Antes da Estante

Baldeações, decepções e fascinações (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 8, 2010

Roma – Um indiano vem andando depressa lá do fundo do ônibus, esbarrando em todo mundo que está de pé. Veste uma camisa branca de um tecido rústico, amarronzada de encardido ao redor do pescoço e axilas.  Aproxima-se do motorista e despeja sobre ele uma avalanche de palavras completamente incompreensíveis para mim.

O motorista volta-se para ele, ergue a mão e chacoalha os cinco dedos fechados voltados para o queixo, num gesto teatral tipicamente italiano. Depois cospe uma ou duas frases num tom que, de tão agressivo, acaba por acalmar o indiano. Ele diminui a intensidade de suas reclamações, mas resmunga mais um pouco antes de voltar contrariado ao seu lugar.

Mateus me diz que, pelo que entendeu, o homem havia deixado uma bolsa sobre o assento e outro passageiro se apossara dela. Queria que o motorista intervisse a seu favor.

Quando a discussão termina, passo algum tempo observando o motorista. A maneira como usou de violência e agressividade para desarmar seu oponente me causa um fascínio desconfortável, semelhante ao que tinha quando via o Tyson lutar, por exemplo. E conforme o observo, percebo que essa agressividade parece permear aquele sujeito por inteiro.

A forma como dirige, numa velocidade ligeiramente superior à que parece segura; a forma como fala ao celular, acompanhando as palavras com gestos da mão direita; a forma como se veste, com a calça de microfibra azul arregaçada até o joelho por conta do calor.

Quando olho para o relógio exagerado que o sujeito usa, levo um susto. O sol brilha forte lá fora, mas já são quase nove horas da noite. O fato de ser tão tarde traz alguma preocupação, que se desdobra em outras: Não temos clareza de como faremos para chegar ao nosso destino, por exemplo. Sabemos que em algum momento teremos de tomar o metrô, mas quase nada além disso.

Lançando mão de um idioma que imagino assemelhar-se ao Esperanto Helô conversa com a mulher que viaja ao seu lado. Em poucas frases descobre que ela terá de passar perto do nosso destino, e que se dispõe a nos guiar.

A boa samaritana chama-se Camélia, é natural da romena, e mora na Itália há sete anos. Parece sentir-se desconfortável quando perguntamos sua profissão e explica superficialmente. Ficamos em dúvida se é empregada doméstica, governanta ou secretária.

Camélia fala um italiano carregado de sotaque, o que torna suas frases ainda mais incompreensíveis para mim. Ela, por sua vez, não entende que minha tacanhice mental limita-se ao idioma. Acha que sou completamente estúpido e faz questão de me explicar tudo detalhadamente, com direito a mímicas: como devo colocar o bilhete na catraca, como devo me deslocar pelas escadas rolantes, como funciona o metrô, e assim por diante.

Diz que já ouviu falar do Brasil, por conta do carnaval e eu preconceituosamente imagino que ela tenha bastante preconceito para com os brasileiros. Deve achar curioso o fato de não nos vestirmos com tangas e penas.

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