos que me pedem isso. Por isso coloquei a tese na Internet.
Boa sorte com seu livro.
Abraço
Rita”

E o mais incrível, caros leitores do Antes da Estante, é que todo esse eficiente e azeitado organismo é financiado com o seu, com o meu, com o nosso rico dinheirinho!

Paz, amor e aliciamento

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 29, 2008

É fato. Querem acabar com as raves. Há uma série de projetos de lei tramitando em diversos municípios brasileiros. As propostas são embasadas pelo argumento de que as festas constituem um estímulo ao consumo de drogas, visão compartilhada por políticos, policiais, pastores evangélicos e pais aflitos.

Mas, além desses setores mais conservadores da sociedade, há um bom número de ex-entusiastas do movimento, que hoje sequer passa perto de uma rave. Para eles, nos primeiros eventos, ocorridos há mais de uma década, havia um clima de paz, amor e comunhão, clima que se acabou quando as festas tornaram-se gigantescas e passaram a visar o lucro acima de tudo.

Numa manhã de domingo durante uma mega-rave ocorrida no segundo semestre de 2008, o organizador da festa, visivelmente embriagado de vodka com energético, travava um discurso pra lá de surreal, que ilustra bem a distância dos princípios neo-hippies das primeiras raves.

– Traz aqui. Deixa eu ver – dizia para um outro sujeito baixo, acima do peso, e com uma mancha vermelha no branco de um dos olhos, como se tivesse levado um soco.

– Mas não precisa, elas são de primeira – argumentava o do olho vermelho.

– Traz aqui. E eu quero ver – insistiu o organizador do evento até que o outro concordou e saiu andando.

Algum tempo depois voltou, cutucou o ombro do dono da festa e apontou para três meninas aparentando uns 16 ou 17 anos. Paradas no gramado, a alguns metros, as três tinham cabelos lisos compridos, usavam jeans justo, botas de cano alto, mordiscavam pirulitos e olhavam sorrindo para os dois sujeitos que discutiam.

– Não vai dar – respondeu o organizador depois de examinar as meninas.

– Pôxa meu, deixa eu subir com elas no palco, meia hora só.

– Não. Depois elas vão querer aparecer, ir lá pra frente junto com os DJs, não tem como.

– Pôxa meu, eu juro pra você, eu subo lá e quando você disser pra eu vazar eu vazo.

– Então vaza agora.

– Quinze minutos.

– Não vai dar – continuou o organizador, depois olhou para as meninas de novo, voltou-se para o outro e exclamou, como que se explicando – você podia ter arrumado coisa melhor, né?

– Ah, mas fazer o quê – respondeu o outro – é o que a gente consegue. Essas aí são fáceis. É só subir ali, encostar atrás do telão e em cinco minutos aposto que rola uma chupetinha…

Ossos do ofício: roubado duas vezes num puteiro do centrão

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 22, 2008

Pois então, sexta passada, lá estava eu em um puteiro do centro da cidade, na companhia de Dmitri Rugiero, fundador do núcleo de festas Mega-Avonts e importante personagem do nosso livro.

Já vou avisando, para os leitores mais conservadores do Antes da Estante, que a referida casa de tolerância, encontrava-se desativada para sediar uma espécie de rave indoor.

Ainda havia luzes de neon roxo e palcos com aqueles postes prateados, onde uma ou outra garota de biquíni se exibiu durante algum tempo, mas, para fins libidinosos tradicionais, o estabelecimento estava mesmo desativado.

Mas, enfim, vamos ao primeiro roubo: paguei 5 reais por uma lata de Skol quase na temperatura ambiente. Aliás, paguei 5 reais por várias latas de Skol quase na temperatura ambiente, porque cheguei ao local por volta das onze da noite de sexta, hora em que Dmitri abriu a pista, e não saí antes das cinco da manhã. O primeiro roubo, portanto, repetiu-se algumas vezes.

O segundo roubo aconteceu quando a madrugada já ia mais do que alta. Novamente paguei os cinco reais por uma cerveja, apoiei a lata no balcão do bar enquanto guardava a carteira no bolso e quando virei para apanhar novamente a cerveja, ela havia evaporado. Não apenas a cerveja, mas a lata também.

Olhei em volta em busca do precioso líquido dourado e, bem ao meu lado, havia um rapaz magro, baixo, usando uma camisa ridiculamente florida e com a expressão do rosto posta numa inacreditável cara de paisagem. E na sua mão, evidentemente, havia uma lata de cerveja que não estava lá antes, e que se parecia incrivelmente com aquela que eu havia acabado de comprar.

Eu me aproximei do sujeito, e com a boca quase colada na sua orelha repulsiva, perguntei polidamente:

– Você roubou minha cerveja?

Ele deu de ombros e continuou com aquela cara abobada de paisagem. Eu me aproximei mais, até quase sentir o cheiro de desodorante barato, e perguntei de novo, agora já quase afirmando:

– Você roubou minha cerveja?!

Ele então se virou com uma careta retorcida, balançou um pouco de bêbado, e esticou a lata em minha direção, simplesmente devolvendo o produto do roubo. Eu, da minha parte, lembrei dos conselhos que minha mãe sempre me dá quando freqüento puteiros: “Vê lá onde põe a boca, meu filho”.

Então simplesmente fiz um gesto de desprezo e me virei para o outro lado, apenas para topar com uma amiga do sujeito que, vendo que eu conversava com ele, achou-se no direito de também conversar comigo:

­- Você é amigo do fulaninho? – (desculpem esqueci o nome da figura)

– Não, ele só acabou de roubar minha cerveja.

– Ai, putz – exclamou a menina meio sem jeito – Ai, dá um desconto pra ele, porque, ai putz, ele é supermeuamigo, mas é que as drogas tipo comeram o cérebro dele.

O repórter e o raver

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 15, 2008

Uns sete ou oito meses atrás, sentado numa daquelas mesinhas de mármore do bar do Genésio, eu conversava com meu amigo JC sobre uma idéia que começava a tomar forma na minha cabeça, uma idéia maluca e despropositada, de escrever um livro-reportagem sobre raves.

Engessado pelo esquemão quadrado da grande imprensa, onde ainda hoje está atuando, meu estimado colega se empolgou de cara e, antes mesmo que eu fosse capaz de pronunciar a palavra psytrance, pegou no meu braço, se inclinou para frente e abriu um sorriso levemente assustador:

– Cara, se torne um raver – exclamou articulando bem as palavras. – Mergulhe de cabeça nesse mundo que vai ser um livro docaralho!

Desde então, venho tentando seguir os sábios conselhos de JC. Fui a um punhado de festas e até me descambei para o interior de Goiás num ônibus fretado, em companhia de 40 malucos, para participar dos cinco dias de música ininterrupta do festival Trancendence.

Mas acho que foi só neste último fim-de-semana, mais precisamente no sábado, dia 13, que, ao menos por algumas horas, realmente me tornei um raver. Pela primeira vez fui a uma festa sem o intuito de atuar como repórter.

Até levei minha bolsa, com bloco de anotações, caneta e gravador (vai saber), mas não usei nada disso. A fim de me ajudar a manter distância segura da reportagem, consegui arrastar minha namorada e um amigo – ambos virgens no mundo das raves -, para debaixo das tendas flúor da Earth Dance. Ainda encontrei outro colega da época da faculdade por lá, este um raver ocasional.

Assim, como simples amigos num sábado à noite, participamos do ritual de abertura que aconteceu ao mesmo tempo em 300 cidades de 80 países ao redor do mundo, dançamos por umas boas horas ao som do psytrance, comemos hambúrguer de soja, fizemos compra na lojinha de roupas raver, tomamos chuva e quase atolamos o carro na volta pra casa (com o doloroso prejuízo de uma lanterna traseira, esmigalhada contra o tronco duma árvore).

Já durante o percurso de volta, contudo, o repórter voltou a dominar a situação. E enquanto tentava enxergar a estrada debaixo de uma chuva grossa que não dava trégua, tratei de cobrir meus dois acompanhantes com uma avalanche de perguntas sobre suas primeiras impressões a respeito daquele barulhento fenômeno dançante.

Ossos do ofício

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 8, 2008

Pouco depois das três e meia da madrugada deste domingo, encontrava-me a percorrer o quilômetro 165 da rodovia Anhanguera. Meu transporte era um táxi extremamente confortável, com direito a bancos de couro e filmes de DVD. Como companhia, além de seu Zé, divertido motorista que sabe tudo sobre a vida dos principais DJs brasileiros, estava Rica Amaral.

Já disse aqui no blog, mas não custa repetir, que Rica será um dos principais personagens do livro. Por isso, eu havia me metido naquela viagem insólita, rumo a uma fazenda de cana em Ribeirão Preto, onde ocorreria a última edição da rave Xxxperience. A idéia era observar o DJ em ação.

Havíamos saído de São Paulo por volta da uma e meia da manhã, Rica tocaria às cinco, e Ribeirão ficava a mais de 300 quilômetros de distância. Assim, não havia tempo a perder e seu Zé pilotava a uma velocidade média de 140 quilômetros por hora, alcançando picos de 160 com facilidade.

Naquela hora, contudo, estávamos mais devagar, a uns 120, porque observávamos um carro na nossa frente, que descrevia perigosos zigue-zagues na pista, como se o motorista estivesse bêbado ou cochilando ao volante. Eu viajava no banco dianteiro e Rica ia atrás, devorando um pacote de batatinhas.

Quando seu Zé diminuiu a velocidade, um pouco receoso de ultrapassar o outro veículo, Rica debruçou-se entre os dois bancos dianteiros, e por algum tempo ficamos a observar os movimentos do outro carro, torcendo para que ele não saísse da pista e se esborrachasse contra algum outro veículo.

A possibilidade era remota, porque a estrada estava muito vazia, havia duas pistas largas e lisas, separadas das outras duas que voltavam por um amplo canteiro gramado.

Nós continuávamos observando, seu Zé esperava a hora para ultrapassar, quando, subitamente, vimos uma luz estranha crescer diante de nós. O carro que ia em zigue-zague desviou para a pista da direita. Como que por instinto, sem saber do que se tratava a luz, seu Zé achou por bem fazer o mesmo. Diminuiu ainda mais a velocidade e encostou à direita, seguindo o motorista que parecia bêbado.

Foi o tempo exato para evitar o choque com um outro veículo que vinha em alta velocidade, na contra-mão. Ele passou por nós como um fantasma, sem dar sinais de luz alta, sem tocar a buzina, apenas seguindo adiante naquela velocidade vertiginosa, à espera do encontro com o inevitável.

E nós também seguimos adiante. Tudo aconteceu tão rápido que não houve tempo para sustos.

Duas horas depois, Rica Amaral tocava no palco da Xxxperience, tentando não se desconcentrar com uma garota que, debruçada nas grades de proteção diante do palco, gritava sem parar:

“Ricaaaaa, te amôÔÔÔÔ!”.

De volta às origens

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on setembro 1, 2008

Boa parte dos cabelos vem emaranhada em tufos dreadlocks. As cores preferidas para saias rodadas, calças folgadas, batas e ponchos são aquelas de tonalidades naturais, do marrom ao verde musgo. Há rostos pintados com traços de tinta vermelha, e há aquela música, aquele ensurdecedor e repetitivo tambor eletrônico.

É impossível, portanto, olhar para uma pista de dança de uma rave ou festival sem traçar um paralelo imediato com alguma arquetípica festa tribal. E essa semelhança, às vezes, surpreende até os mais envolvidos com o fenômeno raver.

Há quase dois meses, na pista de dança do Trancendece, Alok, o organizador do Universo Paralello, olhou em volta, depois se virou para mim empolgado e sentenciou:

“Isso é uma incrível experiência antropológica pós-moderna.”

E eu fiquei pensando nisso.

E fiquei olhando a pista, aquele monte de gente pulando num Kuarup eletrônico, cuja fonte de energia estava no som repetitivo e hipnótico do psytrance… Então comecei a pensar na história da música eletrônica.

O psytrance evoluiu do house e do techo. O house e o techno vieram da disco-music, que veio do rock. O rock veio do blues. O blues evoluiu a partir das work-songs, músicas cantadas pelos escravos americanos, que certamente se inspiravam nos sons da África tribal, que devia ter muito em comum com o psytrance.

Dá o que pensar não?

Tagged with: , ,

O Psytrance e o materialismo histórico

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 25, 2008

Ontem, numa mesa de bar (mais precisamente numa almofada do novo projeto do DJ Rica Amaral, na Chácara Santa Cecília), eu me ocupava em discutir com uma amigo a respeito do tema levantado no post anterior.

Geógrafo formado, e já um pouco a par do andamento do “Projeto Rave”, Arpad Reiter, lançou mão do nosso bom e velho Marx para dar um exemplo de como as ciências humanas poderiam ser bem aplicadas na explicação do fenômeno das raves.

Falava em particular sobre a mercantilização e massificação da cultura neo-hippie presente nas primeiras raves ­– um processo recorrente no capitalismo.

No passo seguinte passamos a debater sobre a necessidade desse processo ser explicitado como uma teoria no livro. Quer dizer, ao contar a história das festas, essa transição de uma “cultura legítima” para uma “mercadoria”, estará implícita no texto.

Os que possuem formação marxista, irão olhar e dizer, “ah, aí estão os dedos do neoliberalismo”. Outros irão apenas refletir sobre o assunto, e outros irão passar batido sem nem se apegar a esse detalhe.

Para esses últimos talvez fosse de alguma utilidade gastar uns dois ou três parágrafos para apontar o dedo e dizer: vejam, um processo inerente ao modo de produção capitalista. Mas talvez eles seriam os primeiros a pular os parágrafos mais teóricos.

Por isso, em relação aos comentários do post anterior, tendo a pender mais para o lado de Ádrio do que de JC.

Projeto “rave” estréia na imprensa especializada.

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 18, 2008

Segue abaixo a abertura da entrevista que dei para o site Essential, do Limão:

FALAMOS COM… Tomás Chiaverini. Jornalista. 27 anos. Autor do “Cama de Cimento”, livro que narra a vida dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Por hora está trabalhando no seu segundo livro, ainda sem título, que explora o fenômeno da cultura trance.

Rapaz de rosto simpático e perguntas curiosas. Um belo ouvinte. Aquele tipo de pessoa que você pode ficar por horas conversando que o assunto nunca acaba. Ele observa tudo. Participa em silêncio. Não entra na dança. É profissional, diria.

O conheci por acaso na viagem para o Festival Trancendence, em que estávamos no mesmo ônibus participando da rota de 25 horas até Alto Paraíso, em Goiás. Tomás colhia material para o seu livro. Era novato no mundo das festas eletrônicas, e já encarava um festival como o Trancendence.

Tomás se sentava no banco atrás do meu. Nas paradas dividíamos um dedo de prosa e um cigarro a tira colo. Mas seu maior companheiro era um bloco de folhas amarelas e uma caneta bic. Ele sempre anotava algo. Isso intrigava a mim e a todos que estavam naquele ônibus. A pergunta que corria entre os acentos: Como será que vai ficar esse livro?

Em entrevista ao Essential, ele conta como está sendo a elaboração do livro, que despertou a curiosidade da galera. Explica também o que o levou a ser jornalista, e como chegou até os livros. E, claro, quais suas pretensões com o seu novo título e como está sendo essa novidade em sua vida, afinal, ele está passando por tudo que um bom raver passa, ou já passou…

Confira, vale a pena!

Andamento

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2008

Já temos 143 páginas de texto no formato A4, o que equivale a pouco mais de 200 páginas no formato de livro.

Nas primeiras oitenta e poucas páginas, temos um primeiro capítulo, que narra uma rave do começo ao fim; e temos uma coleção de perfis de DJs, produtores e personalidades do meio que se misturam a dados históricos e curiosidades sobre os bastidores das festas.

Depois temos mais cinqüenta e tantas páginas, que se constituem basicamente na descrição das venturas e desventuras de um grupo de ravers durante o festival Trancendence, em Goiás. Para isso, acompanhamos os festeiros desde o embarque em um ônibus fretado em São Paulo, até passeios pela Chapada dos Veadeiros, após os cinco dias de festa.

A idéia inicial, de que essa narrativa seria intercalada aos primeiros capítulos, foi abandonada. Poderia até se tornar um exercício narrativo interessante, mas, como freqüentemente ocorre com obras que abusam dos malabarismos estilísticos, acabaríamos por perder em objetividade e clareza.

Assim, os capítulos sobre o Trancendence devem ter a honra de finalizar o livro. Em todas as 140 páginas ainda temos uma porção de enxertos sobre consumo, história e tráfico de drogas; sobre mecanismos de produção e comercialização de música eletrônica; sobre moda; sobre sexualidade; enfim, toda uma gama de informações a respeito desse barulhento mundo de diversão e êxtase.

Então está bom. Temos começo, meio, fim. Tudo pronto, no ponto e perfeito? Rodem as prensas?

Evidente que não.

Ainda falta abordar dois temas de peso. Um é a proibição das raves, que está se tornando comum nos municípios de São Paulo e, se um projeto que tramita na Câmara dos Deputados for aprovado, acabará com as festas em todo o estado (pelo menos as legais). O outro é mais divertido: a montagem do festival Universo Paralello, que ocorre na Bahia e é a mãe de todas as festas brasileiras.

Mas se é só isso, o livro está praticamente pronto?, indagariam os leitores mais ansiosos.

Infelizmente a resposta é não mais uma vez.

O que temos nas 140 páginas escritas é o texto bruto. Muitas das informações que estão lá terão de ser checadas, conferidas. Depois serão cortadas, ampliadas ou modificadas e cada parágrafo será lido, relido e reescrito umas três ou quatro vezes.

Além disso, durante todo esse tempo, a apuração continua. Os personagens dessas páginas serão entrevistados muitas vezes mais, e novas histórias surgirão e serão cirurgicamente inseridas no texto que vai ficando cada vez mais redondo e suculento como uma manga madura.

Divagações: amigos ou personagens

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2008

Rica Amaral é um dos nomes mais importantes do universo raver brasileiro. Foi um dos primeiros a tocar (e a mixar) psytrance por aqui, atualmente é um dos DJs mais requisitados e bem-pagos do mercado nacional, e foi o fundador do núcleo de festas Xxxperience, que hoje promove as maiores raves do país.

Conversei com Rica pessoalmente duas vezes até o momento, sem contar trocas de e-mails e telefonemas. Somadas, as entrevistas devem totalizar umas seis horas de áudio gravado e estamos combinando outros encontros, provavelmente para que eu o acompanhe no trabalho.

Nas duas ocasiões em que conversamos ao vivo, o DJ me recebeu em sua casa, me ofereceu um caprichado café expresso com leite, me apresentou para seu filho pequeno e para sua mãe (que estava por lá cuidando do neto), e me emprestou livros e DVDs sobre mundo das raves.

Rica Amaral será um dos principais personagens da nossa narrativa. A partir de sua história de vida, irei abordar o universo das festas visto do ponto de vista dos organizadores dos eventos.

O casal que aparece junto comigo na foto acima (tirada durante o festival Trancendence, em Goiás), cujos nomes provavelmente não estarão no texto final, irá emprestar suas histórias para que eu mostre o mundo das raves a partir do ponto de vista inverso, daqueles que participam, que curtem as festas.

Convivi com eles durante dez dias. Saí de São Paulo no ônibus da excursão em que os dois viajavam, passei cinco dias acampado ao lado deles durante o Trancendence, e depois ainda me hospedei na mesma pousada, e gastei alguns dias grudado nos dois, percorrendo trilhas e cachoeiras da Chapada dos Veadeiros.

Durante as horas que estive com Rica e os dias que passei com o casal, colhi histórias fantásticas, curiosas, divertidas e até dramáticas. Posso dizer, que conheço relativamente bem essas pessoas e que sou capaz de descrever detalhes de suas vidas particulares com certa propriedade.

Ao mesmo tempo, um outro fenômeno acabou ocorrendo: me tornei amigo deles.

E quando estou escrevendo, por mais que tente esquecer o fato de que eles irão ler aquilo tudo, não há como disfarçar a existência de uma pontinha de preocupação. Será que estou sendo canalha com esse caras? Será que determinada frase vai deixá-los ofendidos ou magoados? E, principalmente, se há essa possibilidade, será que aquela frase é essencial, tem que estar no texto final?

A já combalida imparcialidade, acaba sofrendo duros golpes diante dessa proximidade toda.

Por outro lado, em alguns momentos, confrontando os primeiros rascunhos do texto sobre Rica, escrito após nosso primeiro encontro, com o outro, elaborado depois do segundo contato, percebi que o último está muito melhor. Não só pelo fato de que a apuração está mais completa, mas também porque algumas frases daquelas que poderiam deixá-lo chateado, foram deletadas.

E olhando para elas agora, percebo que não foram apagadas apenas por um receio quanto ao que Rica acharia delas. Foram limadas do texto porque eram preconceituosas, apegavam-se a um estereótipo que talvez a imagem do DJ passasse a mim num primeiro momento, e que, após um contato mais profundo, se mostrou infundado.

Portanto, lembrando do que sempre diz meu amigo que deixou de ser jornalista para trabalhar com índios isolados no interior da Amazônia: “foda-se a imparcialidade. O que realmente importa é o compromisso com os fatos” e, no caso, com a essência humana dos personagens.

Voltando ao Mago

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 28, 2008

Há quase um mês, postei um texto sobre a incrível história de vida do mais bem sucedido autor nacional, senhor Paulo Coelho de Souza. Na época, estava lendo a biografia escrita por Fernando Morais e fiz algumas considerações, principalmente sobre as vivências do escritor, o que acabou gerando uma breve discussão a respeito dos motivos que o levaram a se tornar o mais traduzido autor de nosso tempo.

Terminei de ler “O Mago” (Planeta/2008 ) há uns vinte dias e fiquei ligeiramente decepcionado com o final do livro, com uma carta, um tanto insossa, escrita por Paulo Coelho, destinada a Fernando Morais.

Outro elemento que pode decepcionar alguns leitores decorre do fato de que Morais não gasta muito tempo buscando explicar os misteriosos fatores que transformaram Paulo Coelho em fenômeno planetário.

De qualquer forma, é possível notar certos ingredientes que vão além de alguma suposta qualidade místico-literária-mercadológica no texto do mago imortal.

Quando lançou seu primeiro livro, Paulo Coelho já era um milionário, devido às letras compostas em parceria com Raul Seixas. Isso permitiu que ele injetasse um bom tanto de dinheiro na divulgação de seus livros. O autor chegou, por exemplo, a pagar a diversas rádios para que inserissem comentários positivos sobre sua obra na programação. Uma espécie de “jabá” literário.

Paulo também não economizava esforços na divulgação nem se furtava a desempenhar papéis pouco convencionais, dando entrevistas sobre seus poderes sobrenaturais e deixando-se fotografar de capa, espada e óculos escuros ­- o que fazia a alegria de entediados editores dos cadernos de cultura.

Além das performances bizarras para a imprensa, Paulo fazia e ainda faz de tudo para vender livros. Quando era desconhecido, passava noites distribuindo panfletos em filas de cinema. Agora que é mundialmente famoso, se auto-promove em seções de autógrafo surpresa, principalmente no exterior, onde é um verdadeiro pop-star.

Nessas ocasiões, entra em uma livraria qualquer, chama o gerente, apresenta-se como o escritor Paulo Coelho e se oferece para autografar seus livros. Enquanto isso, um sem número de admiradores já começa a se aglomerar ao seu redor , esteja ele na França, na Turquia ou no Egito

Tagged with: ,

Trancendence

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 21, 2008

Cinco dias de festa e aproximadamente quatro mil pessoas (número a ser averiguado) acampadas em barracas espalhadas em meio àquela poeira fina do cerrado, numa semana em que a região completava mais de dois meses sem ver um único pingo de chuva.

Banho só com água fria e em geral, após enfrentar um bom tanto de fila. Demais necessidades fisiológicas deveriam ser administradas em um cubículo de cimento, com uma porta de madeira compensada, sem trinco. E a música, cinco dias de música sem parar um único minuto, pancadas eletrônicas ininterruptas, provenientes das mais modernas caixas de som que o homem foi capaz de criar.

Olhando de longe para aquelas barracas perdidas na poeira, num terreno distante cerca de duas horas de qualquer sinal de civilização, olhando aqueles malucos envergando cabeleiras dreadlock e fumando cones de maconha ou haxixe, um homem civilizado qualquer poderia afirmar que ali se vivia um clima de caos e anarquia.

Estaria certo, sem dúvida nenhuma, com um único detalhe. Durante aqueles cinco dias, não só por conta da bem organizada produção de evento, mas principalmente pela postura dos participantes, não tive o desprazer de assistir nada que realmente ameaçasse aquela estranha ordem vigente.

Não há brigas nas filas, mulheres dormem semi-nuas no chill-out sem serem incomodadas e crianças, várias crianças, brincam soltas na poeira, como se estivessem em um grande parque de diversões. As pessoas se ajudam, se preocupam umas com as outras e é quase impossível alguém comer, fumar ou beber algo do seu lado sem lhe oferecer um pedaço, uma tragada ou um gole.

Curiosamente, essa atmosfera de caos ordenado só foi quebrada quando a polícia, mais especificamente o DENARC de Goiânia, resolveu fazer valer a lei do mundo exterior naquele pedaço barulhento de cerrado.

Mais detalhes na quinta-feira, que ainda temos horas e horas de entrevista para transcrever e páginas e páginas de bloquinho para decifrar.

Os Fatos?!*

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on julho 7, 2008

– E quantas pessoas havia na primeira rave Madagascar? – pergunto.

– Umas três mil – responde Júlio, antes de cravar os dentes num hambúrguer de uma lanchonete modernosa.

– Três mil, você está louco – contesta Raquel, a outra “sócia” do evento. – Não chegou nem a duas mil.

– Que duas mil nada! Só de convite vip a gente distribuiu quase mil – insiste Júlio.

– Ai, você é muito sem noção. Não tem a menor, noção das coisas!

– Ah, eu sou sem noção então? Você está contando errado.

– Ai, Júlio… Não acredito. Você é muito sem noção. Você vai insistir que tinha mais que duas mil pessoas?

– Que eu lembre tinha.

– Mas como “que eu lembre”, Júlio? Ele precisa da informação correta!

– Certo, certo, calma gente. Vamos à outra pergunta. Quanto custou a primeira edição da rave Madagascar?

– Putz, uns dez mil – responde Júlio.

– Que dez mil, Jú-li-ô!? – contesta Raquel, já indignada, com o rosto todo salpicado de maionese.

– Lógico que foi, se você for contar tudo que a gente gastou desde o começo…

– Ai, Júlio, assim não vai dar. Você é muuuuuuito sem noção!

– Certo, outra pergunta – intervenho novamente. – Vocês, por acaso, são namorados?

– Ex-namorados – explica Raquel, sorrindo sem graça e tentando limpar a maionese do cabelo…

* Sim, a conversa acima realmente aconteceu. Os dois ex-namorados são os sócios da rave Madagascar e parece que a história é quase como coloquei no post anterior mesmo. Foi preciso assistir a muita discussão, mas eles conseguiram chegar a um acordo sobre quase tudo. O único exagero da primeira fonte (do post anterior) foi a página falsa no Orkut, que nunca existiu. Detalhes, daqui a alguns meses, numa livraria perto de você.

O Mago!?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 30, 2008

Comprei e estou lendo a biografia de Paulo Coelho.

Dito isso, já vou me justificando para a hora de odiadores do escritor mais traduzido da atualidade, que vendeu nada menos do que 100 milhões de livros ao redor do planeta. Apesar de nunca ter lido nada além de alguns trechos dos livros de Paulo Coelho – os quais não me agradaram -, não posso negar que tinha um bom tanto de curiosidade sobre como ele passou de repórter de revistas de satanismo a parceiro de Raul Seixas e, por fim, best seller mundial.

Além disso, “O Mago” (Planeta/2008 ) foi escrito por Fernando Morais. Sim, também há ressalvas quanto a Morais, principalmente quando se fala em política. Mas ele é um excelente biógrafo e, como ando construindo uma porção de perfis – espécies de mini-biografias – achei que não faria mal buscar inspiração e técnicas nessa nova e extensa obra (630 páginas).

E Fernando Morais não decepcionou. Tem um texto conciso, fluido e cativante, e traz histórias pra lá de fantásticas.

Quanto a Paulo Coelho, muitos dos preconceitos que temos a respeito de sua figura, se confirmam. Desde que era coelhinho, ele já se mostrava um mitômano de caráter um tanto duvidoso.

Mas uma coisa é certa. Estou mais ou menos na metade do livro e já vi Paulo Coelho passar por experiências de vida que lhe gabaritariam para ser um grande escritor. Ou seja, graças a Fernando Morais, vou ter que me render a curiosidade e ler pelo menos um dos achincalhados romances do bruxo carioca.

Tagged with: ,

On the road

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 23, 2008

Daqui a pouco mais do que quinze dias, embarco num ônibus repleto de ravers em direção a Alto Paraíso (GO), para cobrir um dos maiores festivas de música eletrônica do país. Por módicos R$ 280, terei direito a participar dos cinco dias de música ininterrupta do Trancendence, além do privilégio de montar minha barraca sobre uma camada subterrânea de místicos cristais energéticos.

Nos meus planos, essa viagem será uma espécie de fio condutor do livro. A narrativa das experiências e histórias dos ravers, desde a saída de São Paulo até o fim da festa, somada às minhas impressões sobre essa doideira toda, deverá se intercalar aos demais capítulos.

Há, entretanto, um porém. Será que esse grupo em que me inseri se mostrará interessante o suficiente? Será que estarão dispostos a dividir suas experiências? Enfim. Em homenagem ao meu amigo João, que adora clichês: estão lançados os dados do destino.

Desejem-me sorte!

%d blogueiros gostam disto: