Antes da Estante

A maldição do “entorpecente”

Posted in Uncategorized by Tomás Chiaverini on outubro 1, 2009

Escolher o título talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras na feitura de um livro. Tem que ser atraente, curioso, levemente poético e com algum mistério. E tem que ajudar a vender. Como se não bastasse, a responsabilidade na escolha é maior, porque o título é a primeira coisa que chega. É empatia ou repulsa, ali, no ato.

É “Tijolo de segurança”, do Cony, ou “Grande sertão: veredas”, do Guimarães.

Então, durante mais de um ano que passei elaborando o “Festa Infinita”, não deixei de pensar em qual seria o título ideal. Defini minha escolha alguns dias antes de entregar os originais. E errei.

Não no título. Gosto de “Festa Infinita”. Tem todos os elementos supracitados. O problema foi a maldita palavra “entorpecente”, do subtítulo.

Quando escolhi, pensei em drogas, claro. Mas não apenas nisso. Afinal, uma rave é entorpecente por conta da música repetitiva, da luz, do afastamento da cidade, das horas ininterruptas de dança e etc. Queria, portanto, trazer todos esses elementos para o subtítulo. Infelizmente, contudo, a palavra está já um tanto gasta e viciada. Foi tão usada como adjetivo referente a drogas que perdeu seus matizes.

Como resultado, tenho me desdobrado em palestras e entrevistas tentando explicar que, apesar de abordar a fundo a questão das drogas, o livro não se resume a isso. E que tarefa mais ingrata essa, viu? Porque num país em que ninguém lê, o título ganha status de obra. Com o perdão do lugar comum, julga-se o livro pela capa.

Há, inclusive, casos levemente absurdos, como o de um DJ, organizador de um importante festival que é retratado no livro, ao longo de algumas dezenas de páginas. Retratado, diga-se, de forma elogiosa. Pois o sujeito fez questão de dizer que não leu nem a parte que lhe diz respeito. Não leu nem o trecho em que falo das inegáveis qualidades que ele tem como DJ. Mesmo assim achou-se no direito de sair falando mal.

Não criticou a escolha do título. Se fosse isso, tudo bem, pelo menos ele saberia do que fala. Mas não, ele criticou o conteúdo. Disse que o livro é sensacionalista e que eu não passo de um jornalista picareta.

Pôs a culpa no “entorpecente”.

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10 Respostas

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  1. shufflesongs said, on outubro 1, 2009 at 17:28

    Como se diz o ditado não se deve julgar o livro pela capa. Acabei de ler o livro, gostei bastante. Os conservadores te chamarão de imoral por ter experimentado extase (achei hilário visualizar alguém tendo essa experiência com um bloquinho de notas, meus parabéns por ter conseguido anotado), e pessoas que vivam esse mundo entorpecente (não só de drogas mas de estímulos e ideologias extremas) vão te acusar de moralista. Como investigador, vejo que você cumpriu o seu papel em todas as etapas bem delimitadas do livro. E no mais, acho que Narciso as vezes acha feio o que é espelho, aquilo que nós psicólogos chamamos de projeção.

    Caroline Izidoro
    CWB

  2. adrio inveriach said, on outubro 1, 2009 at 20:48

    Ouço muito pouco esse som eletro pum, que os DJ fabricam. Meu conceito a respeito é que se trata de um estranho fenômeno onde se usa uma super high tech para produzir uma anti-música. Tirando os efeitos rebarbativos o que se ouve é algo extremamente tosco do ponto de vista musical.
    No meu entender quem produz coisa tosca é porque gosta e portanto tem uma mentalidade tosca.
    Esperar que um DJ (deve haver alguma exceção) consiga ler um livro é uma atitude muito otimista.
    Fora isso, pessoas que se entopem de drogas, sejam elas entorpecentes, ou estimulantes, acabam ficando meio piradas e fora da realidade. (Aqui incluo como droga os entorpecentes eletronicos, como a televisão e essa música tosca repetitiva que está sendo oferecida pela midia)

    E tb tem o seguinte. Infelizmente as pessoas não leem mais, principalmente neste país. Uma boa parte dos livros são comprados para dar de presente, e acabam enfeitando estantes.

    Isso sem falar na doença internética do “achismo”…

    Então… vai se acostumando.

  3. Bruno said, on outubro 5, 2009 at 22:17

    É, vai se acostumando….

  4. Henrique said, on outubro 21, 2009 at 11:43

    Olá, Tomás!

    Li seu livro logo que lançou e agora estou relendo antes de ir para o Universo Paralello.

    Posso te perguntar as dúvidas por aqui?

    Duas delas é se há algum sentido na forma como foi escrito o título FESTA INFINITA na capa e na posição deslocada do FESTA em relação ao INFINITA, assim como O ENTORPECENTE em relação ao MUNDO DAS RAVES?

  5. Tomás Chiaverini said, on outubro 21, 2009 at 12:16

    Pois é, caro Henrique, são mistérios que talvez devam permanecer no ar. Só posso te dizer que foi tudo pensado e planejado.

  6. Henrique said, on outubro 23, 2009 at 08:36

    Olá, Tomás!

    Hoje li sua entrevista no site Plurall, muito bem respondida por ti e muito bem perguntada pelo Roosevelt.

    Depois que li seu livro, tive vontade de lê-lo novamente para assimilar mais conteúdos. Mas senti vontade

    também de dar um tempo entre as leituras para “assentar” a primeira leitura. Havia outro motivo que agora o

    entendo um pouco melhor, que acho que a polêmica como tudo, seja dos temas, como as drogas, a busca

    pela trancendência, a banalização dessa busca, a falta dessa busca por grande parte dos frequentadores, e

    também da construção textual sua, sincera e polêmica também.

    Na minha atual opinião, estou entendendo que, durante a leitura, nos momentos em que fico um pouco

    incomodado e em dúvida sem você construiu alguns trechos com o objetivo “de criticar a cena trance”,

    percebo que esse meu incomôdo ocorre devido a toda às várias polêmicas acerca do tema.

    Ou seja, acho que um pouco o motivo de eu estar relendo somente agora, alguns meses depois, foi também

    para ajudar a “aceitar” que as polêmicas são do tema e não do autor que possa ter tido o propósito de “jogar

    lenha na fogueira”. Agora dou muito menos importância a essa última suposição, apesar de durante a leitura

    parecer. Novamente repito, acho que “parece” devido às polêmicas sobre o tema.

    Por tudo isso, parabenizo de novo você pelo trabalho e, como você talvez tenha percebido, pergunto se há

    espaço para perguntas e diálogos nesse blog ou por algum outro meio.

    Aguardo novamente chegar a noite para continuar a re-leitura de seu livro… rs

  7. Henrique said, on outubro 23, 2009 at 08:39

    sem você construiu = se você construiu

  8. Henrique said, on outubro 23, 2009 at 08:43

    Aproveito para encaminhar a você uma interessante poesia sobre rave, um pouco na visão do sitiante que aluga sua chácara, não para um bailão ou forró, mas para uma rave. Talvez seja do seu interesse:

    A reide

    01
    Veio uma turma pra fazenda
    Pra mode fazer uma festa
    E eu pensando ser um baile
    Ou então uma seresta
    Mas me disse a dona Neide
    Que era uma tar duma reide
    E eu sei lá que festa é esta
    02
    Ligeiro que uma meninada
    Nuns carrão apareceu
    Tudo escuitando são alto
    Que quase me endoideceu
    Era um batido de panela
    Um arrastado de chinela
    Que o pé do ouvido troceu
    03
    Então chegaram pra eu
    Na maior pinotadeira
    Era um funaré de gente
    Balançando as cadeira
    Que nem doido dançando
    Tudo sorto requebrando
    Que djabo de bagaceira
    04
    Me pediro umas fogueira
    Eu diche: e vai ter São João?
    Encostaro as camioneta
    Cheinha de caixa de são
    Infileiraro aquelas bicha
    E o são truou que as laigaticha
    Fugiro de assombração
    05
    Uma macarronada preta
    De fio pra todo lado
    Umas morena bunita
    Tudo povo raciado
    Com uns oclão assim de prato
    Nos cabelo uns camin de rato
    E os beiço tudo furado
    06
    Se pregasse mais uns brinco
    Eles iam se enganchá
    Inda mais cum aquelas trança
    De cabelo de arapuá
    Eita que povo invocado
    Os caba mais pintiado
    Era uns careca aculá
    07
    Um caba se pegou duns cano
    Rebolava os bicho pra riba
    Com as ponta pegando fogo
    É um tar de malabariba
    Já isso eu achei legal
    Pois numas perna de pau
    O danado se equilibra
    08
    E eu só me preguntando
    Onde a banda vai tocá?
    Por que só tinha uma mesa
    Para a turma se atrepá
    E enchero ela duns troço
    Chei de butão os negoço
    Dava inté prela avuá
    09
    E chegô um tar de Digê
    Que todo mundo esperava
    Um magrelo rupiado
    Que os butãozim biliscava
    Enquanto uma tuia de fumaça
    Me deixava todo sem graça
    Pois era a mesa quem peidava
    10
    Parecendo uma visão
    De um disco avoador
    A ruma de troço briando
    E um baruião de motor
    Daqueles de avião
    Um estrondo de exprosão
    De revorve artirador
    11
    Oche mas foi só começá
    A danada da fuzarca
    Que até mais parecia
    Que ia afundar a barca
    E naquele catolé
    Me pizaro tanto o pé
    Que ainda hoje eu tem maica
    12
    Pimenta foi que botaro
    Naquelas lata magrela
    Só dava esse tar de nergético
    E ninguém sortava ela
    Se escuitava “eu tô frevido”
    E Foi tanto comprimido
    Que Tumavum de cautela
    13
    Devia ser enchaqueca
    Daquele são estrondoso
    Ontonse pro mode a causa
    Daqueles faxo brioso
    Que o povo tinha bebido
    Aquele horrô de comprimido
    Ou então devia ser gostoso
    14
    A certeza que eu tem
    É de que não era sargado
    Pois todo mundo dizia
    Que tava era aducicado
    E a festa pra noite entrô
    Posso lhe dizer seu dotô
    Pense num povo animado
    15
    Mas tudo menino bão
    Eu vi quera gente dereita
    Só bebiam mermo água
    E não sei qual a receita
    Eu fui deitá umas três hora
    E a turma ali na tora
    A festa ninguém injeita
    16
    Eu me acordei cinco hora
    Ainda com bate estaca
    E fiquei impressionado
    Essa turma não é fraca!
    Tavum do mermo jeitim
    Pinotando que nem soim
    Quando vai comer uma jaca
    17
    Tinha muié de todo jeito
    Suadinha dançando só
    De pirulitim na boca
    Umas pequena, outras maior
    De shortim e de sainha
    Tudo, tudo molhadinha
    Tava cego aquele nó
    18
    Mas que visão seu dotô
    Me deu logo um comichão
    Uma vontade de dançá
    De bater meu pé no chão
    Comecei a me retrocê
    E eu digo a vóis mecê
    Que num me arrependo não
    19
    Pois num deu nem dois minuto
    Pra que eu me arrumasse
    E o povo arremedava
    Todo jeito que eu dançasse
    Eita que festha boa!
    Caiu chuva e garoa
    Sem que ninguém ali parasse
    20
    Num é que nem forró
    Que tem um passo marcado
    O caba faz é de tudo
    Só não fica é parado
    É diversão garantida
    Num perco mais na minha vida
    Esse tar de são pesado
    21
    E tem toda marca de são
    É o trança, e é pizai
    É o tar de drome os beiço
    Neles tudo o caba cai
    Num precisa acanhamento
    È que nem bambu no vento
    Naquele vai num vai
    22
    Tô pensando inté agora
    De fazer umas tatuage
    Umas traira e umas vaca
    Um trator numa rodage
    Botar nos dedo uns ané
    Vô tombem compra um boné
    Com a seguinte homenage:
    23
    Eu já dancei o xaxado
    Xote, valsa e baião
    Só não fiquei foi parado
    Pois eu sô da animação
    Mas reide eu num posso nem vê
    Que eu digo logo pro digê
    Arromba aí nos butão

    Luiz Augusto Bitu 25 de maio de 2008

  9. Henrique said, on outubro 27, 2009 at 10:02

    Olá, Tomás!

    No fim-de-semana, terminei de reler seu livro e tenho mais uma dúvida. rs

    O nome do capítulo “Segunda estrela à direita até o amanhecer” é referência à Terra do Nunca?

  10. Samir D said, on janeiro 26, 2010 at 06:04

    Olá Tomás!

    Primeiramente quero te parabenizar pelo livro, pois achei sensacional. Acabei de ler.

    Um documentário muito bem elaborado ao qual muitas pessoas deveriam ler para conhecer melhor o mundo das Raves, pois muitas delas tem uma imagem definida apenas por ouvirem por aí…

    Sua descrição sobre o momento em que você tomou o Ecstasy é hilário… Imaginar você dançando com o bloquinho de anotações foi divertidíssimo.

    Quanto ao fato do DJ não querer ler seu livro por achar você sensacionalista, paciência, é o tal do pré-julgamento. Se ele não leu, porque diz que é sensacionalista? Ou vai ver, está querendo passar outra imagem diante do que entendeu da palavra Entorpecente no livro.

    Meus parabéns Mackenzista!


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