Antes da Estante

A miséria alheia

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on maio 21, 2009

Sou fã de José Padilha. Apesar das críticas de que Tropa de Elite é uma apologia à brutalidade policial achei um filme excelente, corajoso e necessário. Li o livro (“Elite da Tropa”) e achei o filme melhor, coisa rara.

Escrevo sobre Padilha, por conta de duas coincidências. A primeira vem do fato de que ele está produzindo um filme sobre raves. O título provisório é “Paraísos Artificiais”, e ainda não há previsão de lançamento. Ao contrário do que muita gente que conhece o trabalho do diretor supõe, o longa não será um documentário (como “Ônibus 174”), nem baseado em fatos reais (como “Tropa de Elite”). Será uma história ficcional, sobre jovens que se envolvem com drogas. As raves estarão no pano de fundo.

A equipe por trás das câmeras também será diferente da do “Tropa”. Marcos Prado, que fazia a produção, será o diretor, invertendo papéis com Padilha. Foi Marcos Prado, inclusive, que me contou tudo isso. Ao vivo e em cores, vejam só, na pista de dança do Universo Paralello.

De sunga e com um chapelão de palha, fotografava ravers para ajudar a compor seus personagens. Colhia imagens, enquanto eu colhia informações e sensações.

A segunda coincidência (por falta de termo melhor?) é uma sensação de comprometimento com os personagens retratados. No caso de José Padilha e Marcos Prado, esse laço forçado pela profissão ocorreu no último filme da dupla, “Garapa”. É um documentário sobre famílias miseráveis que, em pleno século 21, passam fome. Se alimentam de uma mistura de água morna e açúcar, a tal da “garapa”.

Numa reportagem publicada ontem pela Folha de S.Paulo, Padilha fala da terrível impossibilidade de ajudar aquelas pessoas durante as filmagens. A produção não podia distribuir comida, senão a situação se tornaria artificialmente diversa da realidade, não haveria filme. Depois, com o documentário pronto, Padilha e Marcos Prado passaram a ajudar. Enviam dinheiro para as famílias retratadas.

Senti algo parecido quando apurava o livro “Cama de Cimento”, sobre a população de rua de São Paulo. Um sentimento de cumplicidade com a sociedade que perpetua aquela miséria, mas mais do que isso. Uma impressão de que eu estava explorando aquela gente. Ouvindo suas histórias, roubava a última coisa que lhes pertencia.

No final, como quem leu o livro sabe, tentei ajudar algumas pessoas isoladamente. Não adiantou a boa vontade. Mas continuei a me sentir comprometido com o povo das ruas. E antes que o livro fosse publicado, talvez para me livrar do sentimento de culpa, me comprometi a doar metade dos meus direitos autorais.

Assim, 25% dos royalties do “Cama de Cimento” são destinados à Associação Rede Rua, e 25% à Revista Ocas.

Anúncios
Tagged with: , , ,

5 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. adrio inveriach said, on maio 22, 2009 at 22:15

    Conheço um sujeito que fotografou uma aldeia de índios xavantes pegando fogo e não divulgou… achou que romperia um trato feito com o cacique, que deixou ele fotografar sem nenhuma interferência… A condição era respeitar as pessoas…

    E as fotos ficaram enfeitando a casa dele!!!

  2. Anderson Franco Carvalho said, on maio 23, 2009 at 15:23

    Olá Tomás!

    Assisti a sua entrevista na rádio Transamérica e gostei de sua participação.Insistir neste debate sobre as raves é o caminho para uma evolução cultural na sociedade.Precisamos saber mais destas informações que infelizmente são distorcidas para o grande público através da imprensa.

    Sobre o Filme do Padilha,confesso que estou apreensivo com a conotação que será aplicada,o cuidado com detalhes e falas podem gerar uma interpretação errada por muitos de nós,exemplo o personagem do Capitão Nascimento,que muita gente considera um ídolo.

    Sucesso!

    Abraço!

  3. Milla said, on maio 23, 2009 at 17:30

    Ouvir a história de uma pessoa vulnerável em multiplos sentidos é angustiante e a impressão de culpa atinge quem participa da narração, entretanto o que mais atordoa é a impossibilidade de mudar aquela realidade.
    Infelizmente essa é a verdade e a vida de quem trabalha nas áreas sociais, muito sabe e pouco pode modificar!!!!

  4. Tomás Chiaverini said, on maio 23, 2009 at 19:10

    Anderson,

    Como jornalista, tendo a achar que informação nunca é demais. Claro que sempre há possibilidade dessas informações serem distorcidas ou mal compreendidas, mas não creio que deixar de produzi-las seja o remédio.
    Tomando o caso do Tropa de Elite, por exemplo. O Capitão Nascimento é um homem atormentado pela brutalidade ineficaz de seus métodos. Não acredita mais no próprio trabalho, mas continua a fazê-lo como um autômato que tem de tomar remédios para dormir, como se fosse tirado da tomada quando o serviço acaba.
    Quando uma sociedade o toma como um ídolo, como um exemplo a ser seguido, acho que o problema é da sociedade, não do filme. E isso, na minha opinião, só aumenta a importância de Tropa de Elite.

  5. Anderson Franco Carvalho said, on maio 25, 2009 at 02:46

    Tomás,

    Eu acredito que informação é sempre bem vinda.Quanto ao cuidado com a conotação aplicada no filme,me refiro a um tema polêmico que voce sabe o quanto se fala na mídia sobre as raves.Então sutilmente deixar claro que o ambiente é mais do que propíscio para um momento agradável e diversão entre amigos torna-se essencial.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: