Antes da Estante

Bate-e-volta na Áustria (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 20, 2010

Silian – O posto de fronteira entre a Itália e a Áustria não passa de um guichê de metal enferrujado, vazio e abandonado. Provavelmente está sem uso desde o estabelecimento da União Européia. Depois da fronteira, onde não temos de parar ou mostrar qualquer documento, seguimos por uma série de pequenos povoados, bucólicas cidadezinhas espalhadas por verdes pradarias, cercadas por montanhas que, no inverno, atraem esquiadores de todo o Velho Mundo.

Passa um pouco das cinco da tarde, os sanduichinhos e cerejas já não passam de uma remota lembrança, por isso encosto o carro ao lado do que, para meus olhos brasileiros, se parece com uma típica estalagem austríaca. Atrás do restaurante e pousada, encarapitado no alto de um morro não muito alto, há um imponente castelo medieval.

Helô e Mateus esperam no carro enquanto saio para explorar o ambiente. Vou me esgueirando devagar pela entrada ampla do casarão. As tábuas antigas do assoalho rangem a cada passo e não há ninguém no primeiro salão. Entrepidamente sigo adiante.

No segundo salão também não há clientes nas mesas. Mas no final do balcão do bar, ao lado de uma imponente máquina de cerveja, um senhor magro e comprido me fita com ar de curiosidade. Descansa o braço direito sobre o tampo de madeira escura, a mão acariciando de leve um avantajado copo de cerveja. Entre os dedos médio e indicador, um cigarro queima preguiçosamente, liberando uma fita esbranquiçada de fumaça.

Quando paro diante do balcão ele levanta-se solenemente e me saúda com um sorriso cordialmente simpático. Peço para olhar o menú, e ele diz que a cozinha só abrirá em meia hora. Mas, ao contrário do que provavelmente aconteceria se estivéssemos na Itália, o estalajadeiro me diz isso de forma extremamente cortês e acolhedora. Tanto que me sinto à vontade para arriscar algumas frases em alemão (idioma que, diga-se de passagem, não sei falar). Para minha surpresa elas são compreendidas.

Quando pergunto se podemos tomar uma cerveja enquanto esperamos, ele me responde como um sorriso afirmativo de cumplicidade. Sinto que acabei de firmar uma amizade genuína. Vou até o carro, chamo Mateus e Helô e pouco tempo depois estamos refestelados nas cadeiras acolchoadas, cada um diante de uma caneca com meio litro de cerveja austríaca.

O estalajadeiro, cujo nome vergonhosamente esqueci, informa que estamos no povoado de Silian e, com um misto de orgulho e tristeza, conta que o castelo no topo do morro pertenceu a sua família, mas foi vendido há alguns anos.

Depois pacientemente nos ajuda a decifrar o cardápio. Pedimos um prato para duas pessoas, que serve a nós três com folga: bisteca de porco, frango empanado, linguiça, bacon, legumes cozidos, batata, bolinhos variados, arroz e frutas.

Simples e saborosa, a refeição é uma bênção diante das frustrações gastronomicas dos últimos dias. Em pouco mais de uma semana, a melhor comida que comi na Itália, foi na Áustria (voltarei ao assunto em breve).

Pra completar o banquete, café e um strudel de mação com nozes que vem fumegando, direto do forno, acompanhado de uma generosa porção de chantili. Massa aveludada de manteiga, pedaços de maçã envoltos numa calda não muito doce, pontuados por minúsculos grãozinhos de nozes moídas.

No final do cardápio há detalhes sobre a hospedaria que funciona naquela mesma casa. Um quarto de 70 metros quadrados, com direito a cozinha e lavanderia, sai mais barato do que a espelunca que nos aguarda em Veneza. Por alguns instantes consideramos a hipótese de passar mais alguns dias naquela cidadela perdida entre as pradarias austríacas, mas temos um planejamento a seguir.

Duzentos quilômetros e algumas horas depois estamos novamente nas imediações de Veneza. Quando faltam cerca de 20 minutos para chegarmos ao local de devolução do carro, paro num pedágio e passo alguns longos instantes brigando com a máquina de cobrança. Marrenta e mal-educada, ela cospe meus cartões de crédito e desdenha de nossas cédulas amarfanhadas. Só se dá por satisfeita quando lhe alimentamos com uma interminável coleção de moedas, a muito custo garimpadas nos bolsos, bolsas e pochetes.

Ando alguns metros depois que a cancela se abre, mas logo sou obrigado a parar novamente, diante dos acenos de um Carabinieri que certamente desconfiou de tanta dificuldade com o pedágio. Lembro do meio litro de cerveja que, há algumas horas, desceu despreocupadamente por minha goela abaixo.

Continua …

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