Antes da Estante

Nostalgia em Casablanca

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on agosto 2, 2010

Sou acometido de nostalgia cada vez que entro num trem de alta velocidade, com ar-condicionado, vidros fumês e modernas poltronas de veludo e plástico. Sinto saudades de um tempo que não vivi. De quando os homens usavam chapéu e bengala, as mulheres na plataforma limpavam as lágrimas com lenços brancos e tudo era envolto por uma cinematográfica névoa de vapor.

Curioso esse nosso desejo de vivermos um tempo que já passou. Principalmente porque realizá-lo é uma tarefa praticamente impossível, já que ele é sempre retroativo. Aposto que nossos avôs não achavam graça nenhuma em respirar vapor escaldante, tendo de permanecer embalados em claustrofóbicas camadas de tecido. E o desodorante de nossas avós? Teriam eficiência para garantir uma longa espera no calor das plataformas sem ar-condicionado de então?

Concluo, portanto, que o tempo atual sempre carece de romantismo. E um dia, quem sabe, teremos saudades do charme cosmopolita do Aeroporto de Cumbica, das mal-coreografadas instruções de segurança transmitidas por enfadadas aeromoças, da voz aveludada que transmite os recados da Infraero.

A fim de suprir essa carência por um charme que nunca foi vivido, temos sempre os passeios de 15 minutos na maria-fumaça restaurada, o que, evidentemente, soa artificial, e de forma alguma supre nossa inexplicável nostalgia. Desculpem Mathew J. Fox e H.G. Wells. Não há como voltar no tempo (aliás, se houvesse, estaríamos nos acotovelando com viajantes temporais, não?).

Mas, quando se espera um trem na estação de Casablanca, chega-se perto.

O saguão tem o pé-direito altíssimo, iluminado por janelas e clarabóias hexagonais, decorado com barras de azulejo colorido. Há mosaicos de azulejo também no piso e nas paredes. Do teto, no centro do saguão, dois grandes candelabros de aço pairam ameaçadores sobre a cabeça dos viajantes.

Na plataforma, os relógios aderem em massa a essa amálgama de passado e futuro. Pendem do teto com suas faces redondas monotonamente paralisadas em algum horário do passado.

Os trens, de cara quadrada e corpo arredondado, em nada lembram os focinhos modernistas de seus descendentes de alta velocidade. São velhos e sujos, com a pintura cinza e laranja enferrujada, e uns bancos de couro vermelho que parecem ter sempre estado por lá.

Por fim, pra fazer valer esse cenário de charme e decadência, temos os personagens. Mulheres cobertas com panos coloridos que deixam à mostra apenas as mãos, decoradas com tatuagens de henna; homens barbudos vestindo túnicas até os pés; e bilheteiros uniformizados, que circulam com cigarros semi-apagados pendendo sob os bigodes.

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