Antes da Estante

Vista do topo

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 29, 2009

Eis que aconteceu!

Com apenas 28 anos, dois livros publicados, alcancei a hora de ser resenhado pelo supra-sumo da imprensa mundial, quiçá universal. Está certo que foi uma simples notinha. Algumas linhas apenas. Mas não há como negar a importância incomparável da publicação.

Sim, meus caros, fomos muito além de Folha, Estado, New York Times, The New Yorker, fomos muito além…

Não, nada se compara a isso. Nada se compara ao prazer de, após uma longa e estafante jornada, constatarmos que, finalmente, conquistamos um espaço nas célebres páginas da G Magazine!

Você compraria o livro de um amigo?

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 24, 2009

Vamos lá, caros leitores, respondam rápido: vocês comprariam e leriam o livro escrito por um amigo?

A resposta positiva parece ser a mais óbvia. Aposto que a maioria de vocês pensou nela como a primeira hipótese. Claro que comprariam! Mas, descontando os amigos realmente próximos, a realidade, meus caros, se mostra ligeiramente diversa. É comum haver certo receio em comprar e ler livros de conhecidos.

E antes que os amigos leitores se sintam mal, já me adianto. Isso não é uma crítica nem muito menos um lamento. Entendo completamente o receio, e a explicação para isso me parece simples.

Existem milhares de livros excelentes, já consagrados por crítica e público. Quem lê muito, em uma vida será incapaz de ler tudo de notoriamente relevante que o homem já produziu. Não há, portanto, tempo a ser desperdiçado.

Por outro lado, dentre todos os infindáveis títulos publicados constantemente, são raríssimos aqueles que tenham qualidade notável, que sejam realmente bons. A mediocridade impera também na literatura, não é segredo nenhum.

Então, como… errr… escritor, às vezes tento me colocar na posição de um amigo ou conhecido. Usando olhos alheios, me miro como errr…. escritor. Quais são as chances daquele cara que estudou comigo, que não tem lá muita pose de intelectual, e com quem eu tomo umas cervejas de vez em quando, ter escrito algo pelo que realmente valha a pena perder tempo? Estatisticamente, diria que são nulas.

Assim, deixo o conselho aos colegas de profissão. A hora de fisgar os amigos é no lançamento. Porque quem não comprar o livro naquele momento, dificilmente o fará em outra ocasião.

Cama de Cimento na Transamérica

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 21, 2009

Pois então, caros leitores, o pessoal da Transamérica gostou do nosso papo sobre o Festa Infinita, que aconteceu há algumas semanas, e pediu que eu voltasse. É hoje (segunda-feira), ao vivo, das 13h às 14h. Dessa vez falarei sobretudo do “Cama de Cimento”. E pra completar a sessão nostalgia, coloco abaixo um trechinho do livro, que foi publicado, vejam só como o tempo passa, em setembro de 2007.

Para quem passa de carro e com pressa, Raimundo parece se vestir com alguns trapos encardidos, roupas velhas, doadas, como a maioria dos “mendigos” da cidade. Um olhar mais cuidadoso, contudo, revela que na verdade suas roupas não têm nada de comuns. São feitas por ele mesmo de sacos de estopa e parecem a reprodução reciclada de uma túnica ou outro tipo de veste cerimonial. Nas costas, ele usa um manto de retalhos de plástico preto costurados com barbante, como escamas, sobre um pedaço maior de lona. Os cabelos grisalhos e espetados são protegidos por um chapéu alto confeccionado a partir de sacos de lixo que um dia foram azuis.

Totalmente concentrado, sem prestar atenção aos automóveis, escrevendo sentado com as costas impecavelmente eretas, um palmo de barba branca roçando o peito, não resta dúvida de que Raimundo é um poeta incompreendido ou um soberano destronado.

A avenida Pedroso de Moraes raramente está congestionada e é bem capaz que muitos motoristas que passam em alta velocidade em suas bolhas de metal nem percebam a presença de Raimundo. À noite, o poeta se recolhe sob uma montanha de lonas pretas ou cor-de-laranja, e ninguém que não o conheça pode imaginar que no meio daquele embrulho tosco, que mais parece um amontoado de lixo, esteja dormindo um homem “condicionado”.

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Fim do diploma, ponto pro Supremo

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 18, 2009

Não é mais necessário ter diploma de jornalismo para trabalhar na imprensa. Foi isso que o Supremo Tribunal Federal (a mais alta corte do país) determinou ontem, pondo fim a uma situação discretamente hipócrita.

Hipócrita porque qualquer um que já atuou nos grandes meios de comunicação sabe que a maioria dos veículos não dava lá muita bola pra exigência de diploma.

E com razão, porque as maiores qualidades de um jornalista ­– tais como amplo conhecimento geral, ética e capacidade de comunicação – não são aprendidas em sala de aula. Os cursos de jornalismo, via de regra, fazem um apanhando geral de matérias desconexas e jogam tudo isso sobre o aluno sem muito critério.

Na faculdade, vejam só, tive um semestre de uma matéria que se chamava “História Geral”. Quatro horas por semana durante quarto meses. E o ilustre docente, um jornalista, pretendia realmente que seus alunos aprendessem toda a história da humanidade nesse período.

Oras, se no exercício da profissão, surgisse a necessidade de aplicar conhecimentos de história, quem se sairia melhor? Um historiador que sabe escrever, ou um jornalista, que é infinitamente mais ignorante no assunto?

Há, sim, algumas técnicas de apuração e redação próprias do jornalismo que são relativamente esclarecidas nas universidades. Nada, contudo, que seis meses de estágio, ou um curso técnico não pudessem resolver com mais eficiência.

Além disso, essa história de exigir curso superior é extremamente conveniente para certas universidades de fundo de quintal que vendem diplomas a prestação. Tramitam, no Congresso Nacional, dezenas de projetos de lei para regulamentação profissional.

Nem todos propõem a exigência de curso universitário, mas todos tornam necessária alguma formação. Há, inclusive, casos bizarros, como os que propõem a regulamentação das ocupações de apicultores, capoeiristas, cabeleireiros, entre outros. Quem quiser saber mais pode acessar essa matéria (apenas assinantes) que escrevi para a Folha de S.Paulo há algum tempo.

O editor solta o verbo

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 15, 2009

O editor A. P. Quartim de Moraes é um dos homens que fazem as coisas acontecer no mundo dos livros. Aparentemente sente-se à vontade ao dar murros em pontas de faca arriscando-se a publicar autores ilustremente desconhecidos, como este que vos escreve.

Quartim foi o único editor brasileiro a olhar com carinho os originais do “Cama de Cimento” e teve a manha de brigar pela publicação do livro de tema espinhoso. Depois, mostrando toda a juventude de seus 67 anos, defendeu e aprovou o projeto “Festa Infinita” diante do conselho editorial da Ediouro. Pra quem tiver curiosidade, parte dessa saga já foi contada aqui, aqui e aqui.

E as braçadas contra a corrente vão além de publicar títulos que não sejam best-sellers garantidos. Vez ou outra, o editor solta o verbo, como fez na revista Mundo Literário e, mais recentemente, no Estadão.

Nesse último artigo, publicado sábado passado, Quartim elabora uma teoria no mínimo interessante para ir contra a máxima de que o público brasileiro não se interessa por literatura nacional:

“(…) A experiência profissional me habituou a ouvir, de livreiros e até mesmo de editores, a explicação, bem simplesinha, de que o desempenho do mercado demonstra que o leitor de livros brasileiro não tem grande apreço por conteúdos ficcionais nacionais; não se interessa, enfim, por histórias brasileiras. E seria apenas por essa razão que, na comparação com a nacional, a ficção estrangeira predomina nas listas de livros mais vendidos e – causa ou efeito? – nos catálogos editoriais e nas livrarias.

Se a programação das emissoras de televisão brasileiras seguisse o mesmo “critério”, o chamado horário nobre estaria hoje tomado por séries do tipo Lost, 24 Hours, Sex and the City and so on. Não é o que ocorre. A teledramaturgia brasileira, fundada maciçamente em conteúdos brasileiros, é absolutamente hegemônica em audiência e conquistou um padrão de qualidade que se impôs no mercado internacional. É hoje talvez o maior produto de exportação brasileiro no campo da criação artística e cultural. O know-how por ela conquistado tem reflexos evidentes não só na criação de subprodutos de grande refinamento artístico – muitas das chamadas minisséries -, como até mesmo na recente produção cinematográfica nacional. Trata-se, é claro, de uma criação artística destinada ao consumo de massa, com tudo o que isso possa significar em termos de frustração da expectativa de maior sofisticação intelectual. Expectativa que, de resto, não chega a ser uma característica marcante do mercado livreiro. Mas o fato é que as novelas de televisão fazem sucesso em todos os estratos sociais. Até os leitores de bons livros as acompanham. Trata-se, inegavelmente, de um importante fenômeno cultural. E, claro, de um negócio extremamente lucrativo. (…)”

Boicote ao dia dos namorados

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 11, 2009

Boicote o dia dos namorados. Não vá àquele restaurante caro e metido que te atenderá mal como em nenhum outro dia do ano. Não passe horas rodando pelo estacionamento do shopping procurando uma vaga pra se muvucar na fila do cinema, ou pra comprar um presentinho que ela(e) não vai amar de paixão, apesar de dizer o contrário. E não, pelo amor de Deus, não, não e não. Não pense em pegar a rodovia Raposo Tavares e, não. Não gosto nem de cogitar a hipótese, mas é assim. Todo o dia dos namorados ocorre o mesmo fenômeno absurdo. Mas não. Não faça parte disso. Não entre no seu carro e não pegue a rodovia Raposo Tavares para fazer fila, isso mesmo, é isso que acontece, fila na porta do motel. Por favor, não. Se quiser comemorar, se quiser ir jantar fora, ir ao motel, ótimo. Mas escolha um outro dia. E vá com toda a calma do mundo. Aposto que será melhor.

Enfim, essa é minha opinião. Mas se você achar que não pode mesmo deixar este dia passar em branco, tudo bem. Aproveite o desconto do Submarino e dê um livro Festa Infinita para ele, ou para ela. É unissex.

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Narayhana, raves e rodeios

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 8, 2009

Neste sábado atendi a uma estudante de jornalismo que, por conta do Festa Infinita, escolheu me entrevistar para um trabalho da faculdade. Aparentemente seguindo a escola dos bons repórteres, Narayhana, 19, fez questão de se encontrar comigo pessoalmente e se descambou de Itapevi para a Lapa. Ossos do ofício.

Eis que no final da entrevista a garota de nome complicado, uma raver convicta, me fez uma pergunta recorrente. “A imprensa não trata as raves de forma preconceituosa, tocando no assunto só quando algo errado acontece?”

Eu respondi o que sempre respondo. Que não. Que a imprensa vive de má notícia e ponto. É a vida. Não há perseguição às raves. Duvido que Folha, Estado, Veja ou Globo estejam, de alguma forma, interessadas em conter esse “movimento contracultural”.

Mas, por falar em má notícia, a pergunta de Narayhana, me fez lembrar de um assunto que eu queria ter comentado por aqui e acabei esquecendo. Algumas semanas atrás, um rodeio em Jaguariúna (interior de SP) causou comoção nacional depois que quatro pessoas morreram e dezenas ficaram feridas numa mega pancadaria.

E o que isso tem a ver com raves?

Tem a ver que Jaguariúna, cidadezinha orgulhosa de seus rodeios, é uma das poucas a proibirem terminantemente a realização de raves.

Dá o que pensar, não?

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A tenda do Kassab

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on junho 4, 2009

Do ponto de vista dos dirigentes municipais, a população de rua é uma tremenda sarna pra se coçar. Um problema dos mais irritantes porque aparece, salta aos olhos das classes média e alta, não está relegado às periferias. Quer coisa mais deprimente do que sair de uma butique na Oscar Freire e quase tropeçar num sujeito sujo, fedido, e esfarrapado que dorme na calçada?

Além de aparecer, contudo, o “problema” da população de rua irrita também pela impossibilidade de ser solucionado definitivamente. Não existe, que eu saiba, cidade no mundo que não tenha de conviver com “mendigos”. E não há um assistente social em sã consciência que afirme ter uma saída viável.

Há os albergues, que acolhem essas pessoas, mas que também estão longe de ser completamente eficientes. No caso de São Paulo, por dois motivos básicos. Primeiro, não há vagas suficientes. Segundo, há regras. E este último fator é válido para qualquer lugar do mundo.

Após um tempo vivendo nas calçadas, em total desapego, numa miséria que é a condição de maior liberdade possível, são poucos os seres humanos que voltarão a se submeter às regras sociais. E vale dizer que, em certos albergues, essas regras são militarmente rígidas. A opção pela liberdade, portanto, é o principal argumento daqueles que se recusam a ser abrigados.

Por isso, achei positiva a medida da prefeitura paulistana, que resolveu instalar uma tenda de 100 metros quadrados no Parque Dom Pedro II, no centro da cidade, local de maior concentração da população de rua. O espaço ficará aberto 24 horas por dia. Os desabrigados poderão dormir por ali, e, mais importante, entrar e sair à vontade. A tenda ferecerá banheiro e assistentes sociais que, eventualmente, poderão encaminhar interessados a albergues. Não haverá restrição ao fumo, à bebidas alcoólicas e à presença de animais.

A medida, que será implementada dentro de duas semanas, é polêmica. Já está sendo apontada por alguns como paliativa. É implementada por uma gestão que não tem as condutas mais humanitárias neste setor e que, inclusive, tem fechado albergues no centro da cidade. Mas, em dias de temperaturas tão baixas, não há como negar o principal: a tenda pode efetivamente salvar uma porção de vidas.

Como os livros são vendidos?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on junho 1, 2009

Essa é uma pergunta que me acompanha desde que lancei o Cama de Cimento, nos idos de 2007, época distante, em que eu seria incapaz de postar este texto num blog sem ajuda de um especialista.

Esmiuçando a pergunta: o que faz com que alguém entre numa livraria e resolva comprar o livro de um autor completamente desconhecido?

E antes que você debande achando que esta é mais uma daquelas listas de perguntas não respondidas, já me adianto e digo que se acalme, caro leitor, pois, sim, eu tenho uma resposta. Uma resposta parcial. Meia resposta, talvez.

O tempo urge, o mundo roda, Lugo copula e Kim Jong-il ameaça pôr um fim em tudo isso. Mas, novamente, peço calma. Aceitando a hipótese de que você, leitor, seja parte da população economicamente ativa, ouso dizer que alguns instantes a mais, gastos neste texto cheio de malabarismos de baixa qualidade literária, não trarão grandes prejuízos para o PIB deste nosso impávido colosso.

Pois bem, um passo atrás para tentar responder a pergunta. Ou a metade da pergunta. Três quartos, diria eu. E apesar de minha matemática falha, proponho uma divisão. Não da pergunta ainda, mas dos livros.  Livros de ficção pra um lado e livros de não-ficção para o outro. Todos acompanhando? Não? Pois bem. Vamos à não-ficção.

Esses, num primeiro momento, são mais fáceis de se vender. Pelo simples motivo de que, geralmente, há uma parcela da população que tem  interesse específico pelo assunto retratado. Tomemos o exemplo deste que vos escreve.

No caso do meu primeiro livro, Cama de Cimento, calculo que haja algo como 13,7 sociólogos que se interessem pelo tema retratado, a população de rua (que a maioria dos mortais quer mais é esquecer). No caso do segundo, Festa Infinita, há centenas de milhares de ravers que podem ser vistos como potenciais interessados.

Aí temos, portanto, metade da pergunta respondida. Os interessados entram na livraria, se deparam com seu assunto predileto e se arriscam a comprar.

Agora vamos ao outro um quarto. Que não é um quarto de verdade, porque agora podemos juntar tudo novamente. Ficção e não-ficção. A coisa está ficando um pouco confusa, mas não importa. A essas alturas acho que não há mais ninguém me acompanhando. Textos para a internet têm de ser curtos e objetivos, não longos e confusos como este.

Mas, agora não há remédio. Vamos até o final. Juntamos tudo. Porque, por mais ravers que haja no Brasil, acho pouco provável que eles compareçam em massa às livrarias e façam o livro se tornar um sucesso de vendas. Para isso, é necessário que o livro rompa a barreira de seu circulo de aficionados. É preciso que atraia leitores que se interessem apenas pela leitura, como no caso dos livros de ficção. É isso. É preciso atrair pessoas que gostem de ler. Ponto. Aí voltamos ao um quarto da pergunta, ou da resposta, mas que, na verdade, não é um quarto, porque juntamos tudo. Santos contorcionismos mentais, Batman!

Mas, enfim, há alguns seres estranhos que realmente entram na livraria e compram um livro de um autor desconhecido. Seja ele de ficção ou de não-ficção. Essa é a parte que vai ficar sem resposta.

A outra forma de se vender livros é através daquilo que os marqueteiros chamam de mídia espontânea. Matérias sobre o livro. Exemplo disso é o estrondoso sucesso de Chico Buarque no mundo das letras. Não que ele não o mereça, nem tenha talento para isso. Mas, num primeiro momento, seus livros vendem porque ele é o Chico. E o simples fato do Chico lançar um livro é notícia.

Nós, que não somos o Chico, vamos nos espalhando em notas, entrevistas e resenhas. Nada de capa da Ilustrada, mas muitos textos bacanas. Desde o lançamento, toda semana sai alguma novidade sobre o livro. Algumas, bem bestas. Outras pra encher a gente de orgulho, como esta, escrita por Luiz Felipe Carneiro, jornalista carioca especializado em música.

Ufa, esse foi difícil! Alguém teve a manha de chegar ao final junto comigo?

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