Antes da Estante

Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Posted in Avesso, literatura by Tomás Chiaverini on março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

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2 Respostas

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  1. A primeira página do Avesso | Factóide! said, on março 20, 2011 at 16:43

    […] Leia a primeira página de Avesso. […]

  2. Hélio said, on maio 15, 2011 at 17:14

    Tomás,

    Acabei de ler “Avesso” e embora tenha gostado muito tenho que confessar que não consegui entender o final.
    A Jaque continuava viva quando o protagonista foi embora? Se ele se deu ao trabalho de ir buscar o remédio e ajuda porque não voltou? Porque foi embora? Nenhuma destas atitudes condiz com o que o autor, neste caso você, nos mostrou da personalidade e comportamentos do protagonista.
    Um personagem que foi muito bem costruido ao longo do livro, de repente toma uma iniciativa totalmente incoerente com a narrativa até então.
    Ou será que é para não entendermos nada mesmo?
    O livro é muito bom para ter um finall destes.
    Me desculpe, mas me pareceu mais um final de quem não sabia muito bem como terminar a história.
    Hélio


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