Antes da Estante

A camorra e o marketing editorial

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 2, 2009

gomorra1Acabei agora a pouco de ler o livro Gomorra, do jornalista Roberto Saviano. E antes mesmo de terminar as últimas linhas já comecei a me sentir ligeiramente tapeado. Caí numa armadilha mercadológica.

Para quem não sabe, o livro é uma reportagem investigativa sobre a máfia napolitana, tornou-se um fenômeno de vendas na Itália, depois best-seller mundial. O fato de ter sido adaptado para o cinema num filme homônimo, provavelmente ajudou a superar a marca de 2 milhões de livros vendidos ao redor do planeta.

Porém, o que mais me atraiu na obra, exposta com destaque em tudo que é livraria, foi a chamada de capa: “A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”. Isso não deveria ser parâmetro, eu sei, mas não pude resistir.

Já li histórias do alemão Günter Wallraff, que se disfarçou de turco e trabalhou como um imigrante, para escrever o livro “Cabeça de Turco”; acompanhei o consagrado Gay Talese em suas aventuras por casas de suingue e massagens eróticas, na elaboração de “A mulher do próximo”; e devorei os relatos de George Orwell vivendo como mendigo em “Na pior em Paris e em Londres”.

Como leitor, sempre achei fascinante repórteres que têm a disposição de realmente mergulhar no objeto de estudo. E como jornalista, cheguei a utilizar a técnica na apuração do “Cama de Cimento”: entre outros desatinos, me disfarcei de desabrigado e fui recolhido a um albergue municipal.

Assim, quando comprei Gomorra, achei que o autor tinha realmente se infiltrado na máfia, arrumado algum trabalho que lhe permitisse contar detalhes saborosos a partir de uma perspectiva privilegiada. Convenhamos, as palavras “infiltrar” e “máfia” juntas, parecem prometer algo explosivo.

Para minha surpresa, contudo, a narrativa não deixa claro como, quando ou onde o jornalista se infiltrou, sendo que nos livros que utilizam a técnica, essa costuma ser a parte mais instigante.

Pelo que entendi, Saviano trabalhou numa indústria têxtil que se constituía num braço da máfia. Ou seja, é como se eu passasse algum tempo trabalhando numa escola de samba carioca suspeita de receber dinheiro de drogas, e dissesse que me infiltrei no tráfico.

Além disso, o autor de “Gomorra”, que foi ameaçado de morte e está sob proteção do governo italiano, nasceu numa das cidades sedes da organização criminosa em questão, a camorra.

A maior parte das informações que ele trás foram colhidas no curso de uma vida, e também em incursões jornalísticas tradicionais (acompanhar investigações policiais, por exemplo). Voltando à comparação anterior: ter nascido no morro do Vidigal, não é a mesma coisa do que se infiltrar nas organizações criminosas que atuam por ali.

Portanto, achei um tremendo exagero vender o livro como o trabalho de um jornalista infiltrado. Vale dizer que essa chamada certamente não foi uma opção do repórter, portanto volto minha decepção literária à editora, que adotou essa postura marqueteira e oportunista.

Mas meu descontentamento com o livro foi além, e chegou ao cerne da obra, ao conteúdo do texto. Há, sim, algumas informações extremamente interessantes, como a simbiose entre a máfia e as marcas de roupa mais elegantes do planeta. Mas para ter acesso a essas histórias, somos obrigados a encarar um emaranhado de nomes, dados, e números que, para quem vive essa guerra civil no dia-a-dia deve ser relativamente interessante, mas para nós, brasileiros, não têm lá muita relevância.

Pra completar, identifiquei um erro feio, uma escorregadela brava, que provavelmente não será notada por muitos outros leitores. Eu só percebi o problema porque, na apuração do “Festa Infinita” pesquisei muito o assunto do deslize: ecstasy.

Na página 130 da segunda edição nacional o autor faz a seguinte afirmação: “Cabe comentar que a MDMA, a anfetamina, foi patenteada pelo laboratório alemão Merck para ser administrada a soldados entrincheirados na Primeira Guerra.” Mais pra frente ele continua: “Depois foi usada também pelos americanos em operações de espionagem.”

O único fato correto em tudo isso, é que a MDMA, princípio ativo do ecstasy, foi elaborada pela Merck. O resto não passa de boataria. A anfetamina foi criada em 1912, antes do início da guerra, e patenteada em 1914, ano em que o conflito começou. A droga era um resíduo que sobrava na produção de um hemostático, medicamento para estancar hemorragias, e seus efeitos só foram descobertos muito mais tarde, na década de 1960.

Ou seja, o erro é feio, mesmo porque há diversos estudos científicos sérios que detalham a história da MDMA. E quando encontramos uma informação dessas, um boato transformado em verdade, todo o resto do texto perde um bom tanto de credibilidade.

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3 Respostas

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  1. adrio inveriach said, on fevereiro 5, 2009 at 23:08

    Depois de ler o livro do F Morais que conta as safadezas do Paulo Coelho, você vê que a honestidade e o sucesso não andam muito paralelos!!! O Grande Deus Mercado num é um ser muito ético….

  2. Bruno S. said, on fevereiro 11, 2009 at 23:06

    Quer dizer que o livro é furada, então? Eu, assim como você, também coloquei o livro na cesta de compras assim que li tratar-se de ‘um jornalista infiltrado na máfia’. Sou estudante de jornalismo e também me interesso por esses corajosos. Aliás, li Cama de Cimento e devo dizer que é uma peça interessante. Meus parabéns.

    Quanto a Gomorra, mais valia então eu ter comprado outro que estava em minhas mãos: ‘Tintin no país dos sovietes’. Escolhi mal.

  3. Tomás Chiaverini said, on fevereiro 12, 2009 at 12:46

    Pois então, Bruno, esta é minha modesta opinião.
    Se quiser ler algo forte, te recomendaria o Abusado, do Caco Barcellos. Jornalismo corajoso, de qualidade e que trata de uma realidade bem nossa.


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