Antes da Estante

É noite em Barcelona

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 30, 2010

Barcelona – Levo algum tempo pra conseguir abrir os olhos por conta do sol que castiga minhas pupilas. Olho para um pôster à minha frente, de onde Kurt Cobain me encara com seu olhar suicida. Levanto a cabeça e topo com outro cartaz, colado na parede atrás de mim. Johnny Depp, encarnando Hunther Thompson em “Medo e Delírio em Las Vegas”, deforma-se numa viagem de LSD.

Com algum esforço me sento no colchão onde passei a noite. O mundo ao meu redor oscila qual um navio pirata à deriva. Ignoro a leve dor de cabeça e me apego à realidade. No chão ao meu lado há uma garrafa de uísque vazia, da qual não bebi; um pote de shampoo, que não usei; e um par de meias sujas, que não me pertencem. Estico o pescoço e olho em volta. No sófá, há um sujeito desconhecido dormindo só de cuecas.

Penso que uma retrospectiva da noite anterior se faz necessária.

Tudo começou no fim da tarde, quando nos separamos: Helô vai passar a noite na casa de Eliot, um amigo de longa data que há anos mudou do Brasil para um povoado próximo à Barcelona. Mateus e eu ficamos na cidade. Dormiremos na casa de Dani, uma amiga jornalista, que nos encontra num café, diante da Casa de Pedra (foto), construída por Gaudí.

Acertada a conta no café, nos despedimos de Helô e vamos até um “Pac” pra comprar uma dúzia de cervejas catalãs. “Pac” é o apelido das lojas de conveniência locais, quase sempre comandadas por paquistaneses, incansáveis trabalhadores que não se apegam a tradições do velho mundo, como a siesta, por exemplo. Depois caminhamos até o apartamento de Dani.

“Aqui é a Liga das Nações”, explica ela antes de abrir a pesada porta de madeira de um apartamento amplo, com pé direito incrivelmente alto, anarquicamente decorado com pôsteres na parede e móveis de segunda-mão. O imóvel tem sete quartos, ocupados por nove jovens de nacionalidades diversas. Lembro do filme “Os Sonhadores”, do Bertolucci.

Sentamos num amplo terraço que se estende além da sala, coisa rara nas exíguas cidades européias. Abrimos três cervejas, e aos poucos os habitantes dessa estranha república vão aparecendo.

Sempre que tento falar espanhol, sinto que estou trapaceando, então prefiro me comunicar em Inglês. Em geral recebo respostas em espanhol, mas durante a noite, também pipocam frases em catalão, belga, italiano e não sei dizer o que mais.

Na segunda rodada de cervejas, Co aparece com uma tela, tintas e pincéis. Apóia o quadro no chão, coloca uma fotografia de um busto nu de mulher sobre a coxa, e começa a pintar enquanto me fala de sua terra natal, a Bélgica. Tenho vontade de conhecer Bruges.

A conversa segue animada, e quando nos damos conta já passa da meia-noite. Ainda não me acostumei ao fato de que o pôr-do-sol nessa época não acontece antes das 22h, e sempre acabo perdendo a conta do tempo. Saímos para comer, antes que os restaurantes fechem. Vamos: Co, Dani, Mateus, Robi (uma guria italiana doidinha de tudo) e eu.

Sentamos numa mesa pequena na calçada. Pedimos uma porção variada de tapas, mas antes que a comida chegue, o garçom me trás um pequeno balde de cerveja. Um litro de cevada catalã, servido num copo plástico que requer duas mãos para ser erguido. Bebemos, comemos e conversamos, embolando cada vez mais os idiomas. Robi está particularmente feliz, porque é a noite de seu aniversário. Brindamos a Robi, que, para mim, já se transformou em Robin. Quando o restaurante está fechando, pagamos a conta e saímos caminhando.

Barcelona é uma cidade receptiva, que se abre como um imenso bulevar, ladeado por prédios charmosamente baixos e antigos. Caminhar de madrugada por um beco escuro não traz qualquer sensação de insegurança, por aqui.

Depois de uma meia hora, chegamos ao Harlem, um bar de jazz, escuro e escondido numa ruela estreita. Passa das três da manhã quando entramos, e a música ao vivo já acabou. Mesmo assim, sentamos. Há apenas duas outras mesas ocupadas e Robin faz questão de juntar todas. O casal que estava numa delas, declina do convite, mas os outros, conhecidos de Dani, acatam a sugestão.

Robin, qual uma verdadeira super-heroína, traz bebidas para todos. Tomo uma vodka, pra rebater o cansaço. Puxo conversa com uma garota ao meu lado. Pergunto de onde ela é.

– Daqui – reponde.

– Espanha? – pergunto eu.

– No, Cataluña! – responde orgulhosa.

Robin me traz outra vodka. Depois um uísque. Conversamos mais, e já não me sinto trapaceando quando falo espanhol. Parece muito cedo ainda, mas o garçom traz a conta. Só tenho 50 euros e sou o primeiro a colocar a nota sobre a mesa. Os outros me pagam o que acham que devem. Enfio tudo na carteira, sem me preocupar em contar. O garçom pede que levantemos pra ele poder virar as cadeiras. Vamos para o balcão, mas o barman diz que temos de sair. Pedimos copos descartáveis, ele diz que não tem, então saímos com nossas bebidas nos copos de vidro.

Caminhamos. Passa das cindo da manhã, mas há muita gente nas ruas. Robin reclama do calor e tira a blusa. Caminha só de sutiã. Dani não acha má ideia e faz o mesmo. Nada como caminhar de madrugada no verão de Barcelona, com meu copo de uísque em mãos, escoltado por duas belas garotas seminuas. Tento imaginar a mesma cena em São Paulo.

Voltamos para a varanda, abrimos outra rodada de cerveja. Robin acende um baseado que exala vapores de gás do medo. Passa das seis da manhã. Espanhol, inglês, catalão e português tornam-se igualmente incompreensíveis para mim. Hora de dormir.

***

Mais tarde no dia seguinte, curada a ressaca, Mateus e eu nos despedimos de todos para ir ao encontro de Helô. A cidade em que ela está fica a cerca de uma hora de trem de Barcelona. Antes de sair, acho por bem conferir quanto de dinheiro sobrou na minha carteira. Conto as notas amarfanhadas e a soma dá exatamente 50 euros. O que prova que, também no mundo da boemia, é dando que se recebe.

Anúncios

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Alexander Walter said, on agosto 3, 2010 at 15:27

    Viva Gaudi, viva Bruges e viva Tomás!!
    Delícia de ler!

  2. adrio inveriach said, on agosto 8, 2010 at 21:10

    É… o moço escreve bem…

  3. raphael galvao said, on fevereiro 14, 2012 at 14:36

    Escreve muito bem =)


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: