Antes da Estante

Atendendo a pedidos, a primeira página de Avesso, pra degustação…

Posted in Avesso, literatura by Tomás Chiaverini on março 18, 2011

Alto Solimões

Um vento quente entra pelas frestas da parede de madeira. A lâmpada amarelada balança e me resgata de um sono agitado. Ouço o rio que corre alguns metros abaixo, escuro e sorrateiro, deslizando em toda a sua magnitude. Sento na cama e vejo que ela ainda dorme tranquila, deitada no chão de tábuas da palafita.

Horas antes, eu a agarrava pelos cabelos pretos enquanto ela esfregava o corpo ondulante e suado sobre mim, enquanto ela se contorcia e respirava como se o ar úmido do Amazonas não fosse suficiente para saciá-la, como se queimasse por dentro e precisasse de mais oxigênio, de cada vez mais oxigênio para aumentar o calor da caldeira que se instalara em suas entranhas, para alimentar a combustão que eu lhe causava, para lubrificar seu calor que me apertava e no qual eu mergulhava com raiva e sem escolha. Eu a agarrava pelos cabelos pretos, a odiava e me afundava dentro dela só para me esquecer. Eu estava pagando, mas ela que gostava. Gemia e respirava aquele ar oco de quente, e eu a puxava mais, para perto e para longe, mas ela não percebia, respirava e ondulava violentamente derrubando gotas ferventes de suor dentro dos meus olhos.

Não imaginava que ela fosse tão leve nem que eu pudesse lançá-la ao chão com tanta força. Na parede. Na verdade ela bateu na parede de madeira antes, e toda a palafita balançou. Ela bateu nas tábuas de azul descascado e depois escorregou para o chão. Caiu nua e suada, escorregadia, com os cabelos lisos de índia cobrindo o rosto; mas não o suficiente para esconder seus olhos pretos, seus olhos negros que me encaravam com dúvida, com um resquício de prazer arrependido e com medo.

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Um brasileiro no 17º concurso paulista de karaokê – piauí 54

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on março 15, 2011

Ovelha negra

As agruras de um brasileiro em um concurso nipônico de karaokê

Por Tomás Chiaverini

Avantajados ventiladores giravam sem descanso, mas não deram conta de refrescar a atmosfera saariana do auditório. Centenas de espectadores, em sua maioria senhores de olhos puxados, suavam e se abanavam inutilmente com leques de papel. No palco, os finalistas do 17o Paulistão de Karaokê, que aconteceu em Sorocaba. A situação deles era ainda pior: ao contrário da plateia, não podiam desfrutar do conforto dos bermudões, camisetas sem manga e chinelos.

Luxo e glamour eram pré-requisitos. Mulheres exibiam vestidos longos ou impecáveis trajes de gueixa. Homens envergavam ternos, fraques, casacas, ou se embrulhavam em quimonos ricamente bordados. Flores artificiais, babados e paetês adornavam os cantadores de ambos os sexos. Havia especial predileção por lantejoulas furta-cor. A fim de explorar ao máximo esse brilho todo, luzes coloridas se movimentavam no proscênio e tornavam a temperatura ainda mais escaldante.

Nada disso abalou a calma dos candidatos, quase todos japoneses ou descendentes – segundo estimativas extraoficiais, cerca de 95% dos 604 participantes veem o mundo através de olhos puxados. Um a um eles subiram ao palco, fizeram uma rápida mesura de agradecimento e, com ritmo e afinação impecáveis, entoaram canções populares japonesas. Nada de Roberto, Wandeca ou Bruno & Marrone. A legenda que passa ditando o ritmo também é coisa para amadores. No 17o Paulistão, as canções foram interpretadas de cor, em japonês. Era escassa a presença de não descendentes.

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Conheça o dono da voz brasileira de Al Pacino, na piauí 54

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on março 14, 2011

The Voices

Peripécias do avatar vocal de Tom Cruise, Al Pacino e Richard Gere

Por Tomás Chiaverini

Pressionado de todo lado, o chefe dos detetives deu um anel direto para o coronel, na expectativa de que este lhe adiantasse o que fosse sobre os dois cadáveres recém-desovados no tristemente famoso Vale do Silicone. Teve sorte:

– Sim, já sabemos o principal – informou-lhe o coronel, com a satisfação de quem vive de matar charadas. – Ambos morreram de encontros ruins.

– Tem certeza? É a mesma causa mortis do macaquinho do Indiana Jones!

A vida em versão brasileira não é cor-de-rosa, como bem sabe o ator carioca Ricardo Schnetzer –, e não só pelo risco permanente de ser humilhado pela tradução. Aos 57 anos, e depois de três décadas de atuação em superproduções do cinema mundial, ele mora num quarto e sala no Rio de Janeiro, costuma ter alguma dor de cabeça para pagar as contas do mês e, quando caminha pelas ruas, não precisa se preocupar com o assédio dos fãs, vítima que é do mais perfeito anonimato. Para o distinto público, ele não é um nome e, menos ainda, um rosto. Por outro lado, quando abre a boca… Dono de um timbre grave, modulado por quarenta anos de tabagismo militante, Schnetzer fala por Al Pacino, Tom Cruise, Richard Gere e Nicolas Cage, entre outros mais ou menos famosos que, em versão brasileira, encontraram nele o seu grande porta-voz.

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