Antes da Estante

Baldeações, decepções e fascinações (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 7, 2010

Madri/Roma – Cada vez que sento em uma poltrona de avião tenho a impressão de que minhas pernas cresceram. E acho que, se continuar assim, não vou caber no próximo vôo. Imaginava que na Ibéria, uma companhia européia, a situação fosse melhor do que nos teco-tecos nacionais. Doce ilusão. Uma vez sentado e enlatado, qualquer movimento torna-se praticamente impossível. A comida, por outro lado, até que não é má.

E eu fico um pouco fascinado ao imaginar a logística que está por trás desta cozinha que alimenta cerca de duzentas pessoas simultaneamente, numa situação um tanto singular. Verdade que há apenas duas opções de menú, mas estamos voando a 900 quilômetros por hora, a oito quilômetros de altura e minha carne cozida ao molho madeira nem se dá conta disso.

Em nove horas chegamos a Madri, num aeroporto que parece uma cidade de porte médio. Os terminais têm dimensões sobre-humanas e um simples par de pernas não é suficiente para caminhar do desembarque até os guichês de imigração, por exemplo. Por isso boa parte da circulação interna é feita por esteiras rolantes de metal, que fazem os maravilhados turistas do terceiro mundo se sentirem num filme de ficção científica.

Apesar do tamanho descomunal, as indicações são precisas e em nenhum momento tenho o prazer de me sentir perdido. Além disso, o espanhol que se fala por aqui me é cristalinamente compreensível, quase como um sotaque do português.

Em pouco tempo estou voando novamente, num avião menor, mais apertado e aparentemente mais antigo do que o primeiro. Meu corpo inteiro reclama da noite em claro, mas é impossível dormir num avião recheado de italianos e espanhóis. Parece que o idioma deles não funciona se não for gritado em Dolby Surround Sound. Duas horas de feira livre e um copo d’água depois, Roma.

Enquanto espero que minha mochila apareça na esteira de bagagens, sinto uma leve empolgação por estar prestes a pisar no velho mundo pela primeira vez na vida (aeroportos não contam; são todos iguais e deveriam ser considerados espaço internacional).

Por outro lado, aos poucos vou percebendo que não sei falar italiano. E, pior ainda, que não entendo nada do que esse povo fala. Achava que meu sobrenome, que sempre fiz questão de pronunciar corretamente (o “ch” com som de “k”), e minha ascendência 50% italiana, de alguma forma, me dotassem de certo conhecimento do idioma de Berlusconi.

“Até os cachorros entendem italiano por aqui, e você nada”, provoca Mateus, que, com alguns meses de curso, se vira bastante bem.

E já que ele consegue se comunicar, nos sentimos seguros para trocar o táxi pelo ônibus e economizar alguns euros. Motorista simpático, ar-condicionado e nenhum outro passageiro. Groove!

Mas alegria de brasileiro na Europa dura pouco. No primeiro ponto o ônibus já é tomado de assalto por uma horda de homens sujos e mal-trapilhos, que poderiam muito bem estar voltando de um dia de trabalho na construção da Torre de Babel. Subitamente, fala-se uma infinidade de línguas à nossa volta. Dialetos aparentemente africanos e hindús se misturam em conversações incompreensíveis. A partir daí, a cada parada, mais gente se espreme à nossa volta. Italianos são artigo raro por aqui.

Nossa bagagem, que estava espalhada em três bancos, agora se amontoa no corredor e a todo momento tem de ser rearranjada devido ao entra e sai de passageiros. Então, uns vinte minutos depois de deixarmos o aeroporto de Roma, o semáforo abre, o motorista engata a primeira marcha, acelera, mas o ônibus se nega a obedecer. Ele repete a operação. Nada. Ele insiste. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera.

Por uns cinco minutos, ele se desdobra em esforços, brigando com a máquina xucra. Depois desiste. Levanta, volta-se para os seus cerca de cinquenta passageiros multiétnicos e diz o óbvio. O ônibus quebrou. Todos devem descer e esperar pelo próximo.

Sem alternativa, obedecemos. Saltamos em meio àquela horda de trabalhadores que, assim como nós, encontram-se consideravelmente cansados, suados e mau-humorados. Mas apesar de estarmos, por assim dizer, “todos no mesmo ônibus”, os olhares que eles nos dirigem não parecem nada amigáveis.

Não fazemos a mínima ideia de onde nos encontramos realmente. Só sabemos que é longe. Tanto do aeroporto, quanto do centro histórico, onde ficaremos hospedados. Esperamos. Tentamos descolar uma carona com um passageiro que ligou para a mulher buscá-lo. Gentil ele diz que é possível, mas não pode garantir se caberemos no carro com a bagagem.

Assim, após cerca de uma hora de espera, quando o próximo ônibus passa, resolvemos embarcar, junto com nossos companheiros mau-encarados.

Acomodo-me ao lado do motorista, meio em pé meio sentado, com a mochila apoiada sobre o painel do ônibus. O cansaço percorre minhas pernas numa espécie de formigamento que parece emanar de dentro dos ossos.

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