Antes da Estante

Baldeações, decepções e fascinações (parte 4)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 11, 2010

Roma – Gina abre a porta sorridente, diz que estava preocupada, pergunta por que demoramos tanto e nós contamos nossas aventuras no transporte público italiano. Gina e eu estudamos juntos por oito anos, da primeira série ao final do colegial. Nunca fomos amigos muito próximos, mas sempre nos demos bem, e esse tempo todo de convivência nos conferiu alguma intimidade e nos livra de silêncios desconfortáveis.

Gina vem de uma família deliciosamente maluca, um matriarcado comandado por Loira, uma cenógrafa mundialmente famosa por promover festas incríveis na sua casa da Granja Viana. Helô sempre foi amiga da Loira, e nossas famílias passaram algumas férias juntas.

Uma vez, na Bahia, estávamos todos na praia, num dia comum. Loira olhou um barco que se preparava para zarpar, voltou-se para Helô e perguntou se a traineira ia para a ilha de Boipeba. Antes de ouvir a resposta, vestindo um biquini apenas, ela mergulhou no mar, nadou algumas dezenas de metros e subiu a bordo. Boipeba ficava a cerca de quatro horas de viagem e Loira só voltou no dia seguinte, com a naturalidade de quem foi até a padaria.

Gina puxou um bom tanto da excentricidade e desprendimento da mãe, e há anos mora sozinha num pequeno apartamento em Roma. É uma joalheira realmente talentosa e, pra complementar a renda, trabalha como garçonete duas noites por semana num restaurante exatamente embaixo de sua casa.

Nesses primeiros dias, ficaremos divididos. Eu durmo num sofá-cama na Gina, Helô e Mateus num quarto de hotel no mesmo andar. O prédio todo já pertenceu ao lado paterno da família de Gina. Aos poucos os apartamentos foram sendo vendidos e agora só sobrou um, que foi subdividido. A parte maior está alugada e a menor, com pouco mais de vinte metros quadrados, é onde minha ex-colega vive atualmente. Um lugarzinho ajeitado, com móveis antigos, flores na janela e paredes recobertas por recortes de revista.

Depois de instalados descemos para comer. Estava seco pra me esbaldar numa bela e tradicional pizza marguerita genuinamente italiana, mas tenho que ceder ao convite de Gina, para jantarmos no restaurante onde ela trabalha.

Que seja. Que venha uma garrafa de vinho branco gelado pra aplacar o calor de trinta graus, e o que tiver pra acompanhar alguns nacos de pão (genuinamente italiano).

Sentado numa mesa na calçada, olho em volta e não há nada realmente excepcional na paisagem. Apesar disso, tudo ao redor, os copos, a toalha, a calçada, os carros e as sacadas velhas do prédio baixo do outro lado da rua parecem gritar para mim: “hei, atenção, você está em Roma!”

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