Antes da Estante

Três vivas para a pizza paulistana!

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 22, 2010

Florença – Em honra a meus ancestrais, quando o assunto era pizza, sempre fiz questão de me apegar às tradições. Até me arrisquei, às vezes com certo prazer, a experimentar bordas recheadas de cheddar, coberturas de frango com catupiry, calabresa com ovo, e tomate seco com rúcula. Também abusei, confesso, de pizzas entregues na calada da noite por motoboys que não traziam nem uma lembrança de sotaque mooquense.

Mas, diante de tão terríveis distorções, minha porção italiana sempre fazia questão de tomar uma posição clara: pizza, só em três ou quatro endereços de São Paulo, servidas em não mais do que dez sabores. A massa tem de ser grossa, mas não em demasia, com borda crocante por fora, macia e aerada por dentro. Deve haver porções generosas de molho de tomate, colocado cru sobre a massa, o que lhe confere uma aparência rosada após o forno, sempre à lenha. A cobertura, não deve ser exagerada, de forma que porções de molho sejam visíveis a olho nu.

O restante, pode até ter gosto bom, mas não é pizza. Panqueca assada, talvez.

Uma das primeira coisas que fiz quando cheguei à Itália, portanto, foi ir atrás de uma pizza que satisfizesse minha metade italiana. Que decepção! Sem dúvida uma das maiores da minha vida.

Na verdade, tudo levava a crer que seria assim, pois desde que chegamos só comemos mal na Itália (com exceção de lanches rápidos, frutas e do restaurante onde Gina trabalha, que não serve comida italiana). Lasanha com massa mole coberta de molho branco com gosto de farinha crua, nhoque massudo, bisteca fiorentina sem gosto e muito mal-passada, molho de salmão rançoso carregado no creme de leite e assim por diante.

Importante ressaltar, contudo, que em todas essas ocasiões, eu e minha porção italiana tentamos nos convencer de que a tosquice devia-se ao fato de estarmos em lugares turísticos. Não é preciso cativar clientes no centro histórico de Veneza. Por pior que seja a comida, no dia seguinte haverá outro turista trouxa, pronto pra pagar 12 euros por uma lasanha de microondas.

De qualquer forma, apesar das baixas probabilidades, tinha fé de que, com a pizza, as coisas seriam diferente. E isso só aumentou minha dor diante da realidade desoladora.

Primeiro, os eleitores de Berlusconi não têm o mínimo respeito pelo sagrado manjar. Em qualquer boteco vendem pedaços de pão achatado com o que tiver em cima, e chamam aquilo de pizza, na cara dura. Esses infiéis chegaram, inclusive, ao descaramento de inventar uma máquina de pizza. Como se fosse comprar uma Coca Cola, o sujeito insere uma moeda de dois euros, e sai mastigando pelas ruas, completamente alheio à tradição.

Mas minha decepção foi maior diante do que me serviram em estabelecimentos que se diziam tradicionais. Um deles se arvorava do título de restaurante mais antigo do mundo, imputando-se mais de 500 anos de existência. Leonardo da Vinci reunia-se ali com os amigos, jactava-se um texto na primeira página do cardápio.

Pois bem, sentei-me nas ilustres cadeiras e nem tive de pensar para me decidir sobre o que comeria – diferentemente do Brasil, a pizza na Itália é individual e um pouco menor. Em busca da harmonia que só existe na simplicidade, pedi uma marguerita, sem dúvida uma das maiores invenções da humanidade.

Que desgosto! A massa era fina como uma panqueca. Queimada de um lado, crua do outro. O molho, apesar de abundante, tinha gosto de extrato de tomate. O queijo estava borrachento e gorduroso. E, que pasmem meus ancestrais, não havia nem sinal de manjericão.

Portanto, caros compatriotas paulistanos, vida longa a Speranza, Bráz, e Castelões!

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Uma resposta

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  1. […] Infelizmente não tenho nenhuma metade francesa na minha ascendência. Mas se tivesse, ela certamente estaria rindo da metade italiana. (ver dois post antes) […]


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