Antes da Estante

Temos prefácio

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 26, 2009

Existem, creio eu, dois tipos básicos de prefácio. Um, geralmente está presente na obra de grandes autores consagrados, quase sempre mortos ou imortalizados. São textos escritos por especialistas que dissecam, explicam e contextualizam a obra que estão apresentando.

Evidente que no “Festa Inifinta”, cujo autor não é consagrado, imortalizado ou (eu hein) morto, teremos um prefácio do segundo tipo. Esses costumam ser escritos por autores reconhecidos que emprestam seu prestígio e o peso de seu nome a obras de escritores iniciantes.

No “Cama de Cimento”, meu primeiro livro, o prefácio foi escrito por Gilberto Dimenstein. Agora, novamente, tive a sorte de conseguir que um grande jornalista gastasse algum tempo lendo meus originais e escrevendo algumas linhas prefaciais. Na última sexta-feira, recebi um e-mail de meu editor, com três páginas de um elogioso texto escrito por ninguém menos do que Ricardo Kotscho.

Na ativa há mais de 40 anos, um tempo em que facilidades como celular e Internet não apareciam nem em filme de ficção científica, Kotscho passou pelas principais redações de São Paulo e ocupou cargos importantes no início do governo Lula. Suas aventuras jornalísticas estão divertidamente registradas no livro “Do Golpe ao Planalto” (Cia das Letras 2006), uma  espécie de autobiografia que recomendo para qualquer um que queira saber um pouco mais sobre este ofício ímpar que é a função de repórter.

O nobre colega também mantém o blog “Balaio do Kotscho”, que contém interessantes reflexões sobre as atualidades do Brasil e do mundo. Eu, de minha parte, deixo aqui registrados meus agradecimentos a Ricardo Kotscho. No próximo post, volto a falar sobre a experiência de ser prefaciado.

Tagged with: , ,

Viu como se faz… – parte II

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 19, 2009

Paralelamente aos trabalhos voltados à forma do livro, há os que dão a última lapidada no conteúdo. Aí, novamente há duas etapas distintas: a preparação e a revisão.

A primeira, talvez seja a parte mais penosa do processo editorial. O preparador lê o texto com lupa, faz correções gramaticais e – aí temos a parte mais insuportável ­­- padroniza o texto.

No caso do Festa Infinita, por exemplo. A palavra “rave”, um termo estrangeiro, é usado milhares de vezes. Por isso, sabiamente, o preparador optou por não grafá-lo em itálico. Já o termo “ravers”, ganhou apenas o “s” itálico, ficou “ravers”. Como esses há inúmeros detalhes, como números (por extenso ou não), abreviações (quilômetro ou km), gírias (com aspas ou itálico), enfim, um trabalho meticuloso e enfadonho.

Além disso, os bons preparadores, também fazem o trabalho de checador. Ao lerem o texto, buscam identificar possíveis erros e contradições que tenham escapado ao autor.

Mas os preparadores podem se tornar pessoas muito perigosas, e às vezes, sem entender exatamente a construção escolhida pelo autor, simplesmente invertem sentenças, cortam palavras e enfiam desagradáveis vírgulas e travessões em qualquer canto. Para ler mais sobre o assunto, vale uma espiada neste texto do Rubem Alves, na Folha de S.Paulo.

De qualquer forma, ciente destes detalhes desde a publicação de “Cama de Cimento”, fiz questão de ler o texto logo após a preparação. Mais uma vez, reli o maledeto. Perdi a conta de quantas vezes já reli esse mesmo texto. A vantagem disso, é que já sei tudo praticamente de coração, e se tiver uma vírgula fora do lugar, percebo logo de cara.

Mas enfim, li, fiz minhas correções e enviei o texto novamente para a editora. Agora só falta a última etapa que é a revisão. Essa é mais simples: uma última leitura, empreendida por um profissional altamente competente, que busca e destrói os últimos erros gramaticais, ortográficos e de digitação.

Depois, ai, ai, o texto é novamente enviado para este pobre autor, que, mais uma vez relê o calhamaço, agora já com as mãos dolorosamente atadas, sem a possibilidade de fazer qualquer alteração significativa.

Viu como se faz…

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on fevereiro 16, 2009

Depois que o texto original é entregue à editora, existem basicamente quatro etapas que devem ser realizadas antes que mais um livro fique pronto. Aqui, evidentemente, vou me ater aos mecanismos de produção da Ediouro, com os quais tenho contato.

Primeiro temos a questão da forma, que se divide basicamente em dois processos.

Antes de tudo, há a diagramação do miolo, ou seja, a determinação da fonte, do corpo, do espaço entrelinhas, do formato da página, da mancha do texto, do posicionamento dos títulos e etc. Esse processo, geralmente é feito por um designer gráfico e pode ser simples (há inclusive modelos prontos de projeto gráfico) ou complexos e sofisticados (vejamos catálogo da Cosac Naify).

No caso do Festa Infinita, o formato do miolo é bastante arrojado e diferente, com a macha do texto bem estreita dando elegância às páginas. Não há elementos gráficos dispensáveis (como título da obra e nome do autor em todas as páginas) o que torna o visual limpo e moderno.

Depois, também a cargo dos designers gráficos, temos a elaboração da capa. Essa é uma das tarefas mais desafiadores e ingratas, na minha opinião. A capa tem que, simultaneamente, resumir o tema do livro, ser bonita e atrair atenção nos pontos de venda. Esse último aspecto, entretanto, é o que mais pesa na decisão final, que não é tomada apenas pelo autor.

Eu posso dar palpites e escolho as versões que mais me agradam. Mas a palavra final sobre essas versões, é dada por um conselho, que reúne executivos da editora, livreiros, vendedores e poderosos enviados do departamento de marketing.

Como contei no post anterior, algumas versões de capa ainda estão no forno.

Quinta-feira, à lá professor Pasquale, falamos de preparação e revisão.

Tagged with: ,

Assado em fogo brando

Posted in De Quinta by Tomás Chiaverini on fevereiro 13, 2009

Bem amigos do Antes da Estante!

Com o texto finalizado e entregue, estamos às voltas com a etapa de confecção do livro. Um processo lento. Ainda mais lento para o autor que participa à distância. Desde que entreguei o texto final alguém da Ediouro provavelmente esteve trabalhando no livro de alguma forma. Para mim, entretanto, tudo parece parado.

Então, de repente, as coisas dão saltos e vão se tornando concretas. Ontem, por exemplo, tivemos uma reunião para definir, de uma vez por todas, as fotos e suas respectivas legendas. Além disso, umas dez propostas de capa me foram apresentadas.

E que estranho escolher uma capa, algo que não foi feito por você, que foi feito por um designer que, apesar de competente e bem intencionado, provavelmente não teve tempo para ler nem mesmo um capítulo do livro. E essa capa, no fim, irá constituir-se na identidade primeira do trabalho.

Mas enfim, sentamos, eu e mais umas quatro pessoas, discutimos, palpitamos, conversamos e não decidimos nada. Mais modelos serão criados pela pobre designer.

Mesmo sem capa, contudo, o salto para a materialização ocorrido ontem foi grande. O projeto gráfico do miolo (fonte, diagramação, paginação, etc) está pronto, bonito e moderno. E mais! Sobre minha escrivaninha, aqui do lado do Mr. Black, repousa um calhamaço de exatas 281 páginas, do Festa Infinita.

Nesta última cópia, além da diagramação, já temos o texto “preparado”, esperando apenas pela revisão final.

No próximo post, explico melhor no que consistem essas etapas.

Obs: Posto hoje, sexta-feira 13, 28 anos depois de meu nascimento, apenas porque ontem, dia normal de atualização, estava sem internet em casa. O sofrível Speed, da criminosa Telefônica, não chega à minha residência. E sou obrigado a contratar os serviços de uma empresa de internet por rádio que consegue ser ainda pior. “First Mile”: guardem este nome para nunca contratarem.

Tagged with: ,

Universo Paralello

Posted in De segunda by Tomás Chiaverini on fevereiro 9, 2009

upblog3

A pista principal, em foto de Murilo Ganesh, que estará  no livro Festa Infinita

O papel dos papéis

Posted in De Quinta, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 5, 2009

Finalização do Festa Infinita e andamos às voltas com imagens. Sim, o livro terá fotos. E coloridas, como não podia deixar de ser. Um caderno em papel  especial, com 16 páginas onde haverá, basicamente, dois tipos de foto. As primeiras são imagens de arquivo pessoal, que os personagens do livro juntaram ao longo dos anos.

As segundas, serão registros das mais diversas festas, feitos pelo fotógrafo e raver convicto, Murilo Ganesh.

Mas quando se fala em imagem – ah, a imagem, coisa mais valiosa! – a Ediouro  tem algumas restrições. Fotos onde se reconheça qualquer rosto, só são publicadas se o dono deste qualquer rosto assinar uma autorização.

Nos últimos dias, portanto, junto com Murilo, ando atrás de assinaturas. Ontem fiz uma visita a Dmitri (dono de todo um capítulo do Festa Infinita e conhecido dos freqüentadores do Antes da Estante) para que ele me autorizasse a usar as fotos que ele mesmo me emprestara para escanear.

No ano passado, durante a apuração do livro, encontrei Dmitri várias vezes. Fui à casa dele, gravei horas a fio de conversas abordando assuntos pessoais, íntimos até. Caí com ele na noite paulistana, conheci ex-namoradas e futuras namoradas(?), conheci até a mãe e os cachorros dele. Em nenhum momento Dmitri titubeou antes de abrir sua vida.

Mas ontem, quando saquei a alva folha A4 recheada de termos jurídicos, os cabelos da nuca do DJ semi-aposentado se arrepiaram. Ele leu, releu, olhou pra mim, leu novamente, depois lançou a pergunta:

–    Você não vai colocar nada que me prejudique no livro, não é?

­Eu, de minha parte, usando da mais imbecil honestidade, rebati com a seguinte resposta:

–    Espero que não.

– Espero que não!? – Dmitri exclamou com um misto de surpresa e indignação nos olhos.

Tentando concertar a frase abobalhada, me corrigi afirmando que não, não haverá nada que o prejudique no texto, e mais do que isso, que acredito que ele achará bacana o capítulo sobre sua vida. Tudo verdade, diga-se de passagem.

Ele pensou mais um  pouco, respirou fundo, e assinou com uma canetada rápida antes de me entregar o papel:

– Tá aí, vai – exclamou um pouco contrariado.

E antes que eu entrasse no carro para ir embora, ainda lançou um último aviso.

– Vê lá que eu te mato, hein – e sorriu pra tirar um pouco o peso da frase.

A camorra e o marketing editorial

Posted in De segunda, Jornalismo by Tomás Chiaverini on fevereiro 2, 2009

gomorra1Acabei agora a pouco de ler o livro Gomorra, do jornalista Roberto Saviano. E antes mesmo de terminar as últimas linhas já comecei a me sentir ligeiramente tapeado. Caí numa armadilha mercadológica.

Para quem não sabe, o livro é uma reportagem investigativa sobre a máfia napolitana, tornou-se um fenômeno de vendas na Itália, depois best-seller mundial. O fato de ter sido adaptado para o cinema num filme homônimo, provavelmente ajudou a superar a marca de 2 milhões de livros vendidos ao redor do planeta.

Porém, o que mais me atraiu na obra, exposta com destaque em tudo que é livraria, foi a chamada de capa: “A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”. Isso não deveria ser parâmetro, eu sei, mas não pude resistir.

Já li histórias do alemão Günter Wallraff, que se disfarçou de turco e trabalhou como um imigrante, para escrever o livro “Cabeça de Turco”; acompanhei o consagrado Gay Talese em suas aventuras por casas de suingue e massagens eróticas, na elaboração de “A mulher do próximo”; e devorei os relatos de George Orwell vivendo como mendigo em “Na pior em Paris e em Londres”.

Como leitor, sempre achei fascinante repórteres que têm a disposição de realmente mergulhar no objeto de estudo. E como jornalista, cheguei a utilizar a técnica na apuração do “Cama de Cimento”: entre outros desatinos, me disfarcei de desabrigado e fui recolhido a um albergue municipal.

Assim, quando comprei Gomorra, achei que o autor tinha realmente se infiltrado na máfia, arrumado algum trabalho que lhe permitisse contar detalhes saborosos a partir de uma perspectiva privilegiada. Convenhamos, as palavras “infiltrar” e “máfia” juntas, parecem prometer algo explosivo.

Para minha surpresa, contudo, a narrativa não deixa claro como, quando ou onde o jornalista se infiltrou, sendo que nos livros que utilizam a técnica, essa costuma ser a parte mais instigante.

Pelo que entendi, Saviano trabalhou numa indústria têxtil que se constituía num braço da máfia. Ou seja, é como se eu passasse algum tempo trabalhando numa escola de samba carioca suspeita de receber dinheiro de drogas, e dissesse que me infiltrei no tráfico.

Além disso, o autor de “Gomorra”, que foi ameaçado de morte e está sob proteção do governo italiano, nasceu numa das cidades sedes da organização criminosa em questão, a camorra.

A maior parte das informações que ele trás foram colhidas no curso de uma vida, e também em incursões jornalísticas tradicionais (acompanhar investigações policiais, por exemplo). Voltando à comparação anterior: ter nascido no morro do Vidigal, não é a mesma coisa do que se infiltrar nas organizações criminosas que atuam por ali.

Portanto, achei um tremendo exagero vender o livro como o trabalho de um jornalista infiltrado. Vale dizer que essa chamada certamente não foi uma opção do repórter, portanto volto minha decepção literária à editora, que adotou essa postura marqueteira e oportunista.

Mas meu descontentamento com o livro foi além, e chegou ao cerne da obra, ao conteúdo do texto. Há, sim, algumas informações extremamente interessantes, como a simbiose entre a máfia e as marcas de roupa mais elegantes do planeta. Mas para ter acesso a essas histórias, somos obrigados a encarar um emaranhado de nomes, dados, e números que, para quem vive essa guerra civil no dia-a-dia deve ser relativamente interessante, mas para nós, brasileiros, não têm lá muita relevância.

Pra completar, identifiquei um erro feio, uma escorregadela brava, que provavelmente não será notada por muitos outros leitores. Eu só percebi o problema porque, na apuração do “Festa Infinita” pesquisei muito o assunto do deslize: ecstasy.

Na página 130 da segunda edição nacional o autor faz a seguinte afirmação: “Cabe comentar que a MDMA, a anfetamina, foi patenteada pelo laboratório alemão Merck para ser administrada a soldados entrincheirados na Primeira Guerra.” Mais pra frente ele continua: “Depois foi usada também pelos americanos em operações de espionagem.”

O único fato correto em tudo isso, é que a MDMA, princípio ativo do ecstasy, foi elaborada pela Merck. O resto não passa de boataria. A anfetamina foi criada em 1912, antes do início da guerra, e patenteada em 1914, ano em que o conflito começou. A droga era um resíduo que sobrava na produção de um hemostático, medicamento para estancar hemorragias, e seus efeitos só foram descobertos muito mais tarde, na década de 1960.

Ou seja, o erro é feio, mesmo porque há diversos estudos científicos sérios que detalham a história da MDMA. E quando encontramos uma informação dessas, um boato transformado em verdade, todo o resto do texto perde um bom tanto de credibilidade.

Tagged with:
%d blogueiros gostam disto: