Antes da Estante

Sobre trens e malandragem

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 4, 2010

Deixamos Casablanca há cerca de três horas, e em mais uma devemos chegar à cidade de Fez. Durante todo esse tempo viajamos meditativos, numa cabine com mais três pessoas. Em determinado momento, uma moça loira que sentava à minha direita se levanta e vai até o corredor onde, por alguns instantes, fica em pé, admirando o pôr-do-sol. Pouco tempo depois um homem se junta a ela e puxa assunto. Por conta da divisória de vidro e do barulho do trem, não consigo ouvir o que dizem.

Mesmo assim, sigo observando. O homem, um marroquino alto e corpulento, veste uma blusa branca levemente encardida; fala gesticulando com as mãos, e é todo sorrisos pra cima da moça. Usando uma camisa clara de linho, jeans e uns óculos Ray Ban ela parece não se incomodar com a conversa do estranho, e até se diverte sorrindo com dentes perfeitamente alinhados. Para mim não resta dúvida de que aquele sujeito é um aproveitador, um malandro em busca de presas fáceis, um representante do lado negro da força.

Em pouco tempo, contudo, a loira se desvencilha do homem e desembarca. O sujeito, por sua vez, entra na nossa cabine e senta-se no lugar dela. Estica um pouco as pernas, se espreguiça e recosta novamente. Alguns instantes se passam até que ele inclina-se um pouco pra frente, apóia os cotovelos nos joelhos, estampa um meio sorriso simpático no rosto e passa a observar os demais viajantes.

– Estão viajando juntos? – pergunta em inglês.

O homem loiro de óculos escuros que senta diante de mim responde laconicamente que não e volta ao silêncio. O outro recosta novamente e permanece pensativo por algum tempo.

­– São americanos? – pergunta ao homem voltando a inclinar-se para frente. O outro responde que é, americano filho de cubanos, viaja com a namorada espanhola, que também vive nos EUA. O estranho sorri satisfeito. Depois se volta para nós e já não precisa dizer mais nada. Somos tacitamente obrigados a nos apresentar. Impressionante como a palavra “Brasil” é capaz de produzir sorrisos e descontrair ambientes.

O marroquino passa a alternar frases em espanhol e inglês. Fala também francês e italiano, além do árabe em variantes diversas. Pergunta se estamos indo pra Fez e diante da afirmativa, nos bombardeia com uma série de informações extremamente úteis. Diz que trabalha na secretaria de turismo de Rabat, cidade onde acabamos de passar.

Entre as várias recomendações e dados detalhados sobre preços de taxis, hotéis e restaurantes, enfatiza que não devemos, em hipótese alguma, aceitar guias que não sejam credenciados. Os oferecidos pelos hotéis, diz, também não são muito indicados, pois estão preocupados apenas com comissões e fazem roteiros voltados às compras.

Dany, apelido que usa para facilitar a vida dos turistas, é um cara simpático, envolvente e em pouco tempo estamos todos conversando alegremente. O casal, James e Cecília, também são gente muito boa e já estão viajando pelo Marrocos há alguns dias. Quando todos parecem ter se tornando grandes amigos, Dany pergunta onde ficaremos hospedados. Há um breve silêncio, desconversamos, dizemos não lembrar bem o nome dos hotéis.

– É no sul ou no norte? – ele pergunta, sempre sorridente.

Óbvio que ninguém sabe a localização geográfica de hotel nenhum. Mas ele insiste, chuta alguns nomes, e não há jeito de escapar. Logo ele já sabe o nome e o endereço de nossos hotéis. Diz conhecê-los e faz comentários pontuais sobre cada um deles. Depois volta a se recostar, aparentemente feliz por ajudar aquele grupo de estrangeiros.

Alguns instantes se passam e ele volta à questão dos guias. Explica pormenores, diz que seria interessante pegarmos guias durante dois dias. Em um conheceríamos a cidade, em outro iríamos para o deserto, no entorno. Dá detalhes de quanto devemos pagar. Depois tem um estalo. Claro, deveríamos nos juntar todos e pegar um guia só. Sairia mais barato.

E mais, Dany conhece o homem que é simplesmente o melhor guia de Fez e que, evidentemente, tem todas as credencias da secretaria de turismo. Pode ligar pra ele nesse instante, caso tenhamos interesse. Então passa a enumerar as qualidades do guia, os lugares fantásticos que iremos conhecer e a economia que faremos se passearmos juntos. Eu, de minha parte, já estou vencido. Entregaria meu cartão de crédito na mão do desconhecido com total confiança.

Por sorte, James está no Marrocos há algum tempo. Diz que a proposta parece interessante, mas que gostaríamos de conversar um pouco sobre o assunto. Dany concorda, claro, sem problemas, e recosta na poltrona. Demonstrando firmeza louvável, James diz uma frase que até então eu nunca tinha visto ninguém usar fora das telas: “gostaríamos de conversar a sós”.  Pela primeira vez, o marroquino se mostra levemente contrariado, mas concorda em deixar a cabine.

E basta ele sair para que o encanto se quebre. É evidente que não podemos confiar nesse sujeito, que provavelmente vai nos arrumar o pior guia do mundo e talvez bater nossas carteiras assim que entrarmos nos becos escuros da medina de Fez. Chegamos a essa conclusão rapidamente, mas trocamos endereços de email entre nós. Quando Dany volta, pedimos que eles nos deixe um número de telefone, que ligaremos se houver interesse. Ele segue ligeiramente contrariado, mas concorda.

Ironicamente a suposta tentativa de golpe nos ajudou a conhecer um casal muito simpático e bacana, e no dia seguinte saímos para passear juntos. Sem que perguntássemos, o guia contratado no hotel dos dois avisou que era preciso tomar muito cuidado com pessoas que abordam turistas nos trens. Eles vivem viajando de cidade em cidade, e sempre se dizem funcionários de órgãos públicos. Depois vendem um passeio pro deserto onde os turistas têm seus bolsos devidamente esvaziados.

Dany se encaixa perfeitamente nessa descrição, mas por alguns instantes ele me pareceu tão gente boa que até hoje tenho dificuldade em acreditar que era tudo teatro.

Anúncios

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. adrio inveriach said, on agosto 8, 2010 at 21:02

    Éisso aí… a ferramenta do malandro é a simpatia


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: