Antes da Estante

Por que a verdade incomoda?

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on abril 13, 2009

Na última sexta-feira, em pleno feriado de Páscoa, com o porta-malas do meu moribundo Corsinha recheado de exemplares do “Festa Infinita”, me aventurei por estradinhas sinuosas, me perdi um bocado, mas finalmente cheguei ao local onde estava começando mais uma edição da rave Respect. Perto de Suzano, no interior de São Paulo.

Eu havia sido gentilmente convidado pelos organizadores da festa (que também tem ajudado muito na divulgação do livro) para fazer uma espécie de noite de autógrafos. Fiquei por lá até uma 5h30 da manhã. Foi a primeira vez que pisei numa rave após a publicação do livro e, tenho de admitir, não foi das experiências mais agradáveis.

A parte de conversar sobre o livro com desconhecidos até que foi divertida. Vendi uma meia dúzia de exemplares, fiz propaganda, dedicatórias, etc. Mas o que me incomodou foi ser olhado por certos personagens como se eu os houvesse traído ou coisa assim.

E aqui, não custa esclarecer. O “Festa Infinita” não é um livro de denúncia. Não pretende julgar ninguém, condenar ninguém, reforçar estereótipos ou perpetuar preconceitos. Pretende apenas retratar, a partir de ângulos diversos, esse grande universo em que se desenrolam as raves.

Dito isso, voltemos aos narizes torcidos. Pessoas que antes me saudavam efusivamente perguntando do livro, nessa noite fingiram não me conhecer. E outras, com quem eu vinha até criando relações de amizade, me cumprimentaram friamente.

E o motivo, meus caros leitores, é “a verdade”. Incrível, mas as pessoas realmente se surpreenderam porque escrevi “a verdade”. E me disseram isso com todas as letras: “pôxa, mas você abriu demais a vida das pessoas”, ou: “podia ter dado uma aliviada pra gente”, ou ainda: “cara, você falou que fulano de tal fuma maconha”.

Vejam, caros leitores, na apuração deste livro eu nunca me disfarcei para obter informações. Pelo contrário, sempre me apresentei como jornalista, disse que estava escrevendo um livro, informei o nome da editora e gravei as entrevistas sempre com consentimento do entrevistado. Agora, todos se surpreendem quando topam com a verdade.

Pessoas que me fizeram longos discursos em prol da liberdade, que me convidaram a partilhar baseados e insistiram veementemente diante das recusas, que condenaram a hipocrisia da sociedade e a manutenção da ilegalidade (que sustenta corruptos e criminosos) agora ficam assustadas quando trato o tema de forma franca e aberta.

Se as cinzas de Timothy Leary não houvessem sido lançadas no espaço, ele certamente estaria rolando no túmulo diante de incongruências como esta.

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9 Respostas

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  1. adrio inveriach said, on abril 14, 2009 at 19:46

    Realmente, se essas pessoas se expuseram ao reporter que se apresentava como tal, agora devem aguentar as consequências.
    É mais ou menos como se a mocinha que posa nua pruma revista ficar escandalizada que sua foto saiu publicada!
    Se vc estivesse disfarçado, poderiam reclamar…

    Acho que vc está aborrecido porque se envolveu.
    Parece que o melhor seria mesmo a participação sem o envolvimento.

  2. Juliana Fiúza said, on abril 15, 2009 at 23:31

    decerto que eles se comportariam assim. Sabe, nesse mundo de raves, nesse mundo alternativo, onde as pessoas se julgam tão mente-aberta, tão dispostas a encarar a liberdade de frente, existe também muita hipocrisia. Hipocrisia de sobra, eu diria.
    Tim Leary deve mesmo se retorcer lá na outra dimensão ( onde ele deve estar pairando pertinho de um vasto campo de centeio, cheios do fungo ergot ) vendo que as pessoas que se dizem contra-cultura são completamente enquadradas pelo sistema, sendo mentirosas e falsas com si próprias.
    É fato: cada vez menos pessoas gostam de honestidade. tudo tem que ser devidamente “aliviado”.

    Continue sua jornada, Tomas.
    O importante é ter o sentimento de que você tratou da verdade, e isso acho que você tem.

    Tiau!

  3. Orion said, on abril 17, 2009 at 11:53

    Olha eu não li o livro, mas uma coisa é você dar o nome de alguém associado a uma subversão penal, sabendo que isso pode acarreta em problemas como a privação da liberdade.

    Se o objetivo for prejudicar o cara, tudo bem pode ser feito e é dentro da lei, mas se vc tem uma relação de cumplicidade com a pessoa, ou de amizade não tem pq associar ela a algo probido de forma explícita.

    O próprio timothy leary que estaria se rolando segundo vocês, ficou preso por mais de 5 anos por causa da ponta de um cigarro de maconha. É claro que o cigarro serviu como bode expiatório pro cala a boca que queriam dar nele.

    Pois bem se a Polícia Federal estiver procurando um bode e o livro tiver sido escrito da maneira que estou imaginando, vários bodes foram arrumados…

    Você usa o termo verdade para relatar o seu livro, vc deve parar com isso, pois o que tem lá dentro é a sua interpretação subjetiva da realidade da cena. Você experimentou com os seus sentidos e reconstruiu com seu cérebro. És esperto o suficiente para saber que seu livro não contém a verdade e sim a sua visão.

    Até porquê você nunca poderia atingir a verdade através de um comprimido de ecstasy..

    Vc critica o fato das pessoas se sentirem ofendidas, mas eu como participante ativo do movimento psicodélico, me sinto ultrajado vendo você usar o ecstasy para fazer propaganda do seu livro.

    Você não precisava ter usado ecstasy, não é o paraíso artificial do ecstasy, o paraíso artificial originalmente proposto pelo Trance Psicodélico.

    A Associação da psicodelia com ecstasy vagabundo é a causa da degradação da cena e você como bom investigador já entendeu certo?!!!!

  4. Tomás Chiaverini said, on abril 17, 2009 at 13:53

    Orion,
    Não aceito críticas cegas. “Não li, não gostei e ainda tenho um monte de coisa pra dizer”, pra mim é quase uma afronta. Entretanto, se quiser ler e depois entrar novamente aqui, terei prazer em conversar contigo.

  5. Orion said, on abril 17, 2009 at 14:06

    Correto, você está certo irei ler o mais rápido possível para fazer uma crítica com uma visão integral da situação…

  6. Tomás Chiaverini said, on abril 17, 2009 at 14:13

    PS: Vi o fórum de discussão de vocês no Plurall e peço que releiam o texto que postei no meu blog. TODAS as pessoas que tiveram o nome citado no livro sabiam que isso aconteceria. Ninguém pode ser implicado legalmente pelo que escrevi.
    Agora, volto a insistir meus caros, passei um ano e alguns meses apurando, escrevendo, pensando e repensando, sonhando (literalmente) com este trabalho. Enfrentei noites de insônia tentando encontrar a melhor maneira de traduzir esse complexo universo em livro. Mais do que isso, passei uma vida inteira me preparando para ser capaz de escrever um livro com qualidade.
    E vocês desatam a criticar sem ler uma página sequer do livro, acusam-me de ser antiético, de fazer juízos de valor, de usar o ecstasy para fazer propaganda, de tentar atingir a verdade através de uma droga, de resumir o universo do trance a uma anfetamina… Eu pergunto: de onde tiraram essas informações? Do release de alguma livraria?

  7. Orion said, on abril 17, 2009 at 14:36

    Foi tirado da discussão que ele gerou antes mesmo de ser lançado!

    Por isso a sua atitude de colocar o primeiro capítulo foi boa, eu li e posso dizer que estou gostando…

    A sua narrativa é boa e até aonde eu li ela me coloca na festa.

    Realmente a discussão sem ler vai ser ingênua e desonesta com seu trabalho, por isso vou pedir para dar uma segurada na discussão até que alguém tenha lido e possa fazer um resenha séria.

    “Mas, para aquela porção de ravers que inaugura
    a pista, o som até poderia ser um pouco mais alto, e
    eles pulam, pulam, pulam, cada vez mais envolvidos
    pela música e fechados em si mesmos. Pulam com
    os braços erguidos, soltos acima da cabeça, giram ou
    oscilam de um lado para o outro, sem se importar
    com coreografias ou passos, apenas deixando o cor-
    po fluir conforme a sensação provocada pelo som.”

    Isso aqui é interessante você descreveu a Dança do Ausente, entra aqui se tiver afim de entender melhor isso:

    http://www.plurall.com/blogs/ayaka/2009/03/danca/

    Tomás entenda, a psicodelia já foi tão espancada pela sociedade, que essa hostilidade e desconfiança por parte de seus membros é uma reação natural, o pecado é reagir tendo apenas conhecimento parcial da ação que motivou a reação…

  8. Orion said, on abril 17, 2009 at 14:59

    16
    “Há, ainda, um segundo grupo que se destaca entre
    os ravers. Ele é geralmente maior nas megaraves, que
    atraem jovens de tribos diversas, mas seus componen-
    tes estão cada vez mais se infiltrando e até se tornan-
    do maioria também nas festas “conceito”. Eles não
    são vegetarianos, não querem saber de religiões orien-
    tais e não pregam nada além do culto ao corpo. Usam
    cabelo raspado ou bem curto, calça jeans e desfilam
    sem camisa, exibindo músculos depilados, estufados
    de maltodextrina, sem um grama de gordura. As me-
    ninas usam bota plataforma, calças que embalam as
    curvas a vácuo e tops justos transbordando de silicone.
    Os homens e as mulheres desse segundo grupo são
    malvistos pelos ravers “conceito”, e acabaram apeli-
    dados de “bomba-trancers” e “bisca-trancers”. ”

    Exatamente pois são exatamente esses que deram origem ao consumo desenfreado do xtc em festas psicodélicas e principalmente a eles que o uso do xtc deve ser associado…

    Como vc percebeu a cena está fragmentada em tribos, isso na verdade não importa, as tribos diferentes podem ser unir desde que estejam ligadas por um elemento em comum, a psicodelia.

    A origem do Psychedelic Trance pertence aos psicodélicos independente de que tribo eles pertencem.

    Quando o elemento comum que liga todas as tribos some, ocorre a fragmentação e a divisão de classes na festa!

  9. ricardo said, on abril 21, 2009 at 05:49

    “Há, ainda, um segundo grupo que se destaca entre
    os ravers. Ele é geralmente maior nas megaraves, que
    atraem jovens de tribos diversas, mas seus componen-
    tes estão cada vez mais se infiltrando e até se tornan-
    do maioria também nas festas “conceito”. Eles não
    são vegetarianos, não querem saber de religiões orien-
    tais e não pregam nada além do culto ao corpo. Usam
    cabelo raspado ou bem curto, calça jeans e desfilam
    sem camisa, exibindo músculos depilados, estufados
    de maltodextrina, sem um grama de gordura. As me-
    ninas usam bota plataforma, calças que embalam as
    curvas a vácuo e tops justos transbordando de silicone.
    Os homens e as mulheres desse segundo grupo são
    malvistos pelos ravers “conceito”, e acabaram apeli-
    dados de “bomba-trancers” e “bisca-trancers”. ”

    ****** Sem dúvida a parte mais esclarecedora do Livro, mostra muito bem que existem muitas pessoas sendo guiadas pela moda e rotina, sem nenhum senso crítico ou cultural sobre o movimento… que pena, espero que um dia acordem!!!


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