Antes da Estante

Uma tarde surreal no vale do Ourika

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 17, 2010

O vale do Ourika fica a cerca de 45 minutos de Marraquexe. Percorremos este trajeto a bordo de um enorme Mercedes Benz bege, com motor diesel, bancos de couro, painel coberto com  pele de urso falsa, penduricalhos dourados no retrovisor, e uma estereofônica barulheira na suspensão, que denuncia seus mais de 60 anos de idade.

Há vários desses antigos Mercedes em Marraquexe. Foram todos importados da Alemanha, onde já haviam vivido uma primeira encarnação como carros de praça. Agora, são os gran­-taxi, em oposição aos carros menores, de lataria vermelha desbotada pelo sol, que cumprem a função de petit-taxi. A diferença, claro, é o preço. Rodar de Mercedes sai ligeiramente mais caro.

O passeio para o vale do Ourika nos foi vendido por uma agente de viagem, que reservou nossos hotéis em Marrocos. Disse que ali o clima era mais ameno, que veríamos lindíssimas cachoeiras, e que desfrutaríamos de um típico almoço berbere às margens do rio. A moça, uma alemã com um rosto esguio e equino, viaja conosco. Divide o banco do passageiro com um marroquino, com quem troca olhares ligeiramente apaixonados.

O vale, logo descobriríamos, trata-se de mais um engodo turístico. Desembarcamos do taxi num pequeno vilarejo onde há um verdadeiro pátio de estacionamento desses velhos Mercedes. Depois vamos seguindo o marroquino pela trilha que está incrivelmente lotada, qual uma 25 de março off-road. Os encantos naturais do lugar, apesar de existirem, não justificam gastar 30 euros por cabeça, e um dia todo de viagem.

Curiosamente, a parte mais interessante do passeio é a experiência antropológica de conviver com aquela verdadeira multidão de marroquinos que aproveita o rio para se refrescar do calor marroquino. Para se chegar à primeira cachoeira, é necessário caminhar cerca de 40 minutos, numa fila indiana completamente surreal, com mulheres cobertas até a cabeça por panos coloridos, equilibrando-se sobre tamanquinhos de salto pouco adequados à caminhada íngreme, com direito a pedras soltas de tamanhos variados e pinguelas improvisadas sobre pequenos precipícios.

A primeira cachoeira deságua num laguinho que desaparece sob uma multidão de banhistas. Os homens entram na água de calção e sem camisa. As mulheres mergulham completamente vestidas, com a cabeça coberta. Pergunto se há alguma explicação para aquela intensa aglomeração humana em um dia como outro qualquer. Nossa guia atribui a lotação às férias escolares, apesar de haver pouquíssimas crianças por ali. O alto índice de desemprego no Marrocos é outro provável motivo. Sem nada para fazer na cidade, os marroquinos sem trabalho aproveitam pra se esbaldar nas águas cristalinas do Ourika.

O almoço berbere até que vale a pena. Comemos dois tajines, um de carne de carneiro, outro de boi. Tajine é a refeição mais comum do Marrocos, em geral composta de carnes e legumes mistos, lentamente cozidos na brasa. A palavra também designa o recipiente de barro com uma tampa em formato cônico, onde os ingredientes são cozidos e servidos. Foi bem berbere nossa refeição, feita numa mesa baixa, sob uma pereira, seguida por alguns copos escaldantes de chá de hortelã.

Depois, na volta para o taxi, enfrentamos novamente aquela estranha fila indiana. Atravessamos o rio onde dois ou três camelos se refrescam após um dia levando criancinhas felizes no lombo, e quando estamos quase chegando, dou de frente com a figura mais estranha do dia.

É um marroquino que caminha rumo à cachoeira. Veste um impecável terno cinza, desses que têm uma porcentagem de seda no tecido, o que o faz brilhar de leve sob o sol; usa sapatos de couro preto bem engraxado; uma camisa branca com listras azuis; e, pra arrematar a elegância, uma abotoadura Prada falsa. Fala ao celular enquanto avança, tentando abrir caminho na multidão como se estivesse atrasado para um encontro de negócios, que certamente se daria num escritório com vista panorâmica para o rio Hudson. Uma mulher de burca escorrega à minha frente e eu volto a prestar atenção ao caminho irregular de areia e pedras escorregadias.

Marroquina se banha nas águas do rio Ourika

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