Antes da Estante

Humpf!

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on agosto 27, 2010

Algum escritor consagrado cujo nome não faço questão de lembrar, disse a seguinte máxima, que é constantemente repetida como conselho a jovens escritores: “se pode viver sem escrever, não escreva”. Não sei se eram exatamente essas as palavras, mas o sentido é basicamente esse; ou seja, se conseguir fugir dessa carreira maldita, faça-o rápido, vá ser engenheiro ou médico, construir paredes, consertar ossos quebrados, vá fazer alguma coisa útil, que realmente sirva pra alguma coisa.

Pois é, caros leitores, às vezes me arrependo de não ter escutado o tal sujeito. Porque não é nada fácil avançar nesse mundo das letras. Não é bolinho passar um ano inteiro escrevendo um livro, um único livro, vertendo sangue e suor em Times New Roman, pra depois ler, num blog qualquer, as críticas demolidoras de um sujeito que nem sequer folheou o maldito livro, e que não consegue nem escrever o subtítulo sem assustadores erros de português: “o intorpecente mundo das raves”.

Não é fácil. Não é fácil ler o conselho de outro leitor, que recomenda o seu livro ao amigo, e sugere que, quando for percorrer aquelas páginas que você esculpiu com tanto esmero e carinho, o outro tenha sempre um iPod cravado nos ouvidos, bombardeando-lhe com faixas de psytrance.

Não é mole ter de encarar olhares de desconfiança e incredulidade quando, numa rodinha de desconhecidos na festa de sábado à noite, você se arrisca a confessar que até se diz jornalista, mas, na verdade, sua profissão é ser escritor mesmo.

Não tem graça nenhuma estar permanentemente torcendo para que mais alguns exemplares sejam vendidos, o que lhe garantirá alguns trocados de direitos autorais, que pingarão na sua conta dali a seis meses.

Não é nada animador ver que, em se tratando de resenhas, geralmente uma boa rede de contatos e amizades influentes vale muito mais do que um livro realmente bom. Pior ainda é ter consciência de que, ser um bom profissional apenas, não significa nada no mundo das letras. Afinal, um bom médico tem o trabalho dele garantido, e viverá uma vida próspera e feliz, com casa em condomínio, carro do ano e cachorro abobalhado; enquanto que um escritor apenas bom terá uma vida medíocre, recheada de desilusões e decepções.

Por fim, não é nada fácil encarar o longo, penoso e burocrático processo que leva um livro da nossa cabeça até as livrarias.

Mas, enfim, me desculpo pelo desabafo que, no entanto, não ocorre sem motivos. Acabo de saber que meu romance, Avesso, que tinha lançamento inicialmente previsto para este mês de agosto, depois adiado para outubro, vai ter de esperar no forno mais alguns meses. Deve sair só no início do ano que vem. Nada a fazer senão escutar os conselhos de meu estimado editor e ter paciência, muita paciência.

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2 Respostas

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  1. adrio inveriach said, on agosto 28, 2010 at 12:33

    Bem, para seu consolo, pense nos seus leitores que tb terão que esperar para ter o inenarrável prazer de ler teu novo livro…

  2. psicótico said, on setembro 2, 2010 at 12:21

    Devia ter terminado a geografia, pelo menos estaria desempregado com CREA.


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