Antes da Estante

Parral na Piauí

Posted in Jornalismo, Piauí by Tomás Chiaverini on outubro 13, 2010

Ágil e destemido, qual um cangaceiro que avança pela caatinga, Yumbad Baguun Parral esgueira-se por entre as mesas e cadeiras dos bares da Lapa, em São Paulo. Dotado da estatura de 1,66 metro, lança mão de um paradoxal chapéu de couro cor-de-rosa e de uma barbicha de trancinha grisalha meticulosamente composta para atrair a atenção da boemia. Já de início a tarefa soa inglória, pois ele atua sobretudo nas calçadas e, nessa sexta-feira glacial de setembro, boa parte de suas presas virtuais parece ter capitulado ao conforto de dvds e cobertores. Por volta das 22 horas, a maioria das mesas ao ar livre está às moscas.

Mas Yumbad Baguun Parral, pseudônimo de Miguel Cavalcante Felix, não se aflige. Aos 47 anos, com segurança e paciência esculpidas ao longo de uma década na função, esse alagoano arretado ergue a cabeça e leva em frente o seu sorriso constante e simpático. Com um andar calmo e alinhado, arrematado pelo blazer escuro sobre o pulôver amarelo, vai oferecendo dois de seus produtos literários mais atraentes: o romance Santa Puta, a Redentora, que, segundo ele, já vendeu cerca de 10 mil exemplares, e a recém-lançada sátira política Senadô Severino, Sua Excrescência.

Nas primeiras abordagens, o escritor é miseravelmente ignorado. Quando não, recebe caretas de desdém que abalariam os brios de Dom Quixote e arrefeceriam os juízos de Policarpo Quaresma. Não os de Parral, que segue de bar em bar, de mesa em mesa, de vítima em vítima.

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Ao vivo

Posted in Reprise by Tomás Chiaverini on outubro 7, 2010

Atendendo a pedidos, republico um texto escrito logo após o lançamento do livro Festa Infinta, que narra a experiência de ser entrevistado pela MTV. O vídeo pode ser conferido aqui, mas o áudio está um pouco baixo. É preciso aumentar bem o volume pra ouvir. O volume do texto parece bom.

A rua Afonso Bovero começa numa curva. É difícil fazer baliza em ruas curvas. Me atrapalho, raspo a roda no meio-fio. Modéstia à parte, não costumo fazer esse tipo de barbeiragem. Mas estou um pouco tenso. Ansioso, certamente. E não consigo que meu cérebro se ocupe com nada além de uma elucubração inútil sobre o que irão me perguntar e como responderei.

Desligo o motor. Viro o espelho retrovisor interno na minha direção e, feito uma madame que retoca a maquiagem antes de ir às compras, dou uma última conferida no meu rosto. Olhos, boca, nariz, orelhas, olheiras, está tudo lá. Tranco o carro e caminho devagar, pra não correr o risco de chegar ao estúdio com a camisa empapada de suor. O tempo não está muito quente, a rua é arborizada, então meu temor não se concretiza.

Na recepção, me identifico. Tentando dar a entender que aquela é uma situação rotineira para mim, digo o nome do produtor que a assessoria de imprensa me passou. Vou participar do “Controle”, exclamo errando o nome do programa. “Acesso”, a recepcionista responde paciente, enquanto me fotografa e estende o crachá de visitante. Pede que eu espere. Passa das 15h30, constato no celular. Meia hora pra entrar no ar. Obediente, sento e espero.

Moderninhos entram e saem o tempo todo. Tênis All-star, calças jeans largas demais em certas partes e justas demais em outras, camisetas apertadas ressaltando magreza, e cabelos meticulosamente despenteados.

Vez ou outra, algum rosto conhecido passa pela catraca. Estranho. Não sou um telespectador assíduo da MTV, então essas pessoas me são familiares, mas não figuram como realmente famosas. Num primeiro momento, soam mais como colegas da faculdade que não vejo faz tempo, do que como celebridades da televisão. Tenho de me controlar para não cumprimentá-los.

Às 15h48, levanto impaciente. Faltam doze minutos para entrar no ar e estou ali, plantado na sala de espera.  Mas estou calmo. Me sinto calmo. Seguro. Já dei entrevistas para a televisão antes, penso comigo mesmo pra me acalmar mais. Mas o cérebro responde num jab rápido: foi na TV Mackenzie, não na MTV. Depois encaixa um upper, certeiro no queixo: e não foi ao vivo.

Certo. Agora estou um pouco nervoso. Confiro novamente o celular. 15h52. Oito minutos para entrar no ar. Olho para a recepção. As duas mocinhas conversam despreocupadas, sem dar bola pra minha angústia.

Às 15h55, cinco minutos antes do programa começar, a recepcionista me chama. Pede que eu passe a catraca, tome o elevador, e vá até o quinto andar.

Plin!

Quinto andar, o elevador desemboca numa espécie de redação: várias bancadas com computadores, separados por divisórias baixas. O produtor logo me vê e vem me cumprimentar. É um moleque, mais novo do que eu. Veste bermuda, camiseta e um enorme boné branco, meio de lado. Pede que eu o siga. Desce escadas. No caminho, pára, volta-se para mim, e diz que esqueceu de me avisar, mas que no fim da entrevista terei de pedir um clipe.

Branco.

Não sou grande fã de videoclipes. Não consigo pensar em nada a não ser nas eventuais perguntas sobre o “Festa Infinita” e nas possibilidades de resposta. Ele sugere alguns, todos de música eletrônica. Não acho boas as sugestões. A essas alturas, quero dissociar o livro da música eletrônica, mostrar que ele vai além de retratar o mundo raver. Tento lembrar de algum clipe.

Lembro.

Keith Richards, balões coloridos, um cara sobe correndo no palco, Keith para de tocar, tira a guitarra do pescoço e, como um rebatedor de beisebol, acerta em cheio o infeliz que ainda leva uns sopapos dos seguranças, antes de ser devolvido para a platéia. “Satisfaction”, lembro a música e informo o produtor da minha escolha.

Ufa.

Ele parece meio decepcionado porque não pedi nada de música eletrônica, que teria a ver com o assunto do livro. Abre uma pesada porta de metal. Continuo atrás dele. Uma sala pequena, escura, forrada de botões e monitores, com alguns técnicos sentados atentos às telas.

No monitor que parece receber mais atenção de todos, reconheço o cenário do programa em que eu deveria estar. O apresentador Leo Madeira e duas garotas que não conheço, falam sobre o disco “Cê”, do Caetano Veloso. “Você vai entrar no segundo bloco”, exclama o produtor. Pessoas entram e saem da sala carregando grandes e antiquadas caixas plásticas de vídeo-tapes. Tento não atrapalhar.

O produtor sai da sala. Uma garota entra com uma pilha de fitas em formato beta, desvia de mim como se na verdade houvesse me transpassado. Ninguém parece notar que há um desconhecido na sala. O produtor volta. Pede que eu o siga. Descemos mais escadas. Ou subimos.

Ele abre outra porta pesada, eu continuo atrás dele, e de repente, diante de mim, está o cenário que eu havia visto algumas vezes na televisão. Mas não estou nele. Estou sobre um carpete preto vagabundo que cobre a faixa estreita do chão atrás das câmeras. É uma faixa bem estreita mesmo. Isso me surpreende. Quando assisto a um programa gravado em estúdio, tenho a impressão de que o espaço atrás das câmeras é bem amplo. Mas aquele é pequeno, apertado, meio claustrofóbico até.

O produtor me deixa ali e sai por onde entrou.

Ao meu lado há uma mesa pequena com uma jarra d’água e o um exemplar do meu livro. Incrível como ele se espalha, penso comigo mesmo. Oferecem-me água. Não aceito, apesar da boca um pouco seca. Assisto ao programa. Leo Madeira e as duas meninas – uma em embalagem de boneca, outra milimetricamente desleixada ­– entrevistam MV Bill por telefone. O repper não fala coisa com coisa, e pra piorar o áudio de retorno está tão ruim que metade das frases desencontradas se perde em meio ao chiado.

Mas Leo é um apresentador experiente, faz algumas perguntas simples e logo encerra a entrevista com uma colocação genericamente simpática.

Passo a mão na testa pra ver se não estou suando muito. Um pozinho viria a calhar. Mas pelo jeito não vai ter nada dessas frescuras. Lembro das outras vezes que apareci na TV. Uma em um exercício durante a faculdade de jornalismo, outra em uma entrevista sobre o “Cama de Cimento” (nenhuma ao vivo). O pó pra tirar o brilho sempre fizera parte do ritual. O pó e o microfone de lapela.

“Microfone”, falo pra um sujeito que está ao meu lado. “Eu não deveria ter um microfone?”. Ele me olha com cara de “quem é você”, depois aponta para outro sujeito, o responsável pelos microfones. Pelo menos fiz a minha parte, penso comigo mesmo. E eles devem saber o que estão fazendo.

Entra um videoclipe, Leo sai da frente das câmeras, vai até a mesa, enche um copo d’água e pára ao meu lado. É sempre engraçado encontrar pessoalmente essa gente da TV. Eu conheço ele, mas ele não me conhece. Gosto de um programa que ele apresenta com a Marina Person.  Se bem que, neste caso, ele deveria me conhecer. Afinal vai me entrevistar em alguns instantes.

O microfone. O responsável vem com ele na minha direção e Leo percebe quem eu sou. Volta-se para falar comigo, dá os parabéns pelo livro, bebe mais um pouco de água e volta para finalizar o bloco. É bastante simpático. Simples como sua imagem na TV da a entender. Microfone instalado.

Comerciais.

Leo me chama. Entro no espaço delimitado pelo chão diferenciado, e sinto que meus sapatos, com a sujeira da rua e toda aquela vida real grudada nas solas, poderia contaminar aquele ambiente televisivo.

As meninas me cumprimentam. Estou calmo. Levam-me até o fundo do estúdio e me convidam para sentar. Não há lugar para sentar, concluo, ainda calmo. Uma das garotas se senta. Incrível, há um lugar para sentar. Um balcão, que se torna invisível na parede de listras coloridas. Eu me sento entre os três. O câmera pede que fiquemos mais próximos. Obedeço, pernas cruzadas. Estou calmo. Botão da camisa aberto, informal, MTV, mas sem excessos, ninguém precisa ver os pelos do peito do autor, do autor que está calmo como se tivesse nascido para a televisão. É ao vivo, mas estou calmo.

Leo segura o meu livro. Folheia. O câmera gira à nossa volta como uma mosca varejeira. Continuo calmo, calmo… Homem-maracujina, tranqüilo, relax como funcionário público em repartição do interior.

Jogamos conversa fora. As meninas me olham com uma expressão que eu diria ser de uma curiosidade que beira a incompreensão. Não parece haver hierarquia oficial entre os apresentadores do programa, mas fica claro que Leo é quem está à frente. Ele me pergunta sobre o livro. Respondo. Depois ele me olha por algum tempo, e toma emprestada aquela expressão das suas colegas. “Você é moleque né?”.

Fico na dúvida sobre a pergunta e ele repete: “Você é bem moleque né, quantos anos você tem?”. Respondo com meus 28 e Leo parece impressionado. “A minha idade”, pondera ele, tirando o sentindo da sua aparente surpresa. Pois é, sorrio, calmo, sereno. Afinal, estou conversando com um moleque da mesma idade. Somos só dois molequeles levando um blá, trocando um proceder descontraído. Na moral.

Continuando na sua posição de liderança, Leo volta-se para mim e lança uma pergunta sobre o por quê de eu ter escolhido escrever sobre raves. A calma permanece. Já respondi isso uma centena de vezes, e não está valendo ainda. Respondo bem, sem gaguejar. Ele emenda outra pergunta. Eu olho para o lado, e lá está o câmera, indiscretamente agachado à minha frente, com aquela bazuca apontada direto pra minha cabeça. Calmo. Continuo calmo. Mas… Estamos no ar?

Ele está me perguntando, está me entrevistando, a entrevista começou, estamos no ar, esse cara agachado aí na minha frente está levando minha imagem para milhares de lares, milhões talvez, e agora estou fazendo cara de bobo, cara de bobo para milhares de lares, a pergunta, qual era a pergunta, a resposta, a resposta já se foi, uma gaguejada e encerramos o assunto, pronto pode mandar a outra que essa foi assim mesmo, do jeito que deu e…

“Trinta minutos para entrar no ar”, exclama uma voz do além.

Ufa. Não valeu. Não estávamos no ar.

E agora, estamos no ar. Agora sim. O botão da camisa, o suor da testa, certo, vamos lá. Leo pega o livro, fala sobre ele, mostra para a câmera e manda a primeira pergunta, uma que ele já tinha feito no aquecimento. Estou um pouco afobado. Normal, um pouco de adrenalina, mas ela sai bem, a resposta, sai satisfatória e tudo bem. Estou aqui, estou na televisão, ao vivo, e continuo vivo, continuo respirando. Tenho vontade de levar a mão ao pescoço e disfarçadamente conferir o andamento de meus batimentos cardíacos, mas me controlo. Não sou hipocondríaco.

As perguntas se seguem. Previsíveis. Já dei várias entrevistas sobre o “Festa Infinita”. Nenhuma na televisão, mas as perguntas variam pouco. Então, subitamente, estou calmo novamente. Calmo. Respondo sem gaguejar quase nada, articulando bem as idéias, e de repente Leo pega o livro novamente, levanta em direção à câmera, pede que eu fale o clipe escolhido e me agradece pela presença. Acabou.

Nossa foi rápido.

Na saída, tropeço no carpete preto vagabundo. Certo, estou um pouco nervoso. O produtor aparece para se despedir de mim, aperto a mão do Leo, beijo o rosto maquiado das meninas, e tomo o elevador. Saio na rua com os pulmões carentes.

Caminho até meu velho Corsinha, entro, dou a partida. Faz sol, a temperatura está agradável, e o trânsito até que flui bem.

Fim

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 5, 2010

Pois então, como os argutos leitores deste espaço já terão notado, a viagem acabou, assim como a série de relatos sobre ela. Mais uma vez, este blogue terá de se adaptar a uma nova realidade, mutando-se feito político em campanha. Aguardem.

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