Antes da Estante

Dias de Universo Paralello

Posted in Ossos do ofício by Tomás Chiaverini on janeiro 26, 2009

Pois então, lá estava eu, metido em um quartinho espartano e mal-acabado, no distante povoado de Pratigi, em algum lugar entre Ilhéus e Salvador. A uns três quilômetros de distância, numa praia vasta e deserta, desenrolava-se o Universo Paralello, talvez a mais famosa festa rave do Brasil, que, por sinal, rejeita o título de rave. Diz-se um festival de cultura alternativa.

Pois lá estava eu, instalado só no quartinho. Dormia pouco naqueles dias. Acordava sempre cedo, antes das oito da manhã. Depois não conseguia voltar a dormir. Acordava pensando no que faltava para terminar a apuração, a última etapa da apuração de um livro que levou um ano para ser escrito.

Um ano de trabalho pensado e repensado, que agora tinha que ser arrematado em cerca de 15 dias. (O festival terminou no dia 4 e o texto final foi entregue no dia 19 de janeiro). Isso me tirava o sono, me deixava ansioso.

Eu acordava, ia até um dos poucos restaurantes locais, pedia um pão com ovo e um copo de leite quente grande. O café baiano é muito fraco para paladares paulistas, então eu levava um saquinho de Nescafé e dissolvia eu mesmo, com pouco açúcar. Tomava café em silêncio, pensando na apuração.

Depois voltava pro muquifo, ligava o ventiladorzinho e passava a manhã e o começo da tarde escrevendo o que havia visto e vivido nos dias anteriores. Antes das três da tarde, tomava um banho frio (não havia outra opção), colocava uma bermuda, amarrava uma canga na cintura, e caminhava uns 40 minutos até o Universo Paralello.

Na véspera do ano novo, fui conversar com Valney, o sujeito que alugava o quartinho.

Era sempre uma aventura falar com o homem, porque ele tinha um sotaque tão forte, e as palavras saíam tão atropeladas que eu entedia, digamos, apenas uns 40 por cento.

Mas eu fui até ele, disse que estava precisando me barbear, e perguntei se, assim, por acaso, ele não teria um espelho pra me arrumar. Não havia nada no quarto além do beliche de alvenaria. Era tão espartano, que o simples ato de pedir o espelho me fez parecer meio ridículo. Um almofadinha da cidade que precisa de um espelho para se barbear.

Se pensou assim, contudo, Valney não o demonstrou. Voltou depois de dez minutos com um daqueles espelhinhos cor-de-laranja na mão:

­­­- Tá aqui o espelho ­- exclamou me esticando o braço. – Peguei emprestado com a menina da venda. Você usa, depois devolve lá pra ela.

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Uma resposta

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  1. adrio inveriach said, on fevereiro 5, 2009 at 22:35

    Bem, se fosse uma daquelas brincadeiras de continuar a história…

    E a menina era um travestí finlandês que se apaixona terrivelmente pelo caro jovem jornalista, que acaba se tornando o maior especialista em derretimento de geleiras!!!


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