Antes da Estante

É noite em Barcelona

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 30, 2010

Barcelona – Levo algum tempo pra conseguir abrir os olhos por conta do sol que castiga minhas pupilas. Olho para um pôster à minha frente, de onde Kurt Cobain me encara com seu olhar suicida. Levanto a cabeça e topo com outro cartaz, colado na parede atrás de mim. Johnny Depp, encarnando Hunther Thompson em “Medo e Delírio em Las Vegas”, deforma-se numa viagem de LSD.

Com algum esforço me sento no colchão onde passei a noite. O mundo ao meu redor oscila qual um navio pirata à deriva. Ignoro a leve dor de cabeça e me apego à realidade. No chão ao meu lado há uma garrafa de uísque vazia, da qual não bebi; um pote de shampoo, que não usei; e um par de meias sujas, que não me pertencem. Estico o pescoço e olho em volta. No sófá, há um sujeito desconhecido dormindo só de cuecas.

Penso que uma retrospectiva da noite anterior se faz necessária.

Tudo começou no fim da tarde, quando nos separamos: Helô vai passar a noite na casa de Eliot, um amigo de longa data que há anos mudou do Brasil para um povoado próximo à Barcelona. Mateus e eu ficamos na cidade. Dormiremos na casa de Dani, uma amiga jornalista, que nos encontra num café, diante da Casa de Pedra (foto), construída por Gaudí.

Acertada a conta no café, nos despedimos de Helô e vamos até um “Pac” pra comprar uma dúzia de cervejas catalãs. “Pac” é o apelido das lojas de conveniência locais, quase sempre comandadas por paquistaneses, incansáveis trabalhadores que não se apegam a tradições do velho mundo, como a siesta, por exemplo. Depois caminhamos até o apartamento de Dani.

“Aqui é a Liga das Nações”, explica ela antes de abrir a pesada porta de madeira de um apartamento amplo, com pé direito incrivelmente alto, anarquicamente decorado com pôsteres na parede e móveis de segunda-mão. O imóvel tem sete quartos, ocupados por nove jovens de nacionalidades diversas. Lembro do filme “Os Sonhadores”, do Bertolucci.

Sentamos num amplo terraço que se estende além da sala, coisa rara nas exíguas cidades européias. Abrimos três cervejas, e aos poucos os habitantes dessa estranha república vão aparecendo.

Sempre que tento falar espanhol, sinto que estou trapaceando, então prefiro me comunicar em Inglês. Em geral recebo respostas em espanhol, mas durante a noite, também pipocam frases em catalão, belga, italiano e não sei dizer o que mais.

Na segunda rodada de cervejas, Co aparece com uma tela, tintas e pincéis. Apóia o quadro no chão, coloca uma fotografia de um busto nu de mulher sobre a coxa, e começa a pintar enquanto me fala de sua terra natal, a Bélgica. Tenho vontade de conhecer Bruges.

A conversa segue animada, e quando nos damos conta já passa da meia-noite. Ainda não me acostumei ao fato de que o pôr-do-sol nessa época não acontece antes das 22h, e sempre acabo perdendo a conta do tempo. Saímos para comer, antes que os restaurantes fechem. Vamos: Co, Dani, Mateus, Robi (uma guria italiana doidinha de tudo) e eu.

Sentamos numa mesa pequena na calçada. Pedimos uma porção variada de tapas, mas antes que a comida chegue, o garçom me trás um pequeno balde de cerveja. Um litro de cevada catalã, servido num copo plástico que requer duas mãos para ser erguido. Bebemos, comemos e conversamos, embolando cada vez mais os idiomas. Robi está particularmente feliz, porque é a noite de seu aniversário. Brindamos a Robi, que, para mim, já se transformou em Robin. Quando o restaurante está fechando, pagamos a conta e saímos caminhando.

Barcelona é uma cidade receptiva, que se abre como um imenso bulevar, ladeado por prédios charmosamente baixos e antigos. Caminhar de madrugada por um beco escuro não traz qualquer sensação de insegurança, por aqui.

Depois de uma meia hora, chegamos ao Harlem, um bar de jazz, escuro e escondido numa ruela estreita. Passa das três da manhã quando entramos, e a música ao vivo já acabou. Mesmo assim, sentamos. Há apenas duas outras mesas ocupadas e Robin faz questão de juntar todas. O casal que estava numa delas, declina do convite, mas os outros, conhecidos de Dani, acatam a sugestão.

Robin, qual uma verdadeira super-heroína, traz bebidas para todos. Tomo uma vodka, pra rebater o cansaço. Puxo conversa com uma garota ao meu lado. Pergunto de onde ela é.

– Daqui – reponde.

– Espanha? – pergunto eu.

– No, Cataluña! – responde orgulhosa.

Robin me traz outra vodka. Depois um uísque. Conversamos mais, e já não me sinto trapaceando quando falo espanhol. Parece muito cedo ainda, mas o garçom traz a conta. Só tenho 50 euros e sou o primeiro a colocar a nota sobre a mesa. Os outros me pagam o que acham que devem. Enfio tudo na carteira, sem me preocupar em contar. O garçom pede que levantemos pra ele poder virar as cadeiras. Vamos para o balcão, mas o barman diz que temos de sair. Pedimos copos descartáveis, ele diz que não tem, então saímos com nossas bebidas nos copos de vidro.

Caminhamos. Passa das cindo da manhã, mas há muita gente nas ruas. Robin reclama do calor e tira a blusa. Caminha só de sutiã. Dani não acha má ideia e faz o mesmo. Nada como caminhar de madrugada no verão de Barcelona, com meu copo de uísque em mãos, escoltado por duas belas garotas seminuas. Tento imaginar a mesma cena em São Paulo.

Voltamos para a varanda, abrimos outra rodada de cerveja. Robin acende um baseado que exala vapores de gás do medo. Passa das seis da manhã. Espanhol, inglês, catalão e português tornam-se igualmente incompreensíveis para mim. Hora de dormir.

***

Mais tarde no dia seguinte, curada a ressaca, Mateus e eu nos despedimos de todos para ir ao encontro de Helô. A cidade em que ela está fica a cerca de uma hora de trem de Barcelona. Antes de sair, acho por bem conferir quanto de dinheiro sobrou na minha carteira. Conto as notas amarfanhadas e a soma dá exatamente 50 euros. O que prova que, também no mundo da boemia, é dando que se recebe.

Anúncios

Freiras e suicidas

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 29, 2010

Nice – Uma pessoa se suicidou jogando-se diante de um trem e atrasou todas as saídas. Mas logo limpam os trilhos e os que continuam vivos podem seguir viajando. Sento-me diante de uma freira.

É uma senhora de meia idade. Tem a cabeça descoberta, deixando à mostra os cabelos grisalhos, aparados bem curtos. Usa um hábito branco levemente encardido, um pesado crucifixo de prata, e uma bolsa preta de nylon. Sua muito por conta do calor, e o tempo todo enxuga a testa com um lenço branco.

Parece ser uma pessoa realmente boa, a freira. Imagino o que ela pensa sobre o suicídio, se para ela a alma do homem que se matou há pouco merece sofrer no limbo eterno. Depois fico pensando em como ela teria sido quando moça, se em algum momento da vida teve uma vida sexual ativa. A castidade me parece incompatível com seu espírito alegre, cheio de energia.

Do lado de fora da janela, as praias de pedra deslizam monotonamente. O sol forte desbota o azul do mar que está liso como se fosse sólido.

Janelas

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 29, 2010

Nice

Quando tudo está perdido…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 27, 2010

É sempre assim: quando as opções parecem ter se esgotado, quando um banco de praça ou a embaixada brasileira parecem ser a única saída, alguém aparece pra ajudar. Foi assim com Camélia e o ônibus quebrado em Roma, foi assim com a brasileira e a greve de ônibus em Ventimiglia, e foi assim com o posto de gasolina em Nice. Mas, comecemos do começo.

O começo é mais um aluguel de carro. Um Spark, modelo novo da Chevrolet que ainda não chegou ao Brasil, uma espécie de Celta com aspirações a Smart. Mas, enfim, alugamos o carrinho, passamos todo o dia percorrendo as bucólicas cidadelas medievais ao redor de Nice, até que resolvemos voltar.

E, como geralmente ocorre nas locadoras, temos de devolver o carro com o tanque cheio. Sem problemas. É só parar ao lado de um taxista, descobrir o posto mais próximo e pronto, certo? Errado. As tarefas mais simples adquirem complexidade inacreditável quando se está em um país desconhecido.

Ninguém parece precisar abastecer o carro nessa cidade e gastamos uma hora até encontrarmos o primeiro posto de gasolina em Nice. Mas, como passa um pouco das 21h de um domingo, o posto está fechado. Mesmo assim pego uma das bombas, enfio no tanque do carro e aperto o gatilho. Evidentemente que não sai nenhuma gota de gasolina. Olhamos em volta. Um leve desespero paira sobre nós.

Helô vai até a loja de conveniência, que, claro, está fechada. Cola bem o rosto no vidro e vê que há alguém lá dentro. Bate na porta. A mulher, uma negra com dentes reluzentes, se aproxima e faz um gesto com as mãos dizendo o óbvio: que a loja está fechada. Helô continua a bater na porta. A mulher segue fazendo gestos em negativa. Helô passa a esmurrar a porta. Lethea finalmente se cansa e abre a porta. Explicamos a situação a ela e pedimos, imploramos, que nos venda gasolina, mas ela diz que não tem como ligar as bombas. Perguntamos por outro posto, e ela leva as mãos à cabeça.

Trazemos o mapa da cidade. Ela olha, diz que não é boa com mapas, mas diante de nossa desolação, toma uma atitude um tanto surpreendente. Propõe-se a nos levar até o posto. Por alguns instantes tentamos dissuadi-la da ideia, dizer que não é necessário, mas logo aceitamos, mesmo por que não há outra saída à vista.

Lethea, que a essa altura já sabermos ser do Senegal, entra no carro e explica o caminho. Não é tarefa fácil seguir suas indicações, que vêm em francês, idioma que não entendo, acompanhadas de gestos, que não enxergo, já que ela vai no banco de trás. Mas depois de uns vinte minutos rodando pelo harmonioso, charmoso e garboso arruamento de Nice, finalmente encontramos um posto aberto.

Depois, como compensação, nos oferecemos para levar Lethea até sua casa, mas ela diz que tomará o trem de superfície no mesmo ponto que a gente. Deixamos o carro no estacionamento, e nos dividimos. Eu vou deixar a chave no “quick-drop” da agência, Mateus e Helô vão com Lethea pegar o trem.

Mas conforme eles caminham, Lethea começa levá-los para uma direção diferente da parada do trem. Mateus e Helô estão em Nice há três dias, e conhecem a cidade o bastante para saber que estão indo no caminho contrário. Lethea fala ao celular pela segunda vez e é o bastante para os dois começarem a desconfiar.

Helô se põe nervosa, não sabe bem como agir. Então, como quem não quer nada, pergunta a Lethea se a parada do trem não é em outra direção. Claro que sim, diz Lethea, só estava levando os dois para conhecerem alguns pontos turísticos da cidade.

Quer moleza, senta no pudim

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 25, 2010

Nice – Deixamos Florença no meio da manhã, rumo a Nice, no Sul da França. Vamos de trem até uma pequena cidade próxima à fronteira, Ventimiglia, onde faríamos uma baldeação. Chegamos lá por volta das 17h, quando somos brindados com a soberba notícia de que, por conta de uma greve, não haverá mais trens. A estação está fechada. Simples assim.

Pra piorar, não somos os únicos. Deve haver uns 500 turistas na mesma situação, e a cidade não chega nem perto de ter infra-estrutura pra abrigar toda essa gente.

Em alguns minutos os hotéis no entorno da estação estão lotados. Taxis cobram no mínimo 100 euros (pouco de mais de R$ 200) por uma corrida até Nice, que fica a algumas dezenas de quilômetros.

Sem grandes aflições, saio em busca de alguém que me explique como chegar ao balneário de Nice. Entro num primeiro hotel e pergunto se a recepcionista fala inglês. “Français”, é a resposta. Agradeço e vou para o próximo, onde sou consideravelmente melhor recebido. Troco algumas palavras em inglês rudimentar, até que a atendente me pergunta de onde eu sou afinal. Quando respondo, ela sugere que, para facilitar as coisas, falemos português. É de Bragança Paulista, a guria.

Prestativa, ela se dispõe a me levar até o ponto onde passa o ônibus que nos levará até a fronteira. Antes, vai comigo a uma banca de jornal, e me ajuda a comprar os bilhetes. Depois vamos ao encontro de Helô e Mateus, que esperam na estação com as malas.

Chego todo empolgado e apresento nossa salvadora. Conversamos alegremente em português. Enquanto isso, parado ao nosso lado, há um garoto magro e branquelo, espiando tudo com o canto dos olhões grandes. Quando percebe que a curiosidade do moleque é ligeiramente maior do que a usual, Helô volta-se para o lado e pergunta para onde ele está indo, em português mesmo.

– Pra Nice ­­– ele responde se colocando tímido.

– Está com seus pais?

– Estão lá na estação, tentando descobrir de onde sai o ônibus.

– Então vai lá, diz pra eles que a gente sabe.

Era só a deixa que o garoto estava esperando pra sair correndo no meio dos turistas. Um pouco depois, todo orgulhoso por ter achado a solução e salvado o dia da família, Ian volta correndo seguido pelos pais carregados de malas. Durante as horas que se seguiram, viajamos juntos.

Tomamos um ônibus até Menton, onde atravessamos a fronteira a pé, cada um com sua mochila nas costas ou arrastando as malas de rodinhas feito um exército de retirantes. Já na França, tomamos outro ônibus que vai serpenteando pelas encostas da Côte D’Azur, um caminho que me lembra muito a Ilha Bela. Passamos por Monte Carlo, Mônaco e outros lugarejos endinheirados, onde tudo parece ter sido herdado de alguém.

Cinco horas depois de termos desembarcado em Vintemiglia finalmente largamos as malas na recepção do nosso hotel. As boas novas continuam. Estamos num quarto sem ar-condicionado (sendo que a temperatura beira os 40º) e sem café da manhã. Bufamos exaustos, mas falta energia pra discutir. Apenas aceitamos a situação. Subimos de elevador e quando entramos na pequena estufa onde teremos de passar a noite, topamos com uma imensa e jocosa cama de casal.

Volto à recepção. Digo ao velho senhor atendente que reservamos um quarto com três camas de solteiro, não com uma cama de casal e uma sobressalente. O homem pede desculpas, mas diz que o hotel está lotado e não há o que fazer. Tento me pôr nervoso, mas novamente não tenho energia. Subo, entro no quarto, dou uma conferida na cama. Mais uma surpresa. Há apenas um lençol forrando o colchão e um grosso edredom.

Por Napoleão, quem dorme com edredom num forno como aquele!

Desço novamente e posto-me diante do senhor da recepção. Espero ele acabar de falar ao telefone. Depois peço que ele me arrume três lençóis. Ele entra por uma porta, volta algum tempo depois, e diz que não há lençóis. Sente muito, mas não pode fazer nada. Baixo a cabeça em sinal de completa derrota. O recepcionista dá dois ou três tapinhas nas minhas costas a título de consolo. Ao menos é simpático. Não resolve nada, mas é simpático.

Depois de instalados, carregamos o que restou de nós mesmos até o restaurante mais próximo. Então vem a recompensa. Não há alegria maior do que algo dar certo depois de tudo ter dado errado. Acabamos num bistrozinho charmoso, com mesas ao ar livre, espalhadas por um simpático bulevar.

O dono e garçom, um sujeito baixo, careca e hiperativo, fala uma porção de línguas e em pouco tempo nos traz um vinho branco que desce como veludo gelado. Pedimos o prato do dia: cordeiro, batatas e legumes. Tudo fresco, temperado com sotaque francês.

Infelizmente não tenho nenhuma metade francesa na minha ascendência. Mas se tivesse, ela certamente estaria rindo da metade italiana. (ver dois post antes)

Tagged with: , , , ,

Outro lado

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 23, 2010

Florença – Depois de falar tão mal da comida italiana no post anterior, e sabendo que em breve farei mais críticas ao italian way of life, sinto-me na obrigação de ressaltar alguns pontos positivos.

O sorvete fez valer a fama. Provei vários, e nenhum decepcionou. Houve alguns casos de considerável deleite, como quando nos arriscamos a um engodo turístico, no Café Vivoli, tido por certos críticos como a melhor sorveteria do mundo. Sempre que topo com dizeres como “o melhor do mundo”, tendo à desconfiança. Mas nesse caso o pé atrás felizmente não se justificou. O sorvete de pistache (que não tem corantes nem aditivos por isso é bege e não verde) talvez tenha sido realmente o melhor que comi na vida.

Presunto cru e mussarela fresca também não fizeram feio. As frutas, em especial pêssegos e cerejas, expostas em vendas na calçada – onde é pecado dar aquela apalpadela tão dona-de-casa-brasileira – são baratas, graúdas e suculentas.

Além disso, tive surpresas agradáveis em algumas bibocas e botecos. Num deles, uma portinha de garagem em Roma, comi um enroladinho de linguíça, batata e espinafre que talvez tenha sido o melhor da Itália em termos gastronômicos.

Por último, mas certamente não menos importante, temos o vinho. Em todos os restaurantes em que chegávamos, a primeira coisa era pedir um vinho da casa, geralmente branco por conta do calor. E nunca, nem nos locais mais turísticos, me serviram algo que não fizesse frente aos chilenos e argentinos vagabundos com os quais estou acostumado.

Isso me faz pensar que talvez haja salvação para este país.

Três vivas para a pizza paulistana!

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 22, 2010

Florença – Em honra a meus ancestrais, quando o assunto era pizza, sempre fiz questão de me apegar às tradições. Até me arrisquei, às vezes com certo prazer, a experimentar bordas recheadas de cheddar, coberturas de frango com catupiry, calabresa com ovo, e tomate seco com rúcula. Também abusei, confesso, de pizzas entregues na calada da noite por motoboys que não traziam nem uma lembrança de sotaque mooquense.

Mas, diante de tão terríveis distorções, minha porção italiana sempre fazia questão de tomar uma posição clara: pizza, só em três ou quatro endereços de São Paulo, servidas em não mais do que dez sabores. A massa tem de ser grossa, mas não em demasia, com borda crocante por fora, macia e aerada por dentro. Deve haver porções generosas de molho de tomate, colocado cru sobre a massa, o que lhe confere uma aparência rosada após o forno, sempre à lenha. A cobertura, não deve ser exagerada, de forma que porções de molho sejam visíveis a olho nu.

O restante, pode até ter gosto bom, mas não é pizza. Panqueca assada, talvez.

Uma das primeira coisas que fiz quando cheguei à Itália, portanto, foi ir atrás de uma pizza que satisfizesse minha metade italiana. Que decepção! Sem dúvida uma das maiores da minha vida.

Na verdade, tudo levava a crer que seria assim, pois desde que chegamos só comemos mal na Itália (com exceção de lanches rápidos, frutas e do restaurante onde Gina trabalha, que não serve comida italiana). Lasanha com massa mole coberta de molho branco com gosto de farinha crua, nhoque massudo, bisteca fiorentina sem gosto e muito mal-passada, molho de salmão rançoso carregado no creme de leite e assim por diante.

Importante ressaltar, contudo, que em todas essas ocasiões, eu e minha porção italiana tentamos nos convencer de que a tosquice devia-se ao fato de estarmos em lugares turísticos. Não é preciso cativar clientes no centro histórico de Veneza. Por pior que seja a comida, no dia seguinte haverá outro turista trouxa, pronto pra pagar 12 euros por uma lasanha de microondas.

De qualquer forma, apesar das baixas probabilidades, tinha fé de que, com a pizza, as coisas seriam diferente. E isso só aumentou minha dor diante da realidade desoladora.

Primeiro, os eleitores de Berlusconi não têm o mínimo respeito pelo sagrado manjar. Em qualquer boteco vendem pedaços de pão achatado com o que tiver em cima, e chamam aquilo de pizza, na cara dura. Esses infiéis chegaram, inclusive, ao descaramento de inventar uma máquina de pizza. Como se fosse comprar uma Coca Cola, o sujeito insere uma moeda de dois euros, e sai mastigando pelas ruas, completamente alheio à tradição.

Mas minha decepção foi maior diante do que me serviram em estabelecimentos que se diziam tradicionais. Um deles se arvorava do título de restaurante mais antigo do mundo, imputando-se mais de 500 anos de existência. Leonardo da Vinci reunia-se ali com os amigos, jactava-se um texto na primeira página do cardápio.

Pois bem, sentei-me nas ilustres cadeiras e nem tive de pensar para me decidir sobre o que comeria – diferentemente do Brasil, a pizza na Itália é individual e um pouco menor. Em busca da harmonia que só existe na simplicidade, pedi uma marguerita, sem dúvida uma das maiores invenções da humanidade.

Que desgosto! A massa era fina como uma panqueca. Queimada de um lado, crua do outro. O molho, apesar de abundante, tinha gosto de extrato de tomate. O queijo estava borrachento e gorduroso. E, que pasmem meus ancestrais, não havia nem sinal de manjericão.

Portanto, caros compatriotas paulistanos, vida longa a Speranza, Bráz, e Castelões!

Bate-e-volta na Áustria (final)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 21, 2010

Veneza – O policial se aproxima e eu vou despejando documentos sobre ele: contrato de aluguel do carro, passaporte, habilitação brasileira e habilitação traduzida para o italiano. Ele recolhe tudo, vai até a viatura, fica lá por alguns instantes, depois volta e pede que eu desça do veículo.

Obedeço, e caminho atrás dele até o carro de polícia. Ele então se vira para mim com um estranho dispositivo na mão e pergunta: “no álcool?”

Tentando convencer meu próprio organismo de que aquele meio litro de cerveja austríaca não existiu, juro solenemente que não bebi nada. O policial, como bom homem da lei, não acredita em mim, espeta o equipamento a um palmo do meu rosto e manda que eu assopre com força, a uma distância de alguns centímetros.

Trago uma boa quantidade de ar, enquanto considerações sobre a possibilidade de ser deportado, de ter de pagar uma multa milionária ou de acabar conhecendo as masmorras venezianas se multiplicam entre meus pensamentos. Depois assopro bem de leve, rezando pro bafômetro me dar uma colher de chá. Mas o aparelhinho, que devia ter algum parentesco com a maldita máquina do pedágio, apita todo irritado, piscando luzes coloridas.

Aparentemente compreensivo, o policial manda que eu assopre com mais força. Eu obedeço e dessa vez a maquininha fica em silêncio por algum tempo. Por um longo tempo. Depois pisca uma luz laranja, e por fim, verde. Verde me parece um bom resultado. Melhor só se fosse azul, imagino eu.

O policial também parece pensar assim. Mais relaxado, faz uma piada sobre a eliminação do Brasil na copa. Não compreendo completamente e ele dá de ombros. Anota alguma coisa num formulário preso a uma prancheta e me devolve os documentos.

Com os joelhos levemente amolecidos, reassumo o comando do veículo que, só de birra, apita porque esqueci de colocar o cinto de segurança. Passa um pouco das dez horas da noite, a temperatura beira os 30º e ainda não escureceu completamente em Veneza.

Tagged with: , , ,

Bate-e-volta na Áustria (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 20, 2010

Silian – O posto de fronteira entre a Itália e a Áustria não passa de um guichê de metal enferrujado, vazio e abandonado. Provavelmente está sem uso desde o estabelecimento da União Européia. Depois da fronteira, onde não temos de parar ou mostrar qualquer documento, seguimos por uma série de pequenos povoados, bucólicas cidadezinhas espalhadas por verdes pradarias, cercadas por montanhas que, no inverno, atraem esquiadores de todo o Velho Mundo.

Passa um pouco das cinco da tarde, os sanduichinhos e cerejas já não passam de uma remota lembrança, por isso encosto o carro ao lado do que, para meus olhos brasileiros, se parece com uma típica estalagem austríaca. Atrás do restaurante e pousada, encarapitado no alto de um morro não muito alto, há um imponente castelo medieval.

Helô e Mateus esperam no carro enquanto saio para explorar o ambiente. Vou me esgueirando devagar pela entrada ampla do casarão. As tábuas antigas do assoalho rangem a cada passo e não há ninguém no primeiro salão. Entrepidamente sigo adiante.

No segundo salão também não há clientes nas mesas. Mas no final do balcão do bar, ao lado de uma imponente máquina de cerveja, um senhor magro e comprido me fita com ar de curiosidade. Descansa o braço direito sobre o tampo de madeira escura, a mão acariciando de leve um avantajado copo de cerveja. Entre os dedos médio e indicador, um cigarro queima preguiçosamente, liberando uma fita esbranquiçada de fumaça.

Quando paro diante do balcão ele levanta-se solenemente e me saúda com um sorriso cordialmente simpático. Peço para olhar o menú, e ele diz que a cozinha só abrirá em meia hora. Mas, ao contrário do que provavelmente aconteceria se estivéssemos na Itália, o estalajadeiro me diz isso de forma extremamente cortês e acolhedora. Tanto que me sinto à vontade para arriscar algumas frases em alemão (idioma que, diga-se de passagem, não sei falar). Para minha surpresa elas são compreendidas.

Quando pergunto se podemos tomar uma cerveja enquanto esperamos, ele me responde como um sorriso afirmativo de cumplicidade. Sinto que acabei de firmar uma amizade genuína. Vou até o carro, chamo Mateus e Helô e pouco tempo depois estamos refestelados nas cadeiras acolchoadas, cada um diante de uma caneca com meio litro de cerveja austríaca.

O estalajadeiro, cujo nome vergonhosamente esqueci, informa que estamos no povoado de Silian e, com um misto de orgulho e tristeza, conta que o castelo no topo do morro pertenceu a sua família, mas foi vendido há alguns anos.

Depois pacientemente nos ajuda a decifrar o cardápio. Pedimos um prato para duas pessoas, que serve a nós três com folga: bisteca de porco, frango empanado, linguiça, bacon, legumes cozidos, batata, bolinhos variados, arroz e frutas.

Simples e saborosa, a refeição é uma bênção diante das frustrações gastronomicas dos últimos dias. Em pouco mais de uma semana, a melhor comida que comi na Itália, foi na Áustria (voltarei ao assunto em breve).

Pra completar o banquete, café e um strudel de mação com nozes que vem fumegando, direto do forno, acompanhado de uma generosa porção de chantili. Massa aveludada de manteiga, pedaços de maçã envoltos numa calda não muito doce, pontuados por minúsculos grãozinhos de nozes moídas.

No final do cardápio há detalhes sobre a hospedaria que funciona naquela mesma casa. Um quarto de 70 metros quadrados, com direito a cozinha e lavanderia, sai mais barato do que a espelunca que nos aguarda em Veneza. Por alguns instantes consideramos a hipótese de passar mais alguns dias naquela cidadela perdida entre as pradarias austríacas, mas temos um planejamento a seguir.

Duzentos quilômetros e algumas horas depois estamos novamente nas imediações de Veneza. Quando faltam cerca de 20 minutos para chegarmos ao local de devolução do carro, paro num pedágio e passo alguns longos instantes brigando com a máquina de cobrança. Marrenta e mal-educada, ela cospe meus cartões de crédito e desdenha de nossas cédulas amarfanhadas. Só se dá por satisfeita quando lhe alimentamos com uma interminável coleção de moedas, a muito custo garimpadas nos bolsos, bolsas e pochetes.

Ando alguns metros depois que a cancela se abre, mas logo sou obrigado a parar novamente, diante dos acenos de um Carabinieri que certamente desconfiou de tanta dificuldade com o pedágio. Lembro do meio litro de cerveja que, há algumas horas, desceu despreocupadamente por minha goela abaixo.

Continua …

Na Revista Piauí deste mês…

Posted in Piauí by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Vai uma prece aí, freguesa?

Neste enregelado anoitecer de junho, ao volante de seu moribundo Fiat Uno, Maria Lopes, de 57 anos, é só desolação. As bijuterias que vende para garantir o sustento foram furtadas de sua casa, ela acaba de sair da delegacia, não tem esperanças de que a justiça terrena interceda a seu favor e, perfeitamente derrotada, se vê presa num congestionamento descomunal na Vila Mariana, em São Paulo?- especificamente, no trecho mais largo da Domingos de Morais.

De repente, nesse mar vermelho de luzes de freio, lá vem coisa. Um rapaz parece caminhar bem em direção a Maria. Como um Moisés pós-industrial que partisse o oceano de carros, ele ergue um cartaz acima da cabeça: “Nunca diga não para uma oração.” Frequentadora ocasional de templos evangélicos, Maria não poderia estar mais de acordo. Jamais recusaria um tête-à-tête com o Criador, ainda mais na atual conjuntura.

Cem arrastados metros adiante e o seu agonizante Unozinho é cercado por um coletivo de jovens evangélicos que agitam os braços e distribuem panfletos. Outros tantos metros e já não resta dúvida: o Senhor chama. Apenas que, enjoado de se fazer anunciar por arbustos em chamas, pombas alvíssimas ou trovões tonitruantes, dessa vez Ele optou por uma singela faixa que duas belas jovens fiéis seguram com circunspecção: drive-thru de oração?- receba uma oração sem sair do carro.

Continue lendo…

Tagged with:

Bate-e-volta na Áustria (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 19, 2010

Veneza – Alugamos um carro. Pedimos o mais simples que tinha e levamos um Citroên C3 com ar, direção e computador de bordo. Ainda acho que não há forma tão divertida de viajar quanto de carro (de moto, talvez, mas creio que em pouco tempo eu acabaria me estropiando). São raros os meios de transporte que propiciam tanta liberdade e interação com o mundo.

Vamos ainda mais para o norte da Itália, até Cortina D’Ampezzo, uma cidadezinha conto-de-fadas com casas de telhado pontudo, cercada por montanhas de dolomita ­– formação rochosa com enormes escarpas cor de areia, que mudam a tonalidade ao longo do dia.

Caminhamos um pouco por trilhas no entorno da cidade, comemos uns sanduíches surrupiados mais cedo do café da manhã no hotel, e compramos cerejas e amoras numa venda onde tudo parece pedir uma dentada.

Depois voltamos para o carro e vou dirigindo meio sem rumo, por uma estradinha sinuosa que se espreme entre as montanhas, cantando aquela canção tradicional dos viajantes italianos: la donna è mobile, con vostro automòbile!

A temperatura vai caindo conforme a altitude aumenta, o que é extremamente agradável para nós, que passamos os últimos dias derretendo num calor de mais de 30º. No alto das montanhas, além do verde claro das copas dos pinheiros, é possível avistar manchas brancas de neves eternas. A estrada é tão bonita que continuamos em frente, meio sem rumo até que começamos a notar certas peculiaridades à nossa volta. A primeira delas: “Pizzaria Hans”. Depois, as placas de trânsito passam a apresentar-se em italiano e alemão.

Encafifado com a situação, paro no acostamento, diante de um lago de pacatas águas azuladas. Me aproximo de um senhor de idade que, vestindo um chapéu de feltro verte, recolhe seu equipamento de pescaria. Usando todos os meus recursos linguisticos (que, necessário deixar claro, não são tantos) pergunto que país é aquele afinal.

Ele parece um tanto surpreso com a pergunta, o que é bastante compreensível. Mas por fim, misturando italiano, alemão e inglês, me explica que estamos na parte sul da região conhecida como Tirol. Ainda na Itália, mas muito perto da fronteira com a Áustria. Mudo meu repertório lírico de la donna è mòbile para aquela velha canção tiroleza: tira o lei-í-ti, e vou adiante.

Antes de dar a partida novamente no nosso levemente afeminado C3 branco, nos entreolhamos os três com a mesma ideia em mente: vamos para a Áustria.

Quando a esmola é pouca…

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 16, 2010

Veneza ­– Em frente à Basílica di Santa Maria della Salute há uma velha pedinte. Ela fica sempre ajoelhada, com a cabeça encostada no chão e as mãos juntas implorando, numa posição bastante impressionante.

Quando as pessoas passam diante dela para visitar a igreja, decorada com telas do Ticiano, ela geme alto, como se sentisse dor.

Passando diante dessa figura, Helô enfiou a mão no bolso e contou as moedas que tinha. Era pouco, algo como cinquenta centavos de euro, mas o único dinheiro trocado às mãos. Helô juntou as moedas e colocou no chapéu de esmolas.

A mulher ergueu-se, contou o valor, depois se levantou, pegou uma moeda de um euro e ofereceu para Helô, com o rosto irônico e sorridente. Parecia realmente feliz ao desdenhar o baixo valor da esmola.

Tagged with: , , ,

Veneza

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 15, 2010

Veneza ­– Nunca estive numa cidade tão bonita como Veneza. As ruas de pedra são ladeadas pelas fachadas antigas das casas, hotéis e restaurantes que se emendam uns nos outras formando uma espécie de muro cheio de becos e esquinas. Algumas dessas vielas medem apenas meio de largura, outras têm passagens em túneis por debaixo de prédios de tijolo aparente.

Eu, que já sou naturalmente perdido, só ando por aqui com o mapa na mão. Mas turistas andando assim, com o mapa aberto a um palmo do rosto, estão por toda a parte em Veneza. E mesmo quando o mapa não é suficiente, não há grandes problemas. É um prazer estar perdido em Veneza.

Ao contrário do que se fala, a cidade não fede a esgoto, pelo menos não nessa época. Os canais de água esverdeada parecem consideravelmente limpos, e cheguei a ver peixes num deles.

As ruas também são quase todas impecavelmente asseadas. Há vasos de flores nas janelas, e, nos canais, os postes para amarrar barcos são pintados em espirais coloridas, como pirulitos gigantes.

Às vezes tenho a impressão que estou numa cidade cenográfica. Sentimento parecido ao que experimentei nas vezes em que estive, por exemplo, em Parati ou em Tiradentes; de que há uma porção da cidade conservada e maquiada, com função exclusivamente turística.

Mas em Veneza é diferente. Primeiro porque o centro histórico é enorme em comparação com as outras cidades. Não sei dizer se é possível percorrer todo ele a pé. Além disso, a cidade realmente acontece por aqui. Há pessoas morando, donas de casa pendurando a roupa no varal, jovens ragazzas levando o cachorro pra passear e funcionários públicos fazendo a leitura de água e gás.

James Cameron não chega nem perto

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 14, 2010

Roma – Chapéus panamá fajutos, camisas coloridas, bermudas folgadas, papetes, garrafinhas d’água, guias e máquinas fotográficas. Este é o layout básico da inacreditável quantidade de turistas; de jovens, crianças, velhos, anões, japoneses, russos, americanos, brasileiros; dessa pacífica e globalizada horda de viajantes que, sob o escaldante sol do verão europeu, se amontoa e se derrete numa fila de cinco ou seis quarteirões diante do Museu do Vaticano.

Quatro horas é o tempo médio que se gasta para ter acesso a alguns dos maiores ícones da história da arte, em especial ao teto da Capela Sistina.

Pagando alguns euros a mais, contudo, havíamos feito reserva pela internet, ainda no Brasil e pulamos a fila. Mas mesmo se não tivesse sido assim, mesmo se tivéssemos de nos acotovelar naquela multidão de turistas-de-uma-semana rescendendo a protetor solar e desodorante barato, mesmo se tivéssemos passado toda a manhã declinando ofertas de guias de viagem poliglotas, mesmo assim, teria valido a pena.

A primeira visão do teto da Capela Sistina é tão impactante que um pouco depois da porta há um guarda ordenando que as pessoas andem para o centro do salão. E se ele não tivesse me obrigado a sair do caminho eu teria realmente permanecido ali, diante da porta, parado com a cabeça erguida, boquiaberto diante da beleza das imagens que saltam de um fundo intensamente azul.

Michelangelo passou anos pintando o que pode ser visto como um resumo da história da humanidade contado por um cristão. No centro do teto está a cena da criação do homem, e, num imenso painel central, o maior de todos os conjuntos de pinturas, o dia do juízo final.

Não há iluminação artificial na Capela, a luz entra por grandes vitrais, no alto das paredes laterais. As janelas do fundo do altar foram emparedadas para dar mais espaço às criações de Michelangelo, e assim aquelas imagens foram condenadas a boiarem numa penumbra eterna.

Curioso pensar nisso, em como a decoração, patrocinada pela igreja, descaracterizou completamente o espaço. Não há altar nem bancos com genuflexórios por ali. E nas horas que passei lá dentro, não ouvi uma prece sequer. Apenas um murmuro constante da multidão de turistas, que nunca deixa de abarrotar a capela. O local que Michelangelo certamente pensou como um espaço de veneração, está eternamente lotado.

De tempos em tempos, os grupos de viajantes acabam esquecendo que estão num templo, e as conversas vão se tornando progressivamente mais ruidosas, até que aquele guarda parado diante da entrada ordena silêncio num vigoroso “ssssshhhhhhhh”.

Vez ou outra, quando alguém não resiste e saca a máquina digital para criar sua própria reprodução dessas imagens já tão reproduzidas, é dele também a tarefa de berrar em inglês macarrônico: “no fotos, no pictures”.

Mas nem as intervenções do bedel nem a multidão de turistas é capaz de enfraquecer o impacto causado pela pinceladas de Michelangelo. E nos dias que se seguiram à minha visita à Capela, vez ou outra, flashes dos seres macabros e celestiais cercados de azul se impuseram entre os meus pensamentos.

E se no mundo Imax 3D de hoje aquelas imagens causam tanto assombro, fico pensando o efeito que tiveram na época em que foram criadas.

O império contra-ataca

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 13, 2010

Roma – Roma está sempre ali, gritando, exigindo atenção. Não é possível caminhar por suas ruas ou calçadas sem que, a cada passo, a alma da cidade se faça presente. Certamente isso se deve em parte ao fato de eu ser turista, mas tenho certeza de que essa sensação está presente mesmo nas pessoas que nasceram na cidade.

Para onde quer que se olhe, obras de arte espocam na retina fazendo com que depois de algum tempo, a beleza elegante e inequívoca das esculturas renascentistas se torne algo corriqueiro. Mas não é. O paralelepípedo onde você tropeça ao passar da faixa de pedestres para a calçada provavelmente já estava ali quando Michelângelo ainda usava fraldas, e ensaiava suas obras primas esculpindo na papinha de bebê.

Tudo é história, tudo é único e singular, e tudo parece remeter ao tempo em que se comandava o mundo daquela cidade. Os romanos sabem disso e a cada gesto fazem questão de deixar claro que são os habitantes da sede do extinto império romano. Aliás, a julgar por sua altivez prepotente, para um número considerável de romanos, o império ainda não acabou.

Tagged with: , , ,

Baldeações, decepções e fascinações (parte 4)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 11, 2010

Roma – Gina abre a porta sorridente, diz que estava preocupada, pergunta por que demoramos tanto e nós contamos nossas aventuras no transporte público italiano. Gina e eu estudamos juntos por oito anos, da primeira série ao final do colegial. Nunca fomos amigos muito próximos, mas sempre nos demos bem, e esse tempo todo de convivência nos conferiu alguma intimidade e nos livra de silêncios desconfortáveis.

Gina vem de uma família deliciosamente maluca, um matriarcado comandado por Loira, uma cenógrafa mundialmente famosa por promover festas incríveis na sua casa da Granja Viana. Helô sempre foi amiga da Loira, e nossas famílias passaram algumas férias juntas.

Uma vez, na Bahia, estávamos todos na praia, num dia comum. Loira olhou um barco que se preparava para zarpar, voltou-se para Helô e perguntou se a traineira ia para a ilha de Boipeba. Antes de ouvir a resposta, vestindo um biquini apenas, ela mergulhou no mar, nadou algumas dezenas de metros e subiu a bordo. Boipeba ficava a cerca de quatro horas de viagem e Loira só voltou no dia seguinte, com a naturalidade de quem foi até a padaria.

Gina puxou um bom tanto da excentricidade e desprendimento da mãe, e há anos mora sozinha num pequeno apartamento em Roma. É uma joalheira realmente talentosa e, pra complementar a renda, trabalha como garçonete duas noites por semana num restaurante exatamente embaixo de sua casa.

Nesses primeiros dias, ficaremos divididos. Eu durmo num sofá-cama na Gina, Helô e Mateus num quarto de hotel no mesmo andar. O prédio todo já pertenceu ao lado paterno da família de Gina. Aos poucos os apartamentos foram sendo vendidos e agora só sobrou um, que foi subdividido. A parte maior está alugada e a menor, com pouco mais de vinte metros quadrados, é onde minha ex-colega vive atualmente. Um lugarzinho ajeitado, com móveis antigos, flores na janela e paredes recobertas por recortes de revista.

Depois de instalados descemos para comer. Estava seco pra me esbaldar numa bela e tradicional pizza marguerita genuinamente italiana, mas tenho que ceder ao convite de Gina, para jantarmos no restaurante onde ela trabalha.

Que seja. Que venha uma garrafa de vinho branco gelado pra aplacar o calor de trinta graus, e o que tiver pra acompanhar alguns nacos de pão (genuinamente italiano).

Sentado numa mesa na calçada, olho em volta e não há nada realmente excepcional na paisagem. Apesar disso, tudo ao redor, os copos, a toalha, a calçada, os carros e as sacadas velhas do prédio baixo do outro lado da rua parecem gritar para mim: “hei, atenção, você está em Roma!”

Tagged with: , , ,

Baldeações, decepções e fascinações (parte 3)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 9, 2010


Roma – Conversando com Mateus, Camélia, nossa nova amiga romena, explica que o metrô de Roma é extremamente extenso e complexo. Mais tarde eu descobriria que, na verdade, há apenas duas linhas, que se cruzam numa única estação.

A limitação do transporte subterrâneo não se deve apenas ao descaso das autoridades. Salvo engano, em nenhum outro lugar do mundo as obras do metrô demandaram tanto tempo e esforço, pois a todo instante durante as escavações os engenheiros se deparavam com artefatos históricos, ou até construções inteiras de uma das várias Romas que, ao logo dos séculos, foram erguendo-se umas sobre as outras. As obras tiveram de ser interrompidas inúmeras vezes, e o curso dos trilhos foi diversas vezes refeito.

Além de limitado, o metrô de Roma é tosco. As escadas rolantes são estreitas e lentas e levam a galerias mal iluminadas por lâmpadas brancas, boa parte delas apagadas ou piscando prestes a queimar. O chão é forrado de linóleo preto todo corroído e esburacado. Há infiltração nas paredes e nos pisos, e vez ou outra os passageiros são obrigados a pular pequenos córregos de água suja que se formam no caminho.

As plataformas de embarque e desembarque, com as paredes cobertas de foligem parecem instalações de uma mina de carvão marciana, comandada pela União Soviética. Enquanto esperamos o trem, ao lado de nossa guia romena, os italianos continuam sendo minoria e seguimos cercados por trabalhadores braçais imigrantes.

Quando saímos do metrô, o sol finalmente se pôs e só depois das dez horas da noite finalmente chegamos ao nosso destino final. Camélia, que fez questão de nos acompanhar até a porta, despede-se de maneira apressada. Tenho a impressão de que, subitamente, sente necessidade de se livrar de nós. Talvez estivesse com medo de que nos sentíssemos obrigados a pagar alguma coisa. Mas pode ser que fosse apenas pressa de chegar em casa.

Baldeações, decepções e fascinações (parte 2)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 8, 2010

Roma – Um indiano vem andando depressa lá do fundo do ônibus, esbarrando em todo mundo que está de pé. Veste uma camisa branca de um tecido rústico, amarronzada de encardido ao redor do pescoço e axilas.  Aproxima-se do motorista e despeja sobre ele uma avalanche de palavras completamente incompreensíveis para mim.

O motorista volta-se para ele, ergue a mão e chacoalha os cinco dedos fechados voltados para o queixo, num gesto teatral tipicamente italiano. Depois cospe uma ou duas frases num tom que, de tão agressivo, acaba por acalmar o indiano. Ele diminui a intensidade de suas reclamações, mas resmunga mais um pouco antes de voltar contrariado ao seu lugar.

Mateus me diz que, pelo que entendeu, o homem havia deixado uma bolsa sobre o assento e outro passageiro se apossara dela. Queria que o motorista intervisse a seu favor.

Quando a discussão termina, passo algum tempo observando o motorista. A maneira como usou de violência e agressividade para desarmar seu oponente me causa um fascínio desconfortável, semelhante ao que tinha quando via o Tyson lutar, por exemplo. E conforme o observo, percebo que essa agressividade parece permear aquele sujeito por inteiro.

A forma como dirige, numa velocidade ligeiramente superior à que parece segura; a forma como fala ao celular, acompanhando as palavras com gestos da mão direita; a forma como se veste, com a calça de microfibra azul arregaçada até o joelho por conta do calor.

Quando olho para o relógio exagerado que o sujeito usa, levo um susto. O sol brilha forte lá fora, mas já são quase nove horas da noite. O fato de ser tão tarde traz alguma preocupação, que se desdobra em outras: Não temos clareza de como faremos para chegar ao nosso destino, por exemplo. Sabemos que em algum momento teremos de tomar o metrô, mas quase nada além disso.

Lançando mão de um idioma que imagino assemelhar-se ao Esperanto Helô conversa com a mulher que viaja ao seu lado. Em poucas frases descobre que ela terá de passar perto do nosso destino, e que se dispõe a nos guiar.

A boa samaritana chama-se Camélia, é natural da romena, e mora na Itália há sete anos. Parece sentir-se desconfortável quando perguntamos sua profissão e explica superficialmente. Ficamos em dúvida se é empregada doméstica, governanta ou secretária.

Camélia fala um italiano carregado de sotaque, o que torna suas frases ainda mais incompreensíveis para mim. Ela, por sua vez, não entende que minha tacanhice mental limita-se ao idioma. Acha que sou completamente estúpido e faz questão de me explicar tudo detalhadamente, com direito a mímicas: como devo colocar o bilhete na catraca, como devo me deslocar pelas escadas rolantes, como funciona o metrô, e assim por diante.

Diz que já ouviu falar do Brasil, por conta do carnaval e eu preconceituosamente imagino que ela tenha bastante preconceito para com os brasileiros. Deve achar curioso o fato de não nos vestirmos com tangas e penas.

Tagged with: , , , ,

Baldeações, decepções e fascinações (parte 1)

Posted in Diários de Viagem by Tomás Chiaverini on julho 7, 2010

Madri/Roma – Cada vez que sento em uma poltrona de avião tenho a impressão de que minhas pernas cresceram. E acho que, se continuar assim, não vou caber no próximo vôo. Imaginava que na Ibéria, uma companhia européia, a situação fosse melhor do que nos teco-tecos nacionais. Doce ilusão. Uma vez sentado e enlatado, qualquer movimento torna-se praticamente impossível. A comida, por outro lado, até que não é má.

E eu fico um pouco fascinado ao imaginar a logística que está por trás desta cozinha que alimenta cerca de duzentas pessoas simultaneamente, numa situação um tanto singular. Verdade que há apenas duas opções de menú, mas estamos voando a 900 quilômetros por hora, a oito quilômetros de altura e minha carne cozida ao molho madeira nem se dá conta disso.

Em nove horas chegamos a Madri, num aeroporto que parece uma cidade de porte médio. Os terminais têm dimensões sobre-humanas e um simples par de pernas não é suficiente para caminhar do desembarque até os guichês de imigração, por exemplo. Por isso boa parte da circulação interna é feita por esteiras rolantes de metal, que fazem os maravilhados turistas do terceiro mundo se sentirem num filme de ficção científica.

Apesar do tamanho descomunal, as indicações são precisas e em nenhum momento tenho o prazer de me sentir perdido. Além disso, o espanhol que se fala por aqui me é cristalinamente compreensível, quase como um sotaque do português.

Em pouco tempo estou voando novamente, num avião menor, mais apertado e aparentemente mais antigo do que o primeiro. Meu corpo inteiro reclama da noite em claro, mas é impossível dormir num avião recheado de italianos e espanhóis. Parece que o idioma deles não funciona se não for gritado em Dolby Surround Sound. Duas horas de feira livre e um copo d’água depois, Roma.

Enquanto espero que minha mochila apareça na esteira de bagagens, sinto uma leve empolgação por estar prestes a pisar no velho mundo pela primeira vez na vida (aeroportos não contam; são todos iguais e deveriam ser considerados espaço internacional).

Por outro lado, aos poucos vou percebendo que não sei falar italiano. E, pior ainda, que não entendo nada do que esse povo fala. Achava que meu sobrenome, que sempre fiz questão de pronunciar corretamente (o “ch” com som de “k”), e minha ascendência 50% italiana, de alguma forma, me dotassem de certo conhecimento do idioma de Berlusconi.

“Até os cachorros entendem italiano por aqui, e você nada”, provoca Mateus, que, com alguns meses de curso, se vira bastante bem.

E já que ele consegue se comunicar, nos sentimos seguros para trocar o táxi pelo ônibus e economizar alguns euros. Motorista simpático, ar-condicionado e nenhum outro passageiro. Groove!

Mas alegria de brasileiro na Europa dura pouco. No primeiro ponto o ônibus já é tomado de assalto por uma horda de homens sujos e mal-trapilhos, que poderiam muito bem estar voltando de um dia de trabalho na construção da Torre de Babel. Subitamente, fala-se uma infinidade de línguas à nossa volta. Dialetos aparentemente africanos e hindús se misturam em conversações incompreensíveis. A partir daí, a cada parada, mais gente se espreme à nossa volta. Italianos são artigo raro por aqui.

Nossa bagagem, que estava espalhada em três bancos, agora se amontoa no corredor e a todo momento tem de ser rearranjada devido ao entra e sai de passageiros. Então, uns vinte minutos depois de deixarmos o aeroporto de Roma, o semáforo abre, o motorista engata a primeira marcha, acelera, mas o ônibus se nega a obedecer. Ele repete a operação. Nada. Ele insiste. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera. Desengata, engata acelera.

Por uns cinco minutos, ele se desdobra em esforços, brigando com a máquina xucra. Depois desiste. Levanta, volta-se para os seus cerca de cinquenta passageiros multiétnicos e diz o óbvio. O ônibus quebrou. Todos devem descer e esperar pelo próximo.

Sem alternativa, obedecemos. Saltamos em meio àquela horda de trabalhadores que, assim como nós, encontram-se consideravelmente cansados, suados e mau-humorados. Mas apesar de estarmos, por assim dizer, “todos no mesmo ônibus”, os olhares que eles nos dirigem não parecem nada amigáveis.

Não fazemos a mínima ideia de onde nos encontramos realmente. Só sabemos que é longe. Tanto do aeroporto, quanto do centro histórico, onde ficaremos hospedados. Esperamos. Tentamos descolar uma carona com um passageiro que ligou para a mulher buscá-lo. Gentil ele diz que é possível, mas não pode garantir se caberemos no carro com a bagagem.

Assim, após cerca de uma hora de espera, quando o próximo ônibus passa, resolvemos embarcar, junto com nossos companheiros mau-encarados.

Acomodo-me ao lado do motorista, meio em pé meio sentado, com a mochila apoiada sobre o painel do ônibus. O cansaço percorre minhas pernas numa espécie de formigamento que parece emanar de dentro dos ossos.

%d blogueiros gostam disto: