Antes da Estante

Unhas da imortalidade

Posted in Crônica, Nota de Rodapé by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Durante anos guardei minhas unhas. Não lembro exatamente como tive a ideia. Mas um dia, depois de aparar pés e mãos não joguei tudo fora como faria um humano mentalmente são. Em vez disso, guardei as pequeninas meias-luas de queratina numa caixinha de tic-tac sabor laranja. No começo não havia um motivo específico. Talvez tenha sido preguiça de ir até o lixo, talvez a caixinha estivesse ali, ao alcance, sobre o criado-mudo.

De qualquer forma, isso logo se tornou um hábito. E, com o tempo, passou a me proporcionar um discreto prazer. Pensava naquela música do Chico. No futuro distante, um escafandrista revira uma casa submersa e encontra resquícios de um amor do passado. Pensava que um dia um arqueólogo viria revirar meu criado-mudo, talvez fossilizado após uma hecatombe nuclear ou coisa que o valha, e encontraria ali minha coleção de unhas, acumuladas durante uma vida.

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O pão, a pomba e as sandálias prateadas

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2013

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

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Explosões, pancadaria e tédio, no novo Homem de Aço

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 18, 2013

Não existe amor em 3D

por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia…

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Ovnis em Ubatuba

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on junho 11, 2013

Os óvnis do meu pai

por Tomás Chiaverini

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

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O raro prazer de se demitir, na crônica de hoje no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on outubro 24, 2012

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

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O charme retrô dos bigodes de Levy Fidelix, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on outubro 3, 2012

Os Moinhos de Vento de Levy

Levy Fidelix foi o primeiro candidato a chegar ao debate da TV Cultura – realizado em setembro – com quase duas horas de antecedência. Adentrou os portões exibindo um caprichado sorriso sob o bigode preto retinto, aparentemente recém retocado de Grecim 2000. Ao contrário de seus adversários (excetuando-se, por motivos óbvios, Soninha), vestia um terno mal ajustado e uma gravata listrada, daquelas largas, de antigamente. Quando o embate começou, destilou os disparates de sempre, ainda que o famoso aerotrem tenha perdido espaço para um banco municipal. Na surreal hipótese de Levy tornar-se prefeito, o tal banco, de alguma maneira mágica, salvaria a cidade da iminente bancarrota.

Foram duas horas e meia de discursos enfadonhos e semi-afagos entre os oito candidatos, e faltavam menos de quinze minutos para meia-noite quando o mediador, Mario Sergio Conti, finalmente decretou o término do lenga-lenga. Apesar do adiantado da hora, a imprensa, que heroicamente lotava a plateia, subiu ao palco em busca de declarações. Aquela coisa de sempre: microfones, gravadores, câmeras e filmadoras disputando espaço para registrar uma declaração insossa qualquer.

Os mais assediados foram Haddad, Serra e Russomanno, líderes nas pesquisas. Mas todos, até os menos expressivos, como Gianazzi e Paulinho da Força, mereceram alguma atenção dos repórteres. Menos o pobre Levy. Nem sequer um microfonezinho se dispôs a dar voz às suas utopias tão ingênuas e divertidas.

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Corte seu próprio cabelo, pergunte-me como.

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on agosto 30, 2012

Emancipação Capilar

Barbeiros não sabem cortar cabelos. Pode parecer uma afirmação absurda, mas é fato. Barbeiros cortam cabelos como se fossem gramados. E cabelos não são gramados. São parte da nossa identidade, como orelhas, nariz ou sobrancelhas. Mas os barbeiros não levam isso em conta. Apenas cortam, sempre igual. Antes de começarem, quando nos sentamos nas cadeiras das barbearias (tão parecidas com as dos consultórios dentários), eles sempre perguntam como queremos o corte: mais curto, mais comprido, pentear pro lado, pentear pra trás. Mas, no fim, cortam sempre igual.

Um homem que sai do barbeiro é reconhecido à distância. E por alguns dias tem de lidar com sua personalidade homogeneizada, qual um recruta do exército ou um menino de calças curtas, obrigado a acatar os gostos capilares da mãe.

Eu sempre odiei barbeiros por causa dessa mania de deixar todo mundo com a mesma cara de bom moço. Fossem os barbeiros arquitetos e todas as cidades se assemelhariam a condomínios de Alphaville. Um mundo limpinho, arrumadinho, porém desprovido de charme e de identidade própria.

Mas cheguei a tentar algumas vezes. Em geral em barbearias razoavelmente baratas, mas nem sempre. Certa vez, num lapso de insanidade e obviamente estimulado por uma mulher, fui a um desses salões caríssimos, onde todos vestiam quimonos. Me fizeram massagem, me lavaram a cabeça com xampus aromáticos de ervas desconhecidas, me deram revistas importadas pra eu apontar o penteado ideal, cortaram os cabelos com navalha e, no fim, o resultado foi a mesma bananice de sempre.

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Todas as proibições do Kassab, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on julho 25, 2012

Esquadrão da gema mole

Eis que o Kassab resolveu restringir a distribuição de sopa para moradores de rua. A medida absurda virou uma bola de neve nas redes sociais, organizou-se um sopaço na frente da casa do prefeito e as autoridades, um olho na sopa outro nas eleições, trataram de voltar atrás. De qualquer forma, mais uma vez veio à tona essa mania de proibir tudo, que parece parte do DNA Serra/Kassab, que está deixando o mundo mais chato e que, ao mesmo tempo, pavimenta um caminho perigoso.

As leis deveriam ser feitas no intuito de manter nossa espécie agressiva e autodestrutiva num estado mínimo de harmonia. Os reacionários tendem a confundir as coisas. Acham que elas têm a função de deixar o mundo mais limpinho e arrumado, parecido com alguma ideia pré-concebida de paraíso que lhes tenha sido inculcada na infância.

Quando eles são levados a sério, criam-se leis estúpidas que diminuem a liberdade dos homens, quando, na verdade deveriam fazer justamente o contrário. Deveriam ser construídas de modo que cada um pudesse desfrutar o máximo de liberdade sem causar grandes prejuízos aos vizinhos (algum prejuízo é inerente à existência). Em outras palavras, a liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro.

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica, Jornalismo by Tomás Chiaverini on junho 22, 2012

Daqui a pouco você volta pro Face

Um gordinho me ultrapassou na fila do quilo. E o pior é que eu não estava empacado na área de saladas, lutando com um ovo de codorna, impedindo que ele chegasse logo ao Penne Alfredo. Se fosse assim, haveria alguma licitude. Mas não. Meu prato já estava montado, salada temperada, no caminho diagonal da balança, quando o gordinho, de repente, me ultrapassou.

Incrédulo diante de tamanho descaso para com as convenções gastronômicas, parei e encarei ostensivamente o sujeito, que aparentemente nem se deu conta. Era um baixote atarracado, flácido e suado, o que me alimentava a vontade de aplicar-lhe um tabefe ao pé da orelha. Claro que não fiz nada, nem sequer lhe cutuquei o ombro reclamando, e o almoço transcorreu burocrático e insosso como sempre.

Mas o fato é que tive vontade. Principalmente porque senti minha masculinidade, meus direitos, meu espaço vital sendo conspurcados pela pressa do gordinho. Diante de sua rotunda circunferência eu poderia me acalmar pensando que era gula, algum desequilíbrio hormonal, compulsão alimentar. Mas não creio que tenha sido fome o motivo do homenzinho ter se prestado a tão desprezível papel social. Ele queria ganhar tempo, isso sim.

Queria pesar logo o prato, ir logo pra mesa, comer logo, pagar logo, voltar logo pro trabalho, pegar logo o carro, ir logo pra casa, tomar banho logo, jantar logo, trepar logo na mulher, gozar logo, dormir logo, acordar logo, tomar café logo, ir logo pro trabalho no dia seguinte, sair pra almoçar logo…

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Crônica do mês, no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on março 22, 2012

Aula de humildade com o professor Aziz Ab’Saber

Há cerca de dez anos o anfiteatro da faculdade de geografia da USP estava lotado de jovens barbudos e cabeludos, garotas de saia indiana e sandálias de couro, pós-adolescentes ainda brigando pra se livrar das espinhas no rosto. Centenas de estudantes de várias turmas que se juntavam para ouvir o geógrafo Aziz Ab’Saber.

Tratava-se de uma aula especial. Não propriamente pelo conteúdo, mas porque Aziz era uma lenda do departamento, tido por muitos como o maior geógrafo brasileiro em atividade, um dos maiores do mundo. Além disso, estava aposentado e não lecionava mais para graduação.

Quando ele entrou, pouco depois das sete da noite, todos os lugares estavam ocupados. Havia estudantes em pé, outros sentados nos degraus, entre a plateia. Na época, Aziz já aparentava uma saúde frágil. Sofria com problemas de visão e andava devagar, encurvado pelo peso das quase oito décadas enfileiradas.

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Crônica de estreia no Nota de Rodapé

Posted in Crônica by Tomás Chiaverini on fevereiro 8, 2012

Ressaca, Michel Teló e Times New Roman

Pretendia escrever sobre um filme. Comecei até. Ia ser um texto legal, descolado, com tiradas de humor.

No final ia ter uma co-relação com o título da coluna que, como a Helena me disse com a sinceridade anabolizada por meia garrafa de vinho, não é dos melhores.

Mas eu ia escrever porque é o que gosto de fazer, porque a ideia parecia boa, porque me comprometi com um amigo. Comecei a escrever, até. Mas estava ficando uma merda.

Não uma completa merda, mas uma merda razoável. Talvez vocês lessem e achassem bacana, se divertissem, curtissem ou até, honraria maior das redes sociais, compartilhassem no mural do Facebook. Mas o fato é que estariam lendo apenas uma merda razoável.

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