Antes da Estante

Turismo sem compras em Fez

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 12, 2010

O guia que nos conduz pelas velhas e estreitas ruelas de fez é um homem baixo e levemente calvo, usa roupas brancas de algodão e umas pantufas amarelas, modelo Aladim. Tem um bigodinho fino que, junto com a barriga proeminente, o obriga a forçar um pouco os ombros pra trás, lhe conferindo um ar bonachão e malandro, qual um político do interior.

Momo fala um inglês pausado, engessado pelo sotaque árabe, mas fluente. Caminha rápido e o tempo todo faz pausas para comprar velharias das mais variadas. Antiguidades. Diz que é apaixonado por antiguidades. Um dia pretende montar seu próprio museu.

Explica que a cidade de Fez é feia por fora, as fachadas são simples, cor de terra. É por dentro que está a beleza da cidade, na decoração interna de palacetes, mesquitas e escolas. Segundo ele, isso é uma prova de que o povo fassi preocupa-se mais com a beleza interior do que com a aparência externa. Orgulhosos, Momo explica também que por muito tempo a cidade foi o centro cultural e político do Marrocos, ­e que ali foi criada a primeira universidade do mundo.

Antes de sairmos para o passeio, Cecília e James, o casal que havíamos conhecido no trem, tinham sido claros dizendo que não queriam, de forma alguma, fazer compras. Estavam traumatizados depois dos passeios em Marraquexe, onde em cada pausa tentavam lhes vender algo. James comprara um tapete que não queria, por um preço que não gostaria de pagar.

Momo, concorda, claro, o cliente é que manda. Dito isso, após algum tempo de caminhada, lá estamos nós, sentados numa loja de tapetes, tomando chá de hortelã, enquanto dois ou três vendedores nos mostram as peças feitas à mão. Não é para comprar, explica Momo, mas para conhecer a loja e o ritual de venda.

O interior do prédio é realmente fantástico, as paredes completamente cobertas de confusos e elaborados arabescos. A qualidade dos tapetes, descobrimos, é medida pela quantidade de nós. Uma peça de nível intermediário custa a bagatela de U$ 4 mil, e leva um ano para ser feita por um mesmo artesão. Diante das somas estratosféricas, passamos incólume pela primeira provação consumista.

Seguimos para o curtume, tido como o maior do Marrocos. Antes de entrar, um homem nos presenteia com raminhos de hortelã, para segurarmos sob o nariz. É a única forma de suportar o cheiro terrivelmente ácido e putrefato que exala de todo o lugar. Subimos quatro lances de escada até o alto de um prédio, onde uma infinidade de bolsas, cintos, sapatos e outros artigos variados de couro ficam expostos.

Dali é possível avistar os tanques redondos, onde o couro é curtido. Uma parte deles é branca como gesso, devido ao excremento de pombo, usado como uma espécie de amoníaco natural, para limpar o couro. Nos demais tanques, avermelhados, a pele de animais diversos é tingida.

Dessa vez já não somos capazes de passar incólumes. Alguém tem de comprar uma charmosa sapatilha de couro branco, bordada de vermelho. E seguimos assim. Paramos para conhecer uma cooperativa de óleo de argan, uma típica loja de túnicas marroquinas, e, na hora do almoço, um tradicional restaurante Fassi.

No fim, o simpático e levemente malandro Momo garantiu sua comissão. E nós, acabamos com alguns dirhams a menos, e alguns quilos a mais na bagagem. De qualquer forma, o passeio pela labiríntica medina de Fez foi bastante instrutivo.

Quando estamos chegando de volta ao hotel, reparo que há uma grande quantidade de gatos nas ruas de Fez. Mas não vi nenhum cachorro. Penso que pode haver influência coreana na culinária marroquina.

Loja de tapetes em Fez

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Uma resposta

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  1. Kel said, on agosto 14, 2010 at 14:30

    🙂


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